22.5.09

A privacidade, o vestuário da loja do cidadão e as prioridades

12 de Abril - Leio por aí alguns autores que defendem o direito à privacidade de jornalistas e políticos. Concordo, claro, assim essa privacidade seja preservada pelos jornalistas e políticos. Apresentada a questão desta maneira, julgo que poucos deixarão de concordar. Mas quando são os jornalistas e políticos a divulgarem repetidamente, de um modo ou de outro, dados objectivos que deveriam fazer parte da sua privacidade - um exemplo, fazendo com que uma ópera comece atrasada por causa deles próprios - não vejo onde está a violação de qualquer direito que seja. Mais: qualquer jornalista tem o direito a não ser chamada de namorada de um político qualquer, mas qualquer leitor tem também o direito a desconfiar das opiniões de uma jornalista que escreve repetidamente sobre assuntos relacionados com o seu namorado.

14 de Abril – Lembram-se d’ “O Zé Faz Falta”? Pois bem, o sr. Sá Fernandes – esse triste vereador da Câmara Municipal de Lisboa, depois de ter ornamentado o Marquês de Pombal com os seus cartazes, não queria agora que os outros pusessem lá os cartazes deles. Digamos que é uma visão muito “peculiar” da democracia. Os partidos em causa ignoraram o Zé e a Comissão Nacional de Eleições até lhes deu razão. O Zé, desde que está enfiado no bolso de trás das calças do dr. António Costa, não acerta uma.

15 de Abril – Na Loja do Cidadão de Faro, que o eng. Sócrates considerou "a mais avançada do país", as funcionárias foram proibidas de envergar: saias curtas, decotes, saltos altos, roupa interior escura, gangas e perfumes agressivos.
É questão de gosto e explico porquê. Por mim, dispenso as gangas. Os perfumes, especialmente se "agressivos", também. Mas julgo que o resto da indumentária interdita faria maravilhas pelo relacionamento entre a administração pública e os cidadãos, sobretudo quando as respectivas lojas não cumprem a rapidez que a propaganda anuncia e obrigam os desgraçados a passar horas em pé para requisitar um papel que lhes será entregue meses depois. Embora dependendo de quem estivesse dentro deles, os decotes e as saias reduzidas sempre seriam uma compensação para a parcela masculina do povo em fila. E, quem sabe, talvez os devedores ao fisco aparecessem…
Segundo consta, tal decisão coube à dona Maria Pulquéria ( curioso nome!! ) Lúcio, curiosamente vogal da Agência para a Modernização Administrativa (AMA), uma das dezoito mil instituições estatais que servem a população e, principalmente, a parte da população nelas empregada.
Por curiosidade, consultei o currículo da dona Pulquéria e verifiquei que, antes da tal AMA, a senhora passou pelo PRACE, pelo CRIP, pelo SIAFE, pelo IIAE e pelo BDAP. Não serviu de muito. Sob o entulho "progressista" dos acrónimos, sobreviveu a Pulquéria proverbial, cujo nome é todo um programa e, de brinde, uma metáfora do país oficial e uma lição. Pode-se cobrir Portugal de siglas, Simplex, banda larga, Magalhães, SMS, cruzamento de dados, cartões quinze em um, chips nos cartões, nas matrículas e nas cabeças: mal se remove o verniz "funcional" do "futuro", o mofo do passado, seminarista e mandão, mostra a sua cara. Quem nos quer mudar não muda e, desculpem a rima, a dona Pulquéria não ajuda. Neste país, há sempre algo que não condiz com o resto.

18 de Abril – As prioridades da nossa comunicação social são intrigantes.Um terramoto mata perto de 300 pessoas em Itália e a primeira, e típica, preocupação dos nossos "media" é averiguar se não há portugueses entre as vítimas. A segunda preocupação é entregarem-se ao escândalo por Berlusconi ter pedido aos desalojados que se imaginassem no campismo.
Certamente que é escusado insistir na infelicidade da frase, cujo autor é useiro e vezeiro em trapalhadas semelhantes. Fiquemos pelas calamidades "naturais". Ora, por cá, a revelação de que a gripe do início do ano matou cerca de 1500 criaturas (segundo o Instituto Ricardo Jorge) suscitou ao secretário de Estado da Saúde o seguinte comentário: "a resposta à epidemia foi razoável". Não sei se uma resposta "fraquinha" se teria traduzido em cinco mil mortos, uma resposta "má" em dez mil, e uma resposta péssima na repetição da "espanhola" de 1918. Não sendo sismógrafo ou especialista em saúde pública, também não sei até que ponto as consequências de uma gripe são mais ou menos evitáveis que as consequências dos tremores de terra.
O problema reside no facto de que a mesma imprensa aflitíssima com Berlusconi ignorou generosamente o lapso do secretário de Estado, embora este exprima a indiferença da tutela perante um sistema de Saúde que trata os pobres como bichos e, implicitamente, sugere aos restantes que se curem no "privado" ou na civilização. Além disso, parece-me que 300 ( ainda ) é um número menor que 1500; ainda por cima 1500 portugueses, cuja morte, pelos vistos, só conta se acontecer no estrangeiro.

Nova Aliança, 2 de Maio de 2009

29.4.09

A troca de lugares, a fé dos deputados e Corin Tellado

4 de Abril - O deputado pediu a palavra, ergueu-se da cadeira e declarou:
"Os portugueses não podem confiar num primeiro-ministro que uma vez diz umas coisas e outra vez diz outras. (…) A conclusão a que chegamos é que o senhor não tem jeito para isto. (…) Mas o sr. primeiro-ministro não se vai daqui embora sem falar num último tema. (…) É o caso de um ministro do seu governo que fez uma pressão ilegítima junto de uma estação privada e que conduziu à eliminação de uma voz incómoda para o seu governo. O sr. primeiro-ministro desculpar-me-á, mas quero dizer-lhe com clareza: esse episódio é indigno de um governo democrático, e é um episódio inaceitável. E é uma nódoa que o vai perseguir, porque é uma nódoa que não vai ser apagada facilmente, porque é uma nódoa que fez Portugal regressar aos tempos em que havia condicionamento da liberdade de expressão. E peço-lhe, sr. primeiro-ministro, que resista à tentação do controle da comunicação social. Não vá por aí porque nós cá estaremos para evitar essas tentações."
A data era 14 de Outubro de 2004, dois meses antes de o presidente da República dissolver o Parlamento. O deputado chamava-se José Sócrates Pinto de Sousa e o primeiro-ministro Pedro Santana Lopes. A gravação do discurso está na Internet e não me canso de a ver e de me rir ao vê-la. Julgo que o leitor entenderá que não é preciso dizer mais nada…
8 de Abril – Os jornais anunciam que Jaime Gama ordenou mudanças no regime de presenças e faltas, mas deputados podem faltar cinco dias sem apresentar justificação. Lido desta maneira, confesso que começamos por pensar tratar-se de um engano. Rapidamente nos desenganamos.
"A palavra do deputado faz fé, não carecendo por isso de comprovativos adicionais". É esta a redacção do ponto sete do novo regime de presenças e faltas dos deputados em plenários, que o presidente da Assembleia da República fez aprovar. Jaime Gama acabou por deixar a possibilidade de os deputados poderem alegar ausência por motivo de doença sem que para isso seja necessária a apresentação de quaisquer justificativos nos primeiros cinco dias. Excepto quando a doença "se prolongue por mais de uma semana". Ou seja, um deputado que falte e que com isso impeça ou prejudique uma votação pode invocar doença sem que tenha que apresentar qualquer tipo de atestado médico.
Existirá melhor exemplo de portugueses de “primeira” e de “segunda”?

12 de Abril - Eu gostaria de ter conhecido María del Socorro Tellado López mas não saberia por onde começar a conversa – se pelos 400 milhões de livros vendidos, se pelo argumento de ‘Aposta Atrevida’, se pelo desprezo que lhe votavam. Ela fez sonhar milhões de leitoras por esse mundo fora. Ela levou-lhes a paixão, o amor, a traição, a felicidade. Corín Tellado morreu anteontem, mas as suas leitoras já tinham morrido há muito. Ela não fazia apenas parte de um mundo de histórias, enredos românticos, casamentos destroçados e sonhos de subúrbio (com erotismo e ascensão social) – ela era esse mundo. Corín Tellado era uma marota. Trouxe para as suas novelas os sonhos de gente irrisória que, de outro modo, não reconheceria as suas próprias histórias. Se a designação ‘light’ assenta em alguém seria, sem dúvida nenhuma, nela que se adaptava como uma luva. A censura franquista proibiu-lhe livros e cortou-lhe muitos capítulos. Vai hoje a enterrar, nas Astúrias.

Nova Aliança, 17 / Abril / 2009

15.4.09

Os nomes das ruas, os trabalhos de casa e o aniversário do Público

18 de Março - Antigamente, dar nome a uma rua pressupunha um feito distinto. Políticos, militares, escritores ou artistas enfeitavam as nossas cidades porque o mérito era coisa séria.
Tudo mudou: num país onde o mérito não existe e a vulgaridade igualitária abunda, quem sobra? Sobram, como muito bem defenderam os autarcas Carlos Encarnação e Moita Flores, duas mulheres vítimas de violência doméstica, que terão os seus nomes a enfeitar a toponímia de Coimbra e Santarém.
No Portugal de 2009, o ‘herói’ não é aquele que comete actos ‘heróicos’. Para se ser ‘herói’, ‘basta’ levar porrada e, de preferência, morrer durante o processo. Parece que, após ouvir na rádio a história de uma mulher assassinada pelo namorado, o dr. Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, decidiu baptizar uma rua da cidade com o nome da falecida. Para não perder a deixa, o dr. Moita-Flores, famoso comentador televisivo e edil, anunciou iniciativa semelhante em Santarém. Ambos os gestos provavelmente indiciam uma moda que, até às "autárquicas", varrerá a nação de norte a sul: imortalizar os alvos de companheiros psicóticos.
As senhoras em questão são exemplos do quê? Do azar? De péssimas escolhas sentimentais? O que rezarão as placas? "Avenida Manuela Pires, Receptora de Tareias Conjugais (1977 - 2009)"? Sim, parece-me bem…
Sei que, se a ideia é transformar os desafortunados em modelos, não há razão para que as vítimas de violência doméstica mereçam mais atenção que as vítimas de violência pública e de incidentes em geral. Urge que outros autarcas com apetites publicitários e fome eleitoral garantam ruas aos mortos em consequência de assaltos à mão armada, acidentes rodoviários, doenças infecto-contagiosas, suicídios, negligência médica e tombos mal dados.

23 de Março - Quem disse que os franceses não são inovadores? Repare-se na polémica do momento em França: faismesdevoirs.com. Está a causar polémica mas é legal. Os alunos franceses já podem comprar os trabalhos escolares na Internet. O website www.faismesdevoirs.com faz os trabalhos por medida e a pedido. Como?
O aluno inscreve-se , abre uma conta, compra um cartão pré-pago, que se vende em pontos de venda na cidade de Paris e é tudo. O website faz o trabalho e envia-o por email ou pelo correio. Três perguntas de matemática custam 5 euros, um ensaio de história, 10 euros, quatro problemas de física, 25 euros e um trabalho de geografia, 30 euros.
O fundador e proprietário do website, Stéphane Boukris, afirmou ao diário Le Parisien que recebeu 20 curricula vitae de professores interessados em trabalhar no website. Boukris informou que paga aos docentes entre 15 e 35 euros por hora de trabalho. Reagindo às críticas, Boukris defende-se: "por cada correcção de um problema, há anotações e comentários que ajudam o aluno a compreender melhor os assuntos".
O ministro da Educação francês diz-se chocado com esta iniciativa, que visa desenvolver o "mercado do menor esforço". Repetez-vous: menor esforço? Só pode soar bem a ouvidos tugas. Aguarda-se a todo o momento o aparecimento por cá de um faz-meoTPC.com para facilitar a vida à estudantada. É só registar o endereço e pôr a render: nada mais simples. Ou deverei dizer simplex?

25 de Março - Felicito o Público pelos seus 19 anos. São lamentáveis os ataques que o jornal tem sofrido nos últimos tempos. Eu também discordo de várias coisas que se escrevem no jornal, e nem por isso deixo de o considerar um espaço de liberdade e de opinião plural. José Manuel Fernandes transformou o Público para melhor, depois das experiências iniciais de Vicente Jorge Silva. Os infames ataques ao director do Público vêem todos do mesmo lado.

O Público tem investigado factos incómodos para o poder socialista. Tal como outros jornais, como o Sol e o Correio da Manhã. Por questões editoriais, outros não o têm feito. Por isso percebo que o PS gostasse mais do Público quando seus os critérios editoriais não colidiam com os seus interesses. Uma imprensa suave e comodista é sempre mais fácil de lidar. Mas por muito que custe ao Partido Socialista, continuará a haver uma imprensa que cumpre o seu papel de watchdog.

O comentário que António Costa acaba teceu na Quadratura do Círculo sobre a maravilha que foi o Público durante os anos Vicente Jorge Silva, por comparação à presente liderança de José Manuel Fernandes, é o exemplo acabado do estado de espírito com que este PS encara a comunicação social e a sua liberdade de expressão. Bons são os que nos são agradáveis; todos os outros são de suspeitar - e, por causa dos efeitos nefastos que a sua intervenção tem no espaço público, deve regular-se com rédea curta toda a actividade jornalística.

Nova Aliança, 9 / Abril / 2009

O cartão da Zon e o 'sal' da Assembleia da República

10 de Março – Como cliente da Zon TV Cabo, um familiar meu recebeu há dias um cartão que lhe concedia uma série de entradas gratuitas nas salas de cinema da Zon Lusomundo. Como não entrava num cinema há anos, pousou o cartão sem tencionar utilizá-lo. Logo a seguir, percebeu que, de qualquer forma, não o poderia, já que o sr. Paulo Branco se queixou à Autoridade da Concorrência (AdC), a qual deu provimento à queixa e suspendeu a iniciativa.

O argumento da AdC evoca o "interesse dos consumidores", naturalmente demasiado obtusos para o descortinarem sozinhos. Sozinho, o consumidor médio acharia melhor ver umas fitas à borla do que pagar cinco ou seis euros por cada uma ou, simplesmente, não sair de casa. Valha-lhe Deus. Por sorte, a AdC tem uma concepção da concorrência muito semelhante à do sr. Paulo Branco, um empreendedor incapaz de manter uma "roulotte" de bifanas sem intervenção do Estado. Enquanto produtor de cinema, são lendárias as capacidades do homem em arrancar dinheiro dos contribuintes a fim de financiar maravilhas de que os contribuintes fogem a sete pés. Enquanto distribuidor, a coisa tem corrido pior ao sr. Branco. As salas que abriu em Santarém faliram. Os cinemas Alvaláxia faliram. O "multiplex" no Freeport de Alcochete faliu. E a prosperidade dos espaços que o visionário vai aguentando aqui e ali talvez se meça pelo desespero das suas reclamações.

Não é que as aptidões reivindicativas do sr. Branco tenham sumido, já que em 2007 ele açambarcou todos os subsídios do Instituto do Cinema e do Audiovisual para apoio da exibição comercial. A maçada é que, na ausência de público, que irresponsavelmente prefere os produtos da Lusomundo e de outros distribuidores, nem os subsídios chegam para que as salas do venerável empresário se sustentem.

É por isso que a decisão da AdC, embora saudável, não é suficiente. Além de forçar os contribuintes a pagar a produção e a exibição dos filmes que o sr. Branco produz ou escolhe, urge forçar os contribuintes a vê-los nos lugares que o sr. Branco disponibiliza para o efeito. E não fica caro: a empresa do sr. Branco até oferece aos clientes um inovador cartão com sessões grátis, de que a AdC não discorda. Só falta convencer os consumidores. Mesmo que a mal, é para o seu bem.


12 de Março - Disse, em tempos, um humorista que os saltos altos tinham sido inventados por uma mulher que já estava farta de ser beijada na testa…
Os sapatos com salto tipo aguilhão, aguçam os olhares da sugestão. Conferem o andar certo para se andar para o sítio certo que as mulheres e homens procuram sempre. Dir-se-ia que é a Natureza em evolução nos costumes. Os saltos altos, prometem altos voos, porque conferem beleza estética ao andar feminino, já de si mesmo, em certas ocasiões, um compasso de espera acelerado.

Vem isto a propósito da preocupação dos nossos distintos deputados com a normalização do sal no pão. Eu proponho que o mesmo espírito seja aplicado aos saltos dos sapatos. Das mulheres, claro que homem algum estaria para levar a vida em cima disto (é certo que há excepções mas essas só confirmam a regra). Repararão Vossas Excelências que estes saltos desgraçam os pés e os ossinhos de quem os usar. Mais, escavacam os tapetes, o soalho e os ouvidos dos vizinhos. De igual modo é de duvidar que se consiga conduzir com eles. Por outro lado e sem entrarmos em grandes análises que nos podem levar para outros assuntos, podeis reparar que os saltinhos bem usados podem arrancar pedacinhos de pele e até olhinhos a um ser mais incauto que seja agredido pela utilizadora dos ditos saltos. São milhares quando não milhões de mulheres que prejudicam a sua saúde e põem em risco os outros por se obstinarem em usar estes saltos. Direis que há outros sapatos à escolha. Pois há, senhores deputados. Mas as mulheres pouco informadas preferem estes. É necessário que Vós acauteleis o pouco discernimentos das fracas cabeças femininas. Multas para os fabricantes e vendedores destes sapatos, sessões de terapia, multas para as contumazes utilizadoras e profundos debates na AR sobre este problema impõem-se. A bem da Nação, viva a Assembleia da República transformada na grande zeladora da nossa saúde.

Nova Aliança, 19 / Março / 2009

O 'Carnaval' de Torres e os números da Caixa

21 de Fevereiro – Este Carnaval ofereceu a todos uma manancial de temas formidável. Paredes de Coura, Torres Vedras, a feira do livro no Porto e a sentença do suborno foram exemplos de algo que pensávamos estar bem afastado das nossas mentes. Infelizmente, não estão.

No Minho, os professores foram obrigados a marchar num desfile carnavalesco por uma DREN que, afinal, já depois de eles terem marchado de luto, veio dizer que não obrigara a nada.

O episódio de Torres Vedras, na verdade, não merece grande gasto de energia, porque proibir que apareça um monitor do computador Magalhães, e logo esse, com a primeira página da pesquisa «Google=mulheres» é coisa de gente demente. O que aprendemos do episódio foi que: a) em Portugal, o Ministério Público tem poderes de censura; b) o Ministério Público pode censurar uma obra sem a ver; c)o Ministério Público pode censurar uma obra sem que o autor se possa defender; d) o Ministério Público pode censurar uma obra sem que a decisão tenha que ser aprovada por um juiz.
Portanto, rimo-nos da história, atribuímo-la ao excesso de zelo de uma senhora de província – já lhe ouvi chamar Dona Pombinha, em memória de uma conhecida figura de telenovela - estacionada no tribunal local. Mas há a queixa, a miserável queixa, a queixa atenta, a denúncia por causa da moral, a queixa virtuosa que vai parar ao tribunal por causa das imagens e por causa do Magalhães a desfilar entre corpos cheios de frio, expostos à «cupidez dos foliões». Portanto, como gente decente, desviamos o olhar e rimo-nos como de costume, dizendo que não tem importância. Não tem. Hoje, é isso que não tem importância. Amanhã, a Justiça, a Justiça que tem tempo para estas minudências, manda encerrar o bom humor e põe a gargantilha depois de alguém fazer queixa por causa de sabe-se lá o quê. E nós, o que faremos?

E o suborno? – o leitor estará a pensar que história será esta que rivaliza em graça com as anteriores – eu explico: trata-se do caso em que um tribunal veio suavizar um caso de suborno, aplicando-lhe uma multa de cinco mil euros e chamando-lhe, reparem bem: “corrupção activa para acto ilícito”. E onde o facto de o réu ter subido na vida “a pulso” valeu mais do que ter dito, explicitamente, em conversa gravada: “Nisto não sou virgem. (…) Conforme faço uma escriturazinha, rapo dois mil euros aqui, 10 mil acolá. (…) Ponho isto num cofre para a gente ir fazendo umas ratices”. Isto sim, é pornografia. Mas dá mais nas vistas da nossa incultura um sexo de mulher num quadro de Courbet apreendido na feira do Porto. Até porque, vá-se lá perceber se o original da obra exposto no Museu d'Orsay em Paris não é, afinal, um instrumento pornográfico ao serviço de uma nova função cultural que os franceses pensaram para o equipamento cultural. Ou, o que dizer então da série recentemente estreada na televisão, que retrata a vida privada de Salazar? Uma sugestão ( trocista, atenção!!!! ): apreende-se o filme, encerra-se como medida cautelar a estação e coloca-se sob termo de identidade e residência os incitadores da devassa.
Este é ainda uma parte do País que se herdou, atrasado e sobretudo sem estrutura alguma de formação e informação. Não se poderia ministrar por aí uns cursos de cultura geral, gratuitos a quem toma essas decisões?


25 de Fevereiro – Se os números anunciados estão correctos, foram registados nos últimos tempos as seguintes entradas e aumentos de capital do Estado na Caixa:

Dezembro de 2007 – 150 milhões; Agosto de 2008 – 400 milhões; Outubro de 2008 – 390 milhões (venda de participações ao Estado); Dezembro de 2008 – 1000 milhões

Fazendo bem as contas, de Dezembro de 2007 até Março de 2009, o contribuinte (eu) enfiou 1940 milhões de euros na Caixa Geral de Depósitos. Recebeu 340 milhões. Faria de Oliveira disse hoje que ia entregar mais 300 milhões. Simpático. É fazer as contas. Já só me está a dever 1300 milhões de euros. 1300 milhões de euros é a dívida da Caixa Geral de Depósitos ao contribuinte português só no último ano e meio. Quase o dobro do buraco total do BPN. Mas é só o senhor Manuel Dias Loureiro quem é chamado a uma comissão parlamentar. Pergunto, não seria melhor para a economia nacionalizar a Caixa?

Nova Aliança, 5 / Março / 2009

27.2.09

A subida "a pulso" do Vara

8 de Fevereiro – A pedido de uns quantos, fui ler o currículo vitae de um tal Armando Martins Vara. A tarefa não me entusiasmava nem me interessava rigorosamente nada. Mas lá entrei na página respectiva: (http://www.millenniumbcp.pt/pubs/pt/grupobcp/quemsomos/orgaossociais/article.jhtml?articleID=217516).
No meio de uma depressão colectiva provocada por uma crise económica e tendo ouvido falar da subida meteórica desse administrador do BCP, procurei informações sobre esse modelo de virtudes do momento nacional que vivemos.
Comecei por ficar desiludido e tentado a pedir ao Millennium que apague a página ou, pelo menos que faça um aviso prévio, o currículo de Armando Vara só deveria ser acessível a maiores de 18 anos. Não, não se trata de nenhuma fotografia mais ousada. A verdade é que receio o colapso rápido do sistema de ensino. Se os estudantes deste país fossem ler o currículo de Armando Vara, dificilmente os seus encarregados de educação conseguiriam convencê-los a pegar num livro. O próprio “Magalhães” ficaria fechado na gaveta.
Muito provavelmente a UNI acordaria amanhã com uma fila de milhares de jovens à porta da universidade entretanto encerrada, para se escreverem no curso de relações internacionais. Aliás, se os jovens seguissem o exemplo de Vara, que não acabou filosofia para tirar relações internacionais e ir para administrador de um bano, haveria uma imensa confusão não só nos mais jovens, mas também no meio dos estudantes universitários. Os estudantes do Técnico mudariam para Literaturas Estrangeiras na esperança de chegarem a astronautas e os de medicina iriam a correr para o ISLA na esperança de virem a ganhar o Nobel da medicina.
E como explicar à malta que as pós-graduações costumam tirar-se depois das licenciaturas? Pois, mas Vara já estava a adivinhar o futuro que ia ter e antes de acabar o curso de relações internacionais em 2005, já tinha concluído uma pós-graduação em gestão empresarial no ISCTE em 2004. Como é bom antecipar problemas para os evitar no futuro. Ainda bem que foi mesmo parar à gestão bancária ou acabaria por ter uma crise de vocações.
Todavia, antes de chegarem à formação académica os nossos jovens terão de ficar a conhecer as funções do coitado, ao saberem que o nosso gestor de sucesso tem de ser vice-presidente do Conselho de Administração da Fundação Millennium bcp, Presidente do Conselho de Administração do Banco de Investimento Imobiliário, SA, vice-Presidente do Conselho de Administração do Banco Millennium bcp Investimento, SA, Gerente da BCP Internacional II, Sociedade Unipessoal, SGPS, Lda,. Gerente da BII Internacional, SGPS, Lda., gerente da VSC - Aluguer de Viaturas sem Condutor, Lda., vice-Presidente do Conselho de Administração do Millennium bcp - Prestação de Serviços, ACE, e, como se isto fosse pouco, ainda tem de dar uns saltos a Moçambique onde é vice-Presidente do Conselho de Administração do BIM - Banco Internacional de Moçambique, SA. Se considerarmos que só no Millennium Armando Vara cuida da rede corporate, da rede empresas, do factoring e leasing, do marketing de empresas, do aprovisionamento, património e segurança, da direcção de comunicação e do desinvestimento de activos. Pois é, depois disto certamente que nem vão querer saber quanto ganha o homem. Nem quererão saber que neste país se consegue ir para administrador do seu maior banco no mesmo ano em que se conclui uma licenciatura numa universidade que foi encerrada pelo actual Governo.
Bem, do mal, o menos, é gestor de um banco privado e a não ser que o Estado tenha que vir a nacionalizar o Millennium o problema é dos seus gestores. Mas mesmo assim acho que deveriam omitir esta página pelos efeitos nefastos que pode ter na nossa juventude. Três questões ficam lançadas: se este homem se transformar no modelo de sucesso do nosso país, fará sentido avançar para a avaliação dos professores, obrigar os nossos jovens a estudar e manter aberta a maioria das nossas universidades?

Nova Aliança, 19 / Fevereiro / 2009

13.2.09

A avaliação e o pretenso relatório da OCDE

28 de Janeiro - Uns senhores que costumam trabalhar para a OCDE fizeram um estudo sobre as políticas educativas. É um relatório de avaliação encomendado e pago pelo Governo. Embora apresentado como “estudo”, ele é antes de mais um relatório. Mas, ao contrário do que fez crer o primeiro-ministro, não é um relatório da OCDE. Mentir é feio, muito feio e a mentira, vinda de alguém com responsabilidades a nível das mais altas hierarquias do estado é mais do que feio, é gravíssimo!
Um parênteses para uma palavra aos Pais e Encarregados de Educação. Pensemos no conceito de escola a tempo inteiro. Será que o que querem para os vossos filhos é que passem cada vez menos tempo com eles?! É isso que desejam realmente?! Sei que se preocupam por terem que trabalhar e não terem onde deixar os vossos filhos, mas é legítimo assumir essa realidade? Não desejariam que este país pudesse regular os horários de trabalho para que pudessem acompanhá-los nos estudos, brincar com eles, conversar, e terem o direito de os ver, muitos de vós sem ser apenas ao fim-de-semana?! Não seria desejável que as políticas educativas pudessem contribuir para estruturar o conceito de família em vez de servir para a destruir? Não será por isso que muitos de vossos filhos se desestruturam afectiva e emocionalmente? Mas não é verdade também que muitos de vós já foram despedidos no final de um contrato a prazo por terem vindo à escola reunir com o Director de Turma?!
É de todo desejável que a Comunidade participe na escola, tenho-o dito vezes sem conta. Há ainda outro aspecto que diz respeito a este relatório - a possibilidade de passar as escolas para as autarquias. É um erro gravíssimo porque deixam de ser os professores, que detêm as competências pedagógicas, a decidir sobre educação e as escolas passam a ser geridas por gestores que pertencem a partidos políticos, que não têm que ter competências na área da educação! Estão a imaginar maior aberração?! Uma escola poder ser gerida por alguém exterior à educação? Conhecem alguém mais competente do que os professores para fazer a gestão de uma escola?
Voltemos ao dito relatório. As fontes documentais são quase todas dos organismos do ME. Os 4 peritos portugueses consultados são todos próximos ou militantes do PS. O documento baseou-se num relatório prévio feito pelo Ministério da Educação. E os 7 municípios ouvidos são todos do PS menos um que é do Major Valentim Loureiro, um independente que gosta de elogiar a ministra da educação. Os peritos internacionais devem ter deixado Portugal a pensar que o país é uma república monopartidária. Ora digam lá: que credibilidade é que este Relatório pode merecer?

Nota 1: os municípios ouvidos foram: Guimarães (PS); Santo Tirso (PS); Amadora (PS); Ourique (PS); Lisboa (PS); Portimão (PS); Gondomar (Independente). Podemos afirmar, sem estarmos enganados, que Valentim Loureiro é o mais socialista de todos os independentes. Os peritos tiveram encontros com diversos parceiros, destacando-se os nomeados Directores Regionais de Educação, entre os quais a sempre disponível Margarida Moreira, da DREN. É impossível não ficar deslumbrado com as reformas do Governo, perante uma tão isenta apreciação crítica.
Depois, os peritos, foram levados a falar com a CONFAP, mas não com a CNIPE. Para o Ministério da Educação, para ouvir os pais, basta reunir com Albino Almeida, que ou deve ter muitos filhos ou então os seus resultados escolares não são famosos, tantos são os anos que leva à frente da Confederação
Os peritos reuniram ainda com as Associações Profissionais ligadas ao Ensino Básico. Foram ouvidos os professores de Inglês, de Educação Física e até do ensino Pré-Escolar. Mas, por algum motivo estranho, não foram ouvidas a Associação de Professores de Português, nem a Associação de Professores de Matemática, nem a Sociedade de Professores de Matemática.
É insólito, se atendermos à importância que estas disciplinas têm no ensino básico.
Afastando os "observadores" internacionais dos "dissidentes", as avaliações e inspecções externas serão sempre muito positivas. Afinal, o envolvimento da OCDE no relatório fica-se pelo prefácio. O Governo, que encomendou o Estudo e escolheu os peritos, convidou também a "Deborah" da OCDE para assinar o prefácio.

Nota 2: Nelson de Carvalho não se recandidata a novo mandato. Perante a dúvida do seu futuro a curto prazo, tenho uma sugestão: preocupado como está com a posição das escolas da cidade no ranking nacional e defensor do actual estado de coisas a nível de educação, que tal regressar à sua antiga escola e integrar a “bolsa” de professores que assegura as “aulas de substituição” aos alunos. Isso sim, seria de mestre…

Nova Aliança, 5 / 2 / 2009

O menino do Ferrari, a vergonha do ministro e a questão israelita

9 de Janeiro - Partiu um Ferrari 599 GTB, num túnel perto de Manchester. Quase só por milagre não se partiu todo ele também: o impacto do embate do bólide contra as barreiras de protecção foi tão violento que toda a parte dianteira ficou destruída e uma roda desprendeu-se, aterrando a 200 metros de distância. Felizmente ileso, Cristiano Ronaldo encolheu os ombros e anunciou de imediato aos jornalistas: "Vou comprar um Bugatti." O avançado do Manchester United já tem um Rolls-Royce, um Bentley Continental, dois Porsches Cayenne e um Porsche 911: segundo os jornalistas da especialidade, o seu parque automóvel está avaliado em três milhões de euros. Pode bem dar-se ao luxo de espatifar um Ferrari. Ou dois ou três. Há uns anos, não muitos, era um menino pobre da Madeira: hoje é um perfeito símbolo da nossa era, consumista no mais alto grau. Ostenta, exibe, acelera, voa baixinho. Usa um Ferrari e deita-o fora.

12 de Janeiro - Augusto Santos Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares ficou escandalizado a respeito da votação de um projecto dos Verdes que suspenderia o tal modelo para a "avaliação" daquela gente que dá aulas nas escolas: “Houve deputados que não hesitaram em votar a favor de um projecto de lei que, a ser aprovado, constituiria uma vergonha para o parlamento democrático português”.
Sim, ele disse aquilo referindo-se ao voto de cento e treze deputados dos Verdes, do PSD, do PCP, do CDS, do BE, de dois não-inscritos ( Luísa Mesquita e José Paulo de Carvalho) e até do PS.
Independentemente do número impressionante de deputados que "não hesitaram", se atreveram à pouca-vergonha daquele voto, o que espanta é aquilo mesmo ter sido dito. Por um ministro.
Um ministro não deve falar dos deputados (e o governo está "sujeito ao" parlamento e não o inverso) naqueles termos. Um ministro digno desse nome, que tenha respeito por si mesmo e pela sua função, tem de respeitar o parlamento.
Num parlamento democrático, a votação livre de deputados e a (quase) aprovação de um documento nunca são uma vergonha para esse parlamento. Pode não ser conveniente para um governo, pode ser uma maçada, pode ser um erro, mas nunca é "uma vergonha" que alguns biltres, subentende-se, "não hesitam", isto é, têm o atrevimento, de votar. É, sim, "uma vergonha" haver um ministro que diga coisas destas.
Eu tenho vergonha deste ministro. Ele também devia ter.

14 de Janeiro - O problema está, efectivamente, na morte de civis. Contrariamente ao Hamas, e aos seus adeptos mais ou menos vocais por várias partes do mundo, o governo israelita distingue os terroristas do grosso da população palestiniana. Mais: o exército israelita é provavelmente o exército no mundo com regras mais estritas no capítulo. Que uma guerra, nestas condições, e com o Hamas usando civis como escudo humano, produza a morte de inocentes, é praticamente inevitável. A questão está, efectivamente, na quantidade dessas mortes. Aqui, a quantidade interessa, e por razões morais. O Hamas (tal como o Hezbollah, que decidiu voltar a entrar agora em cena) não se coloca o problema da morte dos civis israelitas, até porque o seu objectivo é, precisamente, acabar com eles. Para Israel – para o governo de Israel e para os israelitas – a questão é de suma importância. Não por razões de “má imagem”, vale a pena repetir, mas por razões morais. Israel, tentando defender-se, encontra um problema – e um problema que explicitamente reconhece, um problema que é um problema para os israelitas - que os seus adversários não têm. A assimetria é completa. Com quem admitir isto – por outras palavras: com quem admitir o trágico dilema de Israel na sua luta contra o terrorismo e na defesa da vida dos seus cidadãos -, é possível discutir. Com quem se recusar a fazê-lo, francamente, não vale a pena.

Nova Aliança, 23 / 1 / 2009

O que aí vem...

30 de Dezembro – "Se isto fosse um país a sério..." É das expressões que mais tenho ouvido. Em cafés, entre colegas, entre pessoas das mais variadas profissões. Deixa no ar a ideia de que claramente não é. De que não há justiça, de que não há consequências perante as acções. Que se vive num regime de impunidade, onde o crime de facto compensa. É um Portugal no condicional, à condição de nação do futuro do pretérito. Coisa inacabada e sem remédio. O "se isto fosse um país a sério" dá para tudo, para todas as ocasiões. Para criticar a justiça (ou falta dela) no futebol, nos negócios pouco claros, nos processos judiciais por crimes económicos, etc, etc…

Oiço esta expressão da boca de quem, por norma, vive do seu trabalho, e assiste à não efectivação penal dos crimes vindos a público. Há como que uma sensação de frustração social, que revela a tristeza pela ignorância de saber roubar, de só saber trabalhar.


31 de Dezembro - Este ano não vale a pena fazer a tradicional revista do ano. A cada dia que passa, vemos coisas de que não estávamos à espera. Num dia nacionaliza-se um banco, no outro banqueiros prósperos vão de corda ao pescoço às finanças, mais à frente a banca privada recorre a avais do Estado... Políticos de direita e de esquerda citam Keynes ao pequeno-almoço e choram por mais regulação ao deitar. É um tempo em que apenas se espera chegar vivo ao dia seguinte e pouco mais. É por isso que olhar para trás pouco conta.


1 de Janeiro – O que vai acontecer em 2009:
Uma revolta juvenil algures na Europa será interpretada por grandes intelectuais como o rastilho que levará a uma revolta generalizada das classes oprimidas.
Os alunos portugueses continuarão a ter sucesso.
José Sócrates vai anunciar um novo grande projecto industrial que tirará a economia portuguesa da crise.
A TVI descobrirá que esse grande projecto é uma cópia do que tinha sido apresentado há três anos.
José Sócrates anunciará um novo plano de combate à crise.
Os Estados Unidos continurão a tratar os combatentes inimigos à margem da Constituição Americana e da Convenção de Genebra.
A culpa continuará a ser de Bush.
O campeonato de futebol será ganho por um dos três “grandes”.
A União Europeia continuará a sua política unilateralista acobardando-se nas missões militares internacionais.
O Tibete continuará tão esquecido como esteve nos últimos 4 meses de 2008.
Serão anunciados estudos científicos que prevêem grandes catástrofes daqui a 50 ou 100 anos.
A Ministra da Educação continuará a culpar os professores de tudo o que de mal acontece nas escolas.
A energia das ondas será anunciada como a energia do futuro.
O carro eléctrico será anunciado como o carro do futuro.
Vai emergir um novo líder de esquerda que representará a esperança num futuro melhor.
O fracasso dos planos de combate à crise provará a necessidade de mais planos.
A Islândia sairá da crise antes de Portugal.
Haverá uma onda de criminalidade no Verão.
Os candidatos autárquicos começarão a frequentar os cafés e a “misturar-se” com o povo.
O Procurador-Geral da República considerará que determinado tipo de crime é prioritário.
Maria José Morgado será nomeada para um caso importante.

Nova Aliança, 9 /1 / 2009

1.1.09

Nós, os Portugueses

6 de Dezembro – Um dia destes as pessoas não aguentam mais. Tantos sacrifícios infligidos àqueles que pouco ou nada têm – a esmagadora maioria – são insuportáveis. E tanto zelo a proteger os que tudo têm – a escandalosa minoria – é intolerável. Qualquer dia vai tudo raso!
Os cidadãos anónimos começarão a fazer – em público e em coro – perguntas assassinas a um governo de maioria absoluta, que de socialista só tem o nome, e que, na prática, só protege os senhores do dinheiro, sacrificando os que apenas vivem do seu trabalho.
Poderão dizer que é demagogia, mas faz todo o sentido perguntar porque é que seria tão prejudicial para a imagem deste país deixar falir o BPP, um minúsculo e ridículo banco que apenas gere fortunas dos muito ricos – especulando sem freio na bolsa – e já não é prejudicial para essa imagem deixar que fechem as portas dezenas de empresas que nem sequer faliram – algumas fecham tão-só para reduzir os custos das multinacionais – e que, assim, lançam no desemprego e na pobreza vários milhares de trabalhadores?!
Mais: porque é que o Estado saca do dinheiro dos contribuintes para proteger o BPN, banco de vigaristas de alto coturno afogado em burlas de toda a espécie, como se fosse bom para a imagem do país salvar a face de uma instituição corrupta que tem enchido os bolsos de alguns dos mais indignos representantes do chamado «bloco central»?!
Há limites de tolerância para tão flagrantes injustiças e tanto escândalo. Será que ainda não perceberam que o «capitalismo de compinchas» é uma vergonha e está a ruir?

10 de Dezembro - Isto da alta finança é uma coisa complicada. Não é por isso fácil explicar os escândalos financeiros aos portugueses. Felizmente, os portugueses estão familizarizados com um esquema semelhante ao esquema Madoff que era assim como a Segurança Social portuguesa. Os clientes de Madoff eram assim como o jovem de 23 anos que começa a descontar para a segurança social. Primeiro faziam um depósito. Qualquer coisa como os 33% que cada trabalhador desconta para a segurança social por mês. Madoff prometia aos clientes uma rentabilidade de cerca de 10% ao ano. O Estado português promete ao jovem de 23 uma reforma valorizada relativamente ao salário actual a pagar daqui a 42 anos. Madoff usava os depósitos dos novos clientes para pagar juros aos antigos. O Estado português usa as contribuições dos novos contribuintes para pagar reformas aos mais antigos. É tudo. Portanto, os dois esquemas são muito semelhantes. Há apenas uma diferença. Bernard Madoff vai preso. Os políticos portugueses que criaram a Segurança Social fizeram leis que tornam o seu esquema perfeitamente legal.

14 de Dezembro – A Ministra da Saúde não gostou de uma pergunta à sua colega da Educação e ralhou à jornalista. Um jornalista da RTP tentou questionar a ministra da Educação sobre os protestos dos professores. Ana Jorge não gostou e reagiu à pergunta, dizendo-lhe: "O quê? O senhor não sabe o que está combinado? Que hoje só pode fazer perguntas sobre esta cerimónia e sobre o plano de combate à sida nas escolas? Ainda por cima é a RTP, a televisão pública, a fazer uma coisa destas. E, depois, logo à noite, não sai a reportagem."
Este episódio é de tal modo esclarecedor sobre o actual estado de coisa que me abstenho de fazer qualquer comentário.
16 de Dezembro - "O problema da violência na escola tem uma explicação raramente focada. Nos anos 1950, quando apenas 13% dos jovens permanecia na escola após a 4ª classe, a cultura que se vivia no então chamado ensino secundário - do actual 5º ao 12º anos - era semelhante à que reinava nas famílias. A mortalidade escolar encarregava-se de libertar as escolas dos filhos dos pobres. Tanto os pais como os professores pertenciam à mesma classe. (...) Era fácil ser-se pai e docente. Nas décadas de 1970 e 1980, os adolescentes passaram a contestar com crescente virulência, a autoridade. (...) A indisciplina tornou-se a nota dominante. Hoje, quem carece de estímulo à auto-estima, não são os meninos, mas os adultos. (…) Não vejo uma solução fácil para o problema [a violência na escola moderna]. A esquerda continua a defender que as crianças são como as flores; a direita que tudo se resolve com um par de bofetadas. (...) Muitas das crianças que hoje frequentam a escolaridade obrigatória não são capazes de estar sentadas durante mais de quinze minutos; não suportam um revés, sem se insubordinarem; provêm de um mundo de tal forma esquálido que o esforço que o estudo exige se lhes parece inútil. O reconhecimento de que parte da violência escolar tem causas de natureza social não me leva a ser complacente com o mau comportamento nas escolas de aula. Vítimas, ou não, os alunos devem ser julgados pelos seus actos, não pelos seus traumas.”

Maria Filomena Mónica, "Nós, os Portugueses", Quasi Edições, 2008 (página 66).

Nova Aliança, 26 / Dezembro / 2008

O Zé e a educação 'kafkiana'

26 de Novembro - O ministro português Fernando Teixeira dos Santos é considerado pelo jornal britânico "Financial Times" (FT) como o pior ministro das Finanças entre os 19 países da União Europeia (UE) analisados. Logo ele de quem dizem que salvou o país da recessão. O fraco desempenho da economia nacional e o baixo perfil europeu justificam a escolha. O melhor é o finlandês.

4 de Dezembro – Conhecem-no certamente. José Sá Fernandes é o responsável pelo facto de os lisboetas terem ficado privados durante muito tempo do túnel do Marquês. Num país a sério, o senhor teria sido responsabilizado criminalmente pelo facto. Era a velocidade no interior, era a altura, era o nível de inclinação e, como podemos verificar diariamente, tudo está mal e os acidentes “sucedem-se”.
Por sua responsabilidade, o túnel foi embargado levando a horas intermináveis de espera por parte dos automobilistas, não falando já no prejuízo do comércio da zona. Esse episódio foi apenas mais um onde a personagem se vangloriava de se colocar sempre ao lado do cidadão, assumindo mesmo o epíteto de “consciência crítica” da cidade. Era a época do slogan “O Zé Faz Falta!”.
Curiosamente, o balão cívico esvaziou e uma piscadela de olho socialista fê-lo desaparecer da circulação. Enfim, nem tanto… o sujeito propôs, na semana passada, um "corredor pedonal e ciclável na terceira travessia do Tejo". No texto da proposta, Sá Fernandes lamenta que as actuais pontes não tenham uma ciclovia. É, de facto, injusto que os almadenses não possam vir de bicicleta para Lisboa. O facto da ponte sobre o Tejo estar a 70 metros de altura e só um pormenor. É verdade que, em dias de algum vento, a travessia é proibida a motas com menos de 125cc. Mas isso não é nada que não se resolvesse com um pouco de lastro nas bicicletas.
E se os políticos de outros tempos tivessem a visão de Sá Fernandes teriam permitido que os almadenses fizessem a viagem para Lisboa de bicicleta na ponte Vasco da Gama. São só 17 quilómetros. O suficiente para o triatlo.
Seja como for a ideia de permitir ciclistas na nova ponte Chelas-Barreiro é mais uma inovação digna de registo. É o Zé no seu melhor. Seis ou sete quilómetros a mais de quarenta metros de altura. Vamos a isso, Zé. Tu vais à frente.




5 de Dezembro - A ministra da Educação vivia no melhor dos mundos. As escolas rebentavam pelas costuras com a pressão burocrática que sobre elas tem sido exercida. Os apelos à suspensão de um modelo que parece ter sido importado da lógica de funcionamento do castelo kafkiano multiplicam¬ se pelo país. A ministra vem confessar que afinal há alguns acertos a fazer, bem, não são só as tais duas folhinhas apregoadas... A leitura atenta da legislação implicada neste processo vem desmentir a falácia dos responsáveis ministeriais, quando alegam que a possibilidade de reduzir a dimensão burocrática do processo está ao alcance das escolas. Não está, pois ela deriva em exclusivo daquilo que é imposto por todo o material legislativo que foi despejado sobre as escolas. Ignorar isso parece mais um sinal de que os responsáveis ministeriais desconhecem as leis que eles mesmo assinaram.
Perante um sistema que obriga a gastar cerca de dois dias de trabalho de uma escola para avaliar cada professor, parece justo aplicar o termo de hipertelia ao monstro avaliativo do ministério. Este conceito parte da noção de finalidade (telos) para se referir à lógica que determina o movimento de um sistema para além de todo o propósito racional. O sistema procura, assim, legitimar a sua existência através de uma reprodução infinita, destituída de qualquer finalidade externa a si; toda a sua energia é gasta para o manter em funcionamento, o que pode ser comparado à proliferação enlouquecida das células cancerosas. É, pois, para o estado de saturação inerte que a situação das escolas portuguesas está a ser empurrada.
Isilda Jana (IJ) respondeu a um pedido do seu chefe e vem defender a ministra. Não sei de que escola se lembra IJ mas eu lembro-me que a escola de IJ era uma escola de animação, hoje é uma escola de burocracia; era como um bosque mediterrânico, hoje é uma floresta negra cheia de impressos para preencher; era uma escola sem memória, hoje é uma escola que não esquece aquilo que é feito para a tornar pior. E o homem, como diz o poeta galego Ramiro Fonte, “entre outras moitas consideracións, é um ser memorioso que necessita crear lembranzas para valerse na súa vida.[…] Porque a memoria é como a auga, foxe das nosas mans”. Há coisas que não deviam fugir-nos das mãos.

Nova Aliança, 11 / Dezembro / 2008

A Avaliação de Professores e o Magalhães

12 de Novembro – AZAR -
Bateu à porta de Miguel Sousa Tavares e entrou. Pelo telhado. Foi ao escritório e pegou num computador portátil, com "toda a vida" escrita, do cronista e escritor de best-sellers.

Sousa Tavares acha, no 24 Horas, que o azar não veio só, mas acompanhado da tramóia que anonimamente o persegue. Por isso, faz um apelo de primeira página, ao Azar , para que lhe devolva o "seu trabalho", prometendo dar tudo o que ele quiser.

Faz bem, duplamente. Desiste de lhe arranjar companhia e ao mesmo tempo, dá-nos a esperança de voltar a ler uma crítica literária de Vasco Pulido Valente.

30 de Outubro - FOME –
Mais de metade das crianças de Timor estão a passar fome. 60% das crianças com menos de 5 anos sofrem de má nutrição crónica. 80% das famílias timorenses não têm comida suficiente. Mais de 70 % dos jovens não tem emprego nem hipóteses de vir a arranjar trabalho.
Isto com independência, democracia, vigiados por soldados australianos e com políticos encharcados em petrodólares. Foi para isto que se montou aquela operação de propaganda mundial em que os políticos portugueses da altura desempenharam um papel decisivo e hoje bem recompensado.
Então e agora!? Não vai uma vigiliazinha por estas crianças timorenses!? Não há quem acenda uma velinha!? E as ONG não dão uma ajudinha? Vá lá! Por Timor Lorosae! Ao menos matem a fome às crianças!
16 de Novembro – TESTE -
Este ajuda avaliadores a descobrir quem é líder. Ora, leiam: Assinale com um F (de falso) ou com V (de verdadeiro): "A ideia de uma relação exclusiva com uma pessoa, durante toda a vida, não me parece desejável nem realista"; "nunca me vestiria de uma maneira vistosa, boémia ou que chamasse a atenção de qualquer outra forma"; "não tenho muito tempo ou paciência para longas reuniões familiares, tais como uma tarde inteira passada a celebrar o aniversário de alguém".
O exercício - constituído por 56 questões - foi proposto no âmbito de uma acção de formação destinada a professores avaliadores de Lisboa sobre o novo modelo de avaliação do desempenho docente.

O objectivo desta "actividade" é ajudar os professores a "reconhecer a importância dos processos de auto-análise no desempenho de funções de liderança", lê-se no documento com a chancela do Ministério da Educação.

O que se pede é que quem está a receber formação (tanto professores avaliadores como avaliados têm recebido formação para se inteirarem do novo modelo) dedique 30 minutos ao teste de Jeffrey Glanz, um autor norte-americano que escreveu, entre outros, o livro “À Descoberta do Seu Estilo de Liderança - Um guia para educadores e professores”, publicado em Portugal pela Edições ASA.

Após o preenchimento, "o documento, dado o seu carácter pessoal, será guardado pelo formando". A ideia é que o professor cruze as suas respostas com a informação que consta de outro documento onde descobrirá qual o seu "estilo de liderança".

"Desde criança que parece que quero mais da vida que as outras pessoas"; "raramente procuro o sossego"; "acredito firmemente que o divórcio se deve tentar evitar sempre que possível"; "procrastino muito"; "fico frustrado por a visão do mundo da maioria das pessoas ser tão limitada"; "a minha casa é mais limpa e organizada que a maioria das casas que conheço"; "sou mais inteligente que a maioria das pessoas e os demais geralmente reconhecem-no"... são algumas das frases nas quais o professor deve reflectir para saber se se identifica com elas.

18 de Novembro – QUEM DÁ E TORNA A TIRAR... OU UM PROBLEMA DE “SOCIALIZAÇÃO” -
Foi só para fotografia. Em dia de visita do primeiro-ministro para a inauguração dos centros escolares de Freixo e Refoios, no concelho de Ponte de Lima, 260 alunos foram expostos nas salas de aula, sentados à frente daquele que seria o seu computador ‘Magalhães’. Só que, logo após as cerimónias da passada quarta-feira, os pequenos portáteis foram recolhidos e encaixotados.
Afinal, nenhum aluno tem ainda o seu computador, ao contrário do que foi anunciado durante a visita liderada pelo primeiro-ministro, que chegou a perguntar aos alunos se estavam "satisfeitos com a prenda" que tinham acabado de receber. José Sócrates sublinhou até "o brilho nos olhos" das crianças.
"Os computadores foram como uma faísca. Vieram e esfumaram--se logo", comentou ontem Artur Correia, pai de um aluno, lamentando que as escolas "tenham levado as crianças a participar numa farsa".
Em declarações à Lusa, a responsável da Direcção Regional de Educação do Norte negou que os portáteis tenham sido retirados, garantindo que apenas estão na escola até que os alunos se socializem com a nova ferramenta.

Nova Aliança, 27 / Novembro / 2008

27.11.08

A Gebalis e a Justiça Inglesa

2 de Novembro - É preciso colocar em letras garrafais o nome dos senhores ex - administradores da Gebalis, em Lisboa, não vá dar-se o caso de os "reciclarem" um dia destes. Francisco Ribeiro, Mário Peças e Clara Costa usaram dinheiro público para propósitos que nada tinham a ver com o propósito da Gebalis. «O prejuízo causado totaliza 200 mil euros, gastos em viagens, refeições (no Gambrinus, Bica do Sapato, Porto de Santa Maria, etc.) e artigos de luxo. Sublinhar que 200 mil euros corresponde a 40% do subsídio anual atribuído pela Câmara de Lisboa à Gebalis. Um dos arguidos comprou duas canetas Mont Blanc, uma no valor de 1700 euros, outra no valor de 990. A única mulher do trio fez quinze viagens ao estrangeiro, num período de 20 meses, gastando nelas 34 mil euros (2267 euros por viagem). O senhor das canetas só fez três, nas quais gastou 6600 euros (2200 cada). O outro fez quatro, tendo gasto 1900 euros nos passeios, o que não deixa de ser um extraordinário exemplo de contenção de despesas.» Há gente presa, ameaçada de prisão ou com "medidas de coacção" por um mil avos disto. Ora isto é "pretralhismo" à portuguesa. No caso doméstico, é a fusão de um português com um "metralha", "dos Irmãos Metralha, sempre de olho na caixa forte do Tio Patinhas", o cofre público. Se vasculharem com método, verão que o que não deve faltar por cá é destes. Os de olho, mão e o resto na caixa forte.

6 de Novembro - Um camionista português foi acusado da morte de seis pessoas e vai ser presente a tribunal em breve. Paulo Jorge Nogueira da Silva é suspeito de condução perigosa num acidente ocorrido na terça-feira, na auto-estrada M6, em Inglaterra.
Segundo noticia a Sky News, Paulo Silva, de 46 anos, vai ser julgado pela morte de uma família de seis pessoas. Oriundos de Llandudno, no País de Gales, morreram carbonizados quando a viatura em que seguiam ficou, alegadamente, debaixo do camião conduzido pelo português.
Entre os mortos, todos da mesma família, encontrava-se uma bebé de 10 semanas, Ellouise Statham, que perdeu a vida, juntamente com os pais, David e Michele. faleceram, ainda, os outros três filhos do casal, Mason, 20 meses, Reece, 13 anos, e Jay, 9 anos.
Isto aconteceu na Inglaterra, cujo sistema judiciário é totalmente diferente do nosso, quanto ao modelo seguido. Nem os juízes, lá, são escolhidos como cá. Nem os procuradores são figuras comparáveis, às de cá. Nem, principalmente, as leis processuais, são idênticas às de cá.
Na Inglaterra, com séculos de democracia e atenção aos direitos individuais, uma pessoa como este português que interveio directamente num acidente de viação, tem este destino:
Depois do gravíssimo acidente ocorrido na terça-feira, portanto há dois dias, a polícia deteve-o e levou-o para a esquadra nessa condição. Provavelmente, teve direito a advogado, intérprete, defesa circunstanciada. Passados dois dias, é formalmente acusado de homicídio e segundo o jornal, já será julgado pela morte de seis pessoas.
Deve descontar-se, ao jornal, a notícia sobre o "julgamento". Estes jornalistas julgam-se dispensados do rigor dos termos informativos e muito mais do rigor conceptual que leva a explicar a quem não entende, o significado de expressões e assuntos que exijam algum conhecimento técnico.
Assim, um julgamento, não equivale a um interrogatório para aplicação de medida de coacção. E que pode ser a prisão preventiva, remível, neste caso, à famosa caução que só pode ter a natureza de carcerária, ou seja, para substituir a prisão.
E como acontece em Portugal?
Tomemos o caso paradigmático do acidente ocorrido há uns meses numa estrada rápida do Nordeste transmontano e que vitimou vários idosos, que seguiam num autocarro, abalroado por um veículo ligeiro.
Na altura, apareceu no local toda o circo mediático costumeiro, para tentar dar a explicação do sucedido. A única pessoa interveniente e sobre quem surgiram suspeitas de comportamento inadequado na condução ( confirmado indiciariamente meses depois), ficou em liberdade e nem sequer foi ouvida em declarações na altura. Muito menos detida ou com prognóstico nesse sentido.
O que a polícia de estrada ( GNR-BT) nesse caso, faz, é o trivial: tomar conta do caso, participar ao Ministério Público, e depois, investigar. A audição das testemunhas e suspeitos, com recolha de provas fica por conta da polícia, também. Ao fim de alguns meses, por vezes longos, elaboram um relatório onde dão conta do resultado da investigação. Nesta altura, esses relatórios são tecnicamente bem elaborados, com indicações concretas das causas possíveis do acidente e dos responsáveis.
Só depois disso, o MP, elabora o despacho final no processo com vista ao destino que pode ser a acusação penal.
E depois dessa acusação, decorre um prazo de algumas semanas, para uma eventual instrução a cargo de um juiz e para reapreciar os fundamentos da acusação, se for esse o caso.
Só então, passados mais uns meses ou semanas, o processo chega à barra do tribunal propriamente dito. Com o julgamento a demorar o que tiver que demorar ( alguns, pelos vistos, demora anos!).
Tudo isto em resultado das leis que temos e nada mais. E em boa parte dos casos, para inglês ver.
Mesmo dando o devido desconto, pelo julgamento aqui anunciado, a verdade é que a formulação de um "indictment", de uma acusação formalizada no sentido de a polícia ter recolhido provas do facto criminoso, suficientes para apresentar o suspeito ao juiz, em dois dias, é motivo de reflexão sobre os nossos métodos. Que não sobre o modelo...



Nova Aliança, 13 / Novembro / 2008

7.11.08

A ERC, o equilíbrio na televisão e a "literatura" de José Rodrigues dos Santos

4 de Outubro - Leio no Expresso online: “No relatório intercalar de avaliação do pluralismo político-partidário divulgado esta semana, a ERC diz que a RTP deve "promover uma representação mais plural de forças e sensibilidades político-partidárias". (...) A direcção da RTP já decidira diminuir, depois de sucessivas insistências da ERC, o tempo de antena de Marcelo para o equilibrar com o do socialista António Vitorino. Segundo o Expresso apurou, em preparação estará uma nova grelha de comentário político que deverá dar espaço aos outros partidos durante o ano eleitoral que aí vem. O professor, cujo comentário dominical na televisão pública foi reduzido no regresso de férias em 15 minutos - passou dos 35 habituais para 20 minutos, para ficar mais equilibrado com os 15/20 que Vitorino ocupa à segunda-feira -, acha bizarro associarem-no a uma mera voz do PSD”.
Ora bem: depois de mais este momento ASAE da ERC (Entidade Reguladora da Comunicação), sugiro que a RTP tome medidas profundas no sentido da poupança dos custos com pessoal. É que começam a não fazer falta na casa directores de informação, editores, chefes de redacção. Basta um elemento designado pela ERC, munido de um cronómetro, e o jornalismo da estação pública tornar-se-á impoluto, isento e livre. Com tempos marcados para cada partido, cada instituição, talvez mesmo uma distribuição equitativa e justa do tempo dedicado ao crime em função da sua representatividade no espectro nacional...
Bizarra não é a peregrina ideia de ver Marcelo como um “representante” do PSD – para mim, o seu valor acrescentado é a capacidade de expressão, a inteligência, a cultura e o raciocínio que exibe semanalmente -, bizarra mesmo é a existência da ERC...

PS - A subversão de todos os valores que identificam e marcam o jornalismo – trabalho editorial, escolha, hierarquia da informação -, é levado ao extremo por esta Entidade, que quer transformar os espaços jornalísticos da RTP numa versão pós-moderna dos Tempos de Antena. Triste sina, a do jornalismo televisivo nos dias que correm: voltar àquelas longas e penosas horas de emissão a preto e branco, nos idos de 70, com espaço e tempo marcado para partidos, movimentos, associações, grupos jantaristas, escuteiros, produtores de leite, eu sei lá...
8 de Outubro - Manuel Sebastião (aquele que comprou uma casa ao ministro Manuel Pinho, ao que dizem, sem contrato promessa nem escritura), elucidou hoje, no Parlamento que demora cerca de um mês para que os preços dos combustíveis reflictam as oscilações do preço do barril do petróleo.
O amigo de Pinho deve ter feito a média: é que quando se trata de subir o preço demora muito menos - mas quando já é para descer o período de tempo parece-me ser bem maior…
10 de Outubro - «Os meus romances são muito meus. Não conheço nenhum autor que escreva os romances como eu os escrevo. (...) Sinto-me à vontade com qualquer género, o que importa é que eu e o leitor tenhamos prazer.(...) Construo o livro na minha cabeça e o problema é os meus dedos serem suficientemente rápidos para acompanhar as ideias que fluem da minha mente.» Não, não é Hugo, Flaubert, Dostoievsky, Roth, Clezio, Coetzee ou mesmo Rosa Lobato Faria. É apenas Rodrigues dos Santos em delirante auto-retrato. A avaliar por esta fantástica "percepção" de si mesmo - do seu "prazer", da sua "cabeça" e dos seus "dedos" - JRS ainda um dia fará literatura a partir do leite derramado nos calhamaços que deposita periodicamente nos supermercados. Por enquanto não.


Nova Aliança, 30 / 12 / 2008

O património de Lisboa e o ensino do português

29 de Setembro - "Estou de plena consciência. Aluguei um andar, legal, com valores legais", disse a sra. D. Ana Sara Brito, ao lado de Costa, o presidente da CML de quem é vereadora. Acrescentou que se tratava de "uma casa atribuída legalmente e de acordo com critérios à época e a situação à época." Talvez a criatura quisesse dizer que "estava de consciência tranquila" e saiu-lhe a "plena consciência" que, afinal, com a explicação posterior dos "critérios", acaba por ser freudianamente mais adequada. Pelo meio mencionou a inevitável "ética" e a "confiança" de Costa. Está certo. Trinta anos de maus hábitos não se mudam de um dia para o outro. Mesmo que lhe chamem "património disponível". Só o nome da coisa é todo um programa.

30 de Setembro - Em poucos dias - não é "notícia" porque estraga o falso "glamour" em que o regime vive - suicidou-se uma meia dúzia de agentes policiais, ora da GNR, ora da PSP. Desde quase adolescentes (vinte e pouco anos) até homens mais maduros, esta gente que supostamente vela pela nossa existência, decidiu colocar um termo à deles porquê? A presença constante de uma arma é tentadora? A vida "privada" e a de agente da autoridade cruzaram-se em algum nó górdio irreversível? Sem provavelmente terem lido muita filosofia, estes homens, no acto limite do suicídio, descobriram aquele que alguns consideram o único "tema" verdadeiramente filosófico. E levaram, para a eternidade, esse segredo. Falo disto porque eram pessoas com uma função especial que, diz-se, o regime tem o dever de acarinhar para que eles cumpram o dever de nos proteger. Afinal, nem eles conseguiram proteger-se de si próprios. Dá para pensar.

1 de Outubro - O SEF/Porto deteve cinco estrangeiros suspeitos dos crimes de usurpação de identidade e de uso de documento alheio, por se encontrarem a fazer exames de língua portuguesa em lugar de outros, revelou fonte escolar.
Cinco homens, dois paquistaneses, um marroquino, um são-tomense e um guineense, foram detidos nas escolas Almeida Garrett de Gaia e Carolina Michaelis do Porto quando tentavam fazer o exame de língua portuguesa, em vez de outros imigrantes (do Gana, do Paquistão, da Índia e de Marrocos) - e com identidade falsa. (...) As autoridades suspeitam de que o actual sistema de exames tem proporcionado um grande número de fraudes a nível nacional, com imigrantes com alguns anos de permanência em Portugal, a substituírem outros que pouco ou nada falam e escrevem português." Lusa
A nova Lei da Nacionalidade exige que um imigrante que solicite a nacionalidade portuguesa, tenha, entre outros requisitos, um conhecimento mínimo da língua falada e escrita, o que implica a realização dos respectivos exames.

Espero que a diligente Directora Regional de Educação do Norte não passe mais esta informação à Ministra da Educação. Com a vontade que a Ministra tem de alcançar a marca de 100% de sucesso escolar, este método pode mesmo vir a fazer "escola".

2 de Outubro - Na inimitável "Quadratura do Círculo" o dr. Costa, presidente da CML e ilustre dirigente do PS absolutista, acusou a blogosfera de ser um "submundo" que manifestamente o repugna. Bastou olhar para a cara dele quando começou a falar da coisa para perceber que, se pudesse, vontade não lhe faltava para suprimir o referido "submundo". Pacheco Pereira "salvou" um por cento da blogosfera desse "submundo" e adiantou que esse um por cento valia por muitas das coisas que se publicam e exibem na tranquila "superfície" desejada por Costa. Concordo com isto e também abomino o anonimato. Tal como acho que noventa e nove por cento do que se escreve nos jornais, se ouve na rádio e se vê na televisão é "submundo". Todos os dias , aliás, me deparo com a dificuldade em descobrir na percentagem que resta algo que me ilumine, esclareça e não me meta nojo. Aliás, mais valia ao dr. Costa ter estado calado. Será que ele ainda não reparou que até uma respeitável instituição como a CML possui um anónimo "submundo" que o presidente não domina, não conhece e manifestamente receia?
3 de Outubro - Uma mulher de 90 anos que vive há duas décadas num contentor em Viana do Castelo vai finalmente ter direito a «casa a sério», graças à construção de uma passagem inferior à linha de caminho-de-ferro. Esta senhora não teve a "sorte" de viver em Lisboa. Provavelmente a Câmara de Viana do Castelo não tem "património disponível", como a CML, e a senhora não tem amigos que lhe "metessem cunhas" para, em vinte anos, arranjar uma casa. Quem, dos bafejados pelo "património disponível" da CML, estaria pronto a aguentar a vida num contentor?

Nova Aliança, 16 /10 / 2008

9.10.08

Os assaltos, Cristiano Ronaldo e as massagens

7 de Setembro - Se um ingénuo forasteiro aterrasse em Portugal há um mês e assistisse a alguns dos noticiários nacionais, por certo assustar-se-ia com o país, aparentemente sem lei e a saque, um hollywoodesco faroeste europeu. Até um jornal diário como o Correio da Manhã teve necessidade de criar um infograma diário com o seguinte título: “Assaltos das últimas 24 horas”.
Doutro modo se  o ingénuo turista desembarcasse na última semana e atendesse a alguns dos recentes  telejornais, verificaria confortado as inúmeras reportagens de rusgas e intervenções policiais, perseguições e musculadas detenções ao vivo, qual reality show, um triunfante espectáculo do país a ser posto por ordem ali mesmo em directo.

Pensará, agora sim, este é um país seguro. E tem razão, senão vejamos: as placas identificativas dos estabelecimentos comerciais devem ser presas na parede por “parafusos de aço inox em cada canto, com 8mm de diâmetro e 90mm de comprimento”, determina uma portaria rectificativa do Centro Jurídico da Presidência do Conselho de Ministros. Os anteriores parafusos mediam apenas 60mm e havia que manter a segurança das placas, prevenir a sua queda e as suas nefastas consequências sobre comerciantes e clientes.

8 de Setembro – Felizmente, ainda há notícias assim ( aspas do Correio da Manhã ): Giovanna tem uma hepatite incurável. Em Julho foi-lhe induzido o estado de coma para evitar as dores. Mas, antes, Giovanna pediu que a despertassem do coma para poder casar com o companheiro e pai do seu filho.

Aconteceu no passado domingo, em Pádua. O noivo, as testemunhas e o celebrante tiveram de usar máscaras e vestes esterilizadas e a cerimónia realizou-se em plena unidade de Cuidados Intensivos. A noiva estava em sofrimento físico mas feliz. Caiu em coma logo após o ‘sim’. Apesar de não dever recuperar mais a consciência, o seu marido garantiu que a sua vida terminará “num raio de alegria, uma felicidade que nada lhe roubará”.

9 de Setembro – No jornal “Sol” deparamo-nos com um Homem: «Ramalho Eanes prescindiu dos retroactivos a que tinha direito relativos à reforma como general, que nunca recebeu. O Governo diz ter sondado o ex-Presidente, que não aceitou auferir essa quantia (a qual ascenderia a mais de um milhão de euros). A reforma só começou a ser paga em Julho, mas sem qualquer indemnização relativa ao passado.»

10 de Setembro - Cristiano Ronaldo quis ir à Madeira, sua terra natal, para receber uma "bota de ouro". Parece que tencionava homenagear, a título póstumo, o pai. No aeroporto, ignorou os compatriotas que o foram saudar à chegada. Em Viseu, durante o estágio da selecção, já tinha feito o mesmo. Ontem, à porta do hotel onde foi coroado como tal, o "bota de ouro" fez esperar em vão umas dezenas de madeirenses orgulhosos por o pé que calça a "bota" ser um dos seus. Ilusão deles. Mais uma vez, Ronaldo só estava disponível para o que o esperava lá dentro: o sr. Horácio Roque – financiador da operação - e as televisões.

Babaram-se uns para os outros porque, naturalmente, estão muito bem uns para os outros. Ex-pobre, imaturo e ignorante, o "bota de ouro" não passa de um deslumbrado com talento nas pernas. Nas três pernas, a avaliar pelo galinheiro que cacareja permanentemente atrás dele nas revistas ditas “sociais”. De resto, o dinheiro encarregou-se de destruir o menino que jogava na rua inclinada com os vizinhos cuja alegria se quis manifestar junto dele e que ele, moldado pelo espectáculo em que se tornou, se recusou a partilhar. O "bota de ouro" é o expoente de uma certa alarvidade "social". Uma alarvidade que brilha tanto ou mais do que o ouro da bota. E que costuma acabar tão surpreendentemente como começa.

15 de Setembro – Esta foi uma das tiradas de Verão: "Toda a gente sabe como começa uma massagem, nunca se sabe é sabe como acaba".
Caramba!, isto não dava uma proibição, dava era um magnífico slogan publicitário:
 
 
"AllGarve. Because every one knows where a massage starts, no one knows how it ends...".

Nova Aliança, 18 / Setembro / 2008

Palin, a ERC e o Magalhães

6 de Setembro - Esta coisa da Sarah Palin ter contratado uns amigos para uns cargos lá no Alasca é um problema para o qual nós portugueses somos muito sensíveis e exigentes. Não o admitimos lá, num país e num Estado que não é o nosso, e muito menos o admitiríamos – estou certo - aqui ( onde, graças ao nosso espírito crítico, estes problemas não existem ). Político que o fizesse cá teria a sua carreira terminada no dia seguinte. O que é notável nos portugueses não é apenas o seu sentido ético. O que é notável é o seu sentido ético universal, independente dos interesses próprios, do local ou da cultura. A preocupação desinteressada por questões éticas no governo do Alasca é comovente.

8 de Setembro - Normalmente as coisas passam-se assim: ou é a vida que imita a arte ou é a arte que imita a vida e não há que tomar partido. Ambas as situações são boas. A diferença está no preço. Não vale a pena discuti-lo porque o mercado da vida e o da arte encarregam-se de o regulamentar. Por exemplo, vacas.
O artista Damien Hirst enfiou uma vaca inteira numa barrica transparente cheia de formol e vendeu-a por 11,5 milhões de euros a um coleccionador de Londres. É o preço da vaca artística.
Em Idanha-a-Nova desconhecidos roubaram uma vaca de uma quintarola e o proprietário do animal afirmou-se lesado em 13 mil euros. É o preço da vaca não-artística. Há aqui uma disparidade. É o preço do formol, certamente.

10 de Setembro - Apesar de intimada pela Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA), em Janeiro, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) só agora permitiu que o Expresso consultasse o "processo Sócrates", de quase 300 páginas.
Inicialmente, a ERC recusou a sua consulta, tendo o semanário protestado junto da CADA. Uma edição recente do jornal revelava pormenores sobre as audições, que tiveram como objectivo avaliar a existência de pressões sobre os jornalistas no caso do diploma de Sócrates.
A ERC concluiu ser normal que existam pressões nas relações entre jornalistas e políticos. Esta conclusão é aventada no acórdão que se reporta às diligências efectuadas pelo Governo e pelo próprio primeiro-ministro, José Sócrates, para que fossem travadas as notícias sobre a sua licenciatura na Universidade Independente.
Assumindo "um certo grau de tensão", a ERC refere que ela é compreensível, "dada a cultura profissional dos primeiros e pelo choque que resulta do facto de ambas as partes agirem com interesses divergentes". Por outro lado, a ERC entende que Sócrates, ao tentar travar na imprensa as notícias sobre a sua licenciatura, não efectuou qualquer pressão, antes fez démarches. ( Repararam na subtileza???? )
A ERC concluiu que os telefonemas efectuados para o jornalista do PÚBLICO que investigava o caso, Ricardo Dias Felner, e para o director do jornal, José Manuel Fernandes, apesar de terem sido feitos pelo próprio Sócrates, não reuniam "elementos factuais que comprovem ter existido o objectivo de impedir, em concreto, a investigação".
Tanto Ricardo Dias Felner como José Manuel Fernandes, nos depoimentos que fizeram na ERC, disseram que o modo como foram abordados pelo primeiro-ministro resultou numa "tentativa de pressão ilegítima". O director do PÚBLICO foi ainda mais longe, reportando-se à conversa com Sócrates, no decurso da qual o primeiro-ministro teria dito: "Fiquei com uma boa relação com o seu accionista [Paulo Azevedo] e vamos ver se isto não se altera." Qualquer semelhança entre esta declaração e uma forma de pressão é certamente mera coincidência.

14 de Setembro - O "Magalhães" vai dar pano para mangas. Já vamos na segunda leva. Primeiro, houve aquele anúncio de um "produto nacional" que, afinal, de "nacional" tem apenas um terço. Depois - aconteceu hoje - o governo deslocou-se em bando a escolas, cheio do "Magalhães" e de "controlo parental". Este neologismo quer dizer que é suposto os paizinhos atentarem naquilo a que os meninos têm acesso através do bicho. A SIC experimentou três e foi parar a sítios de "gatas maravilhosas". O "Magalhães", por consequência, promete não apenas "info-ligados" (um belo termo da lavra do 1º ministro) mas igualmente "adiantados sexuais". Finalmente, o "Magalhães" terá o seu apogeu quando, dentro de dias, Chávez vier cá comprá-lo, com ou sem as "gatas maravilhosas". Grande "Magalhães".

15.9.08

Obikwelu e o medalheiro olímpico

20 de Agosto – Obrigado
"Agradeço a todos, porque estiveram a ver-me na televisão, e peço desculpa." Eu estive a vê-lo na televisão e tomo a frase para mim: Francis Obikwelu pede-me desculpa!

Ele ainda há-de engolir essas palavras. Quem pensa ele que é? Vou--me a ele e espeto-lhe o dedo no peito: "Oiça lá, meta as desculpas onde quiser. Eu não as admito, ouviu?! Eu de si só quero que aceite o que tenho a agradecer-lhe." E, depois, disparo.

Desde logo aquele dia de Atenas em que fiquei sentado no estádio muito mais tempo do que ele levou a fazer - a uma vintena de metros dos meus olhos - os seus 100 metros de prata. Não conheci o vencedor. Nem me preocupei. Só ele contava não porque fosse belo a correr, mas porque dele sabia-lhe a história.

Tenho emigrantes na família e o africano Francis Obikwelu veio para Portugal aos 16 anos. Obikwelu trabalhou nas obras e, diz-se, acarretando os sacos de cimento arranjou a estrutura muscular que haveria de o prejudicar nos arranques das corridas (pois é, ser pobre paga-se). Para fazer aquilo que queria, atletismo, chegou a dormir sob as bancadas do estádio do Belenenses.

Aconteceu que Francis Obikwelu encontrou uma família portuguesa que lhe deu a mão e aconteceu que a essa família ele deu aquele sorriso com que brindou o Ninho de Pássaro, ontem, antes de sabermos que era a sua derradeira corrida. Com Portugal, Obikwelu fez o mesmo, um contrato. Coisa simples e entre iguais: eu dou e tu dás.

Sendo assim, porque digo que lhe estou agradecido? Porque são raros os que, como Obikwelu, não pedem, trocam. Ou, melhor, não são raros, fala-se de mais é dos outros. Ontem, lamentando não ter dado o que os portugueses esperavam, Obikwelu disse: "Este é o meu trabalho e queria pelo menos dar uma final aos portugueses."


Repararam na palavra? Trabalho. É a palavra dos homens. Obrigado, Obikwelu.

22 de Agosto – Medalheiro
No fim dos jogos olímpicos de Atenas, um responsável da União Europeia exultou: a União Europeia tinha ganho 286 medalhas, contra as 103 ganhas pelos Estados Unidos.

Fiquei a saber que a União Europeia tem competências em tudo, incluindo no desporto. O mesmo responsável disse ainda que em 2008 em Pequim vai ser ainda melhor. Porquê? Porque o desporto europeu se vai desenvolver ainda mais? Népias. Porque a Roménia e a Bulgária vão aderir à União em 2007 e a União vai passar a ter mais medalhas em ginástica, boxe e halterofilismo. Ao que parece, está a ser estudada a adesão da Etiópia e do Quénia, fortes nas corridas de fundo, e de algumas ilhas das Caraíbas com tradições nas corridas de velocidade.

As medalhas europeias tornaram-se motivo de orgulho para alguns blogs internacionalistas, para os quais o nacionalismo é mau, excepto à escala continental e contra os Estados Unidos.
Há apenas um pequeno detalhe a estragar a festa: a União Europeia não é um país e não está sujeita aos limites de 3 atletas por modalidade individual e de uma equipa por modalidade colectiva.

Desde os Jogos Olímpicos de Paris de 1924, mais de três dezenas de atletas portugueses alcançaram o pódio, em diferentes modalidades.

Esses atletas deram a Portugal dez medalhas no atletismo (quatro de ouro), uma medalha de prata no ciclismo, três medalhas de bronze no hipismo (colectivas), uma medalha de bronze na esgrima (colectiva), uma medalha de bronze no judo, uma medalha de prata no tiro, uma medalha de prata no triatlo e quatro medalhas colectivas na vela (duas de prata).

O estado do tempo, a poluição, a hora da competição e as histerias de éguas ou cavalos nunca constam do quadro de resultados ou dos almanaques olímpicos. Também não é uma prática a inscrição de alegadas interferências da arbitragem em notas de rodapé à frente do nome dos medalhados.

Mas deixem-me perguntar: se a nossa sociedade é “balda” e pouco rigorosa, não serão os nossos atletas um espelho muito real?|

Eu também gosto de não pagar impostos, receber bolsas para fazer o que gosto, aprecio a caminha de manhã, bloqueio quando vejo multidões, não gosto de me cansar... Será que posso ir a Londres 2012?


Nova Aliança, 4 de Setembro de 2008

O Racismo e as previsões do Banco de Portugal

12 de Julho -Rui Tavares poderia ter escrito uma crónica igualzinha a menorizar o assassinato de Alcino Monteiro. Racismo? Crime motivado pelo ódio racial? Nada disso. Se fosse no Porto, lá entre eles, ninguém diria que é racismo. Porque é que em Lisboa haveria de ser diferente? O que aconteceu com Alcino Monteiro ou o que aconteceu na Quinta da Fonte é criminalidade comum, excepções a que não se deve dar grande importância. Coisas que dão jeito ao Paulo Portas e nada mais. Ah, claro que podemos discutir coisas profundíssimas como as armas ilegais, o bairro social, o racismo e preconceito inter-étnico (nomes diferentes para a mesma coisa, mas a segunda designação torna o racismo mais compreensível) etc. Mas agora não me apetece. Rui Tavares acha que, se desconversar, o caso da Quinta da Fonte deixa de ser um caso evidente de conflito inter-étnico. Rui Tavares, no Público de hoje, dá hoje uma resposta incisiva a todos os que achava que a esquerda tinha ignorado e assobiado para o ar, no caso da Quinta da Fonte. A Fernanda já tinha aflorado o assunto, desmentindo aqueles que, como eu, imaginavam que o único tema que levaria o 5 Dias dissertar sobre  “acontecimentos” na Quinta da Fonte seria a veemente denúncia de preconceitos sociais conservadores atávicos que impediam a concretização de um casamento gay inter-étnico no bairro. O caso da quinta da fonte demonstra o que acontece quando as minorias passam a maiorias. Fico mais descansado por saber que todos diferentes mas todos iguais. A Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural considerou hoje os confrontos com armas de fogo no bairro da Quinta da Fonte, em Loures, um caso "isolado"."Na sexta-feira à tarde, meia centena de indivíduos de dois grupos envolveram-se em confrontos com utilização de armas de fogo, segundo a PSP, que indicou ter detido dois indivíduos e apreendido algumas armas de fogo e munições de calibre variado. No dia anterior, uma rixa entre dois grupos de do mesmo bairro tinha provocado nove feridos ligeiros e danos em várias viaturas." (Lusa)Dois casos isolados, portanto. Está tudo bem.Pois bem, já ninguém pode argumentar que a esquerda ignorou o caso. O Rui dedica a sua crónica de última página, inteirinha, ao caso. Faz longas considerações sobre as noites do Porto, as noites de Lisboa, a vida como ela é e a nossa mania de interpretar erradamente os acontecimentos, bem ilustrada com comparações arrasadoras sobre crimes idênticos mas que nós interpretamos como diferentes. Consegue provar empiricamente que não é por dizermos ‘pretos e ciganos’ que os problemas se resolvem. O artigo é excelente. Conclui-se que, no passado dia 11 de Julho, na Quinta da Fonte, freguesia da Apelação, concelho de Loures, distrito de Lisboa, não aconteceu nada. Rui Tavares, no Público de hoje, dá hoje uma resposta incisiva a todos os que achavam
14 de Julho - "As previsões do Banco de Portugal só foram conhecidas depois do debate do Estado da Nação. (...) Isto chama-se Cooperação Estratégica….entre o Banco de Portugal e o Governo"Vítor Constâncio foi à assembleia da república. Como é um homem culto e muitíssimo inteligente não quis maçar os deputados com aquilo que é o seu trabalho e falou sobre quase tudo o resto. Políticas energéticas, nichos de mercado para exportações e outras coisas que mais. Sobre Aimar, curiosamente, nem uma palavra. «A confiança na nossa economia atingiu, já este ano, níveis mínimos verdadeiramente históricos. Crescimento, investimento, confiança, tudo parece afundar-se nos gráficos…
(...) É preciso dizer a verdade: isto não está a correr mesmo nada bem!!
Em qualquer país, esta situação há muito que teria feito soar as campainhas de alarme».
José Sócrates, AR, 2 de Outubro de 2003.
«Agora, o desemprego sobe mais entre as pessoas com curso superior e sobe mais entre os jovens!! (...) É por isso que, se há uma "imagem de marca" deste Governo, se há uma imagem que marca a governação desta maioria, ela é, sem dúvida, a marca do desemprego. Triste marca!
(...) O Governo só tem tido uma preocupação: por um lado, inventar desculpas, por outro, procurar culpados. E vai logo aos suspeitos do costume: a culpa já foi da "pesada herança", já foi dos sindicatos, já foi das leis laborais e até da Constituição, tendo passado, depois, para a conjuntura internacional»
José Sócrates, AR, 2 de Outubro de 2003

Manuel Pinho diz que "o Banco de Portugal prevê uma desaceleração do crescimento em Portugal bastante menor que em vários países europeus que estão à beira de uma recessão".
Manuel Pinho exemplificou com os casos de Espanha e do Reino Unido.
Outra das grandes preocupações do Governo no início do seu mandato, passava pela "generalização do acesso à Internet e às tecnologias de informação e comunicação (TIC)". Ora, se em 2005/2006, altura em que o Governo tomou posse, Portugal ocupava a 27.º posição no ranking que mede o acesso às TIC, tendo o Governo assumido o compromisso de melhorar tal posição, a verdade é que Portugal ocupa em 2007/2008 a 28.ª posição. Onde é que anda a oposição?
Uma das preocupações do Governo no seu Programa, passava pela fraca competitividade de Portugal "a fraca competitividade e a baixa produtividade estão na raiz do baixo crescimento da economia portuguesa. Em vez de melhorarmos, temos descido nos rankings internacionais". O Programa remete para um quadro, no qual constatamos que Portugal, em 2003/2004, se encontrava em 25.º lugar no quadro da competitividade. Ora, de acordo com a mesma fonte utilizada pelo Governo, Portugal, em 2007/2008, encontra-se em 40.º lugar no mesmo quadro da competitividade, o que significa que desceu 15 lugares desde 2003/2004. Onde é que anda a oposição?

Nova Aliança, 24 de Julho de 2008

Os "spin-doctors"

Os tempos andam difíceis para os “spin doctors”. Por esta expressão são conhecidos os conselheiros dos governantes, aqueles que pretendem estar um passo à frente do comum dos mortais. E andam difíceis porque a conjuntura teima em não dar tréguas, em desdizer aquilo que defendem. Querem alguns exemplos em quase quatro mil caracteres?
Depois de se considerar “o melhor primeiro-ministro” da história, Sócrates teve um baque ao conhecer os resultados do referendo irlandês. O seu empenho, a sua dedicação, o seu esforço, tudo por água abaixo. Tantos planos, tantos arranjos, e afinal a estratégia esboroou-se, qual castelo de cartas. Quanta injustiça, como diria o Calimero!! Quem, como ele, prometeu um referendo sobre o tema aos portugueses, assiste até ao momento à vitória do “Não” ao Tratado Europeu em todos os países que realmente deram voz às pessoas.
A prestação da selecção não deixou também muitas saudades em São Bento. Aquele que seria um período de esquecimento dos problemas reais foi, afinal, mais curto que o desejado. Aí estão de novo as listas de espera nos hospitais, a subida da inflação, o aumento dos impostos, as dificuldades de todos os dias. Scolari não terá em Sócrates um admirador porque “ajudou” o país a reencontrar o país em crise. Ora, foi Sócrates quem o segurou depois da agressão a um jogador sérvio, o que não é de estranhar porque, dizem-me agora, a empresa de comunicação que gere a imagem da selecção é dirigida pela mulher de Armando Vara, um amigo e, mais do que uma esperança, uma autêntica certeza do panorama bancário português.
Depois os exames. Eles servem para complicar? Estão enganados, isso era antes. Agora é muito simples: aumenta-se o tempo de duração e diminui-se o grau de dificuldade. Daí a “sugestão” para serem afastados os professores correctores que se afastem da média. As estatísticas são o mais importante e, por comparação, temos de fazer boa figura lá fora. Se sobre esta questão subsistir alguma dúvida, faça-se esta experiência: peça-se a um aluno universitário que faça os exames deste ano e ouçam-se as suas respostas sobre o grau de dificuldade. Elas serão evidentes. Ainda na Educação, há contudo uma medida a realçar: o Dia do Diploma será comemorado a 12 de Setembro. Se o leitor não alcança a importância desta medida, está a ser também “injusto”: nessa data os nossos jovens ficarão com a vida mais facilitada e com um diploma dos estudos concluídos no bolso. A 13 de Setembro a sua vida será, certamente, diferente e o mundo mudará.
Finalmente, a pose. A cor da gravata é estudada ao pormenor. Ela é da mesma cor da mesa do estúdio. Na última entrevista que passou na RTP ( é incrível verificar que em momentos de crise, há sempre uma entrevista estratégica… ), tudo está feito para prestar um serviço de propaganda ao primeiro-ministro. O ar nervosinho dos dois jornalistas ( parecem ir prestar provas a um patrão possível ), aquela solenidade tossida e composta do ambiente no estúdio, aquele belo cenário em fundo condizente com a gravidade da coisa. Antes, as imagens da chegada e depois da caminhada de Sócrates para o estúdio - vedeta ansiada que chega com aquela leve mostra de nervosismo que convém sempre às grandes personagens cientes da sua tremenda, pesada responsabilidade. Ele vela por nós. Não se preocupem, pequeninos desamparados e aflitos. Ei-lo que chega. E ele logo à primeira pergunta, a da "crise", põe aquele ar
( quem não vê que é postiço? ) de gravidade ( o peso, o tremendo peso... ), de franzida preocupação. A situação é muito difícil, é, não brinquemos à política que eu estou aqui para me preocupar com coisas sérias e para vos tratar da saúde. E trata mesmo, essa é que é a verdade!

Nova Aliança, 10 de Julho de 2008

2.7.08

Amy Winehouse, Mário Lino, o Latim e os Exames

31 de Maio – A desequilibrada.
Mas será que sabem quem é Amy Winehouse? A rapariga tem problemas com a droga e o excesso de alcool. Foi presa por diversas vezes, a última há cerca de 2 semanas por causa de drogas. Já se tentou matar. O marido, que está actualmente preso, chega-lhe com frequência e, ao que parece, também já a tentou despachar. O calibre é tal que os pais já por diversas ocasiões pediram (rádios, tvs) que ninguém comprasse os discos da filha. Uma das músicas mais conhecidas de Amy fala da tal "rehab" de que precisa com urgência, mas que se recusa fazer. Aparece nos concertos invariavelmente pedrada e/ou bêbeda (ontem, postei o vídeo de um concerto em que ela snifa coca em pleno palco), chega atrasada ou, simplesmente, cancela concerto atrás de concerto. Mesmo em cerimóminas de entregas de prémios aparece imprópria para (do) consumo (ver últimos Grammys, acho). Amy é, ainda assim, um fenómeno que vende discos como poucos e que no ano passado ganhou tudo o que havia para ganhar. A rapariga é, obviamente, desequilibrada, como foi Kurt Cobain e Jim Morrison na música ou Maradona no desporto. A genialidade desta gente tem o seu preço. É por isso que não compreendo quem tenha ficado admirado com a forma como Amy se apresentou hoje em Lisboa. Porventura pensaram que ela viria sóbria e na posse de todas as suas faculdades? Amy foi igual a si própria e se assim continuar está visto como é que a história vai acabar.

2 de Junho – O “eterno” Lino.
O eng. Lino é um caso. Não é possível antipatizar completamente com o homem, muito menos tomá-lo absolutamente a sério. Já se percebeu que tem poder embora não se perceba exactamente porquê. Por muito menos, outros foram afastados na maior discrição. Pelo contrário, Mário Lino, o homem que veio das águas para o betão, não só fica como "doutrina". Lurdes Rodrigues, por exemplo, nunca mais foi avistada. Desapareceu em combate. Lino, não. É braço direito e esquerdo do seu primeiro-ministro, um anacoreta em forma de pontes e de acordos com camionistas. E "doutrina", dizia eu. «O País tem plena consciência das dificuldades resultantes da situação herdada do Governo anterior, assim como do aumento do preço do petróleo», eis como Lino sintetiza o seu "pensamento" numa entrevista. Três anos depois de ser membro do governo, Lino fala como se não fosse nada com ele. Tudo subsiste à conta dos parcos meses de Santana e das circunstâncias "externas". Afinal, Lino tem estado apenas a fazer figura de corpo presente. Nem sequer temos a certeza se ele tem tido "consciência" do que é que o tem ocupado nos últimos três anos. O país, assegura, tem. Oxalá tenha.

6 de Junho – Gastar o Latim.
Em apenas dois anos a frequência das aulas de Latim diminuiu 80%. Este ano há apenas 300 alunos a fazer exame da disciplina, o que é bem pouco. A tendência portuguesa é contrária à dos outros países europeus e americanos, onde os estudos clássicos não baixaram a frequência. Não nos podemos queixar. O secretário de Estado Valter Lemos, uma luminária, diz que os alunos não têm interesse no Latim e que “as políticas educativas” não são culpadas. Está errado, como é seu costume. Basta ver a forma como “as políticas educativas” tratam as Humanidades e como o linguajar dos seus queridos técnicos têm assassinado o Português. A “sociedade” não preza o Latim como não preza o património nem o passado, e está no seu direito. Mas fica mais pobre.

17 de Junho – Os Exames.
Os exames nacionais finais do ensino básico e secundário começam na próxima terça-feira, com as provas de Português, e são protegidos por 7.000 militares da GNR.
Com a época, logo aparecem os comentadores e os tratadistas, os pedagogos, psicólogos e metodólogos, e todos os muito bem pensantes a alertar para os traumatismos e o horrendo stress que os exames provocam nas tenras mentes de quem se sujeita a tais absurdas provas.
A situação é relatada em artigo de Mário Cordeiro, professor de Pediatria, no DN do passado domingo, na Notícias Magazine.
“Exames, exames…é o stress total. Filhos angustiados, pais em pânico, horários em desordem, quartos a parecerem cenários de pós-guerra, discussões a estalarem por tudo e por nada. É assim a vida de muitas casas onde há jovens a aproximar-se da receada hora dos exames…”
Enfim, é gentinha desta que a nossa educação está a criar: florzinhas de estufa, que se enervam e estiolam a qualquer aragem…Sugiro que os ponham sempre numa redoma: na escola, no trabalho, na vida. E tenham-lhes um psicólogo sempre à mão, preferentemente com os mesmos problemas. Consolar-se-ão uns aos outros!...
Cá por mim, começo agora a ficar traumatizado por não ter ficado traumatizado com os exames que fiz!...
Até porque arranjar um qualquer traumatismo psicológico é mesmo a única forma que me resta de não ficar fora do sistema…

Nova Aliança, 27 / Junho / 2008

A noiva devolvida e o Europeu de futebol

26 de Maio – “Longa cobardia”
Ferreira Fernandes no Diário de Notícias: “Antigamente - um pouco depois dos tempos em que ele, de moca e de osso atravessado no nariz, a arrastava pelo cabelo até à caverna - o lençol nupcial era exposto no bairro. Se havia sangue, a noiva era virgem e o casamento podia seguir em frente. Antigamente..., iludo- -me eu, como se as coisas não pudessem voltar para trás. Em Lille (Norte de França), um tribunal anulou um casamento porque a noiva - muçulmana como o noivo - mentiu sobre a sua virgindade. Na madrugada do casamento, o noivo, engenheiro, levou a noiva a casa dos pais dela porque lhe faltava uma peça (assunto privado). E um tribunal, no ano de 2008!, deu-lhe razão (assunto público). Deixo para os advogados e juízes o valor jurídico do ela ter mentido, como se a lealdade pudesse existir entre desiguais (o engenheiro não teve de jurar a sua virgindade, nem tinha como a provar). A nossa cobardia está a atirar estas novas europeias para o passado. Assim, o passado virá ter com todos nós, não tarda."

28 de Maio – Talvez resquícios.
Uma destas noites ouvi parte de uma interessante conversa entre Constança Cunha e Sá e Silva Lopes, na TVI. Silva Lopes é uma daquelas figuras que apetece ouvir, mesmo quando se discorda: exibe liberdade, sinceridade e autoridade. Estas coisas, quando são verdadeiras, percebem-se até pela linguagem corporal. Silva Lopes estava descontraído e gesticulava livremente conferindo ao seu discurso uma autenticidade que os «certinhos» do costume não conseguem imitar – porque são falsos.
A conversa ia longa. Eis senão quando o professor deixou cair um comentário lateral que me deixou a pensar: para salientar o espírito algo volúvel dos portugueses utilizou o velho exemplo dos sinais de luzes que os condutores utilizam para avisar os outros da presença de forças policiais na estrada. Esse hábito português tem sido muitas vezes referido como sintoma de atraso civilizacional. Permitam-me discordar. Nesta crítica detecto um resquício invisível da herança cultural salazarista. A ideia de que o Estado através dos seus inúmeros agentes deve estar em cada esquina a vigiar-nos, pronto para mais uma multa, é tão absurda como culturalmente obsoleta. Em Espanha, por exemplo, a localização de todos os radares de controlo de velocidade está disponível em diferentes sites. Não é função do Estado garantir a nossa segurança na estrada pela via da repressão. É mais eficaz para garantir o cumprimento das velocidades autorizadas, numa auto-estrada, um carro caracterizado da BT do que um anónimo. Esse carro anónimo é uma expressão de visão repressiva do Estado e própria de sociedades que prezam mais a força do que a liberdade e a responsabilidade. E o tal sinal de luzes é mais eficaz no aconselhamento à moderação do que uma brigada escondida num arbusto. Evita a multa e obriga a travar. É isso que se espera do nosso Estado: mais do que existir para punir, deve estar presente antes do arbusto e enviar todos os sinais de luzes.



30 de Maio – Vem aí o cansaço.
A vida cansa. O Verão está quase aí e a selecção Scolari prepara-se para mais um mês de paciência moída, esperas a jogadores, desvario de jornalistas em reportagem, peregrinações de autocarro e outras deambulações pelo lado mais negro da alma humana.
Avanço pelo cinismo dentro, claro, admitindo que talvez, reafirmo, talvez, passe este mês colado ao ecrã, de jogo em jogo, adequando horário laboral às melhores partidas e aos jogos da selecção. Eu sei que assim será, mas bem que me poderiam poupar os preliminares. Vamos falar claro: não quero telejornais infindáveis sobre a dieta dos jogadores, os treinos dos jogadores, as mulheres dos jogadores, a ausência de vida sexual dos jogadores, as fãs dos jogadores, os velhos da aldeia que vêem a banda passar sem que a banda se digne a parar por eles (mas um microfone, esse, pára por qualquer coisa); aceito um pouco de comentário do Luís Freitas Lobo ou do António Tadeia, mas por favor não convidem o Oliveira do alho no balneário ou o Artur "olho negro" Jorge para dissertar sobre o trabalho do seleccionador ou as vicissitudes do apoio de um país à selecção; transmitam na televisão as grandes partidas de campeonatos de outros tempos, mas evitem os vislumbres dos toques do Ronaldo (apesar de andarem pelo You Tube umas imagens fantásticas de Ronaldinho e outros jogadores da selecção brasileira a curtirem com a bola num treino); podem mostrar entrevistas do Eusébio a falar do Mundial de 66, mas recusem o facilitismo da conversa com o emplastro sobre as decisões tácticas do seleccionador nacional.
Eu sei que posso escolher: mudar de canal, desligar o televisor, sentar-me a ler um livro - ou até voltar a ligar o aparelho e aproveitar para ver na Eurosport as retransmissões de partidas clássicas de antigos campeonatos. Mas, por defeito cultural ( a minha portugalidade ), queixo-me. Um mês de paz e sossego (relativos), de comemorações na rua, alegria para esquecer o cansaço da vida, uma dieta contida de transmissões sem gordura, sem refegos e enchidos para dar cabo do colesterol e da paciência.
A maior conquista de Scolari? Pôr um país inteiro um mês de quarentena. Portugal prepara-se para se exilar de si próprio.

Nova Aliança, 13 / Junho / 2008

O Estado da Nação, o Dicionário de Calão e Francisco Lucas Pires

2 de Maio – O estado da nação
Uma amiga regressa a Portugal e procura casa em Lisboa. Pede-me que a acompanhe a uma agência. Uma vez lá, diz ao que vai. Entre a Estrela e Entrecampos, está aberta a sugestões. Prefere construção dos anos 1950, não menos de 90 metros quadrados, não mais de 120, dispensa garagem, se possível duas casas de banho, ou espaço para construir a segunda. A brincar, vai dizendo que «Se puder ser num prédio do Cassiano Branco, tanto melhor», e o rapaz que nos atende, fato antracite Armani, gravata fúcsia de seda e a cabeça armada em gel, olhos no monitor, «Desse empreitreiro não temos nada». OK. Vejo desfilar somas vertiginosas. Barato significa 400 mil euros por um T3 de 1942 a precisar de obras. Um T2 de 1954, com 75 metros quadrados, a 360 mil euros, é dado como pechincha. Às tantas abstraio-me do diálogo para acompanhar num slide show algumas ofertas disponíveis. Estarei a ver bem? No centro de Lisboa, várias casas a rondar o milhão de euros. Não, não são palacetes na Lapa, nem moradias de 600 metros quadrados de área coberta no Restelo ou na Gago Coutinho, nem penthouses de 300 metros quadrados (e vista de rio) no Parque das Nações, nem apartamentos hi tech (e vista de lixo) nos novos condomínios de Alcântara. São casas vulgares, de 8 e 9 divisões, em bairros prosaicos e construção ainda mais prosaica. E, claro, meia dúzia de exemplos acima do milhão. Nisto tudo, uma coisa me intriga. Quem cobre estes lances? A banca não empresta tais somas. E os milionários não andam por aí aos pontapés. Se calhar sou eu que estou fora da realidade.
3 de Maio – Ir ao Bolso
Vejamos a situação: o sujeito A, preenchendo todas as condições, pede a aposentação. Como os serviços centrais da Segurança Social estão com um atraso de oito meses, é dada ordem ao sujeito A para continuar a trabalhar. Oito meses depois, ele é finalmente aposentado. Fim de história? Longe disso, ao sujeito A é pedido que devolva a diferença de vencimento entre o que ganhou realmente e o que teria direito oito meses antes, altura em que reunia todas as condições para se aposentar. Isto é Portugal em 2008.
12 de Maio – Porreiro, pá
Lê-se no Público: "O site do Instituto da Droga e da Toxicodependência IDT destinado a crianças e jovens a partir dos 11 anos contém um "Dicionário de Calão" que as associações de pais temem poder incentivar o consumo (...) No dicionário do site infanto-juvenil www.tu-alinhas.pt pode aprender-se que "betinho", “cocó” ou “careta” é “aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante”."
14 de Maio – Nojo
De novo no Público: “O primeiro-ministro, José Sócrates, o ministro da Economia e Inovação, Manuel Pinho, e vários membros do gabinete do chefe do Governo violaram a proibição de fumar no voo fretado da TAP que ligou Portugal e Venezuela e que chegou às cinco horas da manhã de ontem a Caracas (hora de Lisboa, 23h30 na capital venezuelana). O assunto foi muito comentado durante o voo por membros da comitiva empresarial que acompanha Sócrates e causou incómodo a algum pessoal de bordo.” De acordo com António Monteiro, porta-voz da companhia, “o cliente que freta um avião pode ter regras diferentes das da companhia”, pelo que pedir autorização para fumar é um serviço especial “tão normal como pedir para se servir outra refeição, distribuir determinados jornais ou ver certos filmes”. O que nos leva à seguinte questão: Ler jornais mata?
16 de Maio – Francisco Lucas Pires, sempre actual.
«A verdadeira tolerância, no entanto, é a que assenta na fortaleza das próprias convicções e os católicos não têm que ter uma atitude política passiva, clandestina, dividida, pessimista e subalterna. Não têm que deixar “laicizar” a mais importante parte do seu campo de consciência e acção – aquele que tem a ver com a “substância” e as “expressões” mais elevadas do seu ser social. A geral fraqueza da sociedade civil portuguesa não ajuda. Contribui mesmo para a perda das últimas certezas dessa sociedade. A concepção dominante da História é ainda demasiado imediatista e é nesse contexto que se explica o activismo, dirigismo e crescimento do Estado como único arrimo para a erosão da consciência política colectiva. Mas há que reagir e os católicos, com a Igreja, podem bem ser a parte mais sólida dessa recuperação da sociedade civil. Até como via para reabilitar a política e evitar que esta continue a ser um puro jogo de superfície, onde a própria renovação “ética” acabe por se transformar numa nova demagogia. Talvez a renovação “moral”, a partir da sociedade real e dos seus valores profundos, entranhadamente cristãos, seja afinal mais simples e mais eficaz do que a renovação “ética”, a partir, outra vez, dos modelos da Revolução, do Estado e dos seus partidos.»

Nova Aliança, 30 / Maio / 2008