10 de Abril – “É irrelevante que o facto divulgado seja ou não verídico para que se verifique a ilicitude a que se reporta este normativo, desde que, dada a sua estrutura e circunstancialismo envolvente, seja susceptível de afectar o seu crédito ou a reputação do visado”, lê-se no acórdão de 8 de Março, subscrito pelos conselheiros Salvador da Costa, Ferreira de Sousa e Armindo Luís. O Sporting processou o Público em 2001, mas, realizado o julgamento, os jornalistas foram absolvidos. O clube, então presidido por Dias da Cunha, recorreu da decisão e, em Setembro de 2006, o Tribunal da Relação de Lisboa confirmou a decisão da primeira instância. No entanto, após novo recurso, o Supremo veio agora contrariar as duas decisões anteriores. Apesar de o teor da notícia ter sido dado como provado, os conselheiros concluíram que os jornalistas agiram de modo censurável do ponto de vista ético-jurídico, entendendo que o direito à honra se sobrepõe ao dever de informar – decisão que deixou os responsáveis do jornal diário perplexos. “Atendendo à ênfase que a Declaração universal dos Direitos do Homem dá ao direito à honra e à reputação, expressando que ninguém sofrerá ataques em relação a ela, no confronto com a menor ênfase dada ao direito de expressão e de informação, a ideia que resulta é a de que o último é limitado pelo primeiro”, lê-se no acórdão do STJ. Assim, os conselheiros concluem que os jornalistas “agiram na emissão da notícia em causa de modo censurável” com a publicação ilícita e culposa da notícia. O Sporting pedia uma indemnização de cerca de 500 mil euros, mas neste ponto os juízes determinaram um sétimo do valor pretendido: 75 mil euros por danos não patrimoniais. Entenderam os conselheiros que “não havia em concreto interesse público na divulgação do que foi divulgado”, situação que ofendeu o “crédito e o bom-nome do clube de futebol, que disputa a liderança da primeira liga”.
Podem beliscar-se à vontade. A história que acabaram de ler aconteceu mesmo. Importam-se os senhores conselheiros de explicar o que se pode ou não publicar acerca dos clubes que disputam a liderança da primeira liga? E aos outros clubes também se aplica este princípio da suposta honra sobre a verdade dos factos? E aos cidadãos?
No fundo, o que o Supremo Tribunal defende nesta passagem é que o direito ao bom nome é o direito a uma imagem pública falsa. O que queremos dizer quando dizemos que uma pessoa tem direito ao "bom nome"? De acordo com a interpretação do Supremo, o direito ao "bom nome" é o direito a uma boa reputação. Acontece que a reputação de uma pessoa resulta da avaliação que os outros fazem dela. Resulta das decisões dos outros. Declarar que uma pessoa tem direito a uma boa reputação é o mesmo que declarar que os outros não devem ter o direito de pensar e de avaliar. O que a ser levado a sério implicaria que a reputação pública deixaria de ter qualquer valor porque todos perceberiam que uma reputação não fundamentada não serve para nada. Teríamos reputações de fachada e viveríamos num mundo de hipócritas ou de robots. As reputações têm valor enquanto indicador da fiabilidade de uma pessoa precisamente porque existe liberdade para que possam ser postas em causa.
12 de Abril - De acordo com informações prestadas pelo próprio Ministério das Finanças, as “receitas extraordinárias” de 2006 ascenderam a mais de 2.121 milhões de euros, a saber: antecipação de impostos sobre o tabaco (300 milhões), vendas de património(439 milhões), dividendos extraordinários e antecipados(REN-60 milhões), dividendos extraordinários (GALP-124 milhões), recuperações de créditos líquidas de adicionais da operação de titularização(1.198 milhões). Estas receitas extraordinárias equivalem a 1,4% do PIB. Não fossem essas receitas extraordinárias, que Sócrates e os socialistas tanto criticaram a Manuela Ferreira Leite, e o défice de 2006 seria 8.176 milhões de euros, correspondentes não a 3,9%, mas a 5,3% do PIB. Este valor é superior ao valor apurado para 2004, era Bagão Félix Ministro das Finanças, que foi de 5,2% ( 2,9% com receitas extraordinárias ).
14 de Abril – O que fazer quando se “tem o rabo preso”? Dizer: "Ainda bem que me faz essa pergunta"; Elevar o tom de voz; Mostrar indignação; Dizer quanto valoriza a aprendizagem ao longo da vida; Mostrar um documento qualquer. Mesmo que ninguém consiga ler, credibiliza. Pode ser a Certidão de Nascimento. Se ninguém perceber o que é, impressiona à mesma; Dar a entender que isto é uma questão de invejas. Todos os pontos favoráveis são mérito do Primeiro-Ministro, que até se licenciou numa universidade elogiada pelo Ministério do Ensino Superior. Todos os pontos desfavoráveis são culpa da burocracia da Independente, que até foi fechada pelo Ministério do Ensino Superior.
18 de Abril – O caso da Universidade Independente é um caso “normal”: Sócrates acha “normal” que a data da sua "licenciatura" reporte a um domingo; Sócrates acha “normal” que o mesmo professor lhe tenha dado 4 cadeiras num único ano (de um total de 5); Sócrates acha “normal” que esse mesmo professor tenha sido posteriormente por si nomeado para cargos públicos; Sócrates acha “normal” que esse mesmo professor seja suspeito da prática de diversos crimes, o que terá inclusivamente levado à sua constituição como arguido em processos-crime; Sócrates acha “normal” que existam diversos registos na Assembleia da República, alegadamente assinados pelo próprio com a mesma data, com informações contraditória acerca das suas habilitações; Sócrates acha “normal” o uso do título de engenheiro no seu currículo, mesmo sabendo que não era possuidor do mesmo; Sócrates acha “normal” ter tomado posse na qualidade de engenheiro, tendo jurado cumprir as funções para as quais havia sido eleito, sabendo que não era engenheiro.
Perante todos estes factos, claramente indiciadores de que terá havido favorecimento pessoal, continua o Procurador da República a assobiar para o ar como se nada fosse com ele. Perante todos estes factos, reveladores de uma crise política profunda, continua o Presidente da República a fingir que não é nada com ele.
Evidentemente, “anormais” somos todos nós…
21 de Abril – Num texto publicado no Espresso, José Alberto Carvalho justificou o tom da entrevista com a notável expressão: “Fizemos o que tinha de ser feito!” Ele tem toda a razão: era necessário escolher as questões que menos dano causassem, era necessário ser constantemente interrompido pelo entrevistado, era necessário fazer passar a “mensagem” do entrevistado, etc. Felizmente, os repórteres que correram atrás de Carmona Rodrigues na inauguração do túnel foram bem mais “agressivos”.
22 de Abril – O Tribunal que decide prender o Sargento por “raptar” a criança é o mesmo Tribunal que decide entregar a criança “raptada” ao “raptor”.
23 de Abril - António José Morais deu uma reveladora e interessante entrevista ao DN.
A avaliar por aquilo que diz de si próprio, se o teor das aulas de António José Morais for equivalente à sua concepção de Portugal e de si mesmo é melhor que se dedique ao ensino por correspondência ou à cultura da beterraba:
”Eu era uma referência do PS em Lisboa. Tínhamos acabado de ganhar a concelhia. Foi no Altis que fui apresentado a Armando Vara. Ele já estava no Governo. (...) Em 1995 eu tinha uma carreira política. Toda a gente falava de mim. Eu era a estrela emergente do PS em Lisboa. Um putativo candidato a ministro e não a director-geral. É natural que Armando Vara, quando precisou de um engenheiro, se tenha lembrado de mim”.
25 de Abril – Abriu o túnel do Marquês de Pombal. Agora só falta o do Terreiro do Paço.
Nova Aliança, 11 / Maio / 2007
30.4.07
A nota lançada ao domingo, o tabaco na AR e Scarlett Johansson
31 de Março – O semanário Expresso noticia na sua edição de hoje que uma das notas do senhor Sócrates na Universidade Independente terá sido lançada a um domingo. Dificilmente encontraremos eficiência maior. Não se arranja aí uma comendazinha para o diligente funcionário? Olhem que vem aí o 10 de Junho…
1 de Abril – Perante a notícia que serve de capa ao semanário de Balsemão, os directores da Rádio Renascença e do Público confessam ter recebido telefonemas com o objectivo de alterar as referências a tal notícia quer nos alinhamentos dos noticiários da rádio, quer no destaque dado na imprensa escrita. O que se chama a isto?
2 de Abril – Que conclusões tirar do relatório do Tribunal de Contas? É, no mínimo, escandaloso que as verbas gastas com assessores, gabinetes e outros penduras dos últimos três governos pudessem pagar quatro Otas. Numa altura em se continuam a pedir sacrifícios aos portugueses, é chocante a vergonha com que se continua a nomear os amigos para isto e para aquilo.
3 de Abril – Perante o diploma que proíbe o fumo no edifício da Assembleia da República, alguns deputados do Partido Socialista já vão avisando que não irão fumar para o exterior. Conclusão que todos deveremos tirar: as leis só servem para os outros cumprirem.
4 de Abril – Ecos do último Benfica-Porto. Os sessenta e três mil adeptos do clube da casa foram revistados à entrada, os três mil que vieram do Norte foram convidados a passar por cima dos torniquetes e não foram revistados. Que se conclui? Que é mais grave uma manifestação âs portas de S. Bento, onde a polícia varre tudo à bastonada do que a prática de selvajaria dentro de um estádio.
6 de Abril – Apesar da pobreza franciscana dos cartazes cinematográficos na cidade, lá vou vendo um filme ou outro. O de Woody Allen, por exemplo. No filme, a personagem de Scarlett Johansson é uma jornalista em início de carreira que, visitada por um fantasma e aconselhada por ele, inicia investigação de um serial killer londrino. A investigação leva Scarlett aos braços de um aristocrata local que é o principal suspeito dos crimes cometidos. Não revelo o final, mas revelo os entretantos: Scarlett é um pequeno desastre porque caiu na tentação de ter piada. Pior: de imitar os tiques de Woody, como se os tiques de Woody funcionassem por osmose.
Não funcionam. Pior: quando Woody entra em cena, a cena é inteiramente dele. E se não fosse Woody Allen, qualquer homem seria mais convincente do que Scarlett. Porquê? Razão simples: Scarlett é demasiado bela para ter piada. E o humor só existe, e praticamente só existe no masculino, porque é ferramenta evolutiva indispensável para que um “macho” conquiste a sua donzela.
Christopher Hitchens, colunista da "Vanity Fair", também reflectiu sobre esse assunto em número recente da revista. Por que motivo as mulheres não têm sentido de humor? Ou, pelo menos, um sentido de humor comparável aos homens? Na sua coluna, Hitchens arranha a explicação sexual, mas acaba por escolher o papel sério da maternidade. O humor só existe por confronto com a morte; e esse confronto está interdito às mulheres, que ao gerarem vida e ao assumirem um papel de protecção e autoridade, não se podem dar ao luxo de desperdiçar cinismo e absurdo por aí.
E as mulheres, precisarão elas de ter piada? Não, as mulheres não precisam de ter piada. Não é por acaso que, numa das cenas antológicas do filme, Woody lhe pede expressamente para ela deixar as piadas para ele. Concordo inteiramente. Uma mulher como Scarlett não precisa de ter piada. Basta-lhe, simplesmente, aparecer. Porque, como dizem os brasileiros com genuína sabedoria, Scarlett Johansson já é, ela mesma, a maior gracinha que existe.
Nova Aliança, 27 / Abril / 2007
1 de Abril – Perante a notícia que serve de capa ao semanário de Balsemão, os directores da Rádio Renascença e do Público confessam ter recebido telefonemas com o objectivo de alterar as referências a tal notícia quer nos alinhamentos dos noticiários da rádio, quer no destaque dado na imprensa escrita. O que se chama a isto?
2 de Abril – Que conclusões tirar do relatório do Tribunal de Contas? É, no mínimo, escandaloso que as verbas gastas com assessores, gabinetes e outros penduras dos últimos três governos pudessem pagar quatro Otas. Numa altura em se continuam a pedir sacrifícios aos portugueses, é chocante a vergonha com que se continua a nomear os amigos para isto e para aquilo.
3 de Abril – Perante o diploma que proíbe o fumo no edifício da Assembleia da República, alguns deputados do Partido Socialista já vão avisando que não irão fumar para o exterior. Conclusão que todos deveremos tirar: as leis só servem para os outros cumprirem.
4 de Abril – Ecos do último Benfica-Porto. Os sessenta e três mil adeptos do clube da casa foram revistados à entrada, os três mil que vieram do Norte foram convidados a passar por cima dos torniquetes e não foram revistados. Que se conclui? Que é mais grave uma manifestação âs portas de S. Bento, onde a polícia varre tudo à bastonada do que a prática de selvajaria dentro de um estádio.
6 de Abril – Apesar da pobreza franciscana dos cartazes cinematográficos na cidade, lá vou vendo um filme ou outro. O de Woody Allen, por exemplo. No filme, a personagem de Scarlett Johansson é uma jornalista em início de carreira que, visitada por um fantasma e aconselhada por ele, inicia investigação de um serial killer londrino. A investigação leva Scarlett aos braços de um aristocrata local que é o principal suspeito dos crimes cometidos. Não revelo o final, mas revelo os entretantos: Scarlett é um pequeno desastre porque caiu na tentação de ter piada. Pior: de imitar os tiques de Woody, como se os tiques de Woody funcionassem por osmose.
Não funcionam. Pior: quando Woody entra em cena, a cena é inteiramente dele. E se não fosse Woody Allen, qualquer homem seria mais convincente do que Scarlett. Porquê? Razão simples: Scarlett é demasiado bela para ter piada. E o humor só existe, e praticamente só existe no masculino, porque é ferramenta evolutiva indispensável para que um “macho” conquiste a sua donzela.
Christopher Hitchens, colunista da "Vanity Fair", também reflectiu sobre esse assunto em número recente da revista. Por que motivo as mulheres não têm sentido de humor? Ou, pelo menos, um sentido de humor comparável aos homens? Na sua coluna, Hitchens arranha a explicação sexual, mas acaba por escolher o papel sério da maternidade. O humor só existe por confronto com a morte; e esse confronto está interdito às mulheres, que ao gerarem vida e ao assumirem um papel de protecção e autoridade, não se podem dar ao luxo de desperdiçar cinismo e absurdo por aí.
E as mulheres, precisarão elas de ter piada? Não, as mulheres não precisam de ter piada. Não é por acaso que, numa das cenas antológicas do filme, Woody lhe pede expressamente para ela deixar as piadas para ele. Concordo inteiramente. Uma mulher como Scarlett não precisa de ter piada. Basta-lhe, simplesmente, aparecer. Porque, como dizem os brasileiros com genuína sabedoria, Scarlett Johansson já é, ela mesma, a maior gracinha que existe.
Nova Aliança, 27 / Abril / 2007
10.4.07
O "controle" do senhor Sócrates e o cruzamento de dados
11 de Março - Salazar despachava diariamente com o director da PIDE. Caetano não despachava com o director da PIDE/DGS. Durante trinta anos de democracia nenhum primeiro-ministro despachou em pessoa com qualquer chefe de qualquer polícia. Tudo isto irá mudar. Uma lei já anunciada vai pôr a PSP, a GNR, a PJ e o SEF sob a autoridade de um secretário-geral para a Segurança Interna, com o estatuto de secretário de Estado, que despachará directamente com o senhor Sócrates. Como de costume, esta organização foi copiada. Desta vez, do modelo espanhol. Com duas diferenças. Primeira, em Espanha, o "secretário-geral" está subordinado ao ministro do Interior e não ao presidente do Conselho. E, segunda, em Espanha o terrorismo da ETA e a imigração islâmica teoricamente justificam a necessidade de um único centro de comando.
Em Portugal, nenhum perigo imediato exige que as polícias passem a depender de Sócrates. Pior ainda: o SIRP, que superintende e coordena o Serviço de Informações de Segurança (SIS) e o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), dois serviços secretos, também ficará sob a tutela do primeiro-ministro. E a tudo isto, António Costa juntou dois novos meios de fiscalização e vigilância. O bilhete 4 em 1, que reúne o bilhete de identidade, o cartão de contribuinte, o cartão da Segurança Social e o cartão de utente do SNS. E o cartão que reúne a carta de condução, o livrete e o título de propriedade do automóvel.
Dados a cruzar, tendo como fonte o jornal “Público”:
- Identificação e cadastro contributivo das bases de dados da CGA, ADSE, ADM, SSMJ, SAD da GNR e da PSP, DGITA e IIES;
- Nacionalidade, residência e estado civil das bases de dados do Ministério da Justiça;
- Benefícios sociais das bases de dados da CGA, ADSE, ADM, SSMJ, SAD da GNR e da PSP, ISS e IIES;
- Vínculo laboral com a administração pública da base de dados da DGAP, do ISS e do IESS; - Rendimentos da base de dados da DGITA;
- Património mobiliário e imobiliário sujeito a registo das bases de dados do Ministério da Justiça;
- Situação escolar dos alunos, relativamente à frequência e aproveitamento;
- Obrigações acessórias, designadamente, início, reinício, alteração, suspensão e cessação da actividade, das bases de dados da DGITA, ISS, IESS e Ministério da Educação.
Bases de dados a cruzar:
- Subscritores, pensionistas e outros beneficiários da Caixa Geral de Aposentações (CGA);
- Beneficiários da ADSE;
- Beneficiários da Assistência na Doença aos Militares das Forças Armadas (ADM);
- Beneficiários dos Serviços Sociais do Ministério da Justiça (SSMJ);
- Beneficiários da Assistência na Doença (SAD) ao pessoal da GNR e da PSP;
- Funcionários públicos e agentes administrativos da Direcção-Geral da Administração Pública (DGAP);
- Identificação dos contribuintes fiscais da Direcção-Geral de Informática e Apoio aos Serviços Tributários e Aduaneiros (DGITA);
- Identificação civil, residência de estrangeiros e registo predial e automóvel, do Ministério da Justiça;
- Contribuintes e beneficiários do Instituto da Segurança Social (ISS) e do Instituto de Informática e Estatística da Solidariedade (IIES).
Quem começa por ter acesso:
- Todas as "gestoras" das bases de dados referidas anteriormente;
- Direcção-Geral das Contribuições e Impostos;
- Direcção-Geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo;
- Inspecção-Geral de Finanças;
- Instituto da Segurança Social, nomeadamente através do Centro Nacional de Pensões;
- Centro Nacional de Protecção contra os Riscos Profissionais;
- Solicitadores de Execução.
12 de Março: Parece, pois, pretender policiar-se a vida dos funcionários públicos. Convém recordar que o próprio governo, por definição constitucional, é o órgão máximo da administração, "patrão" da dita função pública. Isto será feito através de "cruzamento de dados" a que, dadas as condições promíscuas em que tudo opera em Portugal, acabarão por ter acesso pessoas e entidades que originariamente não deveriam ter. Mais uma vez quem se pretende atingir são os funcionários públicos. Esta obsessão segregacionista do governo e a persistência em apoucar a função pública como se fosse toda uma choldra inútil a extinguir sumariamente, diz muito sobre o sentido de Estado do governo, que alguns apelidam de “soviético”. Será?
Nova Aliança, 31 / 3 / 2007
Em Portugal, nenhum perigo imediato exige que as polícias passem a depender de Sócrates. Pior ainda: o SIRP, que superintende e coordena o Serviço de Informações de Segurança (SIS) e o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), dois serviços secretos, também ficará sob a tutela do primeiro-ministro. E a tudo isto, António Costa juntou dois novos meios de fiscalização e vigilância. O bilhete 4 em 1, que reúne o bilhete de identidade, o cartão de contribuinte, o cartão da Segurança Social e o cartão de utente do SNS. E o cartão que reúne a carta de condução, o livrete e o título de propriedade do automóvel.
Dados a cruzar, tendo como fonte o jornal “Público”:
- Identificação e cadastro contributivo das bases de dados da CGA, ADSE, ADM, SSMJ, SAD da GNR e da PSP, DGITA e IIES;
- Nacionalidade, residência e estado civil das bases de dados do Ministério da Justiça;
- Benefícios sociais das bases de dados da CGA, ADSE, ADM, SSMJ, SAD da GNR e da PSP, ISS e IIES;
- Vínculo laboral com a administração pública da base de dados da DGAP, do ISS e do IESS; - Rendimentos da base de dados da DGITA;
- Património mobiliário e imobiliário sujeito a registo das bases de dados do Ministério da Justiça;
- Situação escolar dos alunos, relativamente à frequência e aproveitamento;
- Obrigações acessórias, designadamente, início, reinício, alteração, suspensão e cessação da actividade, das bases de dados da DGITA, ISS, IESS e Ministério da Educação.
Bases de dados a cruzar:
- Subscritores, pensionistas e outros beneficiários da Caixa Geral de Aposentações (CGA);
- Beneficiários da ADSE;
- Beneficiários da Assistência na Doença aos Militares das Forças Armadas (ADM);
- Beneficiários dos Serviços Sociais do Ministério da Justiça (SSMJ);
- Beneficiários da Assistência na Doença (SAD) ao pessoal da GNR e da PSP;
- Funcionários públicos e agentes administrativos da Direcção-Geral da Administração Pública (DGAP);
- Identificação dos contribuintes fiscais da Direcção-Geral de Informática e Apoio aos Serviços Tributários e Aduaneiros (DGITA);
- Identificação civil, residência de estrangeiros e registo predial e automóvel, do Ministério da Justiça;
- Contribuintes e beneficiários do Instituto da Segurança Social (ISS) e do Instituto de Informática e Estatística da Solidariedade (IIES).
Quem começa por ter acesso:
- Todas as "gestoras" das bases de dados referidas anteriormente;
- Direcção-Geral das Contribuições e Impostos;
- Direcção-Geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais sobre o Consumo;
- Inspecção-Geral de Finanças;
- Instituto da Segurança Social, nomeadamente através do Centro Nacional de Pensões;
- Centro Nacional de Protecção contra os Riscos Profissionais;
- Solicitadores de Execução.
12 de Março: Parece, pois, pretender policiar-se a vida dos funcionários públicos. Convém recordar que o próprio governo, por definição constitucional, é o órgão máximo da administração, "patrão" da dita função pública. Isto será feito através de "cruzamento de dados" a que, dadas as condições promíscuas em que tudo opera em Portugal, acabarão por ter acesso pessoas e entidades que originariamente não deveriam ter. Mais uma vez quem se pretende atingir são os funcionários públicos. Esta obsessão segregacionista do governo e a persistência em apoucar a função pública como se fosse toda uma choldra inútil a extinguir sumariamente, diz muito sobre o sentido de Estado do governo, que alguns apelidam de “soviético”. Será?
Nova Aliança, 31 / 3 / 2007
Correia de Campos, a violência sobre os professores e a História da Europa
26 de Fevereiro - Correia de Campos, ministro da Saúde, relacionou hoje a diminuição do número de mortes nas estradas com o aumento do preço dos combustíveis. Era suposto, pela expressão do ministro, que a afirmação revelasse o seu fino sentido de humor. Apenas fez lembrar o ministro do Ambiente de Cavaco, Borrego. Um governante não deve cair pelo seu mau gosto. Mas pode cair apesar do seu mau gosto. Correia de Campos, a esta hora, deve estar a caminho das urgências. Pode ser que chegue a tempo.
27 de Fevereiro - A verdade é que a Madeira está para o continente como Portugal está para a União Europeia. A única diferença é que a Madeira tem o mesmo líder há 30 anos, o qual tem sabido "sacar" tudo o que pode para a região, ao invés dos sucessivos governos portugueses que insistem em agachar-se perante a Comissão Europeia e demais instâncias comunitárias. Para comprovar o que digo, experimenta substituir no teu texto Madeira por Portugal e Portugal por UE.
1 de Março - Grande protesto pelo país fora contra a violência sobre os professores. Na minha modesta opinião, incompreensível. Durante anos, a «escola centrada no aluno» e os mestres das «ciências da educação» transformaram as criancinhas em monstros irresponsáveis, ignorantes e prepotentes. Quando uma reportagem televisiva mostrou – com imagens cruas – exemplos dessa violência exercida sobre professores pelos alunos do secundário, logo algumas boas consciências protestaram sim, mas contra a captação dessas imagens, não contra a violência, contra «o estatuto do aluno» e outras alegrias do sistema escolar. A escola «centrada no aluno» é uma festa para os sentidos, mas pouco edificante quer em matéria disciplinar quer em matéria científica ou pedagógica, com técnicos do Ministério da Educação que têm das escolas uma vaga ideia, apenas uma «recordação teórica», no fundo uma visão de poltrona. A escola do “eduquês” quer ignorar palavras como «disciplina», «autoridade» e «recompensa». O aluno é o «bom selvagem». Têm aí o que criaram. Aguentem-se…
4 de Março - «A intervenção de José Sócrates, sabe o EXPRESSO, foi decisiva para que Correia de Campos participasse no debate (Prós & Contras). Foi o primeiro-ministro que lhe deu instruções para aceitar o convite e definiu os moldes em que esta intervenção ocorreria. O ministro não estaria na primeira parte do programa, deixando aos técnicos o palco das explicações.»
EXPRESSO, 3 de Março
5 de Março - A importância que têm alguns verbos em dois títulos do Diário de Notícias:
«120 camiões por hora antecipam acessos à Ota»
«Estudar nova localização atrasará novo aeroporto em três anos»
Eis o DN sempre, sempre ao serviço da nação. Não seria de pedir logo o cartão partidário?...
7 de Março - "The futile top model protegée of an aging fashion designer is forced by circumstances to come into her own as a woman of the world. Intriguing but ultimately incomplete, amateurish melodrama from a director who ought to know better; there’s a strong woman’s picture plot and great performances lost in incomprehensible plotting, inept handling and poor photography (shot on digital videMarcadores: subsidio-dependênciaO ICAM deu 648.500 euros ao filme “Vanitas” de Paulo Costa. Teve 493 espectadores. Dá 1315 euros por cada um. Mil trezentos e quinze euros, por extenso. Défice? Desperdício? Naaaaa. País rico, só pode.
8 de Março – Alguém se lembrou agora de um livrinho único de História da Europa. Já imagino as crianças alemãs, portuguesas, espanholas e italianas a festejar versões comuns sobre tudo o que nos divide. Como é evidente, já existe um modelo franco-alemão a servir de inspiração. Em geral, trata-se de uma operação de limpeza muito adequada. Ficaríamos todos felizes e unidos pela mesma constituição e pelo mesmo manual de história da Europa. Felizmente que os dinamarqueses, os suecos e os checos já disseram que não estão disponíveis, ao contrário da Espanha, desejosa de mostrar que existe. Que haja um manual sobre a Europa, distribuído pelas escolas para sensibilizar os jovens e explicar as instituições europeias, sim; mas pormo-nos de acordo uns com os outros e limparmos cirurgicamente da História as vergonhas de cada um, parece-me já um exagero.
9 de Março – Desde manhã que nos lembram ser hoje o "dia internacional da mulher". Esta absurda convenção faz tanto sentido como outros "dias" quaisquer. Os que julgam que com este folclore unem, limitam-se a separar mais um bocadinho. O que segrega as pessoas é a bolsa, o berço, a cabeça de cada um e o politicamente correcto das "quotas". O feminismo exacerbado e disparatado, os "dias de" e o ramo de flores ou a paparoca de circunstância são apenas faces da mesma velha misoginia. Um ser humano é um ser humano que é um ser humano. Não é mais ou menos isso por ser um homem ou uma mulher ou o que ele decidir ser.
Nova Aliança, 19 / 3 / 2007
27 de Fevereiro - A verdade é que a Madeira está para o continente como Portugal está para a União Europeia. A única diferença é que a Madeira tem o mesmo líder há 30 anos, o qual tem sabido "sacar" tudo o que pode para a região, ao invés dos sucessivos governos portugueses que insistem em agachar-se perante a Comissão Europeia e demais instâncias comunitárias. Para comprovar o que digo, experimenta substituir no teu texto Madeira por Portugal e Portugal por UE.
1 de Março - Grande protesto pelo país fora contra a violência sobre os professores. Na minha modesta opinião, incompreensível. Durante anos, a «escola centrada no aluno» e os mestres das «ciências da educação» transformaram as criancinhas em monstros irresponsáveis, ignorantes e prepotentes. Quando uma reportagem televisiva mostrou – com imagens cruas – exemplos dessa violência exercida sobre professores pelos alunos do secundário, logo algumas boas consciências protestaram sim, mas contra a captação dessas imagens, não contra a violência, contra «o estatuto do aluno» e outras alegrias do sistema escolar. A escola «centrada no aluno» é uma festa para os sentidos, mas pouco edificante quer em matéria disciplinar quer em matéria científica ou pedagógica, com técnicos do Ministério da Educação que têm das escolas uma vaga ideia, apenas uma «recordação teórica», no fundo uma visão de poltrona. A escola do “eduquês” quer ignorar palavras como «disciplina», «autoridade» e «recompensa». O aluno é o «bom selvagem». Têm aí o que criaram. Aguentem-se…
4 de Março - «A intervenção de José Sócrates, sabe o EXPRESSO, foi decisiva para que Correia de Campos participasse no debate (Prós & Contras). Foi o primeiro-ministro que lhe deu instruções para aceitar o convite e definiu os moldes em que esta intervenção ocorreria. O ministro não estaria na primeira parte do programa, deixando aos técnicos o palco das explicações.»
EXPRESSO, 3 de Março
5 de Março - A importância que têm alguns verbos em dois títulos do Diário de Notícias:
«120 camiões por hora antecipam acessos à Ota»
«Estudar nova localização atrasará novo aeroporto em três anos»
Eis o DN sempre, sempre ao serviço da nação. Não seria de pedir logo o cartão partidário?...
7 de Março - "The futile top model protegée of an aging fashion designer is forced by circumstances to come into her own as a woman of the world. Intriguing but ultimately incomplete, amateurish melodrama from a director who ought to know better; there’s a strong woman’s picture plot and great performances lost in incomprehensible plotting, inept handling and poor photography (shot on digital videMarcadores: subsidio-dependênciaO ICAM deu 648.500 euros ao filme “Vanitas” de Paulo Costa. Teve 493 espectadores. Dá 1315 euros por cada um. Mil trezentos e quinze euros, por extenso. Défice? Desperdício? Naaaaa. País rico, só pode.
8 de Março – Alguém se lembrou agora de um livrinho único de História da Europa. Já imagino as crianças alemãs, portuguesas, espanholas e italianas a festejar versões comuns sobre tudo o que nos divide. Como é evidente, já existe um modelo franco-alemão a servir de inspiração. Em geral, trata-se de uma operação de limpeza muito adequada. Ficaríamos todos felizes e unidos pela mesma constituição e pelo mesmo manual de história da Europa. Felizmente que os dinamarqueses, os suecos e os checos já disseram que não estão disponíveis, ao contrário da Espanha, desejosa de mostrar que existe. Que haja um manual sobre a Europa, distribuído pelas escolas para sensibilizar os jovens e explicar as instituições europeias, sim; mas pormo-nos de acordo uns com os outros e limparmos cirurgicamente da História as vergonhas de cada um, parece-me já um exagero.
9 de Março – Desde manhã que nos lembram ser hoje o "dia internacional da mulher". Esta absurda convenção faz tanto sentido como outros "dias" quaisquer. Os que julgam que com este folclore unem, limitam-se a separar mais um bocadinho. O que segrega as pessoas é a bolsa, o berço, a cabeça de cada um e o politicamente correcto das "quotas". O feminismo exacerbado e disparatado, os "dias de" e o ramo de flores ou a paparoca de circunstância são apenas faces da mesma velha misoginia. Um ser humano é um ser humano que é um ser humano. Não é mais ou menos isso por ser um homem ou uma mulher ou o que ele decidir ser.
Nova Aliança, 19 / 3 / 2007
5.3.07
A Bailarina Fascista
17 de Fevereiro - Leio nos jornais do dia que, por toda a Europa, hindus de nacionalidades várias prometem contestar com vigor as intenções da ministra da Justiça alemã em criminalizar a exibição da suástica. Para a ministra, a suástica representa Hitler, o Terceiro Reich e seus projectos de dominação imperial e rácica. Para os hindus, a suástica é um símbolo milenar de paz e serenidade. Deve a União Europeia, presidida actualmente pela Alemanha, proibir o símbolo da paz e da serenidade para os hindus?
18 de Fevereiro - Em Londres, segundo parece, uma bailarina do English National Ballet, Simone Clarke, afirmou ser também membro do British National Party, um grupo de extrema-direita ferozmente antiimigração. Simone, 36, namora com um dançarino cubano, imigrante, descendente de chineses. A “salada russa” perfeita. Nada disso impediu as brigadas de irromperem pelo teatro onde Simone dançava o clássico "Giselle", insultando a bailarina e exigindo sua demissão dos palcos. Simone continuou a dançar, com notável profissionalismo, apesar dos insultos. A companhia de bailado preferiu não comentar.
19 de Fevereiro – A companhia fez bem. Não é fácil comentar a loucura: uma pessoa acaba confundindo-se com ela. E se os hindus estão errados do ponto de vista iconográfico - o símbolo nazista não é exactamente igual às suásticas das religiões dármicas - o que espanta nos protestos londrinos é a evidente selvajaria das brigadas. Sim, eu entendo que uma "bailarina fascista" é tão improvável como Saddam Hussein de biquini em concurso de beleza para misses: existe na combinação um choque visual profundo, como se a grosseria de Hitler fosse incompatível com a subtileza e a elegância do "Quebra-Nozes", que Simone dançou meses atrás (com aplausos da crítica).
Mas essa não é a questão. E não é a questão porque a ideia de punir artisticamente um fascista, ou um comunista, ou um extremista de ideologia difusa, demonstra apenas a covardia de quem o faz.
20 de Fevereiro - Cobardia real: em Londres, as brigadas insultaram quem não se podia defender. Pior: quem exercia a sua arte em palco, um acto de humilhação que só define quem o pratica. A menos, claro, que o "fascismo" da sra. Clarke não se limite às suas ideias políticas e seja exibido na forma como dança: como executa o "demi-plié", como faz o "retiré", como arrisca no "arabesque", pondo a plateia a salivar com desejos tirânicos de invadir a Polónia. Haverá um ballet fascista e ninguém avisou?
Mas a cobardia é também intelectual: se a liberdade de expressão é uma benesse, ela implica aceitar vozes discordantes que devem ser toleradas, ou ignoradas, ou debatidas --e, em casos extremos, denunciadas por pessoas concretas que se sintam atingidas no seu bom-nome. Existem tribunais para isso. Mas nenhuma sociedade livre será capaz de sobreviver pela criminalização de todas as opiniões que o "senso comum" maioritário considera ofensivas. Proibir é a atitude preguiçosa do tirano menor que, incapaz de tolerar, ignorar ou refutar intelectualmente uma opinião, prefere criminalizá-la.
O gesto é perigoso: ele transforma o extremista em mártir, e o mártir em herói. O caso recente do historiador David Irving, preso e entretanto libertado na Áustria, ilustra o ponto: em 2000, Irving ficou com a reputação intelectual desfeita, ao perder em tribunal a acção contra Deborah Lipstadt, historiadora que o acusara de ser um negacionista do Holocausto. A prisão recente serviu apenas para reabilitar Irving, como já tinha acontecido na década de 1980 com a prisão e a reabilitação de um desacreditado Robert Faurrisson. Seria improvável que Irving existisse se, antes dele, Faurrisson não tivesse emergido como o herói perseguido do revisionismo.
21 de Fevereiro - A ministra alemã e as brigadas de Londres acreditam que o extremismo na Europa se combate pela força da lei. Acreditam mal. A extrema-direita pode crescer no continente, sobretudo no Leste e, como se verá nas próximas presidenciais francesas, com o fenómeno Le Pen. Mas ela cresce por exclusiva culpa dos "partidos do centro": incapazes de reformar economicamente uma Europa estagnada e medrosa perante o "estrangeiro", os partidos instalados apenas contribuem para um mal-estar social que alimenta a besta do costume. E as bestas não quebram nozes. Quebram tudo.
Nova Aliança, 2 / 03 / 2007
18 de Fevereiro - Em Londres, segundo parece, uma bailarina do English National Ballet, Simone Clarke, afirmou ser também membro do British National Party, um grupo de extrema-direita ferozmente antiimigração. Simone, 36, namora com um dançarino cubano, imigrante, descendente de chineses. A “salada russa” perfeita. Nada disso impediu as brigadas de irromperem pelo teatro onde Simone dançava o clássico "Giselle", insultando a bailarina e exigindo sua demissão dos palcos. Simone continuou a dançar, com notável profissionalismo, apesar dos insultos. A companhia de bailado preferiu não comentar.
19 de Fevereiro – A companhia fez bem. Não é fácil comentar a loucura: uma pessoa acaba confundindo-se com ela. E se os hindus estão errados do ponto de vista iconográfico - o símbolo nazista não é exactamente igual às suásticas das religiões dármicas - o que espanta nos protestos londrinos é a evidente selvajaria das brigadas. Sim, eu entendo que uma "bailarina fascista" é tão improvável como Saddam Hussein de biquini em concurso de beleza para misses: existe na combinação um choque visual profundo, como se a grosseria de Hitler fosse incompatível com a subtileza e a elegância do "Quebra-Nozes", que Simone dançou meses atrás (com aplausos da crítica).
Mas essa não é a questão. E não é a questão porque a ideia de punir artisticamente um fascista, ou um comunista, ou um extremista de ideologia difusa, demonstra apenas a covardia de quem o faz.
20 de Fevereiro - Cobardia real: em Londres, as brigadas insultaram quem não se podia defender. Pior: quem exercia a sua arte em palco, um acto de humilhação que só define quem o pratica. A menos, claro, que o "fascismo" da sra. Clarke não se limite às suas ideias políticas e seja exibido na forma como dança: como executa o "demi-plié", como faz o "retiré", como arrisca no "arabesque", pondo a plateia a salivar com desejos tirânicos de invadir a Polónia. Haverá um ballet fascista e ninguém avisou?
Mas a cobardia é também intelectual: se a liberdade de expressão é uma benesse, ela implica aceitar vozes discordantes que devem ser toleradas, ou ignoradas, ou debatidas --e, em casos extremos, denunciadas por pessoas concretas que se sintam atingidas no seu bom-nome. Existem tribunais para isso. Mas nenhuma sociedade livre será capaz de sobreviver pela criminalização de todas as opiniões que o "senso comum" maioritário considera ofensivas. Proibir é a atitude preguiçosa do tirano menor que, incapaz de tolerar, ignorar ou refutar intelectualmente uma opinião, prefere criminalizá-la.
O gesto é perigoso: ele transforma o extremista em mártir, e o mártir em herói. O caso recente do historiador David Irving, preso e entretanto libertado na Áustria, ilustra o ponto: em 2000, Irving ficou com a reputação intelectual desfeita, ao perder em tribunal a acção contra Deborah Lipstadt, historiadora que o acusara de ser um negacionista do Holocausto. A prisão recente serviu apenas para reabilitar Irving, como já tinha acontecido na década de 1980 com a prisão e a reabilitação de um desacreditado Robert Faurrisson. Seria improvável que Irving existisse se, antes dele, Faurrisson não tivesse emergido como o herói perseguido do revisionismo.
21 de Fevereiro - A ministra alemã e as brigadas de Londres acreditam que o extremismo na Europa se combate pela força da lei. Acreditam mal. A extrema-direita pode crescer no continente, sobretudo no Leste e, como se verá nas próximas presidenciais francesas, com o fenómeno Le Pen. Mas ela cresce por exclusiva culpa dos "partidos do centro": incapazes de reformar economicamente uma Europa estagnada e medrosa perante o "estrangeiro", os partidos instalados apenas contribuem para um mal-estar social que alimenta a besta do costume. E as bestas não quebram nozes. Quebram tudo.
Nova Aliança, 2 / 03 / 2007
Fiama e Luc-Férry
20 de Janeiro – Morreu a poetisa Fiama Hasse Pais Brandão ( 1938-2007 ). Lembremo-la no poema Urogalo:
O urogalo não cantou toda a manhã. / despida de sentimentos, procuro/os nomes e os mitos. / E a grande sombra/da árvore de palma veio pousar / sobre a relva nua e o decepado coto. / Não mais interiorizo a Natureza próxima. / Que o morto aloendro leve consigo / anos de infância e juventude, carícias / do vento, para sempre e em todo o lugar. //O urogalo viria em vez do melro, / cujo corpo sacode o restolho de velhas folhas, / cujo assobio se abafa na hera invasora. / Seria o sinal do último cantor da casa, / o desconhecido urogalo, que apagaria / esta tristeza de nada desejar, aqui e agora, / entre estes cepos, esta terra revolta / e os mortos tão absolutos e esquecidos, / depois de tão eternamente vivos.
in Cenas Vivas, Lisboa, Relógio d’Água, 2000.
26 de Janeiro - Esteve no Porto, a convite de Rui Rio, para participar na cerimónia do 5.º aniversário da chegada ao poder do autarca. Pertence à família socialista francesa. Chama-se Luc Férry e é filósofo.Falou da crise da democracia e apontou a globalização como responsável pelo esvaziamento do poder dos políticos. Defende novos valores centrados na família e considera Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy os primeiros políticos e falar aos franceses, atribuindo-lhes uma revolução da vida privada. Alertou para a catástrofe que seria deixar a Turquia fora da UE. E o que disse o senhor? Coisas importantes. Façam o favor de tomar nota:
”A principal ameaça à democracia é ela própria. Hoje, as autoridades políticas não têm poder suficiente para fazer as mudanças, as pessoas não sabem, mas a verdade é que a globalização veio transformar muita coisa. Muitas das prerrogativas que pertenciam aos políticos são hoje exteriores à sua competência de políticos.” (…) (exemplos) “a Internet, os mercados financeiros, as deslocalizações. Tudo isso enfraquece o poder político a nível nacional. (…) A globalização não é um problema Norte/Sul, de os mais ricos ficarem mais ricos e os mais pobres mais pobres. O verdadeiro problema é que ela retira poder aos homens políticos de cada nação. Os mercados financeiros vieram retirar poder ao ministro da Economia português e ao francês também. A democracia prometeu-nos que iríamos fazer a nossa própria história, mas muito do que se decide é exterior à esfera nacional. (…) O que lhes confere algum poder (aos políticos) é a mediatização. Os ministérios transformaram-se em agências de publicidade que não agem, fazem comunicação. O essencial da guerra do poder político é ter uma boa imagem. (…) A verdade é que os políticos passam 99 % do tempo nos ministérios a bater-se pela imagem e só 1% a mudar a realidade. A mundialização retirou poder e a mediatização extrema transformou os ministérios em agências de publicidade. (…) (os políticos) são como as pessoas que vão tomar banho no mar. Vão entrando devagarinho. Se a água está fria, recuam e voltam a entrar. Começam a fazer reformas na saúde, na educação... Quando as manifestações começam, fazem um recuo. (…) Se compararmos o que se passa agora com a década de 30, na Europa, dizia-se que os políticos são uns mentirosos, não cumprem o que prometem, metem dinheiro ao bolso... (…) Quando aceitei o cargo não percebi o essencial: não estamos no cavalo para ir a algum lado. É uma espécie de rodeo. Estamos no cavalo para nos mantermos em cima dele. (…) (a solução) é a Europa poder reflectir sobre os valores. É preciso ser popular para ser eleito e impopular para governar. É como ir ao dentista. Ele é simpático, mas vai tirar-nos um dente a seguir. É preciso que as pessoas percebam que estamos a fazer coisas desagradáveis, mas estamos a fazê-las por elas. (…) Já ninguém dá a vida pela Pátria, por Deus e pela Revolução. Conhece alguém que dê a vida por estes valores hoje na Europa? Os grandes valores são aquelas que tocam aqueles que mais amamos, os valores da família. O sagrado continua a existir. Mas encarnou na humanidade, todos os movimentos humanitários e caritativos nasceram da história da família moderna, a que surgiu no século XVIII e conquistou o casamento por amor. No Antigo Regime, o casamento apenas seguia a necessidade económica de manter as terras ou a linhagem. A família moderna baseia-se no amor. (…) O político tem de explicar que faz as reformas, que aumenta o número de anos de serviço para que nós e os nossos filhos tenhamos reformas.
28 de Janeiro – A PSP da Madeira está a convocar à esquadra os professores que participaram numa manifestação contra o primeiro-ministro. De que lado estará o tão apregoado défice democrático?
30 de Janeiro – No Público: «Momentos bucólico-cómicos de um estado insano
Um homem de 34 anos foi detido domingo pela GNR de Idanha-a-Nova, Castelo Branco, acusado de caça ilegal, por utilizar toques de telemóvel como chamariz para caçar tordos, disse hoje fonte policial.»
31 de Janeiro – Leio num livro uma crítica a um pintor italiano: “uma elegância exagerada própria das culturas provincianas”. Não sei porquê, lembrei-me logo de Manoel de Oliveira.
Nova Aliança, 21 / 02 / 2007
O urogalo não cantou toda a manhã. / despida de sentimentos, procuro/os nomes e os mitos. / E a grande sombra/da árvore de palma veio pousar / sobre a relva nua e o decepado coto. / Não mais interiorizo a Natureza próxima. / Que o morto aloendro leve consigo / anos de infância e juventude, carícias / do vento, para sempre e em todo o lugar. //O urogalo viria em vez do melro, / cujo corpo sacode o restolho de velhas folhas, / cujo assobio se abafa na hera invasora. / Seria o sinal do último cantor da casa, / o desconhecido urogalo, que apagaria / esta tristeza de nada desejar, aqui e agora, / entre estes cepos, esta terra revolta / e os mortos tão absolutos e esquecidos, / depois de tão eternamente vivos.
in Cenas Vivas, Lisboa, Relógio d’Água, 2000.
26 de Janeiro - Esteve no Porto, a convite de Rui Rio, para participar na cerimónia do 5.º aniversário da chegada ao poder do autarca. Pertence à família socialista francesa. Chama-se Luc Férry e é filósofo.Falou da crise da democracia e apontou a globalização como responsável pelo esvaziamento do poder dos políticos. Defende novos valores centrados na família e considera Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy os primeiros políticos e falar aos franceses, atribuindo-lhes uma revolução da vida privada. Alertou para a catástrofe que seria deixar a Turquia fora da UE. E o que disse o senhor? Coisas importantes. Façam o favor de tomar nota:
”A principal ameaça à democracia é ela própria. Hoje, as autoridades políticas não têm poder suficiente para fazer as mudanças, as pessoas não sabem, mas a verdade é que a globalização veio transformar muita coisa. Muitas das prerrogativas que pertenciam aos políticos são hoje exteriores à sua competência de políticos.” (…) (exemplos) “a Internet, os mercados financeiros, as deslocalizações. Tudo isso enfraquece o poder político a nível nacional. (…) A globalização não é um problema Norte/Sul, de os mais ricos ficarem mais ricos e os mais pobres mais pobres. O verdadeiro problema é que ela retira poder aos homens políticos de cada nação. Os mercados financeiros vieram retirar poder ao ministro da Economia português e ao francês também. A democracia prometeu-nos que iríamos fazer a nossa própria história, mas muito do que se decide é exterior à esfera nacional. (…) O que lhes confere algum poder (aos políticos) é a mediatização. Os ministérios transformaram-se em agências de publicidade que não agem, fazem comunicação. O essencial da guerra do poder político é ter uma boa imagem. (…) A verdade é que os políticos passam 99 % do tempo nos ministérios a bater-se pela imagem e só 1% a mudar a realidade. A mundialização retirou poder e a mediatização extrema transformou os ministérios em agências de publicidade. (…) (os políticos) são como as pessoas que vão tomar banho no mar. Vão entrando devagarinho. Se a água está fria, recuam e voltam a entrar. Começam a fazer reformas na saúde, na educação... Quando as manifestações começam, fazem um recuo. (…) Se compararmos o que se passa agora com a década de 30, na Europa, dizia-se que os políticos são uns mentirosos, não cumprem o que prometem, metem dinheiro ao bolso... (…) Quando aceitei o cargo não percebi o essencial: não estamos no cavalo para ir a algum lado. É uma espécie de rodeo. Estamos no cavalo para nos mantermos em cima dele. (…) (a solução) é a Europa poder reflectir sobre os valores. É preciso ser popular para ser eleito e impopular para governar. É como ir ao dentista. Ele é simpático, mas vai tirar-nos um dente a seguir. É preciso que as pessoas percebam que estamos a fazer coisas desagradáveis, mas estamos a fazê-las por elas. (…) Já ninguém dá a vida pela Pátria, por Deus e pela Revolução. Conhece alguém que dê a vida por estes valores hoje na Europa? Os grandes valores são aquelas que tocam aqueles que mais amamos, os valores da família. O sagrado continua a existir. Mas encarnou na humanidade, todos os movimentos humanitários e caritativos nasceram da história da família moderna, a que surgiu no século XVIII e conquistou o casamento por amor. No Antigo Regime, o casamento apenas seguia a necessidade económica de manter as terras ou a linhagem. A família moderna baseia-se no amor. (…) O político tem de explicar que faz as reformas, que aumenta o número de anos de serviço para que nós e os nossos filhos tenhamos reformas.
28 de Janeiro – A PSP da Madeira está a convocar à esquadra os professores que participaram numa manifestação contra o primeiro-ministro. De que lado estará o tão apregoado défice democrático?
30 de Janeiro – No Público: «Momentos bucólico-cómicos de um estado insano
Um homem de 34 anos foi detido domingo pela GNR de Idanha-a-Nova, Castelo Branco, acusado de caça ilegal, por utilizar toques de telemóvel como chamariz para caçar tordos, disse hoje fonte policial.»
31 de Janeiro – Leio num livro uma crítica a um pintor italiano: “uma elegância exagerada própria das culturas provincianas”. Não sei porquê, lembrei-me logo de Manoel de Oliveira.
Nova Aliança, 21 / 02 / 2007
7.2.07
O naufrágio da Nazaré, o mau exemplo português e a ETA
9 de Janeiro – Falemos desta vergonha portuguesa em que se traduz o naufrágio da Nazaré. À vista da praia, à vista da terra, um a um, os tripulantes do navio foram sendo engolidos pelo mar. O Ministério da Defesa mandou proceder a um inquérito que, certamente será arquivado. A verdade é que demorou hora e meia a chegar um helicóptero que poderia ter salvo aqueles homens. Quer queiram ou não, há uma versão de Portugal que nos envergonha. A TV do Estado, sempre fiel aos seus, no seu telejornal, demora a falar do caso. Começa com Saddam. Passa pela ETA. Antes de falar do naufrágio da Nazaré, resolveu falar de um naufrágio na Indonésia. E o naufrágio da Indonésia teve tanto tempo de antena como o naufrágio da Nazaré. E uma "reportagem" de bolo rei teve mais tempo do que a reportagem sobre os homens que morrem porque foram abandonados pelo seu Estado. Depois, uma reportagem sobre ginásios e dietas ocupou cerca de 5 minutos. É justo: despacharam a Nazaré num único minuto. Está certo, sim senhora. Quem morreu afinal? Meros pescadores, labregos sem importância. Ah, afinal ainda se vai falar outra vez de Saddam. Claro: culpar os americanos pelo mal do mundo é mais fácil do que culpar alguém dentro de portas.
10 de Janeiro - A Comissão Europeia (CE) está a utilizar o caso português como exemplo a não seguir no alerta que está a enviar aos futuros países-membros da União Europeia. O artigo é publicado pela Direcção-Geral de Economia e Finanças da Comissão Europeia, intitulado «Explosão e recessão em Portugal: lições para os novos membros do euro», no qual são sistematizados os erros cometidos pelo nosso País na fase imediatamente a seguir à entrada na união económica e europeia, em 1999.
Tomando por base estes erros, a CE retira cinco ensinamentos que devem ser seguidos pelos países que vierem a entrar na Zona Euro – em caso de forte crescimento da procura interna, seguir uma política orçamental restritiva; cuidado com os erros de sobreavaliação do crescimento do PIB nas fases altas do ciclo; aproveitar o maior dinamismo da procura interna para acelerar, e não adiar, reformas estruturais; manter controlado o crescimento dos salários; apertar a supervisão prudencial sobre os mercados financeiros.
11 de Janeiro – Em Espanha, por altura dos Reis, os pais contam aos filhos a seguinte história: A ETA faz maldades; Ninguém quer brincar com a ETA; Chega o menino Zapatero; A ETA é má porque nenhum menino quer brincar com ela; Zapatero começa a brincar com a ETA; A ETA promete não fazer mais maldades; A ETA diz que o menino Zapatero não quer brincar da maneira certa; A ETA está a ficar chateada porque o menino Zapatero não lhe dá os brinquedos; A ETA faz maldades. É para eles verem; O menino Zapatero também já não quer brincar com a ETA.
12 de Janeiro - A lei da pesca proíbe a pesca a menos de 100 metros de esgotos. Mas quais esgotos? A acreditar na propaganda socialista, não existem esgotos a ser lançados nos rios ou no mar. Ah, e também passa a ser proibido pescar a menos de 10 menos do pescador mais próximo. Imagina-se que esta lei vise proteger as espécies piscícolas do perigo que representam dois anzóis demasiado próximos. Ou então o legislador pretendia apenas impedir que dois pescadores passem uma tarde inteira a tentar pescar o mesmo peixe.
14 de Janeiro – O ministro da Saúde concluiu que não era necessário abrir qualquer tipo de inquérito a propósito do caso de Odemira. E defendeu a decisão num documento que incluía este argumento verdadeiramente extraordinário: mesmo que o homem tivesse demorado menos de seis horas a chegar ao hospital, o mais certo era que, em função dos traumatismos que sofreu, morresse de qualquer maneira. Esta é, no mínimo, uma visão arrojada: decide-se a competência de uma assistência médica pela autópsia do assistido. Não tenham dúvidas, deste modo a despesa pública vai descer consideravelmente. E quando sair do ministério tem já emprego assegurado num bom cangalheiro. Por favor, não sorriam, o assunto é sério…
16 de Janeiro – No momento em que escrevo a Av 25 de Abril está condicionada pela 16ª vez. Dizem-me que os 1ª, 4º, 8º e 12º buracos são da responsabilidade da empresa A, os 2º, 5º, 9º e 13º buracos foram da responsabilidade da empresa B, os 3º, 6º, 10º e 14º buracos foram da responsabilidade da empresa C. Finalmente os 7º, 10º, 11º , 15º e 16º foram feitos para confirmar as obras feitas pelas três empresas. Na Finlândia as coisas também se passarão assim?
10 de Janeiro - A Comissão Europeia (CE) está a utilizar o caso português como exemplo a não seguir no alerta que está a enviar aos futuros países-membros da União Europeia. O artigo é publicado pela Direcção-Geral de Economia e Finanças da Comissão Europeia, intitulado «Explosão e recessão em Portugal: lições para os novos membros do euro», no qual são sistematizados os erros cometidos pelo nosso País na fase imediatamente a seguir à entrada na união económica e europeia, em 1999.
Tomando por base estes erros, a CE retira cinco ensinamentos que devem ser seguidos pelos países que vierem a entrar na Zona Euro – em caso de forte crescimento da procura interna, seguir uma política orçamental restritiva; cuidado com os erros de sobreavaliação do crescimento do PIB nas fases altas do ciclo; aproveitar o maior dinamismo da procura interna para acelerar, e não adiar, reformas estruturais; manter controlado o crescimento dos salários; apertar a supervisão prudencial sobre os mercados financeiros.
11 de Janeiro – Em Espanha, por altura dos Reis, os pais contam aos filhos a seguinte história: A ETA faz maldades; Ninguém quer brincar com a ETA; Chega o menino Zapatero; A ETA é má porque nenhum menino quer brincar com ela; Zapatero começa a brincar com a ETA; A ETA promete não fazer mais maldades; A ETA diz que o menino Zapatero não quer brincar da maneira certa; A ETA está a ficar chateada porque o menino Zapatero não lhe dá os brinquedos; A ETA faz maldades. É para eles verem; O menino Zapatero também já não quer brincar com a ETA.
12 de Janeiro - A lei da pesca proíbe a pesca a menos de 100 metros de esgotos. Mas quais esgotos? A acreditar na propaganda socialista, não existem esgotos a ser lançados nos rios ou no mar. Ah, e também passa a ser proibido pescar a menos de 10 menos do pescador mais próximo. Imagina-se que esta lei vise proteger as espécies piscícolas do perigo que representam dois anzóis demasiado próximos. Ou então o legislador pretendia apenas impedir que dois pescadores passem uma tarde inteira a tentar pescar o mesmo peixe.
14 de Janeiro – O ministro da Saúde concluiu que não era necessário abrir qualquer tipo de inquérito a propósito do caso de Odemira. E defendeu a decisão num documento que incluía este argumento verdadeiramente extraordinário: mesmo que o homem tivesse demorado menos de seis horas a chegar ao hospital, o mais certo era que, em função dos traumatismos que sofreu, morresse de qualquer maneira. Esta é, no mínimo, uma visão arrojada: decide-se a competência de uma assistência médica pela autópsia do assistido. Não tenham dúvidas, deste modo a despesa pública vai descer consideravelmente. E quando sair do ministério tem já emprego assegurado num bom cangalheiro. Por favor, não sorriam, o assunto é sério…
16 de Janeiro – No momento em que escrevo a Av 25 de Abril está condicionada pela 16ª vez. Dizem-me que os 1ª, 4º, 8º e 12º buracos são da responsabilidade da empresa A, os 2º, 5º, 9º e 13º buracos foram da responsabilidade da empresa B, os 3º, 6º, 10º e 14º buracos foram da responsabilidade da empresa C. Finalmente os 7º, 10º, 11º , 15º e 16º foram feitos para confirmar as obras feitas pelas três empresas. Na Finlândia as coisas também se passarão assim?
24.1.07
As esperanças do novo ano, a vida privada e Carolina Salgado
1 de Janeiro – Que esperanças para o novo ano? Existe a visão dos bons e a dos maus.O terrorismo no Iraque desaparecerá e as tropas americanas retirarão em paz. Guantanamo fechará em menos de seis meses e os presos voltarão para os seus países. Os Taliban serão finalmente derrotados. Fidel Castro e Hugo Chavez reconhecerão a grandeza dos EUA. Bin Laden será finalmente capturado. Miguel Sousa Tavares escreverá um artigo sobre a felicidade que é ter a América de volta ao seio das nações civilizadas. O Congresso atribuirá direito de voto nas eleições americanas a todos os cidadãos do mundo. O planeta começará a arrefecer ( aliás, já se nota, hoje já está mais frio que ontem ). O McDonalds começará a servir alta cozinha francesa. O Irão desistirá de fazer uma bomba nuclear, pedirá a adesão à União Europeia e Portugal apadrinhará. Uma investigação do Congresso revelará novas provas sobre a conspiração para destruir o World Trade Center e iniciar guerras no estrangeiro. Bush será julgado por um tribunal internacional, que o condenará a prestar serviço cívico por crimes contra a humanidade. Grandes esperanças para 2007. Grandes esperanças...
3 de Janeiro - Os cidadãos sentem que a sua vida privada está ameaçada, que todos os dias podem ser abusados, observados, escutados, controlados, frustrados, ameaçados; sentem que a todo o momento alguém lhes pode entrar pela casa dentro e devassar a sua vida privada até ao mais ínfimo detalhe, e têm a certeza que essa pessoa será alguém que o faz a título oficial e na qualidade de funcionário do Estado.
Um homem decide lançar um negócio de restauração. Fez o investimento, arrendou um espaço e contratou os empregados. Mas ele não pode começar o negócio antes que lhe sejam feitas uma multiplicidade de inspecções e concedidas licenças e alvarás. Tudo demora uma eternidade. Passou mais de um ano, as licenças não estão todas concedidas e faltam ainda os documentos de algumas inspecções. Ele continua a pagar a renda do espaço, os salários dos empregados, os painéis publicitários. Com o desespero próprio de quem está perto da ruína, decide abrir o restaurante ao público. Mas ele não vai conseguir dormir porque sabe que a todo o momento lhe podem fechar o restaurante, mover-lhe um processo administrativo ou mesmo criminal e o seu nome aparecer nos jornais. Será a ruína financeira e pessoal.
Uma pessoa compra uma casa antiga para a mandar restaurar e vir a habitá-la. Porém, não pode iniciar as obras, sem que uma multiplicidade de autoridades administrativas, desde a câmara municipal ao serviço de abastecimento de águas, lhe aprovem uma multiplicidade de projectos e lhe concedam uma multiplicidade de licenças. O tempo vai passar e ela vai dar-se conta que, quem manda na casa e quem vai decidir qual o tipo de caixilhos, de portas e de janelas e se a casa poderá ou não ter um jardim, não é ela, mas uma massa anónima de burocratas, engenheiros, políticos, arquitectos que trabalham na câmara e numa grande multiplicidade de outros serviços administrativos.
A administração fiscal decide que um contribuinte tem de pagar um imposto que ele, de facto, já pagou. O cidadão protesta, faz requerimentos e mais requerimentos para que o erro seja reconhecido e corrigido, sem obter resposta. O Fisco persiste no erro e ameaça-o que, senão pagar até ao dia tal, ser-lhe-ão penhorados o vencimento e as contas bancárias. O cidadão acaba por se render, e paga outra vez aquilo que já pagou, ainda por cima com juros e com coimas. O simplex afinal complica. E, não obstante, passados quinze dias, o seu patrão e o seu banco recebem ordens da administração fiscal para lhe penhorarem o vencimento e a conta bancária. Quantos requerimentos, quantos meses vão ser necessários para levantar as penhoras? E os danos que o contribuinte sofreu e a vergonha por que passou? E quem, na administração fiscal, responde por este abuso? A resposta é evidente: ninguém.
6 de Janeiro - Os que falam dela na rádio, nos jornais ou na televisão não conseguem pronunciar sequer o seu nome. Afinal a mulher era uma alternadeira. Como o mercado é flutuante, o emprego é precário. Os locais de trabalho são bares e clubes, alimentados por homens que precisam de divertimento. Trabalham muito, fazem andar a roda das nossas existências e precisam de divertimento. Sempre foi assim. É chamada a mais velha profissão do mundo. E sempre houve poderosos que se apaixonaram por elas, porque tão antigo como elas é o amor e a necessidade de amor dos homens, mesmo quando são poderosos e usam as mulheres como bens de consumo descartáveis. De vez em quando, uma mulher sai do bordel para a corte. Alguns poderosos não gostam. Acham mal. É o início da desordem, o princípio da catástrofe. As coisas não devem ser mudadas de lugar. O bordel não deve ser confundido com o sítio das outras mulheres, as donas compassivas, as nossas mulheres, que as visitam nos lares de abrigo, lhes ensinam a virtude, o bom caminho e se for preciso lhes dão ajuda de berço. Esta mulher chama-se Carolina Salgado. Viveu com os poderosos, conhece-os, aprendeu-lhes as manhas, joga o jogo deles. Há quem não queira ouvir a história. Percebe-se.
3 de Janeiro - Os cidadãos sentem que a sua vida privada está ameaçada, que todos os dias podem ser abusados, observados, escutados, controlados, frustrados, ameaçados; sentem que a todo o momento alguém lhes pode entrar pela casa dentro e devassar a sua vida privada até ao mais ínfimo detalhe, e têm a certeza que essa pessoa será alguém que o faz a título oficial e na qualidade de funcionário do Estado.
Um homem decide lançar um negócio de restauração. Fez o investimento, arrendou um espaço e contratou os empregados. Mas ele não pode começar o negócio antes que lhe sejam feitas uma multiplicidade de inspecções e concedidas licenças e alvarás. Tudo demora uma eternidade. Passou mais de um ano, as licenças não estão todas concedidas e faltam ainda os documentos de algumas inspecções. Ele continua a pagar a renda do espaço, os salários dos empregados, os painéis publicitários. Com o desespero próprio de quem está perto da ruína, decide abrir o restaurante ao público. Mas ele não vai conseguir dormir porque sabe que a todo o momento lhe podem fechar o restaurante, mover-lhe um processo administrativo ou mesmo criminal e o seu nome aparecer nos jornais. Será a ruína financeira e pessoal.
Uma pessoa compra uma casa antiga para a mandar restaurar e vir a habitá-la. Porém, não pode iniciar as obras, sem que uma multiplicidade de autoridades administrativas, desde a câmara municipal ao serviço de abastecimento de águas, lhe aprovem uma multiplicidade de projectos e lhe concedam uma multiplicidade de licenças. O tempo vai passar e ela vai dar-se conta que, quem manda na casa e quem vai decidir qual o tipo de caixilhos, de portas e de janelas e se a casa poderá ou não ter um jardim, não é ela, mas uma massa anónima de burocratas, engenheiros, políticos, arquitectos que trabalham na câmara e numa grande multiplicidade de outros serviços administrativos.
A administração fiscal decide que um contribuinte tem de pagar um imposto que ele, de facto, já pagou. O cidadão protesta, faz requerimentos e mais requerimentos para que o erro seja reconhecido e corrigido, sem obter resposta. O Fisco persiste no erro e ameaça-o que, senão pagar até ao dia tal, ser-lhe-ão penhorados o vencimento e as contas bancárias. O cidadão acaba por se render, e paga outra vez aquilo que já pagou, ainda por cima com juros e com coimas. O simplex afinal complica. E, não obstante, passados quinze dias, o seu patrão e o seu banco recebem ordens da administração fiscal para lhe penhorarem o vencimento e a conta bancária. Quantos requerimentos, quantos meses vão ser necessários para levantar as penhoras? E os danos que o contribuinte sofreu e a vergonha por que passou? E quem, na administração fiscal, responde por este abuso? A resposta é evidente: ninguém.
6 de Janeiro - Os que falam dela na rádio, nos jornais ou na televisão não conseguem pronunciar sequer o seu nome. Afinal a mulher era uma alternadeira. Como o mercado é flutuante, o emprego é precário. Os locais de trabalho são bares e clubes, alimentados por homens que precisam de divertimento. Trabalham muito, fazem andar a roda das nossas existências e precisam de divertimento. Sempre foi assim. É chamada a mais velha profissão do mundo. E sempre houve poderosos que se apaixonaram por elas, porque tão antigo como elas é o amor e a necessidade de amor dos homens, mesmo quando são poderosos e usam as mulheres como bens de consumo descartáveis. De vez em quando, uma mulher sai do bordel para a corte. Alguns poderosos não gostam. Acham mal. É o início da desordem, o princípio da catástrofe. As coisas não devem ser mudadas de lugar. O bordel não deve ser confundido com o sítio das outras mulheres, as donas compassivas, as nossas mulheres, que as visitam nos lares de abrigo, lhes ensinam a virtude, o bom caminho e se for preciso lhes dão ajuda de berço. Esta mulher chama-se Carolina Salgado. Viveu com os poderosos, conhece-os, aprendeu-lhes as manhas, joga o jogo deles. Há quem não queira ouvir a história. Percebe-se.
8.1.07
As crianças nos hotéis, Carolina e os portáteis nas escolas
13 de Dezembro - Segundo os jornais, já deram entrada nos tribunais do Porto e de Gaia pelo menos seis processos contra Carolina Salgado, por difamação. A confirmar-se tal informação, o Ministro da Justiça estará já a considerar convidar Carolina para ser ouvida a par das 15 maiores utilizadores empresariais que entopem a justiça portuguesa. O objectivo é aliviar os tribunais das inúmeras cobranças de dívidas relacionadas com empresas.
16 de Dezembro - Há silêncios diferentes uns dos outros: os que calam por conveniência e os que calam por desinteresse. No primeiro, e para não sair de Portugal, os que perguntavam pelo MIT; os que explicavam o génio de destruir Arafat e inventar a democracia pelas armas no Médio Oriente; os que gritavam contra Israel e o ocidente mas não se interessam pela nova guerra civil no Líbano apesar (até por causa) da «força» da ONU; os que falam em censura na RTP mas não clamam pela intervenção de quem de direito; os que percebiam imenso de futebol em Agosto e Setembro; os que não perdem tempo a saudar a «crítica» anónima ordinária até perceberem que não estão a gabar quem pensam; etc., etc. Precisam tanto do silêncio para continuar sempre na mesma, sempre a escrever mais depressa do que pensam, que até apagam as referências aos outros. Os outros escreveram a tempo. E não precisam de se repetir. Moral da história: quem precisa, cala-se, de preferência fazendo muito ruído para entreter e continuar. Quem não precisa, cala, por saber que em Portugal ter razão antes do tempo é o menos; não se pode é querer saber da razão, isso é insuportável para os que dispõem sempre da razão no tempo certo, o deles.
18 de Dezembro - Segundo uma reportagem na SIC Notícias de ontem, parece que há uma espécie de hotéis e de restaurantes em Portugal que “desaconselham” o uso de crianças pela clientela. Felizmente, para eles, não “desaconselham” o uso de “pretos”, de “chinocas”, de “gays”, de “lésbicas”, de “anormais”, de “pobres” por serem “pobres”, ou de canídeos. É que se assim fosse, certamente já lá teriam há muito tempo à porta, literalmente, toda a indignação do “politicamente correcto” português, desde as mais variadas organizações “libertárias” e contra as “injustiças”, representativas daquilo que mais "puro" há na sociedade civil, até ao Governo e à generalidade dos partidos políticos - do CDS ao BE, passando pelo PSD e pelo PS. Mas como se tratam de crianças que, provavelmente, nem sequer são mal tratadas pelos paizinhos, não há lei, não há Constituição. Isto é... a Constituição que se lixe! E já agora tenhamos esperança de que não se ande por aí a "desaconselhar" a entrada a "velhos" e "velhas" em estabelecimentos afins.
20 de Dezembro - Segundo variadíssimas cabeças com provas dadas, parece que não se pode acreditar em Carolina Salgado. E não se pode porquê? Porque a Carolina está ressabiada. Ora, convém colocar algum travão na hipocrisia. A senhora decidiu escrever um livro, procedimento ainda pouco habitual em Portugal, mas vulgar em Inglaterra ou nos Estados Unidos. Se tivesse soprado as informações aos jornalistas a coberto do anonimato não haveria qualquer escândalo. Felizmente, resolveu dar a cara. A senhora Carolina Salgado pode ser a mais miserável e mesquinha das personagens, mas o que está aqui em causa e deve ser averiguado é o que ela diz, e não as razões que a levaram a dizer.
22 de Dezembro – Lembram-se dos PC’s portáteis adquiridos pelo ministério da educação? Alguns terão sido atribuídos de forma errada. Na sequência deste processo, o ME, tentando reparar o erro, mandou um ofício e uma guia de transporte (via fax), solicitando às escolas, que não tinham recebido portáteis, que os fossem buscar às outras escolas.Como provavelmente, nenhuma escola (ou nenhum professor responsável pela escola) resolveu fazer essas viagens, o ministério encontrou uma solução que não é de todo imaginativa nem será inédita, “desbloqueando uma verba para se comprar mais portáteis” para as escolas que não receberam a encomenda inicial. Ninguém me convence que isto não faz parte de um plano bem gizado para, à revelia de critérios economicistas, aumentar o parque computacional das escolas públicas e contribuir para aumentar os efeitos do plano tecnológico.
24 de Dezembro – A Polícia britânica interrogou o primeiro-ministro Tony Blair, durante cerca de duas horas, no âmbito das investigações em curso sobre as suspeitas dum negócio de títulos nobiliárquicos. É a primeira vez que no Reino Unido um primeiro-ministro, ainda para mais em exercício, é chamado a “ajudar a Scotland Yard” em investigações criminais. O caso foi levado à Justiça depois de levantadas suspeitas a indícios de alguns financeiros e industriais terem apoiado o partido que suporta o Governo, aceitando “emprestar” avultadas somas solicitadas para dispendiosas campanhas, para serem posteriormente agraciados com títulos nobiliárquicos que, por proposta do Governo, a Monarquia lhes concedia. Sem desmerecer a pinderiquice nacional, e mal comparado, este caso seria o mesmo se a Polícia Judiciária se pusesse agora a investigar o que poderia estar por detrás dos quilos de condecorações que Sampaio distribuiu quando esteve em Belém, dando comendas e oficialatos a torto e a direito, já que cavaleiros, condes e barões não podia armar.
16 de Dezembro - Há silêncios diferentes uns dos outros: os que calam por conveniência e os que calam por desinteresse. No primeiro, e para não sair de Portugal, os que perguntavam pelo MIT; os que explicavam o génio de destruir Arafat e inventar a democracia pelas armas no Médio Oriente; os que gritavam contra Israel e o ocidente mas não se interessam pela nova guerra civil no Líbano apesar (até por causa) da «força» da ONU; os que falam em censura na RTP mas não clamam pela intervenção de quem de direito; os que percebiam imenso de futebol em Agosto e Setembro; os que não perdem tempo a saudar a «crítica» anónima ordinária até perceberem que não estão a gabar quem pensam; etc., etc. Precisam tanto do silêncio para continuar sempre na mesma, sempre a escrever mais depressa do que pensam, que até apagam as referências aos outros. Os outros escreveram a tempo. E não precisam de se repetir. Moral da história: quem precisa, cala-se, de preferência fazendo muito ruído para entreter e continuar. Quem não precisa, cala, por saber que em Portugal ter razão antes do tempo é o menos; não se pode é querer saber da razão, isso é insuportável para os que dispõem sempre da razão no tempo certo, o deles.
18 de Dezembro - Segundo uma reportagem na SIC Notícias de ontem, parece que há uma espécie de hotéis e de restaurantes em Portugal que “desaconselham” o uso de crianças pela clientela. Felizmente, para eles, não “desaconselham” o uso de “pretos”, de “chinocas”, de “gays”, de “lésbicas”, de “anormais”, de “pobres” por serem “pobres”, ou de canídeos. É que se assim fosse, certamente já lá teriam há muito tempo à porta, literalmente, toda a indignação do “politicamente correcto” português, desde as mais variadas organizações “libertárias” e contra as “injustiças”, representativas daquilo que mais "puro" há na sociedade civil, até ao Governo e à generalidade dos partidos políticos - do CDS ao BE, passando pelo PSD e pelo PS. Mas como se tratam de crianças que, provavelmente, nem sequer são mal tratadas pelos paizinhos, não há lei, não há Constituição. Isto é... a Constituição que se lixe! E já agora tenhamos esperança de que não se ande por aí a "desaconselhar" a entrada a "velhos" e "velhas" em estabelecimentos afins.
20 de Dezembro - Segundo variadíssimas cabeças com provas dadas, parece que não se pode acreditar em Carolina Salgado. E não se pode porquê? Porque a Carolina está ressabiada. Ora, convém colocar algum travão na hipocrisia. A senhora decidiu escrever um livro, procedimento ainda pouco habitual em Portugal, mas vulgar em Inglaterra ou nos Estados Unidos. Se tivesse soprado as informações aos jornalistas a coberto do anonimato não haveria qualquer escândalo. Felizmente, resolveu dar a cara. A senhora Carolina Salgado pode ser a mais miserável e mesquinha das personagens, mas o que está aqui em causa e deve ser averiguado é o que ela diz, e não as razões que a levaram a dizer.
22 de Dezembro – Lembram-se dos PC’s portáteis adquiridos pelo ministério da educação? Alguns terão sido atribuídos de forma errada. Na sequência deste processo, o ME, tentando reparar o erro, mandou um ofício e uma guia de transporte (via fax), solicitando às escolas, que não tinham recebido portáteis, que os fossem buscar às outras escolas.Como provavelmente, nenhuma escola (ou nenhum professor responsável pela escola) resolveu fazer essas viagens, o ministério encontrou uma solução que não é de todo imaginativa nem será inédita, “desbloqueando uma verba para se comprar mais portáteis” para as escolas que não receberam a encomenda inicial. Ninguém me convence que isto não faz parte de um plano bem gizado para, à revelia de critérios economicistas, aumentar o parque computacional das escolas públicas e contribuir para aumentar os efeitos do plano tecnológico.
24 de Dezembro – A Polícia britânica interrogou o primeiro-ministro Tony Blair, durante cerca de duas horas, no âmbito das investigações em curso sobre as suspeitas dum negócio de títulos nobiliárquicos. É a primeira vez que no Reino Unido um primeiro-ministro, ainda para mais em exercício, é chamado a “ajudar a Scotland Yard” em investigações criminais. O caso foi levado à Justiça depois de levantadas suspeitas a indícios de alguns financeiros e industriais terem apoiado o partido que suporta o Governo, aceitando “emprestar” avultadas somas solicitadas para dispendiosas campanhas, para serem posteriormente agraciados com títulos nobiliárquicos que, por proposta do Governo, a Monarquia lhes concedia. Sem desmerecer a pinderiquice nacional, e mal comparado, este caso seria o mesmo se a Polícia Judiciária se pusesse agora a investigar o que poderia estar por detrás dos quilos de condecorações que Sampaio distribuiu quando esteve em Belém, dando comendas e oficialatos a torto e a direito, já que cavaleiros, condes e barões não podia armar.
31.12.06
O Ensino Superior, o Charquinho e Pinto da Costa
2 de Dezembro - O Ministro do Ensino Superior anda preocupado com o estado da educação. Daí não virá mal ao mundo. Só que, num destes dias, sugeriu que os alunos do ensino superior devem trabalhar enquanto estudam, adiantando que está a preparar legislação para beneficiar financeiramente aqueles que o façam. Esta medida vai, obviamente, gerar agitação estudantil e situações de injustiça objectiva. Com facilidade imaginamos a enorme quantidade de declarações de prestação de serviços em empresas familiares que, com tanta facilidade abrem actividade nas Finanças, declarando-se terminadas pouco tempo depois.
Por isso, sugeria-se ao senhor a aplicação de outro tipo de medidas. Por exemplo, uma muito simples, em vigor no Brasil, da responsabilidade do governo Lula. Chama-se «ProUni - Universidade para Todos», e consiste num programa federal de concessão de bolsas aos alunos sem recursos, após seriação e exame prévios, cujo valor - que pode ir (e vai frequentemente) até à isenção completa, é integralmente deduzido à matéria colectável da sociedade proprietária da Universidade escolhida pelo aluno. Trata-se, por conseguinte, de uma espécie de cheque educação negativo, porque não há verdadeiramente dinheiro vivo em cima da mesa, mas uma sucessão de operações contabilísticas. Descoberta da pólvora? Nada disso, só que com este programa, simples de executar, as Universidades têm alunos, os alunos com dificuldades financeiras têm a possibilidade de frequentar Universidades, e o Estado não precisa de gastar dinheiro nem na sua formação nem a subsidiar as escolas.
6 de Dezembro - «Façam-na no bairro dos ricos!» - foi assim que reagiram os habitantes do bairro social do Charquinho à decisão da Câmara Municipal de Lisboa de instalar uma sala de chuto naquele bairro.
Duvido mas duvido mesmo que os habitantes do Charquinho venham a ser bem sucedidos na sua reivindicação. Eles deveriam ter seguido o exemplo dos habitantes de um bairro rico como Alvalade aquando da sua bem sucedida contestação à instalação dumas capelas mortuárias que a CML licenciara naquele bairro. Como se sabe as ditas capelas acabaram atiradas para a periferia ou seja para uma zona de pobres.
Não sei avaliar com rigor o impacto que tem na vizinhaça uma sala de chuto mas parece-me que não será certamente menor que o dumas capelas mortuárias.
Tenho a certeza que quem mais condena a reacção dos habitantes do bairro do Charquinho não vive lá. Tal como também não colocam os seus filhos nas escolas públicas muitos daqueles que produzem as mais belas teorias sobre o espaço de ensino-aprendizagem e muito menos frequentam os transportes públicos em determinadas áreas ou horários aqueles que discursam em seminários sobre multiculturalismo.
Estes são os cidadãos que conseguiram organizar a sua vida sob o um modelo que se pode classificar como modelo do 'condomínio fechado'. Este caracteriza-se por os seus membros defenderem para os outros tudo aquilo de que se conseguiram preservar a eles mesmos. Tudo está previsto para os outros. Até onde devem fazer as compras!
A mesma pessoa que é considerada muito corajosa e empenhada quando denuncia a violência doméstica passa ao estatuto de reaccionária e populista quando denuncia a violência nos transportes públicos. É uma destas forma de violência menos importante do que a outra? Não. O que é diferente é o discurso que sobre elas existe.
Por isso aquele inconveniente «Façam-na no bairro dos ricos!» pronunciado a propósito da criação da sala de chuto no Charquinho é uma das frases que melhor retratam as novas formas de segregação. Essas de que não se quer falar.
10 de Dezembro - Jorge Nuno Pinto da Costa gosta de mulheres. Tendo em conta os tempos que correm, aquilo que vai para aí e a sua já razoável idade, é um facto assinalável e merecedor de respeito.
Como os anos já não ajudam, tem, eventualmente, de visitar com mais assiduidade do que desejaria os cabarés da cidade do Porto. Lá as coisas parecem mais fáceis e o encanto é imediato: uma dança mais apertada, uma conversa mais íntima, uma troca de olhares, tudo isto, e mais a avançada técnica e conversa das profissionais de serviço, contribui para resultados rápidos. O homem apaixonou-se. Passeia-se em público com os frutos da sua paixão, leva-os ao «Dragão» ver a bola, apresenta-os a Primeiros-Ministros e a Presidentes da República, deixa-se fotografar na sua companhia para revistas de sociedade, escreve bilhetes amorosos, proclama juras de amor eterno. Enfim, a “primeira-dama” é credível.
Um dia, pelo excesso de evidências, apercebe-se que, afinal, aquele amor não era «sincero». Temperamental, põe a moça na rua com os trapos que trazia no corpo quando a conheceu, e ela não aprecia o tratamento. Daí até deixar de ser credível foi um pequeno passo. Diz-me com quem andas, dir-te-ei se és credível…
O resto da história já todos conhecemos. Resta apurar se ela tem alguma moral que valha a pena enunciar, e é evidente que tem. Mas… não coloquemos a carroça à frente dos bois. Atentemos na Justiça portuguesa e tenhamos esperança que ela ainda existe.
Nova Aliança, 22 / Dezambro / 2006
Por isso, sugeria-se ao senhor a aplicação de outro tipo de medidas. Por exemplo, uma muito simples, em vigor no Brasil, da responsabilidade do governo Lula. Chama-se «ProUni - Universidade para Todos», e consiste num programa federal de concessão de bolsas aos alunos sem recursos, após seriação e exame prévios, cujo valor - que pode ir (e vai frequentemente) até à isenção completa, é integralmente deduzido à matéria colectável da sociedade proprietária da Universidade escolhida pelo aluno. Trata-se, por conseguinte, de uma espécie de cheque educação negativo, porque não há verdadeiramente dinheiro vivo em cima da mesa, mas uma sucessão de operações contabilísticas. Descoberta da pólvora? Nada disso, só que com este programa, simples de executar, as Universidades têm alunos, os alunos com dificuldades financeiras têm a possibilidade de frequentar Universidades, e o Estado não precisa de gastar dinheiro nem na sua formação nem a subsidiar as escolas.
6 de Dezembro - «Façam-na no bairro dos ricos!» - foi assim que reagiram os habitantes do bairro social do Charquinho à decisão da Câmara Municipal de Lisboa de instalar uma sala de chuto naquele bairro.
Duvido mas duvido mesmo que os habitantes do Charquinho venham a ser bem sucedidos na sua reivindicação. Eles deveriam ter seguido o exemplo dos habitantes de um bairro rico como Alvalade aquando da sua bem sucedida contestação à instalação dumas capelas mortuárias que a CML licenciara naquele bairro. Como se sabe as ditas capelas acabaram atiradas para a periferia ou seja para uma zona de pobres.
Não sei avaliar com rigor o impacto que tem na vizinhaça uma sala de chuto mas parece-me que não será certamente menor que o dumas capelas mortuárias.
Tenho a certeza que quem mais condena a reacção dos habitantes do bairro do Charquinho não vive lá. Tal como também não colocam os seus filhos nas escolas públicas muitos daqueles que produzem as mais belas teorias sobre o espaço de ensino-aprendizagem e muito menos frequentam os transportes públicos em determinadas áreas ou horários aqueles que discursam em seminários sobre multiculturalismo.
Estes são os cidadãos que conseguiram organizar a sua vida sob o um modelo que se pode classificar como modelo do 'condomínio fechado'. Este caracteriza-se por os seus membros defenderem para os outros tudo aquilo de que se conseguiram preservar a eles mesmos. Tudo está previsto para os outros. Até onde devem fazer as compras!
A mesma pessoa que é considerada muito corajosa e empenhada quando denuncia a violência doméstica passa ao estatuto de reaccionária e populista quando denuncia a violência nos transportes públicos. É uma destas forma de violência menos importante do que a outra? Não. O que é diferente é o discurso que sobre elas existe.
Por isso aquele inconveniente «Façam-na no bairro dos ricos!» pronunciado a propósito da criação da sala de chuto no Charquinho é uma das frases que melhor retratam as novas formas de segregação. Essas de que não se quer falar.
10 de Dezembro - Jorge Nuno Pinto da Costa gosta de mulheres. Tendo em conta os tempos que correm, aquilo que vai para aí e a sua já razoável idade, é um facto assinalável e merecedor de respeito.
Como os anos já não ajudam, tem, eventualmente, de visitar com mais assiduidade do que desejaria os cabarés da cidade do Porto. Lá as coisas parecem mais fáceis e o encanto é imediato: uma dança mais apertada, uma conversa mais íntima, uma troca de olhares, tudo isto, e mais a avançada técnica e conversa das profissionais de serviço, contribui para resultados rápidos. O homem apaixonou-se. Passeia-se em público com os frutos da sua paixão, leva-os ao «Dragão» ver a bola, apresenta-os a Primeiros-Ministros e a Presidentes da República, deixa-se fotografar na sua companhia para revistas de sociedade, escreve bilhetes amorosos, proclama juras de amor eterno. Enfim, a “primeira-dama” é credível.
Um dia, pelo excesso de evidências, apercebe-se que, afinal, aquele amor não era «sincero». Temperamental, põe a moça na rua com os trapos que trazia no corpo quando a conheceu, e ela não aprecia o tratamento. Daí até deixar de ser credível foi um pequeno passo. Diz-me com quem andas, dir-te-ei se és credível…
O resto da história já todos conhecemos. Resta apurar se ela tem alguma moral que valha a pena enunciar, e é evidente que tem. Mas… não coloquemos a carroça à frente dos bois. Atentemos na Justiça portuguesa e tenhamos esperança que ela ainda existe.
Nova Aliança, 22 / Dezambro / 2006
13.12.06
A RTP, os salários dos privados e o preço das drogas
12 de Novembro - Para quem tem dúvidas sobre a governamentalização da RTP, o telejornal de hoje deve ser visto muito atentamente e deve motivar muitos estudos. Hoje foi o dia do debate parlamentar sobre o OE. Até aos primeiros minutos tudo esteve bem: o debate foi animado e permitiu uma peça dinâmica de contraditório. À saída o primeiro-ministro é questionado sobre declarações de Jardim. O problema é que, depois dos 15 segundos que são aceitáveis para a resposta, seguiu-se uma longa exposição de vários minutos, uma imensidade de televisão que desequilibra totalmente a reportagem, em que, num discurso limpo, se repetem pela enésima vez argumentos conhecidos das teses governamentais sobre o OE.
Ao contrário do que sucede muitas vezes, em que os próprios jornalistas, “ávidos” de informação, não deixam falar os convidados, o primeiro-ministro acaba por nunca ser interrompido por uma corte de jornalistas silenciosos ( pelo menos da RTP ) e por repetir, sem contraditório, o que acabara de dizer dentro da sala, reforçando nessa fala límpida tudo o que o governo queria dizer. Do ponto de vista jornalístico não há aí nada de novo, e é isso que é favorecer a propaganda do governo.
16 de Novembro - Nos últimos dois anos fez-se passar a ideia de que os funcionários públicos são mais bem pagos do que os trabalhadores do sector privado. E, desde a tomada de posse do actual governo, com a revelação em série de vários regimes de excepção ( os subsistemas de saúde de magistrados e polícias, as bonificações na contagem do tempo de serviço dos enfermeiros, a generosidade do fundo de pensões dos administradores do Banco de Portugal, etc ), os funcionários públicos tendem a ser vistos pela opinião pública como profissionais remunerados acima da média. Sucede que o actual governo encomendou um estudo à Capgemini Portugal sobre o perfil de salários no sector público versus sector privado. Esse estudo, elaborado em parceria com a Mercer Human Resource Consulting, contradiz as conclusões de um trabalho idêntico, da responsabilidade do Banco de Portugal, feito em 2001. De acordo com esta instituição bancária, há cinco anos, «os salários dos funcionários públicos, em especial no caso das mulheres, são significativamente superiores aos salários dos trabalhadores do sector privado [com] iguais qualificações.» Por seu lado, a Capgemini, num relatório de quase 300 páginas entregue há cinco meses ( em Junho ), e que contém «centenas de tabelas comparativas», prova o contrário. Consta que o ministério das Finanças não gostou do que leu ( isso explicará o atraso na sua divulgação? ). Na impossibilidade de transcrever tudo, ficam dez exemplos: director-geral ( + 114,10% no privado ), engenheiro ( + 76,50% no privado ), director de serviços ( + 73,70% no privado ), mecânico ( + 65,00% no privado ), gestor financeiro ( + 64,52% no privado ), assistente administrativo ( + 57,30% no privado ), electricista ( + 44,30% no privado ), enfermeiro ( + 36,80% no privado ), telefonista ( + 12,00% no privado ), investigador científico ( + 5,21% no privado ). Em contrapartida, os contabilistas (- 6,40% no privado ), os economistas ( - 5,40% no privado ), os educadores de infância e os professores do ensino básico ( - 3,28% no privado em ambos os casos ) e os arquitectos ( - 2,00% no privado ), são melhor remunerados ao serviço do Estado. A favor dos funcionários públicos têm jogado alguns factores não despiciendos: estabilidade no emprego, acesso à ADSE ( mediante desconto próprio ), carga horária de 35 horas semanais, e pensões de aposentação em regra superiores às da Segurança Social ( o cálculo é diferente ). Quanto ao dinheirinho, estamos conversados.
24 de Novembro - A capa do Público de hoje é um enigma: “Aeroporto da Ota vai ficar mais caro do que o previsto”. Fará sentido para um jornal diário de grande informação, um verdadeiro jornal de referência, comunicar no século XXI a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia? Ou publicar em tipo grande na capa "Os elefantes têm uma tromba"? Ou "A Serra da Estrela é mais alta que o Outeiro de S. Pedro"? Alguém imagina um título como "A Terra Gira em Torno do Sol"? Títulos incompreensíveis, de tão óbvios que são. Espera-se sempre que uma notícia informe, ensine, traga algo de novo. Escolher como parangona o que já toda a gente sabia? Ora…
25 de Novembro - «Os grupos privados [do sector da saúde] têm a sua política e pagam aos senhores jornalistas para porem notícias nos jornais e nas televisões.» O autor desta pérola é o ministro da Saúde. O que dizer de uma afirmação desta gravidade? No mínimo, que Correia de Campos deve - ou melhor, tem de - apresentar provas que sustentem as suas afirmações?
26 de Novembro - Ainda segundo o Público, o haxixe e o LSD são mais baratos em Portugal do que no resto da Europa. Fiquei preocupado, devem ser os únicos produtos e serviços que são mais baratos "cá" do que "lá". Imagino que tudo o resto é "cá" mais caro: a água, a luz, o gás, a gasolina, os telefones, a tv cabo, a couve, a alface, o iva, enfim: tudo aquilo onde o estado pode pôr a mão e taxar convenientemente é mais caro "cá" do que "lá".
Um conselho aos toxicodependentes: não abram muito a boca. Ou este governo decide aproveitar-se da situação e a coisa vai ficar bem mais cara. E com iva a 21 %...
Nova Aliança, 8 / 12 / 2006
Ao contrário do que sucede muitas vezes, em que os próprios jornalistas, “ávidos” de informação, não deixam falar os convidados, o primeiro-ministro acaba por nunca ser interrompido por uma corte de jornalistas silenciosos ( pelo menos da RTP ) e por repetir, sem contraditório, o que acabara de dizer dentro da sala, reforçando nessa fala límpida tudo o que o governo queria dizer. Do ponto de vista jornalístico não há aí nada de novo, e é isso que é favorecer a propaganda do governo.
16 de Novembro - Nos últimos dois anos fez-se passar a ideia de que os funcionários públicos são mais bem pagos do que os trabalhadores do sector privado. E, desde a tomada de posse do actual governo, com a revelação em série de vários regimes de excepção ( os subsistemas de saúde de magistrados e polícias, as bonificações na contagem do tempo de serviço dos enfermeiros, a generosidade do fundo de pensões dos administradores do Banco de Portugal, etc ), os funcionários públicos tendem a ser vistos pela opinião pública como profissionais remunerados acima da média. Sucede que o actual governo encomendou um estudo à Capgemini Portugal sobre o perfil de salários no sector público versus sector privado. Esse estudo, elaborado em parceria com a Mercer Human Resource Consulting, contradiz as conclusões de um trabalho idêntico, da responsabilidade do Banco de Portugal, feito em 2001. De acordo com esta instituição bancária, há cinco anos, «os salários dos funcionários públicos, em especial no caso das mulheres, são significativamente superiores aos salários dos trabalhadores do sector privado [com] iguais qualificações.» Por seu lado, a Capgemini, num relatório de quase 300 páginas entregue há cinco meses ( em Junho ), e que contém «centenas de tabelas comparativas», prova o contrário. Consta que o ministério das Finanças não gostou do que leu ( isso explicará o atraso na sua divulgação? ). Na impossibilidade de transcrever tudo, ficam dez exemplos: director-geral ( + 114,10% no privado ), engenheiro ( + 76,50% no privado ), director de serviços ( + 73,70% no privado ), mecânico ( + 65,00% no privado ), gestor financeiro ( + 64,52% no privado ), assistente administrativo ( + 57,30% no privado ), electricista ( + 44,30% no privado ), enfermeiro ( + 36,80% no privado ), telefonista ( + 12,00% no privado ), investigador científico ( + 5,21% no privado ). Em contrapartida, os contabilistas (- 6,40% no privado ), os economistas ( - 5,40% no privado ), os educadores de infância e os professores do ensino básico ( - 3,28% no privado em ambos os casos ) e os arquitectos ( - 2,00% no privado ), são melhor remunerados ao serviço do Estado. A favor dos funcionários públicos têm jogado alguns factores não despiciendos: estabilidade no emprego, acesso à ADSE ( mediante desconto próprio ), carga horária de 35 horas semanais, e pensões de aposentação em regra superiores às da Segurança Social ( o cálculo é diferente ). Quanto ao dinheirinho, estamos conversados.
24 de Novembro - A capa do Público de hoje é um enigma: “Aeroporto da Ota vai ficar mais caro do que o previsto”. Fará sentido para um jornal diário de grande informação, um verdadeiro jornal de referência, comunicar no século XXI a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia? Ou publicar em tipo grande na capa "Os elefantes têm uma tromba"? Ou "A Serra da Estrela é mais alta que o Outeiro de S. Pedro"? Alguém imagina um título como "A Terra Gira em Torno do Sol"? Títulos incompreensíveis, de tão óbvios que são. Espera-se sempre que uma notícia informe, ensine, traga algo de novo. Escolher como parangona o que já toda a gente sabia? Ora…
25 de Novembro - «Os grupos privados [do sector da saúde] têm a sua política e pagam aos senhores jornalistas para porem notícias nos jornais e nas televisões.» O autor desta pérola é o ministro da Saúde. O que dizer de uma afirmação desta gravidade? No mínimo, que Correia de Campos deve - ou melhor, tem de - apresentar provas que sustentem as suas afirmações?
26 de Novembro - Ainda segundo o Público, o haxixe e o LSD são mais baratos em Portugal do que no resto da Europa. Fiquei preocupado, devem ser os únicos produtos e serviços que são mais baratos "cá" do que "lá". Imagino que tudo o resto é "cá" mais caro: a água, a luz, o gás, a gasolina, os telefones, a tv cabo, a couve, a alface, o iva, enfim: tudo aquilo onde o estado pode pôr a mão e taxar convenientemente é mais caro "cá" do que "lá".
Um conselho aos toxicodependentes: não abram muito a boca. Ou este governo decide aproveitar-se da situação e a coisa vai ficar bem mais cara. E com iva a 21 %...
Nova Aliança, 8 / 12 / 2006
29.11.06
Matemática, a greve dos professores e a Eurodisney
4 de Novembro – Foi hoje lançado ( com coordenação de ) Nuno Crato um livro interessante. “Desastre no Ensino da Matemática: Como recuperar o tempo perdido” ( Sociedade Portuguesa de Matemática / Gradiva, Lisboa, 2006 ).
É reconhecido por toda a gente o desastre no ensino da matemática no nosso país. A extrema gravidade da coisa não suscita qualquer dúvida. Estamos ainda longe de saber como resolver o problema, mas pelo menos já se reconhece a existência de alguns problemas. Aqui há poucos anos, quando a evidência do colapso era já tão cristalina como hoje, governantes e especialistas com responsabilidades juravam a pés juntos que não havia problema algum. Jorge Sampaio chamava-lhes “diagnósticos catastrofistas” e António Teodoro preocupações “da classe média”.
Recordemos que o problema não foi detectado (e muito menos denunciado) pelo Ministério da Educação, nem por nenhum Grupo de Trabalho ou Comissão de Estudo dependente ou nomeada por esse Ministério. O problema não foi denunciado por nenhuma associação de especialistas em Ciências da Educação. Também não foi por nenhum Sindicato de Professores. E também não por nenhuma Associação de Pais, e muito menos por qualquer Associação de Estudantes.
Se hoje em dia sabemos a situação confrangedora em que nos encontramos isso deve-se a meia-dúzia de pessoas, de formação, personalidades, e preferências políticas muito diversas que, sem apoios nem subsídios, decidiram tocar a rebate. ( Estão praticamente todas no livro).
Coloca-se então a questão: é razoável esperar que as instituições que sempre se recusaram ver o problema possam agora dar a solução?
7 de Novembro – Na blogosfera surgiu um texto de Margarida Ribeiro, publicado no Abrupto sobre a greve dos professores. “A verdadeira greve dos professores seria, não estar ausente, mas cumprir as regras que o Ministério exige “stricto senso”.
Assim, os professores estariam na escola as horas semanais exigidas.
Claro que não poderiam trabalhar a preparar aulas, corrigir testes ou estudar, porque não têm gabinetes disponíveis e ninguém consegue concentrar-se numa sala de professores onde os sucessivos intervalos são 15 minutos de imperiosa e barulhenta descontracção, ou corridas esbaforidas de 5 minutos de fecha porta, desce escadarias, atravessa o pátio, sobe escadarias, troca o livro de ponto e despacha as pernas para atravessar de novo o pátio e trepar novas escadarias de um outro bloco do edifício, isto enquanto consulta rapidamente e em equilíbrio precário as suas notas sobre o que deve ser a aula seguinte..
Também seria impossível usar os computadores, numa média de 5 para setenta professores (com sorte). Quando se acaba de reformatar o programa que antes tinha sido usado por um colega e se começa um trabalho, descobre-se que estão dois professores em pé, à porta do cubículo, à espera de que acabemos. Impossível a concentração.
Claro que também que sucederiam cenas como esta:
- Setôra, arranja um bocadinho para falar comigo!!! Os meus pais nunca têm tempo!
- Setôra, o meu dente está a cair!
- Setôra, o Zé bateu-me…
E a resposta seria – “Meu filho, não posso fazer nada. Tenho muita pena mas o meu horário acaba dentro de 25 segundos.”
Depois iríamos para casa e olharíamos sem stress os materiais e instrumentos que durante anos pagámos do nosso bolso, desde computadores e impressoras (esses, valha a verdade, com alguma redução no IRS) os dossiers, as rimas de papel, os livros, dezenas e dezenas de livros, os Cds, as canetas, os acetatos, etc, etc (todos estes sem qualquer desconto no IRS). Nada para ali fazer, o nosso horário estaria cumprido. Poderíamos até despachar toda aquela tralha que durante tantos anos nos obrigou a pagar uma casa maior.
………………………
É no entanto impossível fazer esta greve. Nenhum verdadeiro professor seria capaz disso. Nenhum verdadeiro professor quereria dar aos seus alunos o exemplo de incumprimento de tarefas, nenhum verdadeiro professor deixa de consolar e ajudar um aluno aflito, sejam quais forem as horas para que será obrigado a atrasar a sua saída do local de trabalho.”
Portanto, tendo-lhe sido impossível fazer uma parte importante do seu trabalho na escola durante as horas obrigatórias de presença, enfrenta em casa mais 2, 3 ou 4 horas de papéis, computador o caneta vermelha. Se, de estafado, não consegue, olhará o fim-de-semana como a salvação. Os fins-de-semana já eram a salvação dos professores, em muitos casos. Temo é que agora deixem de ser tempo suficiente antes de se ir para o hospital.”
8 de Novembro – Dificilmente encontraremos, em alguns sectores, uma Câmara Municipal mais benemérita do que a de Abrantes. Depois das festinhas para as crianças, as escolinhas, os escuteiros, a cultura da cidade tem agora as feiras de doçaria que servem, alegadamente, para pagar viagens à Eurodisney. Pessoalmente, preferia organizações cujo lucro revertesse para as obras de canalização que a população merece. Quantas feiras da doçaria será necessário organizar? Não seria possível patrocinar uma equipa de basebol ? A publicidade nas camisolas poderia ostentar: “Novas Canalizações” ou “Água, a Vergonha da Cidade?
É reconhecido por toda a gente o desastre no ensino da matemática no nosso país. A extrema gravidade da coisa não suscita qualquer dúvida. Estamos ainda longe de saber como resolver o problema, mas pelo menos já se reconhece a existência de alguns problemas. Aqui há poucos anos, quando a evidência do colapso era já tão cristalina como hoje, governantes e especialistas com responsabilidades juravam a pés juntos que não havia problema algum. Jorge Sampaio chamava-lhes “diagnósticos catastrofistas” e António Teodoro preocupações “da classe média”.
Recordemos que o problema não foi detectado (e muito menos denunciado) pelo Ministério da Educação, nem por nenhum Grupo de Trabalho ou Comissão de Estudo dependente ou nomeada por esse Ministério. O problema não foi denunciado por nenhuma associação de especialistas em Ciências da Educação. Também não foi por nenhum Sindicato de Professores. E também não por nenhuma Associação de Pais, e muito menos por qualquer Associação de Estudantes.
Se hoje em dia sabemos a situação confrangedora em que nos encontramos isso deve-se a meia-dúzia de pessoas, de formação, personalidades, e preferências políticas muito diversas que, sem apoios nem subsídios, decidiram tocar a rebate. ( Estão praticamente todas no livro).
Coloca-se então a questão: é razoável esperar que as instituições que sempre se recusaram ver o problema possam agora dar a solução?
7 de Novembro – Na blogosfera surgiu um texto de Margarida Ribeiro, publicado no Abrupto sobre a greve dos professores. “A verdadeira greve dos professores seria, não estar ausente, mas cumprir as regras que o Ministério exige “stricto senso”.
Assim, os professores estariam na escola as horas semanais exigidas.
Claro que não poderiam trabalhar a preparar aulas, corrigir testes ou estudar, porque não têm gabinetes disponíveis e ninguém consegue concentrar-se numa sala de professores onde os sucessivos intervalos são 15 minutos de imperiosa e barulhenta descontracção, ou corridas esbaforidas de 5 minutos de fecha porta, desce escadarias, atravessa o pátio, sobe escadarias, troca o livro de ponto e despacha as pernas para atravessar de novo o pátio e trepar novas escadarias de um outro bloco do edifício, isto enquanto consulta rapidamente e em equilíbrio precário as suas notas sobre o que deve ser a aula seguinte..
Também seria impossível usar os computadores, numa média de 5 para setenta professores (com sorte). Quando se acaba de reformatar o programa que antes tinha sido usado por um colega e se começa um trabalho, descobre-se que estão dois professores em pé, à porta do cubículo, à espera de que acabemos. Impossível a concentração.
Claro que também que sucederiam cenas como esta:
- Setôra, arranja um bocadinho para falar comigo!!! Os meus pais nunca têm tempo!
- Setôra, o meu dente está a cair!
- Setôra, o Zé bateu-me…
E a resposta seria – “Meu filho, não posso fazer nada. Tenho muita pena mas o meu horário acaba dentro de 25 segundos.”
Depois iríamos para casa e olharíamos sem stress os materiais e instrumentos que durante anos pagámos do nosso bolso, desde computadores e impressoras (esses, valha a verdade, com alguma redução no IRS) os dossiers, as rimas de papel, os livros, dezenas e dezenas de livros, os Cds, as canetas, os acetatos, etc, etc (todos estes sem qualquer desconto no IRS). Nada para ali fazer, o nosso horário estaria cumprido. Poderíamos até despachar toda aquela tralha que durante tantos anos nos obrigou a pagar uma casa maior.
………………………
É no entanto impossível fazer esta greve. Nenhum verdadeiro professor seria capaz disso. Nenhum verdadeiro professor quereria dar aos seus alunos o exemplo de incumprimento de tarefas, nenhum verdadeiro professor deixa de consolar e ajudar um aluno aflito, sejam quais forem as horas para que será obrigado a atrasar a sua saída do local de trabalho.”
Portanto, tendo-lhe sido impossível fazer uma parte importante do seu trabalho na escola durante as horas obrigatórias de presença, enfrenta em casa mais 2, 3 ou 4 horas de papéis, computador o caneta vermelha. Se, de estafado, não consegue, olhará o fim-de-semana como a salvação. Os fins-de-semana já eram a salvação dos professores, em muitos casos. Temo é que agora deixem de ser tempo suficiente antes de se ir para o hospital.”
8 de Novembro – Dificilmente encontraremos, em alguns sectores, uma Câmara Municipal mais benemérita do que a de Abrantes. Depois das festinhas para as crianças, as escolinhas, os escuteiros, a cultura da cidade tem agora as feiras de doçaria que servem, alegadamente, para pagar viagens à Eurodisney. Pessoalmente, preferia organizações cujo lucro revertesse para as obras de canalização que a população merece. Quantas feiras da doçaria será necessário organizar? Não seria possível patrocinar uma equipa de basebol ? A publicidade nas camisolas poderia ostentar: “Novas Canalizações” ou “Água, a Vergonha da Cidade?
15.11.06
Scuts, Rivoli e TLEBS
19 de Outubro – O Governo vai colocar portagens nas scuts.Em 11 de Dezembro de 2004, numa das poucas questões respondidas aos jornalistas sobre a região, Sócrates disse que "caso seja eleito – primeiro-ministro, como veio a ser - , as auto-estradas sem custo para o utilizador, SCUT's, vão permanecer sem custos". Na óptica do candidato, "não faz qualquer sentido estar a colocar portagens neste tipo de vias". O ex-ministro do Ambiente recordou ainda que estas vias foram "obras socialistas" e se nessa altura foram projectadas para não terem portagens "não seria agora, que pela mão do PS, as portagens se tornassem realidade para os utilizadores".» Foi apenas mais um momento “húngaro” de Sócrates.
20 de Outubro – O senhor Amaral Tomás, dos Assuntos Fiscais, veio "garantir" que a retirada de benefícios fiscais a deficientes só vai afectar uns cento e tal. Parece que isto se mede assim, às dezenas ou às centenas.
21 de Outubro – A propósito do Rivoli apetece perguntar se subsídio à cultura" e "cultura" são sinónimos? Lendo-se o que alguns críticos do liberalismo escrevem parece que sim. Ao que parece quem é contra o "subsídio à cultura" só pode ser contra a "cultura". Ora esta tese só é defensável se se pensar que "cultura e "subsídio à cultura" são a mesma coisa. Esta identidade entre a "cultura" e "subsídio à cultura" é curiosa sobretudo quando vinda de quem acusa os liberais de economicismo.a definição de cultura defendida por determinados artistas foi concebida para que se torne impossível qualquer avaliação dos resultados. A cultura é definida como aquilo que os artistas fazem, aquilo que os artistas consideram que tem valor, algo de intangível que não se pode pôr em causa e algo de que o grande público não gosta. Desta forma, o que um artista fizer está sempre bem porque é cultura, só os artistas é que podem criticar a cultura porque só eles a entendem e se o público gosta já não é cultura, é enlatado. Desta forma, os artistas, façam o que fizerem, são inimputáveis.
22 de Outubro - Um dos critérios definidos pelo Governo para introduzir portagens nas SCUT prende-se com o facto de os automobilistas disporem de uma alternativa que permita fazer o mesmo percurso num tempo máximo de até 1,3 vezes. Quer o Governo dizer com isto que o tempo a levar numa alternativa pode ir até mais 130% do que numa SCUT, e não 30%. Questionada pelo JN sobre a questão dos 1,3 vezes e dos 30%, e garantindo que tudo foi devidamente explicado na conferência de imprensa, fonte oficial do Ministério das Obras Públicas frisou que o acréscimo será de até 130% (e não 30%). Por exemplo, se na SCUT que nos leva até Viana do Castelo demoramos 60 minutos, quer com isto dizer que na alternativa poderemos demorar até 138 minutos, ou seja, até 2 horas e 18 minutos. Isto é, 60 minutos a multiplicar por 2,3 vezes. O documento disponibilizado pelo Ministério aos jornalistas refere "Foi assumido um índice de referência de 1,3 vezes (...)".
24 de Outubro - Se bem percebi o estado português propõe-se dar seringas aos detidos mas não só não cria salas de chuto - porque isso seria tornar lícito o consumo de drogas nas cadeias - como também não fornece a droga. Coloca-se então a questão: fornece as seringas para quê? Será para estimular o tráfico nas cadeias? E se não se define um local onde os detidos de podem injectar – dado que isso seria tornar lícito o consumo de drogas nas cadeias - quer isso dizer que alguns detidos vão andar a passear com seringas que injectam em quem e nos locais que lhes apetecer?
1 de Novembro – Dez mil escoceses meteram-se em vários aviões e vieram a Lisboa conhecer a Catedral e ver jogar o Benfica. Houve tempo até para homenagear o malogrado Féher. Pelo meio não destruíram nenhuma estação de serviço, não provocaram desacatos na Baixa, nem trouxeram nenhum guarda Abel. Por uma vez, ficaram muito bem as camisolas verdes e brancas na Luz.
3 de Novembro – Estou ainda a tentar perceber a "Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário" ( a já célebre TLEBS ). Questiono-me, desde logo, pela oportunidade e utilidade do exercício. Vejamos alguns exemplos, encontrados por Vasco Graça Moura:
«Entre outros, há pronomes indefinidos que dão agora pelos nomes sorumbáticos de “quantificadores indefinidos”, “quantificadores universais” e “quantificadores relativos”. Nos advérbios, encontramos coisas alucinantes como “advérbios disjuntos avaliativos”, “advérbios disjuntos modais”, “advérbios disjuntos reforçadores da verdade da asserção” e “advérbios disjuntos restritivos da verdade da asserção”. O sujeito indefinido passa a ser o luminoso “sujeito nulo expletivo”. O “aposto ou continuado” chama-se bombasticamente “modificador do nome apositivo”, podendo ser do tipo “nominal”, “adjectival”, “proposicional” ou “frásico”...»
Não sei se reparam no barroco das expressões, na complexidade dos arranjos vocabulares e na fabulosa orgia sonora. Parece que alguém anda a tomar umas substâncias estranhas…
Nova Aliança, 10 / 11 / 2006
20 de Outubro – O senhor Amaral Tomás, dos Assuntos Fiscais, veio "garantir" que a retirada de benefícios fiscais a deficientes só vai afectar uns cento e tal. Parece que isto se mede assim, às dezenas ou às centenas.
21 de Outubro – A propósito do Rivoli apetece perguntar se subsídio à cultura" e "cultura" são sinónimos? Lendo-se o que alguns críticos do liberalismo escrevem parece que sim. Ao que parece quem é contra o "subsídio à cultura" só pode ser contra a "cultura". Ora esta tese só é defensável se se pensar que "cultura e "subsídio à cultura" são a mesma coisa. Esta identidade entre a "cultura" e "subsídio à cultura" é curiosa sobretudo quando vinda de quem acusa os liberais de economicismo.a definição de cultura defendida por determinados artistas foi concebida para que se torne impossível qualquer avaliação dos resultados. A cultura é definida como aquilo que os artistas fazem, aquilo que os artistas consideram que tem valor, algo de intangível que não se pode pôr em causa e algo de que o grande público não gosta. Desta forma, o que um artista fizer está sempre bem porque é cultura, só os artistas é que podem criticar a cultura porque só eles a entendem e se o público gosta já não é cultura, é enlatado. Desta forma, os artistas, façam o que fizerem, são inimputáveis.
22 de Outubro - Um dos critérios definidos pelo Governo para introduzir portagens nas SCUT prende-se com o facto de os automobilistas disporem de uma alternativa que permita fazer o mesmo percurso num tempo máximo de até 1,3 vezes. Quer o Governo dizer com isto que o tempo a levar numa alternativa pode ir até mais 130% do que numa SCUT, e não 30%. Questionada pelo JN sobre a questão dos 1,3 vezes e dos 30%, e garantindo que tudo foi devidamente explicado na conferência de imprensa, fonte oficial do Ministério das Obras Públicas frisou que o acréscimo será de até 130% (e não 30%). Por exemplo, se na SCUT que nos leva até Viana do Castelo demoramos 60 minutos, quer com isto dizer que na alternativa poderemos demorar até 138 minutos, ou seja, até 2 horas e 18 minutos. Isto é, 60 minutos a multiplicar por 2,3 vezes. O documento disponibilizado pelo Ministério aos jornalistas refere "Foi assumido um índice de referência de 1,3 vezes (...)".
24 de Outubro - Se bem percebi o estado português propõe-se dar seringas aos detidos mas não só não cria salas de chuto - porque isso seria tornar lícito o consumo de drogas nas cadeias - como também não fornece a droga. Coloca-se então a questão: fornece as seringas para quê? Será para estimular o tráfico nas cadeias? E se não se define um local onde os detidos de podem injectar – dado que isso seria tornar lícito o consumo de drogas nas cadeias - quer isso dizer que alguns detidos vão andar a passear com seringas que injectam em quem e nos locais que lhes apetecer?
1 de Novembro – Dez mil escoceses meteram-se em vários aviões e vieram a Lisboa conhecer a Catedral e ver jogar o Benfica. Houve tempo até para homenagear o malogrado Féher. Pelo meio não destruíram nenhuma estação de serviço, não provocaram desacatos na Baixa, nem trouxeram nenhum guarda Abel. Por uma vez, ficaram muito bem as camisolas verdes e brancas na Luz.
3 de Novembro – Estou ainda a tentar perceber a "Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário" ( a já célebre TLEBS ). Questiono-me, desde logo, pela oportunidade e utilidade do exercício. Vejamos alguns exemplos, encontrados por Vasco Graça Moura:
«Entre outros, há pronomes indefinidos que dão agora pelos nomes sorumbáticos de “quantificadores indefinidos”, “quantificadores universais” e “quantificadores relativos”. Nos advérbios, encontramos coisas alucinantes como “advérbios disjuntos avaliativos”, “advérbios disjuntos modais”, “advérbios disjuntos reforçadores da verdade da asserção” e “advérbios disjuntos restritivos da verdade da asserção”. O sujeito indefinido passa a ser o luminoso “sujeito nulo expletivo”. O “aposto ou continuado” chama-se bombasticamente “modificador do nome apositivo”, podendo ser do tipo “nominal”, “adjectival”, “proposicional” ou “frásico”...»
Não sei se reparam no barroco das expressões, na complexidade dos arranjos vocabulares e na fabulosa orgia sonora. Parece que alguém anda a tomar umas substâncias estranhas…
Nova Aliança, 10 / 11 / 2006
2.11.06
Taxa moderadora, Prémio Nobel da Paz, Prós e... Prós
11 de Outubro – A explicação de que “existem nove países na Europa que têm taxa moderadora no internamento” dada pelo ministro da Saúde é ridícula. Quantos países constituem a Europa? E quantos são mais ricos que Portugal? Pode um português pagar tanto como um alemão? Já agora, lembra-se o leitor qual a opinião de Sócrates sobre este tema em 2004? ( Na altura, o primeiro-ministro chamava-se Pedro Santana Lopes e
o objectivo da medida que agora se discute era garantir a sustentabilidade do SNS, permitindo aos mais pobres não pagar pelo acesso à saúde. “Quem não pode pagar, não paga. Quem pode mais, paga”, afirmava então Santana.) Em declarações à TSF, o então candidato à liderança socialista José Sócrates afirmou que a intenção do Governo não é a de promover a justiça social mas “criar um novo imposto sobre a saúde”. “Se o primeiro-ministro quer aumentar as receitas tem uma forma fácil de o fazer que é combater a fraude e evasão fiscal”, afirmou. Que exemplo de seriedade... ou como nos dá jeito a memória...
13 de Outubro – Sexta-feira, dia de peregrinação a Fátima. O ministro da Economia afirma que a crise acabou. Que bom!!! Terá sido resultado da gigantesca manifestação? Ficamos todos mais descansados: sobrará menos mês no fim do ordenado, nenhuma fábrica fechará, todos teremos emprego, não existirão mais manifestações nas ruas nem motivo para greves. O ministro estampou-se? Não, digamos apenas que não economiza no disparate.
14 de Outubro - O Prémio Nobel da Paz não poderia ser mais bem atribuído. Muhammad Yunus poderia ter permanecido nos Estados Unidos, onde estudou, poderia estar a trabalhar no Banco Mundial em Washington produzindo quilos de papel sobre estratégias de combate à pobreza, poderia escrever artigos de investigação matematicamente sofisticados sobre crescimento e desenvolvimento económico. Contudo, optou por regressar ao Bangladesh e ensinar economia fora da sala de aula observando, como um verdadeiro cientista, o pulsar da actividade diária na luta pela mais básica das necessidades, a alimentação. E, através do microcrédito, encontrou uma solução para o problema da pobreza de muitas pessoas sem sofisticados papéis de investigação.
A solução de Yunus é também um desafio para aceitar repensar o funcionamento dos bancos. A ortodoxia diz que as taxas de juro devem ser mais elevadas para quem tem menos hipótese de pagar o crédito. É este o modo de funcionamento assim dos bancos funcionam. Por isso é conhecida a imagem: "emprestar um guarda-chuva quando está sol e pedir que o devolvam quando começa a chover".
15 de Outubro - Os pais de uma escola pública em Sete Rios, Lisboa fecharam a cadeado a escola pois, para 300 alunos, existem apenas duas auxiliares de acção educativa. A DREL classificou o facto de "terrorista" e mandou a polícia repor a ordem. Também hoje, no Porto, um grupo de gente ligada ao teatro ocupou o Teatro Rivoli que é tutelado pelo município. A Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, afirmou tratar-se de uma "original e inovadora forma de luta" e até ofereceu os seus bons ofícios para "mediar" o conflito com a Câmara do Porto. É óbvio que se a Câmara do Porto fosse gerida pelo PS este último acto também seria "terrorismo", todavia, a ministra, que por acaso também é do Porto, prefere falar em originalidade e inovação das formas de luta. Será que se eu juntar quarenta pessoas para protestar contra a qualidade da água abrantina ( e garanto que não preciso sequer de um partido ) e ocupar os Serviços Municipalizados o evento passa em todos os telejornais com tanto tempo como os protestantes junto do Rivoli, com directos e entrevistas, tenho o ministro do Ambiente logo disposto a receber-me, sou tratado com benevolência como "povo" genuíno e ninguém me tira de dentro do edifício? Duvido.
16 de Outubro – Ao contrário do Prós e Prós onde se discutiu o novo Estatuto da Carreira Docente e onde apenas se ouviram vozes pró-ministra, o Prós e Contras de hoje sobre os dinheiros das autarquias foi um programa notável. Registe-se o facto de se terem convidado, desta vez, algumas vozes críticas, neste caso os autarcas que mostraram um grande domínio da realidade, um muito bom conhecimento dos mecanismos perversos da nova legislação e uma grande capacidade argumentativa. Ao contrário, António Costa foi de uma agressividade malcriada, roçando o insulto, autoritário e demagógico até ao limite. Fernando Ruas comportou-se com uma enorme delicadeza de trato e necessitou de muita paciência e sangue frio para não responder aos golpes baixos do Ministro, aos quais não era alheio um desprezo intelectual pelos seus interlocutores.
17 de Outubro – Dois fóruns televisivos sensivelmente à mesma hora sobre a greve dos professores: o da SIC Notícias recebe opiniões a favor e contra a greve, o da RTPN tem 99% de opiniões contra a greve. Um telespectador do canal público telefona, refere isso mesmo e pergunta as razões. A pivô gagueja e o telefonema é cortado. Serviço público, Portugal, 2006.
Nova Aliança, 27 / 10 / 2006
o objectivo da medida que agora se discute era garantir a sustentabilidade do SNS, permitindo aos mais pobres não pagar pelo acesso à saúde. “Quem não pode pagar, não paga. Quem pode mais, paga”, afirmava então Santana.) Em declarações à TSF, o então candidato à liderança socialista José Sócrates afirmou que a intenção do Governo não é a de promover a justiça social mas “criar um novo imposto sobre a saúde”. “Se o primeiro-ministro quer aumentar as receitas tem uma forma fácil de o fazer que é combater a fraude e evasão fiscal”, afirmou. Que exemplo de seriedade... ou como nos dá jeito a memória...
13 de Outubro – Sexta-feira, dia de peregrinação a Fátima. O ministro da Economia afirma que a crise acabou. Que bom!!! Terá sido resultado da gigantesca manifestação? Ficamos todos mais descansados: sobrará menos mês no fim do ordenado, nenhuma fábrica fechará, todos teremos emprego, não existirão mais manifestações nas ruas nem motivo para greves. O ministro estampou-se? Não, digamos apenas que não economiza no disparate.
14 de Outubro - O Prémio Nobel da Paz não poderia ser mais bem atribuído. Muhammad Yunus poderia ter permanecido nos Estados Unidos, onde estudou, poderia estar a trabalhar no Banco Mundial em Washington produzindo quilos de papel sobre estratégias de combate à pobreza, poderia escrever artigos de investigação matematicamente sofisticados sobre crescimento e desenvolvimento económico. Contudo, optou por regressar ao Bangladesh e ensinar economia fora da sala de aula observando, como um verdadeiro cientista, o pulsar da actividade diária na luta pela mais básica das necessidades, a alimentação. E, através do microcrédito, encontrou uma solução para o problema da pobreza de muitas pessoas sem sofisticados papéis de investigação.
A solução de Yunus é também um desafio para aceitar repensar o funcionamento dos bancos. A ortodoxia diz que as taxas de juro devem ser mais elevadas para quem tem menos hipótese de pagar o crédito. É este o modo de funcionamento assim dos bancos funcionam. Por isso é conhecida a imagem: "emprestar um guarda-chuva quando está sol e pedir que o devolvam quando começa a chover".
15 de Outubro - Os pais de uma escola pública em Sete Rios, Lisboa fecharam a cadeado a escola pois, para 300 alunos, existem apenas duas auxiliares de acção educativa. A DREL classificou o facto de "terrorista" e mandou a polícia repor a ordem. Também hoje, no Porto, um grupo de gente ligada ao teatro ocupou o Teatro Rivoli que é tutelado pelo município. A Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, afirmou tratar-se de uma "original e inovadora forma de luta" e até ofereceu os seus bons ofícios para "mediar" o conflito com a Câmara do Porto. É óbvio que se a Câmara do Porto fosse gerida pelo PS este último acto também seria "terrorismo", todavia, a ministra, que por acaso também é do Porto, prefere falar em originalidade e inovação das formas de luta. Será que se eu juntar quarenta pessoas para protestar contra a qualidade da água abrantina ( e garanto que não preciso sequer de um partido ) e ocupar os Serviços Municipalizados o evento passa em todos os telejornais com tanto tempo como os protestantes junto do Rivoli, com directos e entrevistas, tenho o ministro do Ambiente logo disposto a receber-me, sou tratado com benevolência como "povo" genuíno e ninguém me tira de dentro do edifício? Duvido.
16 de Outubro – Ao contrário do Prós e Prós onde se discutiu o novo Estatuto da Carreira Docente e onde apenas se ouviram vozes pró-ministra, o Prós e Contras de hoje sobre os dinheiros das autarquias foi um programa notável. Registe-se o facto de se terem convidado, desta vez, algumas vozes críticas, neste caso os autarcas que mostraram um grande domínio da realidade, um muito bom conhecimento dos mecanismos perversos da nova legislação e uma grande capacidade argumentativa. Ao contrário, António Costa foi de uma agressividade malcriada, roçando o insulto, autoritário e demagógico até ao limite. Fernando Ruas comportou-se com uma enorme delicadeza de trato e necessitou de muita paciência e sangue frio para não responder aos golpes baixos do Ministro, aos quais não era alheio um desprezo intelectual pelos seus interlocutores.
17 de Outubro – Dois fóruns televisivos sensivelmente à mesma hora sobre a greve dos professores: o da SIC Notícias recebe opiniões a favor e contra a greve, o da RTPN tem 99% de opiniões contra a greve. Um telespectador do canal público telefona, refere isso mesmo e pergunta as razões. A pivô gagueja e o telefonema é cortado. Serviço público, Portugal, 2006.
Nova Aliança, 27 / 10 / 2006
16.10.06
Pinho, a Ópera de Berlim e as agressões a professores
23 de Setembro - Iniciativas como o Compromisso Portugal, desde que na dose certa, podem ser úteis. Mas só por si não servem de muito. Esses senhores defendem o encerramento de postos de trabalho, o apertar do cinto nas famílias mas os seus lucros continuam a subir vertiginosamente. Ou seja, os apertos são para os outros, a riqueza vem para nós. Seria bom que, aproveitando a boa vontade demonstrada, os promotores do Compromisso Portugal começassem a dar mais o dinheiro e menos a cara.
24 de Setembro – Segundo os jornais, Portugal é um dos países da União Europeia com maior número de automóveis por habitante, ocupando o terceiro lugar de uma tabela liderada pelo Luxemburgo, segundo dados divulgados, em Bruxelas, pelo Eurostat. Portugal tinha, em 2004, 572 automóveis por mil habitantes, sendo a média dos 25 de 472 carros por mil habitantes. Percebemos agora a razão da entrada todas as manhãs em Lisboa de milhares de veículos que transportam apenas o seu condutor. Definitivamente, não gostamos dos nossos vizinhos.
25 de Setembro – Quando, no dia 27 de Outubro de 2003, Gilles de Robien, ministro francês dos Transportes, foi apanhado em excesso de velocidade por um radar não oficial de uma revista, a caminho de um evento público com escolta motorizada, prontamente pediu desculpas, apesar de todas as atenuantes. Referiu que a escolta “não é desculpa” e que “ninguém está acima das leis de trânsito”. No sábado, dia 9 de Setembro, o ministro da Economia português, Manuel Pinho, foi apanhado a 212 km/h na auto-estrada do Norte, quando ia para uma reunião sem escolta policial nem qualquer medida excepcional de segurança rodoviária. Ao contrário do francês, o português calou-se. Mandou dizer que tinha saído atrasado de casa e que não fazia comentários porque o assunto era “muito desagradável”. Sim, é verdade, os países são muito diferentes…
26 de Setembro – A notícia “A descida efectiva das despesas do Estado com salários deve-se quase exclusivamente à diminuição destes encargos com os professores” percorreu a imprensa dos últimos dias. É verdade, sim senhor. Mas também é verdade que, no meu caso pessoal, e devido ao bloqueio nas subidas de escalão, o Estado está a roubar-me 12 meses X cento e tal euros por mês. Quantos professores estarão na mesma situação? Bastantes e desta forma é fácil subir as receitas. É só fazer as contas. E os políticos, também ficarão sem subir de escalão?
27 de Setembro – A Ópera de Berlim cancelou a produção de "Idomeneo", de Mozart, com medo do ofender os muçulmanos, radicais ou moderados. No programa «Bom dia Portugal» noticia-se a substituição pela ópera de Berlim do «Idomeneo». Ora, se bem entendo, o censurado e perseguido passa a provocador. A censura passa a acto de respeito.O medo é travestido em sinal de tolerância. A capitulação passa gesto de boa vontade. A intolerância chama-se susceptibilidade. Os intolerantes já nem precisam de ameaçar. Primeiro horrorizaram-nos os seus actos. Agora já pensamos como eles. Pomo-nos no lugar deles. Vasculhamos o que escrevemos, dizemos e fazemos em busca do menor sinal, som ou traço que os possa ofender. Rasuramos o que possa suscitar aquilo que antigamente se designava como fúria e ódio e que agora, na novilíngua, se designa como reacção duma susceptibilidade ofendida
28 de Setembro – Sete alunos de uma escola secundária de Alcobaça foram agredidos no interior da escola por dois jovens do sexo masculino que não frequentam o estabelecimento de ensino. O facto de não existir portaria terá facilitado a entrada dos agressores. À escola não chegam os seguranças que proliferam em organismos públicos como centros de saúde, hospitais, arquivos, bibliotecas e instituições militares. Infelizmente...
29 de Setembro – Os jornais dizem que temos um presidente da câmara vaidoso e egocêntrico q.b. Não há publicação municipal, fontanário, ruela, praça, varanda, jardim, travessa, casa do povo, junta de freguesia, urbanização, melhoramento, que não leve logo uma placa com o seu nome e/ou com a sua fotografia. De quem falo? Do Presidente da Câmara de Elvas, naturalmente.
30 de Setembro – Definitivamente o caso Apito Dourado não tem qualquer importância. Até o ouro das prendas era falsificado e tinham por isso um simples valor simbólico. Ou a corrupção levada às últimas consequências…
Conselho da quinzena: evitem cruzar-se na estrada com o ministro Pinho.
24 de Setembro – Segundo os jornais, Portugal é um dos países da União Europeia com maior número de automóveis por habitante, ocupando o terceiro lugar de uma tabela liderada pelo Luxemburgo, segundo dados divulgados, em Bruxelas, pelo Eurostat. Portugal tinha, em 2004, 572 automóveis por mil habitantes, sendo a média dos 25 de 472 carros por mil habitantes. Percebemos agora a razão da entrada todas as manhãs em Lisboa de milhares de veículos que transportam apenas o seu condutor. Definitivamente, não gostamos dos nossos vizinhos.
25 de Setembro – Quando, no dia 27 de Outubro de 2003, Gilles de Robien, ministro francês dos Transportes, foi apanhado em excesso de velocidade por um radar não oficial de uma revista, a caminho de um evento público com escolta motorizada, prontamente pediu desculpas, apesar de todas as atenuantes. Referiu que a escolta “não é desculpa” e que “ninguém está acima das leis de trânsito”. No sábado, dia 9 de Setembro, o ministro da Economia português, Manuel Pinho, foi apanhado a 212 km/h na auto-estrada do Norte, quando ia para uma reunião sem escolta policial nem qualquer medida excepcional de segurança rodoviária. Ao contrário do francês, o português calou-se. Mandou dizer que tinha saído atrasado de casa e que não fazia comentários porque o assunto era “muito desagradável”. Sim, é verdade, os países são muito diferentes…
26 de Setembro – A notícia “A descida efectiva das despesas do Estado com salários deve-se quase exclusivamente à diminuição destes encargos com os professores” percorreu a imprensa dos últimos dias. É verdade, sim senhor. Mas também é verdade que, no meu caso pessoal, e devido ao bloqueio nas subidas de escalão, o Estado está a roubar-me 12 meses X cento e tal euros por mês. Quantos professores estarão na mesma situação? Bastantes e desta forma é fácil subir as receitas. É só fazer as contas. E os políticos, também ficarão sem subir de escalão?
27 de Setembro – A Ópera de Berlim cancelou a produção de "Idomeneo", de Mozart, com medo do ofender os muçulmanos, radicais ou moderados. No programa «Bom dia Portugal» noticia-se a substituição pela ópera de Berlim do «Idomeneo». Ora, se bem entendo, o censurado e perseguido passa a provocador. A censura passa a acto de respeito.O medo é travestido em sinal de tolerância. A capitulação passa gesto de boa vontade. A intolerância chama-se susceptibilidade. Os intolerantes já nem precisam de ameaçar. Primeiro horrorizaram-nos os seus actos. Agora já pensamos como eles. Pomo-nos no lugar deles. Vasculhamos o que escrevemos, dizemos e fazemos em busca do menor sinal, som ou traço que os possa ofender. Rasuramos o que possa suscitar aquilo que antigamente se designava como fúria e ódio e que agora, na novilíngua, se designa como reacção duma susceptibilidade ofendida
28 de Setembro – Sete alunos de uma escola secundária de Alcobaça foram agredidos no interior da escola por dois jovens do sexo masculino que não frequentam o estabelecimento de ensino. O facto de não existir portaria terá facilitado a entrada dos agressores. À escola não chegam os seguranças que proliferam em organismos públicos como centros de saúde, hospitais, arquivos, bibliotecas e instituições militares. Infelizmente...
29 de Setembro – Os jornais dizem que temos um presidente da câmara vaidoso e egocêntrico q.b. Não há publicação municipal, fontanário, ruela, praça, varanda, jardim, travessa, casa do povo, junta de freguesia, urbanização, melhoramento, que não leve logo uma placa com o seu nome e/ou com a sua fotografia. De quem falo? Do Presidente da Câmara de Elvas, naturalmente.
30 de Setembro – Definitivamente o caso Apito Dourado não tem qualquer importância. Até o ouro das prendas era falsificado e tinham por isso um simples valor simbólico. Ou a corrupção levada às últimas consequências…
Conselho da quinzena: evitem cruzar-se na estrada com o ministro Pinho.
2.10.06
Bento XVI, a Hungria e o novo Procurador
15 de Setembro - A generalidade dos comentários à intervenção de Bento XVI oscila entre dizer que o texto "foi mal entendido", "treslido" ou nem sequer "lido"; outros, no entanto, preferem salientar a "imprudência", tratando-o sobranceiramente por "incauto"; há até quem o acuse de "atirar achas para a fogueira" e mesmo quem vislumbre uma sinistra conspiração destinada a tornar o Vaticano na sede universal da luta contra o fanatismo religioso, embusteando, pelo caminho, todos os patinhos cujo intelecto não consegue atingir tais dimensões labirínticas. Muitos dos comentadores nem sequer leram o texto…
Queria, no entanto, colocar a seguinte questão: e se o Papa quisesse mesmo dizer aquilo que tantos pensam, i.e. que o Islão tem na sua génese e na sua essência elementos de intolerância e de violência de tal modo potenciadores do fanatismo que o tornam incompatível com a modernidade e a razão?
Nesse caso, teria de pedir desculpas? E onde estão as desculpas dos líderes religiosos islâmicos pelos incontáveis crimes que nos últimos anos se têm cometido em nome do seu credo? Algum responsável muçulmano se lamentou pela utilização permanente de princípios religiosos nos massacres perpetrados em toda a parte durante a nossa geração? Desde logo, alguma vez um teólogo, intelectual, dirigente político ou líder religioso do mundo muçulmano pediu desculpas por tantos responsáveis estarem constante e publicamente a vilipendiarem outros credos, outras culturas e a demonizarem todas as formas distintas de entender o mundo em relação àquela que o profeta terá decretado há cerca de 1386 anos?
Algum de entre eles lamentou que o Corão seja utilizado como pretexto sagrado para, por exemplo, perpetuar a obscena menorização das mulheres?
17 de Setembro – “Solidariedade intergeracional” é o termo pomposo que agora se utiliza quando se referem benefícios presentes a serem pagos pelas gerações futuras. Fala-se muito disto a propósito das SCUTs e da Segurança Social. Evidentemente que as gerações futuras não são ouvidas nem achadas...
18 de Setembro – Lá como cá. Na Hungria, o primeiro-ministro confessou ter sonegado informação na campanha eleitoral, omitindo a verdadeira situação económica do país. Isso fez com que tivesse ganho as eleições. Comparando com o que se passou em Portugal, conclui-se que não é grave que o Primeiro-Ministro minta mas é grave que ele se gabe disso.
19 de Setembro - Nem a França escapa a isto: em certas escolas, há WC para “franceses” e WC para “muçulmanos”. Em tempos, na África do Sul, esta segregação tinha um nome e bem feio.
Os mesmos que defendem esta simpática divisão de crianças na hora do xixi são os mesmos que ainda hoje, passados 40 anos, relembram que na América havia WC para "brancos" e WC para "negros". A isto chamamos coerência…
20 de Setembro - Um bioquímico ligado ao Hezbollah (Hussein Haj Hassan) apresenta-nos um raciocínio bastante científico e arrojado. Diz-nos que não é anti-semita ( era só que o faltava ). Mas Hassan notou, repare-se, que os judeus são um "grupo pan-nacional que funciona duma maneira que permite aos judeus actuarem como parasitas das nações que lhes dão abrigo”.
21 de Setembro – No momento em que Oriana Fallaci nos deixa, vale a pena lembrar as suas palavras numa entrevista ao The Wall Street Journal: “O servilismo com os invasores envenenou a democracia, com consequências óbvias para a liberdade de pensamento e para o conceito de liberdade”.
22 de Setembro - Leio no Público que já há fumo branco na Justiça, com um novo Procurador-Geral da República, o magistrado Pinto Monteiro, até agora juiz conselheiro. Não conhecendo o novo PGR, lembro porém declarações proferidas em Agosto e que só o dignificam. Numa entrevista, precisamente ao Público, Pinto Monteiro dizia que os juízes novos não têm "humildade", o que "gera falta de cortesia", e que o acesso ao Supremo "é um sistema viciado". Afirmava ainda que "o Conselho Superior de Magistratura não controla rigorosamente nada quando devia ser implacável" e "não pode actuar como associação sindical". Mais, ainda, "só pode ser juiz quem deve e não quem quer". Espera-se, por isso, um PGR reformador. O que, a confirmar-se, só pode ser uma boa notícia.
Nova Aliança, 29 / 9 / 2006
Queria, no entanto, colocar a seguinte questão: e se o Papa quisesse mesmo dizer aquilo que tantos pensam, i.e. que o Islão tem na sua génese e na sua essência elementos de intolerância e de violência de tal modo potenciadores do fanatismo que o tornam incompatível com a modernidade e a razão?
Nesse caso, teria de pedir desculpas? E onde estão as desculpas dos líderes religiosos islâmicos pelos incontáveis crimes que nos últimos anos se têm cometido em nome do seu credo? Algum responsável muçulmano se lamentou pela utilização permanente de princípios religiosos nos massacres perpetrados em toda a parte durante a nossa geração? Desde logo, alguma vez um teólogo, intelectual, dirigente político ou líder religioso do mundo muçulmano pediu desculpas por tantos responsáveis estarem constante e publicamente a vilipendiarem outros credos, outras culturas e a demonizarem todas as formas distintas de entender o mundo em relação àquela que o profeta terá decretado há cerca de 1386 anos?
Algum de entre eles lamentou que o Corão seja utilizado como pretexto sagrado para, por exemplo, perpetuar a obscena menorização das mulheres?
17 de Setembro – “Solidariedade intergeracional” é o termo pomposo que agora se utiliza quando se referem benefícios presentes a serem pagos pelas gerações futuras. Fala-se muito disto a propósito das SCUTs e da Segurança Social. Evidentemente que as gerações futuras não são ouvidas nem achadas...
18 de Setembro – Lá como cá. Na Hungria, o primeiro-ministro confessou ter sonegado informação na campanha eleitoral, omitindo a verdadeira situação económica do país. Isso fez com que tivesse ganho as eleições. Comparando com o que se passou em Portugal, conclui-se que não é grave que o Primeiro-Ministro minta mas é grave que ele se gabe disso.
19 de Setembro - Nem a França escapa a isto: em certas escolas, há WC para “franceses” e WC para “muçulmanos”. Em tempos, na África do Sul, esta segregação tinha um nome e bem feio.
Os mesmos que defendem esta simpática divisão de crianças na hora do xixi são os mesmos que ainda hoje, passados 40 anos, relembram que na América havia WC para "brancos" e WC para "negros". A isto chamamos coerência…
20 de Setembro - Um bioquímico ligado ao Hezbollah (Hussein Haj Hassan) apresenta-nos um raciocínio bastante científico e arrojado. Diz-nos que não é anti-semita ( era só que o faltava ). Mas Hassan notou, repare-se, que os judeus são um "grupo pan-nacional que funciona duma maneira que permite aos judeus actuarem como parasitas das nações que lhes dão abrigo”.
21 de Setembro – No momento em que Oriana Fallaci nos deixa, vale a pena lembrar as suas palavras numa entrevista ao The Wall Street Journal: “O servilismo com os invasores envenenou a democracia, com consequências óbvias para a liberdade de pensamento e para o conceito de liberdade”.
22 de Setembro - Leio no Público que já há fumo branco na Justiça, com um novo Procurador-Geral da República, o magistrado Pinto Monteiro, até agora juiz conselheiro. Não conhecendo o novo PGR, lembro porém declarações proferidas em Agosto e que só o dignificam. Numa entrevista, precisamente ao Público, Pinto Monteiro dizia que os juízes novos não têm "humildade", o que "gera falta de cortesia", e que o acesso ao Supremo "é um sistema viciado". Afirmava ainda que "o Conselho Superior de Magistratura não controla rigorosamente nada quando devia ser implacável" e "não pode actuar como associação sindical". Mais, ainda, "só pode ser juiz quem deve e não quem quer". Espera-se, por isso, um PGR reformador. O que, a confirmar-se, só pode ser uma boa notícia.
Nova Aliança, 29 / 9 / 2006
20.9.06
Gunter Grass, o "caso Mateus" e George Steiner
22 de Agosto – Gunter Grass é um dos ícones da esquerda europeia. Habituou-nos a reconhecê-lo como alguém que corta a direito e que gosta de dar lições aos outros. A verdade é que não passa de um hipócrita. Aos 78 anos revelou ter pertencido a um corpo de elite das tropas SS alemãs. Em 1985 foi um dos que protestaram por Reegan e Kohl terem visitado um cemitério militar porque nele havia… soldados SS. Onde pára a ética?
O ministro Costa continua a enaltecer o facto de existir este ano menos área ardida. Esquece-se que o que ardeu nos anos anteriores não volta a arder este ano. Entretanto, Sócrates está de férias pelo segundo ano consecutivo na altura dos fogos, pelo que se presume que não perca muitas horas no resto do ano a tentar arranjar uma solução. Aproveitando a época estival, o ministro da Agricultura, Jaime Silva, responsável pela manutenção e limpeza das florestas, teve a brilhante ideia de pôr as meninas dos Morangos com Açúcar a comer maçãs de forma a ajudar a Associação dos Produtores de Maçã de Alcobaça. Em pleno Agosto, o grave não é ele ter-se lembrado disso, é gabar-se…
Os não fumadores pertencem a uma minoria. Por isso não têm direitos. Ao contrário, os fumadores estão do lado da força, podem entrar em qualquer lugar público e exigir um espaço para poder exercer o seu direito. Por momentos, o mundo tremeu, o governo preparava-se para legislar contra esse direito e determinava que em espaços públicos o tabaco ficava à porta. Calma, não se entusiasmem. Se o governo governa para a maioria pensou, pensou e afinal decidiu que caberá aos gestores dos espaços públicos decidir se devem ou não proibir os fumadores. Quem é amigo, quem é?
24 de Agosto – Dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. O jornal anuncia:”O Hospital Distrital de Évora anunciou ontem o arranque das obras de instalação do sistema de ar condicionado, abrangendo a totalidade das 238 camas do edifício do Espírito Santo…”.Em Portugal ainda há hospitais sem ar condicionado? A instalação deste equipamento merece comunicado da administração do hospital? As obras vão demorar um ano? E tudo isto é notícia de jornal? O “sim” às três questões é o mais terrível dos sinais da nossa miséria.
Um filme português que teve 488 espectadores recebeu do Estado 135 mil contos, 518 mil euros. Façam lá as contas, dou-vos algum tempo…, …, …exactamente, são 277 contos, mais de mil euros por espectador que todos nós pagámos…
Apesar de todos as perseguições feitas aos funcionários públicos, a despesa pública cresce a olhos vistos. Como é possível? Inaptidão ou incompetência? Por certo as duas. Quem serão os próximos perseguidos?
26 de Agosto – Numa notável peça jurídica, um Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa, falando do “caso Mateus” e do Gil Vicente, concluiu: “pelo exposto, indefere-se o decretamento provisório das medidas cautelares requeridas. A linguagem parece-me curda e, confesso, eu não a domino. Como cidadão médio, o meu objectivo é querer saber se vivo num país com uma língua oficial que um cidadão médio entenda. Tenho dúvidas.
3 de Setembro – Nas primeiras vezes que atravessei a Espanha, admirei-me com a quantidade de campos e tabelas de basquetebol nos jardins, praças e outros espaços verdes. Lembrei-me da história hoje quando assisti em directo ao jogo da final do Campeonato do Mundo da modalidade que se realizou no Japão. A Espanha ganhou.
5 de Setembro – Na nossa sociedade, o silêncio deixou de ter qualquer importância. Em todo o lado nos dão música, seja ao telefone ou em S. Lourenço. O simples gesto de pegar na chávena e beber o café tem de ser acompanhado, por vezes, com um som estridente e, na maior parte das vezes, desajustado. É também sobre isto que fala George Steiner, provavelmente o maior pensador ocidental vivo, em “Os Logocratas” ( Relógio D’Água, Lisboa, 2006, 198 pp. ). As reflexões de Steiner conduzem-nos ao dado central nos últimos anos que tem sido o fim da relação entre o indivíduo e o livro. Não se lê. Não se memoriza. Não se pensa. Não se escreve. Os nossos adolescentes não conseguem ler em silêncio e necessitam do apoio da música como pano de fundo. A frase de Steiner “o mundo da web é a oralidade colectiva” ( p.149 ) significa que esta Internet de uso colectivo em rede representa uma ruptura com a individualidade e com os hábitos clássicos de leitura e escrita. Hoje, desenvolvem-se hábitos que apenas sobrevivem ao ruído e na constante agitação, que necessitam de uma esfera colectiva e que dependem da substituição do livro por imagens, ícones e links.
Pergunta da quinzena: até quando vão ter os moradores do centro histórico a água castanha mais cara do mundo?
Nova Aliança, 15 / 09 / 2006
O ministro Costa continua a enaltecer o facto de existir este ano menos área ardida. Esquece-se que o que ardeu nos anos anteriores não volta a arder este ano. Entretanto, Sócrates está de férias pelo segundo ano consecutivo na altura dos fogos, pelo que se presume que não perca muitas horas no resto do ano a tentar arranjar uma solução. Aproveitando a época estival, o ministro da Agricultura, Jaime Silva, responsável pela manutenção e limpeza das florestas, teve a brilhante ideia de pôr as meninas dos Morangos com Açúcar a comer maçãs de forma a ajudar a Associação dos Produtores de Maçã de Alcobaça. Em pleno Agosto, o grave não é ele ter-se lembrado disso, é gabar-se…
Os não fumadores pertencem a uma minoria. Por isso não têm direitos. Ao contrário, os fumadores estão do lado da força, podem entrar em qualquer lugar público e exigir um espaço para poder exercer o seu direito. Por momentos, o mundo tremeu, o governo preparava-se para legislar contra esse direito e determinava que em espaços públicos o tabaco ficava à porta. Calma, não se entusiasmem. Se o governo governa para a maioria pensou, pensou e afinal decidiu que caberá aos gestores dos espaços públicos decidir se devem ou não proibir os fumadores. Quem é amigo, quem é?
24 de Agosto – Dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. O jornal anuncia:”O Hospital Distrital de Évora anunciou ontem o arranque das obras de instalação do sistema de ar condicionado, abrangendo a totalidade das 238 camas do edifício do Espírito Santo…”.Em Portugal ainda há hospitais sem ar condicionado? A instalação deste equipamento merece comunicado da administração do hospital? As obras vão demorar um ano? E tudo isto é notícia de jornal? O “sim” às três questões é o mais terrível dos sinais da nossa miséria.
Um filme português que teve 488 espectadores recebeu do Estado 135 mil contos, 518 mil euros. Façam lá as contas, dou-vos algum tempo…, …, …exactamente, são 277 contos, mais de mil euros por espectador que todos nós pagámos…
Apesar de todos as perseguições feitas aos funcionários públicos, a despesa pública cresce a olhos vistos. Como é possível? Inaptidão ou incompetência? Por certo as duas. Quem serão os próximos perseguidos?
26 de Agosto – Numa notável peça jurídica, um Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa, falando do “caso Mateus” e do Gil Vicente, concluiu: “pelo exposto, indefere-se o decretamento provisório das medidas cautelares requeridas. A linguagem parece-me curda e, confesso, eu não a domino. Como cidadão médio, o meu objectivo é querer saber se vivo num país com uma língua oficial que um cidadão médio entenda. Tenho dúvidas.
3 de Setembro – Nas primeiras vezes que atravessei a Espanha, admirei-me com a quantidade de campos e tabelas de basquetebol nos jardins, praças e outros espaços verdes. Lembrei-me da história hoje quando assisti em directo ao jogo da final do Campeonato do Mundo da modalidade que se realizou no Japão. A Espanha ganhou.
5 de Setembro – Na nossa sociedade, o silêncio deixou de ter qualquer importância. Em todo o lado nos dão música, seja ao telefone ou em S. Lourenço. O simples gesto de pegar na chávena e beber o café tem de ser acompanhado, por vezes, com um som estridente e, na maior parte das vezes, desajustado. É também sobre isto que fala George Steiner, provavelmente o maior pensador ocidental vivo, em “Os Logocratas” ( Relógio D’Água, Lisboa, 2006, 198 pp. ). As reflexões de Steiner conduzem-nos ao dado central nos últimos anos que tem sido o fim da relação entre o indivíduo e o livro. Não se lê. Não se memoriza. Não se pensa. Não se escreve. Os nossos adolescentes não conseguem ler em silêncio e necessitam do apoio da música como pano de fundo. A frase de Steiner “o mundo da web é a oralidade colectiva” ( p.149 ) significa que esta Internet de uso colectivo em rede representa uma ruptura com a individualidade e com os hábitos clássicos de leitura e escrita. Hoje, desenvolvem-se hábitos que apenas sobrevivem ao ruído e na constante agitação, que necessitam de uma esfera colectiva e que dependem da substituição do livro por imagens, ícones e links.
Pergunta da quinzena: até quando vão ter os moradores do centro histórico a água castanha mais cara do mundo?
Nova Aliança, 15 / 09 / 2006
Rothschild, os incêndios e o Líbano
1.Existirão limites para a interpretação? Uma boa informação será tudo o que importa? Deixem-me contar-vos a história do banqueiro Rothschild. Ao fim do dia 18 de Junho de 1815, alguém lançou um pombo-correio de Waterloo. A ave levava a primeira notícia entretanto chegada a Londres sobre o destino da Europa e aterrou nas mãos do dono, Nathan Rothschild, banqueiro e jogador na Bolsa. E foi para lá que ele entretanto se dirigiu. Encostado a uma coluna, enviou pequenos gestos tácitos aos seus empregados: “Vendam”. Eles puseram-se a vender títulos a uma velocidade tal que rapidamente a Bolsa inteira suspeitou: “Rothschild sabe!”, “Rothschild sabe!”. A notícia propagou-se como um rastilho, Napoleão tinha ganho e Wellington tinha perdido. Por isso, toda a gente se pôs a vender. Nesta confusão, ninguém reparou num “pequeno” gesto e numa mudança de ordem. “Comprem”, disse Rothschild aos empregados. Em poucos minutos, multiplicou por vinte vezes a sua fortuna e a economia da Grã-Bretanha passaria a estar nas mãos da sua família.
Lembrei-me desta história ao ouvir o ministro dos fogos, António Costa, todo ufano na televisão, que este ano é que era, o total da área de terreno entretanto ardida era a menor dos últimos anos, tinham sido feitos estudos, havia mais dinheiro, os bombeiros estavam melhor equipados, a consciência cívica era diferente, tinha havido “uma boa detecção e intervenção no controlo das ignições”, etc, etc. “Rothschild sabe!”, lembram-se? Esta atitude assemelhava-se à de um treinador de uma equipa de futebol que se congratula por não ter sofrido ainda qualquer golo aos dez minutos de jogo. Lançar foguetes antes da festa nunca dá bons resultados. Afinal de contas, estávamos a 5 de Julho. Esse estado ufano e prazenteiro durou pouco. Poucos dias depois, o avião russo Beriev quase se estatelava e, ironicamente, causou incêndios na subsequente operação de emergência, cinco bombeiros chilenos e um português morriam, as temperaturas subiam, os bombeiros queixavam-se da falta de meios, não havia meio de chegar novo material prometido desde Maio, etc, etc. O ministro mudou então de discurso: pois as temperaturas não se podiam controlar ( como se 40 graus fosse estranho em Agosto ), pois os fornecedores não tinham cumprido os prazos, pois os portugueses são uns malandros porque não limpam as matas, pois os populares são uns desleixados, pois… Sinceramente, senti pena do sujeito. Quando a jornalista da TVI lhe perguntou no meio de um incêndio de um matagal do Estado em Oliveira de Frades por que razão esse mesmo Estado não limpa as matas de que é proprietário, nem autoriza as autarquias a fazê-lo, ele respondeu que não estava ali para responder a isso. “Rothschild sabe!” Uma pergunta feita no momento oportuno deitou por terra várias horas de propaganda.
2. Existirão limites para a interpretação? Como se viu atrás, a guerra tem muitos defeitos mas sempre deu, além de excelentes romances, bons negócios. O do petróleo, por exemplo. Sabendo que no conflito em questão ninguém está isento de culpas, o primeiro-ministro libanês chorou numa reunião da Liga Árabe ao condenar um novo “massacre” de 40 civis por um bombardeamento israelita em Houala. Veja-se o vocabulário utilizado: 40 ( número redondo ), civis ( e não terroristas ), em Houala ( e não numa qualquer aldeia vizinha ). Quando acabou os soluços, o líder libanês reconheceu que, afinal, só tinha morrido uma pessoa no ataque.
Há poucos dias, a agência de notícias Reuters teve de denunciar um fotógrafo seu que tinha manipulado imagens das consequências de bombardeamentos israelitas, para as tornar mais chocantes. Outro funcionário da agência tornou-se notícia por enviar mails ameaçadores ao responsável de um site pró-israelita. “Anseio pelo dia em que vos cortem as gargantas”, era a “delicada” e “agradável” mensagem.
Nos nossos jornais, são relatados todos os dias os mortos do conflito. Os israelitas, de um lado, são divididos entre militares e civis. Os do Líbano, do outro lado, são simplesmente civis. Procurando limites para a interpretação, somos levados a concluir uma de duas coisas: ou os soldados de Israel são tão incompetentes que não conseguiram acertar num único terrorista ou então que o Hezbollah não distingue entre civis e combatentes.
Nova Aliança, 31 / 7 2006
Lembrei-me desta história ao ouvir o ministro dos fogos, António Costa, todo ufano na televisão, que este ano é que era, o total da área de terreno entretanto ardida era a menor dos últimos anos, tinham sido feitos estudos, havia mais dinheiro, os bombeiros estavam melhor equipados, a consciência cívica era diferente, tinha havido “uma boa detecção e intervenção no controlo das ignições”, etc, etc. “Rothschild sabe!”, lembram-se? Esta atitude assemelhava-se à de um treinador de uma equipa de futebol que se congratula por não ter sofrido ainda qualquer golo aos dez minutos de jogo. Lançar foguetes antes da festa nunca dá bons resultados. Afinal de contas, estávamos a 5 de Julho. Esse estado ufano e prazenteiro durou pouco. Poucos dias depois, o avião russo Beriev quase se estatelava e, ironicamente, causou incêndios na subsequente operação de emergência, cinco bombeiros chilenos e um português morriam, as temperaturas subiam, os bombeiros queixavam-se da falta de meios, não havia meio de chegar novo material prometido desde Maio, etc, etc. O ministro mudou então de discurso: pois as temperaturas não se podiam controlar ( como se 40 graus fosse estranho em Agosto ), pois os fornecedores não tinham cumprido os prazos, pois os portugueses são uns malandros porque não limpam as matas, pois os populares são uns desleixados, pois… Sinceramente, senti pena do sujeito. Quando a jornalista da TVI lhe perguntou no meio de um incêndio de um matagal do Estado em Oliveira de Frades por que razão esse mesmo Estado não limpa as matas de que é proprietário, nem autoriza as autarquias a fazê-lo, ele respondeu que não estava ali para responder a isso. “Rothschild sabe!” Uma pergunta feita no momento oportuno deitou por terra várias horas de propaganda.
2. Existirão limites para a interpretação? Como se viu atrás, a guerra tem muitos defeitos mas sempre deu, além de excelentes romances, bons negócios. O do petróleo, por exemplo. Sabendo que no conflito em questão ninguém está isento de culpas, o primeiro-ministro libanês chorou numa reunião da Liga Árabe ao condenar um novo “massacre” de 40 civis por um bombardeamento israelita em Houala. Veja-se o vocabulário utilizado: 40 ( número redondo ), civis ( e não terroristas ), em Houala ( e não numa qualquer aldeia vizinha ). Quando acabou os soluços, o líder libanês reconheceu que, afinal, só tinha morrido uma pessoa no ataque.
Há poucos dias, a agência de notícias Reuters teve de denunciar um fotógrafo seu que tinha manipulado imagens das consequências de bombardeamentos israelitas, para as tornar mais chocantes. Outro funcionário da agência tornou-se notícia por enviar mails ameaçadores ao responsável de um site pró-israelita. “Anseio pelo dia em que vos cortem as gargantas”, era a “delicada” e “agradável” mensagem.
Nos nossos jornais, são relatados todos os dias os mortos do conflito. Os israelitas, de um lado, são divididos entre militares e civis. Os do Líbano, do outro lado, são simplesmente civis. Procurando limites para a interpretação, somos levados a concluir uma de duas coisas: ou os soldados de Israel são tão incompetentes que não conseguiram acertar num único terrorista ou então que o Hezbollah não distingue entre civis e combatentes.
Nova Aliança, 31 / 7 2006
24.7.06
Exames, D.Afonso Henriques e a Nova Arquitectura
1.Não sei se os leitores saberão como funciona o processo dos exames nacionais. Ao longo do ano, uma equipa de sábios das várias disciplinas elabora as respectivas provas de exame. Há a esperança de elas respeitarem os conteúdos leccionados ao longo do ano e, por isso, era hábito os alunos conhecerem uma prova modelo, até para se familiarizarem com a estrutura da prova. Este ano, isso não aconteceu. Quando surgiram as primeiras reacções de protesto às provas de Física e Química, a responsável pelo gabinete de avaliação dos exames declarou não existir motivo para queixas, que tudo tinha decorrido dentro da normalidade, que as queixas eram próprias dos que não estavam preparados, etc. Quando um professor não consegue resolver uma prova de exame num terço do tempo de que os alunos dispunham, algo de grave se passa; que dizer então dos que continuam a afirmar não serem capazes de resolver um problema, tal a sua formulação e a impossibilidade de resolução?
Respondendo aos apelos vindos de todos os lados e tendo em conta as médias vergonhosas, lá veio a situação milagrosa: repetir os exames de Física e Química na segunda fase, apurar a melhor nota e concorrer com ela ao ensino superior. Acontece que em praticamente todas as provas houve problemas, o que deixa antever uma profunda injustiça para os alunos envolvidos. E quem deixou as duas disciplinas para a segunda fase tem só uma possibilidade, ao contrário dos que a vão agora repetir.
A um outro nível, por valer apenas trinta por cento da nota final e por se tratar do nono ano, é preciso dizer que a prova de exame de Língua Portuguesa está mal feita porque contraria tudo aquilo que em anos e anos de formação se ensina aos professores. Sobre este ponto, serei mais específico se for necessário. Quando confrontados com esta reacção dos professores correctores de todo o país, a reacção foi: “as regras são estas, os critérios de correcção são estes, os relatórios das anomalias serão discutidos em Setembro”.
2. Foi, no mínimo, hilariante a história do túmulo de D. Afonso Henriques. Na era do simplex, eis que vencei o … complex. Quando se aposta em incentivar a investigação e em atrair investigadores para trabalhar no país, este episódio foi particularmente elucidativo. Um ano inteiro de pedidos de autorização que iam sendo atendidos e merecendo a respectiva anuência esbarrou no último minuto ( tudo estava a postos e a campa aberta ) no capricho burocrático da senhora ministra. Considerando que Afonso Henriques foi um homem essencialmente prático e capaz de criar um país, o que sentiria ele ao observar que, mais de oitocentos anos depois do nascimento de Portugal, o país pouco ter mudado?
Convém lembrar que existe um vasto aparelho público de institutos, direcções-gerais, gabinetes de estudo e secretarias de Estado que custam anualmente uma soma muito avultada ao povo português. Eles têm poderes delegados para tomarem decisões e cumprirem as responsabilidades que lhes foram confiadas nos termos da lei. Sabendo isso, a “pouco avisada” investigadora subiu todos os degraus, conseguiu todas as autorizações mas terá cometido o assinalável erro de não pedir uma audiência à senhora ministra.
Mesmo que esta tenha decidido solicitar mais informação sobre a investigação, isso seria passar um atestado de incompetência e de falta de confiança nas estruturas que estão na sua dependência. Em Portugal, parece que os ministros têm de meter o bedelho em tudo. Lembram-se do simplex?...
3. Com as famosas e demoradas obras do Aquapolis ( que terão o teste final nas próximas cheias ) pensava que um dos objectivos fosse o aprofundar dos laços que nos ligam ao Tejo. Erro meu. Se o leitor entrar pela margem norte e aproveitar para beber um simples café numa das instalações existentes, verificará que, sentado à mesa, fica com uma excelente perspectiva do Rossio mas o rio está tapado. Está tapado porque em vez de vidros altos que dariam uma visão magnífica do conjunto envolvente, a parede foi dividida ao meio ficando a barra divisória ao nível dos nossos olhos. Depois da construção da Pousada da Juventude sem uma janela ou uma varanda de frente para o rio, eis que surge outra opção insólita. Como em algumas rotundas que por aí pululam, o grave não é que estas coisas existam, o grave é que os seus autores tenham recebido dinheiro por elas.
Nova Aliança, 21 / Julho / 2006
Respondendo aos apelos vindos de todos os lados e tendo em conta as médias vergonhosas, lá veio a situação milagrosa: repetir os exames de Física e Química na segunda fase, apurar a melhor nota e concorrer com ela ao ensino superior. Acontece que em praticamente todas as provas houve problemas, o que deixa antever uma profunda injustiça para os alunos envolvidos. E quem deixou as duas disciplinas para a segunda fase tem só uma possibilidade, ao contrário dos que a vão agora repetir.
A um outro nível, por valer apenas trinta por cento da nota final e por se tratar do nono ano, é preciso dizer que a prova de exame de Língua Portuguesa está mal feita porque contraria tudo aquilo que em anos e anos de formação se ensina aos professores. Sobre este ponto, serei mais específico se for necessário. Quando confrontados com esta reacção dos professores correctores de todo o país, a reacção foi: “as regras são estas, os critérios de correcção são estes, os relatórios das anomalias serão discutidos em Setembro”.
2. Foi, no mínimo, hilariante a história do túmulo de D. Afonso Henriques. Na era do simplex, eis que vencei o … complex. Quando se aposta em incentivar a investigação e em atrair investigadores para trabalhar no país, este episódio foi particularmente elucidativo. Um ano inteiro de pedidos de autorização que iam sendo atendidos e merecendo a respectiva anuência esbarrou no último minuto ( tudo estava a postos e a campa aberta ) no capricho burocrático da senhora ministra. Considerando que Afonso Henriques foi um homem essencialmente prático e capaz de criar um país, o que sentiria ele ao observar que, mais de oitocentos anos depois do nascimento de Portugal, o país pouco ter mudado?
Convém lembrar que existe um vasto aparelho público de institutos, direcções-gerais, gabinetes de estudo e secretarias de Estado que custam anualmente uma soma muito avultada ao povo português. Eles têm poderes delegados para tomarem decisões e cumprirem as responsabilidades que lhes foram confiadas nos termos da lei. Sabendo isso, a “pouco avisada” investigadora subiu todos os degraus, conseguiu todas as autorizações mas terá cometido o assinalável erro de não pedir uma audiência à senhora ministra.
Mesmo que esta tenha decidido solicitar mais informação sobre a investigação, isso seria passar um atestado de incompetência e de falta de confiança nas estruturas que estão na sua dependência. Em Portugal, parece que os ministros têm de meter o bedelho em tudo. Lembram-se do simplex?...
3. Com as famosas e demoradas obras do Aquapolis ( que terão o teste final nas próximas cheias ) pensava que um dos objectivos fosse o aprofundar dos laços que nos ligam ao Tejo. Erro meu. Se o leitor entrar pela margem norte e aproveitar para beber um simples café numa das instalações existentes, verificará que, sentado à mesa, fica com uma excelente perspectiva do Rossio mas o rio está tapado. Está tapado porque em vez de vidros altos que dariam uma visão magnífica do conjunto envolvente, a parede foi dividida ao meio ficando a barra divisória ao nível dos nossos olhos. Depois da construção da Pousada da Juventude sem uma janela ou uma varanda de frente para o rio, eis que surge outra opção insólita. Como em algumas rotundas que por aí pululam, o grave não é que estas coisas existam, o grave é que os seus autores tenham recebido dinheiro por elas.
Nova Aliança, 21 / Julho / 2006
13.7.06
Palavras, Os futuros patrões portugueses e o preço da vida humana
1. Poderão as palavras significar aquilo que não são? Poderão elas transmitir o ininteligível? Quando recentemente o ministro da Saúde refutou algumas críticas em plena Assembleia da República e que lhe eram dirigidas por deputados da oposição, salientou que “o facto de poder haver mais doentes em lista de espera pode ser bom” por indiciar que a “disponibilidade dos serviços aumenta”. Parece assim existir vantagens numa lista de espera que cresce a olhos vistos, basta ouvir o ministro que, pasme-se, diz estas coisas sem se rir. Mais à frente, questionado sobre a criança portuguesa que morreu em Badajoz depois de ter para ali sido transportada desde Elvas, o mesmo ministro afirmou que não se tratava de uma criança, “mas de um feto inviável”. Um “feto inviável”? E ninguém reage?? E na Finlândia, as palavras também se usarão assim?
2. Uma análise cuidadosa da recente proposta de alteração do Estatuto da Carreira Docente revela que a palavra “ensinar” não aparece uma única vez no documento que tem 55 páginas. Mesmo a palavra “ensino” aparece apenas como qualificativo oficial ( “estabelecimento de ensino”, “ensino básico” ). Já a palavra “aprendizagens” aparece 13 vezes, no singular e no plural. O ponto 2 do Art. 36º, referindo-se às funções dos professores, não fala em ensinar, mas sim em “identificar saberes e competências-chave dos programas”, “desenvolver situações didácticas” e criar”situações de aprendizagem”. Entre outros, são deveres dos docentes: “Trabalhar em equipa”, “Colaborar com as famílias” e “Conceber respostas inovadoras às novas necessidades da sociedade do conhecimento”. O leitor tem todo o direito de não acreditar, por isso lhe peço que procure em www.min-edu.pt. E na Finlândia, também será assim?
3. O anúncio passa todas as noites em nossa casa. Serve para promover o TMN Mail, um serviço que permite consultar o correio electrónico a partir do telemóvel. A coisa passa-se assim: um jovem executivo chega ao seu trabalho e, depois de cumprimentar a chefe, volta a sair à socapa pala porta por onde entrou. Encontramo-lo então numa espécie de esplanada solarenta, rodeado de belas mulheres bronzeadas e em bikini. É aqui que entra o TMN Mail: o telemóvel é suficiente para estar ligado à sua empresa e, quando a chefe o convoca para uma reunião daí a 20 minutos, o nosso executivo acompanhado por outros sai disparado da esplanada e ainda chega a tempo da reunião. No nosso sofá compreendemos bem a motivação que a TMN apresenta aos seus clientes para a assinatura do novo serviço. E ela é o jeito que dá para enganar o patrão. No fundo não nos devemos surpreender, o trabalho afasta-nos das esplanadas, leia-se, dos prazeres desta vida. Considerando que este jovem executivo de hoje será o patrão de meia-idade de amanhã, deveremos ainda ter esperança. E na Finlândia também foi assim? Continuamos prazenteiramente na cauda da Europa mas atenção, temos mail no telemóvel…
4. Pedrito de Portugal foi multado em 100.000 euros por ter morto um touro na arena. Quando nos recordamos que por cada vítima do acidente de Entre-os Rios o Estado pagou 50.000 euros, que deveremos concluir?...Isso mesmo, caro leitor. Lembro o caso ao ler que um grupo de activistas portugueses se propõe ir a Pamplona protestar contra as tradicionais largadas de touros que, por esta altura, ocorrem naquela cidade de Navarra. Como já protestam há algum tempo e ninguém lhes liga, decidiram agora ser mais criativos e prometem correr nus pelas ruas ao lado dos bois, só com chifres de plástico na cabeça. Tenho uma sugestão a fazer: como em Abrantes a água que sai das torneiras na parte alta da cidade é castanha embora custe o mesmo da cristalina ( já agora, só deixaremos de ter água castanha quando o próximo presidente da câmara habitar na zona? ) seria interessante ter uma largada humana de activistas em pelota pelas ruelas abrantinas. Afinal de contas são ambientalistas. Que tal? Na Finlândia, de certeza que as coisas não se passam assim… Um último pormenor: podiam substituir os cornos por duas garrafas de água. Cristalina, claro…
Nova Aliança, 08 / 07 / 2006
2. Uma análise cuidadosa da recente proposta de alteração do Estatuto da Carreira Docente revela que a palavra “ensinar” não aparece uma única vez no documento que tem 55 páginas. Mesmo a palavra “ensino” aparece apenas como qualificativo oficial ( “estabelecimento de ensino”, “ensino básico” ). Já a palavra “aprendizagens” aparece 13 vezes, no singular e no plural. O ponto 2 do Art. 36º, referindo-se às funções dos professores, não fala em ensinar, mas sim em “identificar saberes e competências-chave dos programas”, “desenvolver situações didácticas” e criar”situações de aprendizagem”. Entre outros, são deveres dos docentes: “Trabalhar em equipa”, “Colaborar com as famílias” e “Conceber respostas inovadoras às novas necessidades da sociedade do conhecimento”. O leitor tem todo o direito de não acreditar, por isso lhe peço que procure em www.min-edu.pt. E na Finlândia, também será assim?
3. O anúncio passa todas as noites em nossa casa. Serve para promover o TMN Mail, um serviço que permite consultar o correio electrónico a partir do telemóvel. A coisa passa-se assim: um jovem executivo chega ao seu trabalho e, depois de cumprimentar a chefe, volta a sair à socapa pala porta por onde entrou. Encontramo-lo então numa espécie de esplanada solarenta, rodeado de belas mulheres bronzeadas e em bikini. É aqui que entra o TMN Mail: o telemóvel é suficiente para estar ligado à sua empresa e, quando a chefe o convoca para uma reunião daí a 20 minutos, o nosso executivo acompanhado por outros sai disparado da esplanada e ainda chega a tempo da reunião. No nosso sofá compreendemos bem a motivação que a TMN apresenta aos seus clientes para a assinatura do novo serviço. E ela é o jeito que dá para enganar o patrão. No fundo não nos devemos surpreender, o trabalho afasta-nos das esplanadas, leia-se, dos prazeres desta vida. Considerando que este jovem executivo de hoje será o patrão de meia-idade de amanhã, deveremos ainda ter esperança. E na Finlândia também foi assim? Continuamos prazenteiramente na cauda da Europa mas atenção, temos mail no telemóvel…
4. Pedrito de Portugal foi multado em 100.000 euros por ter morto um touro na arena. Quando nos recordamos que por cada vítima do acidente de Entre-os Rios o Estado pagou 50.000 euros, que deveremos concluir?...Isso mesmo, caro leitor. Lembro o caso ao ler que um grupo de activistas portugueses se propõe ir a Pamplona protestar contra as tradicionais largadas de touros que, por esta altura, ocorrem naquela cidade de Navarra. Como já protestam há algum tempo e ninguém lhes liga, decidiram agora ser mais criativos e prometem correr nus pelas ruas ao lado dos bois, só com chifres de plástico na cabeça. Tenho uma sugestão a fazer: como em Abrantes a água que sai das torneiras na parte alta da cidade é castanha embora custe o mesmo da cristalina ( já agora, só deixaremos de ter água castanha quando o próximo presidente da câmara habitar na zona? ) seria interessante ter uma largada humana de activistas em pelota pelas ruelas abrantinas. Afinal de contas são ambientalistas. Que tal? Na Finlândia, de certeza que as coisas não se passam assim… Um último pormenor: podiam substituir os cornos por duas garrafas de água. Cristalina, claro…
Nova Aliança, 08 / 07 / 2006
A Ética de José Luandino Vieira
O nome do escritor angolano Luandino Vieira, galardoado com o Prémio Camões, deve ter deixado muita gente perplexa. O autor de “Luanda”, afinal de contas, não publica nada de novo desde o início dos anos 70. Como entender então a justeza do prémio?
Luandino Vieira ( aliás, José Vieira Mateus da Graça ) nasceu em Vila Nova de Ourém ( Portugal ) em 4 de Maio de 1935, contando, pois, 71 anos. Com três anos foi com os pais para Angola, onde, por envolvimento em movimentos nacionalistas, seria preso pela Pide, em 1959. Já nessa altura, em homenagem a Luanda, adoptara o pseudónimo de Luandino. Libertado, voltaria dois anos depois à prisão, sendo em 1964 transferido para o terrível campo de concentração do Tarrafal, por onde, desde os anos 30, tinham passado inúmeros antifascistas portugueses. Aí descobre Guimarães Rosa, o escritor que mais o influenciou, e aí escreve a maioria da sua obra. Com destaque para Luuanda ( 1963 ), que, distinguido em 1965 com o Prémio Camilo Castelo Branco da Sociedade Portuguesa de Escritores, levaria ao encerramento daquela instituição, acusada de «traição à Pátria», após o saque e a destruição pela Pide da sua sede. É a história de um Domingos Xavier que morre lentamente, depois de passar pela mão dos cipaios: “Nunca fizera mal a ninguém. Só queria o bem do seu povo e da sua terra. E por lhes querer bem não falou os assuntos do seu povo nem se vendeu. E por querer lhes bem o mataram”. Há aquele gosto de uma escrita em português com a marca indelével do angolano, tal qual se fala, mais os seus termos específicos para uma realidade diferente que, afinal, teve, tem e terá de conquistar a sua expressão. É um gosto. E há um glossário, ideia de louvar sempre que nos textos surgem termos que escapam aos regionais ou que são de difícil esclarecimento, mesmo nos dicionários. Cumpridos mais de dez dos 14 anos a que fora condenado, durante os quais escreveu oito dos dez livros até agora publicados, Luandino Vieira é libertado e transferido, com residência fixa e vigiada, para Lisboa. Regressa a Angola após o 25 de Abril de 1974, mantendo uma militância activa no MPLA até pelo menos 1979. Em 1992 volta a Portugal, passando a viver primeiro no Convento de São Payo (Vila Nova de Cerveira), propriedade do seu amigo, o escultor José Rodrigues, e mais recentemente nas suas imediações. Entretanto, planta árvores, trabalha na agricultura, chega a levar as ovelhas a pastar pelos montes.
O escritor é o segundo angolano a ser distinguido com o Prémio Camões que distinguiu ainda oito portugueses, sete brasileiros, e um moçambicano. O júri foi constituído pelos brasileiros Ivan Junqueira e Evanildo Bechara , as portuguesas Agustina Bessa-Luís e Paula Morão , o moçambicano Francisco Noa e o angolano José Eduardo Agualusa . E foi este último que apresentou a proposta da atribuição do prémio a Luandino. Tal proposta circulava há muito nos bastidores mas este manifestara a intenção de, enquanto não tivesse um novo livro, não o aceitar, caso lhe fosse atribuído.
A verdade é que, de uma forma natural, Luandino recusou mesmo o prémio pecuniário de cinquenta mil euros. Houve quem tivesse falado do seu horror à celebridade, elogiando ao mesmo tempo o seu desapego material. Julgo que a decisão do escritor ultrapassa esta questão. No fundo, penso que tal atitude é “só” a ilustração da alta noção que Luandino tem da sua responsabilidade perante a escrita. Se há dez anos o escritor disse e escreveu que recusaria o Prémio se este lhe fosse atribuído, “dado não publicar nenhum novo livro há muito tempo”, estava-se mesmo a ver que, com toda a sua coerência, também agora ele recusaria o Prémio.
Fica claro que Luandino recusa o Prémio não por falsa modéstia mas por lhe parecer despropositado que, enquanto surgem novos escritores e literaturas africanas, lhe seja atribuído o mais alto galardão que distingue escritores actuais de língua portuguesa, nas suas diversas variantes, estando ele silencioso há décadas.
Luandino invoca “razões pessoais e íntimas” para a posição que tomou e fechou-se na sua “concha”. Calmamente aguardará que seja o tempo – e os seus leitores - a fazer-lhe a justiça de um reconhecimento maior.
Embora ainda não publicado, esse seu novo livro já existe, de facto. Está no prelo, chama-se O Livro dos Rios, primeiro tomo de uma trilogia intitulada De Rios Velhos e Guerrilheiros, e os seus editores projectam lançá-lo, em Luanda, no próximo dia 11 de Novembro, data da independência de Angola.
Nova Aliança, 24 / 06 / 2006
Luandino Vieira ( aliás, José Vieira Mateus da Graça ) nasceu em Vila Nova de Ourém ( Portugal ) em 4 de Maio de 1935, contando, pois, 71 anos. Com três anos foi com os pais para Angola, onde, por envolvimento em movimentos nacionalistas, seria preso pela Pide, em 1959. Já nessa altura, em homenagem a Luanda, adoptara o pseudónimo de Luandino. Libertado, voltaria dois anos depois à prisão, sendo em 1964 transferido para o terrível campo de concentração do Tarrafal, por onde, desde os anos 30, tinham passado inúmeros antifascistas portugueses. Aí descobre Guimarães Rosa, o escritor que mais o influenciou, e aí escreve a maioria da sua obra. Com destaque para Luuanda ( 1963 ), que, distinguido em 1965 com o Prémio Camilo Castelo Branco da Sociedade Portuguesa de Escritores, levaria ao encerramento daquela instituição, acusada de «traição à Pátria», após o saque e a destruição pela Pide da sua sede. É a história de um Domingos Xavier que morre lentamente, depois de passar pela mão dos cipaios: “Nunca fizera mal a ninguém. Só queria o bem do seu povo e da sua terra. E por lhes querer bem não falou os assuntos do seu povo nem se vendeu. E por querer lhes bem o mataram”. Há aquele gosto de uma escrita em português com a marca indelével do angolano, tal qual se fala, mais os seus termos específicos para uma realidade diferente que, afinal, teve, tem e terá de conquistar a sua expressão. É um gosto. E há um glossário, ideia de louvar sempre que nos textos surgem termos que escapam aos regionais ou que são de difícil esclarecimento, mesmo nos dicionários. Cumpridos mais de dez dos 14 anos a que fora condenado, durante os quais escreveu oito dos dez livros até agora publicados, Luandino Vieira é libertado e transferido, com residência fixa e vigiada, para Lisboa. Regressa a Angola após o 25 de Abril de 1974, mantendo uma militância activa no MPLA até pelo menos 1979. Em 1992 volta a Portugal, passando a viver primeiro no Convento de São Payo (Vila Nova de Cerveira), propriedade do seu amigo, o escultor José Rodrigues, e mais recentemente nas suas imediações. Entretanto, planta árvores, trabalha na agricultura, chega a levar as ovelhas a pastar pelos montes.
O escritor é o segundo angolano a ser distinguido com o Prémio Camões que distinguiu ainda oito portugueses, sete brasileiros, e um moçambicano. O júri foi constituído pelos brasileiros Ivan Junqueira e Evanildo Bechara , as portuguesas Agustina Bessa-Luís e Paula Morão , o moçambicano Francisco Noa e o angolano José Eduardo Agualusa . E foi este último que apresentou a proposta da atribuição do prémio a Luandino. Tal proposta circulava há muito nos bastidores mas este manifestara a intenção de, enquanto não tivesse um novo livro, não o aceitar, caso lhe fosse atribuído.
A verdade é que, de uma forma natural, Luandino recusou mesmo o prémio pecuniário de cinquenta mil euros. Houve quem tivesse falado do seu horror à celebridade, elogiando ao mesmo tempo o seu desapego material. Julgo que a decisão do escritor ultrapassa esta questão. No fundo, penso que tal atitude é “só” a ilustração da alta noção que Luandino tem da sua responsabilidade perante a escrita. Se há dez anos o escritor disse e escreveu que recusaria o Prémio se este lhe fosse atribuído, “dado não publicar nenhum novo livro há muito tempo”, estava-se mesmo a ver que, com toda a sua coerência, também agora ele recusaria o Prémio.
Fica claro que Luandino recusa o Prémio não por falsa modéstia mas por lhe parecer despropositado que, enquanto surgem novos escritores e literaturas africanas, lhe seja atribuído o mais alto galardão que distingue escritores actuais de língua portuguesa, nas suas diversas variantes, estando ele silencioso há décadas.
Luandino invoca “razões pessoais e íntimas” para a posição que tomou e fechou-se na sua “concha”. Calmamente aguardará que seja o tempo – e os seus leitores - a fazer-lhe a justiça de um reconhecimento maior.
Embora ainda não publicado, esse seu novo livro já existe, de facto. Está no prelo, chama-se O Livro dos Rios, primeiro tomo de uma trilogia intitulada De Rios Velhos e Guerrilheiros, e os seus editores projectam lançá-lo, em Luanda, no próximo dia 11 de Novembro, data da independência de Angola.
Nova Aliança, 24 / 06 / 2006
Futebol e Parlamento, Portugueses do Hino e Fecho de Maternidades
1. Se os deputados da Nação serviram de exemplo, então o país deve ter parado anteontem, dia 21 de Junho. Esquecidos já do “mau exemplo” que ofereceram ao país no dia em que faltou quórum lá no sítio para votar umas leis, atiraram para longe as promessas de “repensar” a imagem que os portugueses têm dos seus políticos. Aquelas cabeças não fizeram por menos: no dia do jogo entre Portugal e o México, os senhores deputados não apareceram à hora marcada para o trabalho habitual. Sem hesitações, decidiram antecipar os trabalhos e adiar as comissões parlamentares para horas mais apropriadas. Depois das benesses a vários títulos ( o caso das multas perdoadas é significativo ), este é mais um exemplo de seriedade e rigor que o país regista e que deve ter seguido por qualquer profissional. Embora escreva alguns dias antes, espero que os juízes tenham estado fora dos tribunais, os médicos fora dos hospitais, os professores fora das escolas, os operários fora das fábricas e os trabalhadores dos serviços fora dos respectivos locais de trabalho. Espero ainda que os loucos tenham saído dos hospitais e os criminosos das prisões.
Tal situação não foi bem pensada. Havia uma solução mista que certamente agradaria a muitos e que ia ao encontro dos que têm uma grande capacidade de trabalho e conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo. Bastaria que se montasse um ecrã gigante em plena Assembleia da República. O próprio espaço físico adaptar-se-ia à famosa “onda” mexicana. O senhor presidente da Assembleia trataria de servir as imperiais e se o primeiro-ministro estivesse presente, encarregar-se-ia dos tremoços e dos amendoins. Digam lá que não era bem pensado…
2. Quando ainda está fresca na memória de todos a história das bandeiras nacionais com publicidade à mistura, seja a bancos ou a estabelecimentos de electrodomésticos, soube-se que foi negada a nacionalidade portuguesa a uma mulher indiana, casada com um português e com filhos nascidos e educados em Portugal.
O facto de falar fluentemente a nossa língua e de viver há mais de dez anos em Portugal foram insuficientes para que o Tribunal da Relação de Lisboa considerasse a existência de uma ligação efectiva à nossa comunidade. Falhas? A cidadã não demonstrou conhecimentos de História de Portugal, não foi capaz de nomear figuras públicas da cultura portuguesa e mostrou ignorar o hino nacional.
Assim de repente fico a pensar se estes parâmetros levariam uma grande percentagem de portugueses a conseguir a nacionalidade lusa. Parece-me que não. E não posso deixar de lembrar a prontidão com que se atribui a nacionalidade em alguns casos ( como o do futebolista Deco ) que ignorarão os vultos da cultura, as batalhas mais célebres e que do hino apenas se lembram das “armas”. Não falando já da sua ligação matrimonial nem nos descendentes portugueses, dez anos é realmente muito tempo. Tempo suficiente para conseguir a nacionalidade portuguesa. Se a senhora gostasse de futebol e colocasse uma bandeira na janela, isso convenceria o Tribunal?
3. Em Elvas, no primeiro dia do encerramento dos respectivos serviços de obstetrícia, uma mulher enviada para Portalegre perdeu o filho. A utente em causa foi transportada durante cinquenta quilómetros numa ambulância sem quaisquer condições e não foi acompanhada por um profissional devidamente habilitado para lidar com a situação. Num país decente e sério o primeiro-ministro e o ministro da pasta já se teriam demitido e aguardariam calmamente o processo judicial. Assim…
Nova Aliança, 10 / 06 / 2006
Tal situação não foi bem pensada. Havia uma solução mista que certamente agradaria a muitos e que ia ao encontro dos que têm uma grande capacidade de trabalho e conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo. Bastaria que se montasse um ecrã gigante em plena Assembleia da República. O próprio espaço físico adaptar-se-ia à famosa “onda” mexicana. O senhor presidente da Assembleia trataria de servir as imperiais e se o primeiro-ministro estivesse presente, encarregar-se-ia dos tremoços e dos amendoins. Digam lá que não era bem pensado…
2. Quando ainda está fresca na memória de todos a história das bandeiras nacionais com publicidade à mistura, seja a bancos ou a estabelecimentos de electrodomésticos, soube-se que foi negada a nacionalidade portuguesa a uma mulher indiana, casada com um português e com filhos nascidos e educados em Portugal.
O facto de falar fluentemente a nossa língua e de viver há mais de dez anos em Portugal foram insuficientes para que o Tribunal da Relação de Lisboa considerasse a existência de uma ligação efectiva à nossa comunidade. Falhas? A cidadã não demonstrou conhecimentos de História de Portugal, não foi capaz de nomear figuras públicas da cultura portuguesa e mostrou ignorar o hino nacional.
Assim de repente fico a pensar se estes parâmetros levariam uma grande percentagem de portugueses a conseguir a nacionalidade lusa. Parece-me que não. E não posso deixar de lembrar a prontidão com que se atribui a nacionalidade em alguns casos ( como o do futebolista Deco ) que ignorarão os vultos da cultura, as batalhas mais célebres e que do hino apenas se lembram das “armas”. Não falando já da sua ligação matrimonial nem nos descendentes portugueses, dez anos é realmente muito tempo. Tempo suficiente para conseguir a nacionalidade portuguesa. Se a senhora gostasse de futebol e colocasse uma bandeira na janela, isso convenceria o Tribunal?
3. Em Elvas, no primeiro dia do encerramento dos respectivos serviços de obstetrícia, uma mulher enviada para Portalegre perdeu o filho. A utente em causa foi transportada durante cinquenta quilómetros numa ambulância sem quaisquer condições e não foi acompanhada por um profissional devidamente habilitado para lidar com a situação. Num país decente e sério o primeiro-ministro e o ministro da pasta já se teriam demitido e aguardariam calmamente o processo judicial. Assim…
Nova Aliança, 10 / 06 / 2006
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