30.4.10

A tolerância de ponto e a bravura

15 de Abril - Não podíamos passar ao lado disto, a visita do Papa a Portugal deu origem a uma pequena e comovente polémica sobre a tolerância de ponto decretada pelo Governo. Os fanáticos do costume decretaram que pretendiam trabalhar nesses três dias a bem da separação do Estado e da Igreja e – pasme-se – em prol da produtividade nacional que, na sua douta opinião, não pode ser abalada pela visita de um "líder religioso qualquer" que decida deslocar-se ao nosso país. Até a CIP e as centrais sindicais, esses pilares sólidos da nossa economia, se pronunciaram patrioticamente contra a decisão tomada pelo Governo, alertando para a crise em que vivemos e para a necessidade dos funcionários públicos contribuírem, com o seu trabalho, para o aumento da produtividade e para o desenvolvimento da pátria.
É evidente que este reconhecimento súbito do estado em que nos encontramos não deixa de ser salutar, sendo de esperar, nomeadamente por parte de todos os envolvidos, exemplos futuros de responsabilidade e compreensão pela situação em que se encontram as finanças públicas e a economia portuguesa. Ao contrário do que tem sido dito, o que está em causa não é a neutralidade do Estado em relação às diversas religiões, mas a incapacidade de perceber que, num país de tradição católica, o Papa não é um "líder religioso qualquer", como tem sido amplamente referido.
Pretender comparar a visita de Bento XVI à visita de qualquer outro líder religioso (hindu ou muçulmano, como já vi defender) é não compreender a realidade portuguesa e desconhecer totalmente a sua história. Há uma ligação entre o País (e o ocidente, em geral) e a Igreja que um Estado laico deve saber reconhecer. Um Estado laico não é sinónimo de um Estado anti-religioso, incapaz de compreender a dimensão pública da fé. E a crer nalgumas coisas que por aí têm sido escritas, dá ideia de que o Papa, não lhe sendo retirado o direito de viajar pelo mundo, devia ter, pelo menos, a decência de o fazer clandestinamente. De forma a não importunar ninguém. Porque o problema é que este Papa, em particular, importuna.

18 de Abril - Os jornais noticiaram o afogamento de dois rapazinhos numa lagoa artificial nas imediações do Cacém. A informação, focada no apuramento de responsabilidades, dava brevíssima nota do sucedido: de que o primeiro dos rapazinhos caíra à água e de que o segundo, porque o primeiro não sabia nadar, se lançara imediatamente à lagoa, em seu auxílio, enquanto a restante miudagem procurava socorro na vizinhança. Um ‘pequeno’ pormenor. Ele próprio também não sabia nadar. Para além do horror e da tristeza do acontecimento, impressionou-me profundamente a heróica abnegação, ou a extraordinária bondade, ou a coragem desmedida, ou a lição de vida do segundo rapazinho, cujo gesto honra, como poucos, a nossa condição humana. Gostaria de saber o seu nome, para poder escrevê-lo aqui, muitas vezes, todo em maiúsculas, e nunca mais o esquecer. Porque, esse sim, é um nome que merece ser lembrado… Alguém sabe o nome do Rapazinho?

Nova Aliança, 29 de Abril de 2010

Texto de Eduardo Cintra Torres

Com a devida vénia reproduzo um texto de Eduardo Cintra Torres publicado hoje no Público.
«Valença, praça-forte contra o invasor do costume, encheu-se de bandeiras espanholas por causa de atendimentos médicos. Só as consultas da caixa mobilizam a população a ponto de as Urgências serem mais importantes do que a pátria. Como as manifestações e outras acções do repertório dos movimentos sociais não chegaram, foi preciso esta semana recorrer à provocação final, a das bandeiras estrangeiras. A sociedade civil mobiliza-se mais e com mais eficácia contra medidas governamentais quando atraída por formas de acção inovadoras, mediáticas e aparentemente desligadas dos partidos e de como muitos vêem a própria política. E, de facto, vários políticos profissionais ofenderam-se com as bandeiras espanholas agitadas no húmus sagrado da pátria. A provocação simbólica ignorou o cardápio do politicamente correcto. O mesmo maravilhoso povo que há seis anos, a pretexto do futebol, encheu todas as janelas disponíveis com bandeiras verde-rubras, para alegria própria e do poder, fez agora a desfeita ao mesmo poder de desfraldar as amarelo-rubras. Pelas imagens e declarações, percebeu-se que a cena das bandeiras espanholas foi apenas uma provocação, mais para levar os media a explorar o inédito do que por sentimentos antipatrióticos. Os valencianos estão contra o Governo, não contra o seu país. As bandeiras espanholas não escandalizaram porque na fase actual nada escandaliza. Se o primeiro-ministro aparece envolvido em casos atrás de casos, se o Governo faz exactamente o contrário do que prometeu, se a crise se agrava enquanto Sócrates propagandeia diariamente moinhos de vento renovável, porquê escandalizarmo-nos com bandeiras espanholas como repertório de acção de agit-prop popular? O clima político tem-se degradado gradualmente, semana a semana, desde Setembro. Isso nota-se também nos media. Enquanto os noticiários da RTP continuam a missão oficial de gerir os danos que a política governamental causa ao próprio Governo, os noticiários da SIC e da TVI não seguem a mesma reverência perante o querido líder. Nos últimos meses, nas aparições públicas que ainda mantém em agenda, Sócrates aparece como um político acossado. A central de propaganda tentou que as televisões não fizessem perguntas "fora da agenda" ao chefe do Governo. Na altura, a RTP e a SIC aceitaram, mas a TVI noticiou o próprio caso. Agora, que há perguntas inconvenientes, Sócrates não responde. Foge dos jornalistas, foge das perguntas à vista das câmaras e dos espectadores. E, como se viu na TVI, às 13h10 de terça-feira, está rodeado de seguranças que empurram à bruta os repórteres quando estes fazem perguntas que lhe desagradam, incluindo sobre as bandeiras. É a lei do mais forte, comentou o repórter Amílcar Matos em directo. A prazo, veremos se a lei do mais forte é a dos "gorilas" de Sócrates ou a da liberdade de o mostrar em fuga. Protegido pelos empurrões dos guarda-costas, Sócrates em fuga realça o carácter de propaganda das mesmas "TV opportunities" de sempre a que ele ainda vai: fala do palanque, com cenário e discurso preparados, repete no final aos jornalistas o auto-elogio que fizera no palanque (que ou é sobre as energias renováveis ou é sobre as energias renováveis) e foge depois a perguntas sobre a crise, o desemprego, as falências, a dívida externa, a possível recessão, as bandeiras em Valença, os prémios do seu Mexia, os casos incríveis em que esteve ou está pessoalmente metido. Estas marcantes imagens televisivas de uma acção contra o Governo por cidadãos agitando bandeiras estrangeiras e de um primeiro-ministro fugindo da realidade por via de empurrões de guarda-costas retratam a situação do país: um barril de pólvora em cima de um pântano sistémico.»

Nova Aliança, 15 de Abril de 2010

12.4.10

O exemplo que chega da Irlanda e as empresas de avaliação de risco de crédito

A consciência moral de meio mundo despertou para a história de Iris Robinson, a deputada e mulher do primeiro-ministro da Irlanda do Norte que, aos 59 anos, deu umas cambalhotas extraconjugais com um rapaz de 19 e, ao que consta, se serviu da posição (política, nada de segundas intenções) para financiar o bar do amante. A justiça local pegou no lado corrupto da questão. A justiça popular de toda a parte preferiu naturalmente o lado pícaro e, além de elaborar vistosos trocadilhos com a adúltera homónima do filme A Primeira Noite (e a canção de Paul Simon feita para o filme), desatou a condenar a sra. Robinson pela aventura sexual.
A condenação merece um ou dois comentários. Há uma quantidade notável de políticos infiéis que se safaram sem mácula, ainda que as consequências da infidelidade fossem ligeiramente mais graves que a abertura de um bar. Um exemplo moderado é o de Bill Clinton. Um exemplo extremo é o de Edward Kennedy, que, em Julho de 1969, conduziu não demasiado sóbrio o seu carro para o fundo de um lago. No carro seguia, e lá ficou até morrer, uma "amiga" do senador. O senador fugiu. O escândalo não impediu que Kennedy sobrevivesse biológica e politicamente ao acidente e que, 40 anos decorridos, as elegias fúnebres de Agosto passado o pintassem como um santo. Já a carreira da sra. Robinson (e, talvez, a do marido) terminou dias após a divulgação do seu pecado. O que explica a diferença de tratamento?
O problema, se bem percebo, passa pelas convicções, sinceras ou simuladas, da sra. Robinson. Antes do deslize amoroso, ela cometeu o deslize de confessar fé cristã e simpatia pelos "valores familiares". Pior ainda, em 2008 produzira umas afirmações desagradáveis acerca da homossexualidade. Isto, somado ao affaire, chega e sobra para transformar a senhora numa "hipócrita". Na América, embora obviamente não só na América, a detecção da "hipocrisia" em políticos conservadores é um dos desportos preferidos da esquerda, sob o argumento de que a vida privada deve corresponder escrupulosamente aos ideais professados na vida pública. Podia-se inferir daqui que, em nome da coerência, os ideais públicos de Clinton incluíam o abuso de funcionárias e os de "Ted" Kennedy a embriaguez, o homicídio e a fuga. Mas é melhor dar um desconto, e apenas notar que atrás de imensos progressistas se esconde um inquisidor e uma fogueira acesa.
Quarta-feira, 13 de Janeiro
Sem dinheiro não há palhaços?
A Moody's, que é uma das maiores empresas mundiais de avaliação de risco de crédito, é outra entidade a prever a "morte lenta" (sic) da economia portuguesa, caso o défice continue descontrolado. Por sorte, o ministro das Finanças não liga a profetas da desgraça e prefere os números do sempre credível, amigo e optimista Banco de Portugal. Fundamentado em tais números, Teixeira dos Santos chamou os jornalistas e, pela 629.ª vez, anunciou o fim da recessão. É verdade que o dr. Teixeira dos Santos também admite a existência do défice e promete combatê-lo. Como? Através de "estímulos à actividade económica", leia-se investimento público, o que é o mesmo que curar um traumatismo craniano com marteladas na cabeça.
Reduzir a dívida mediante o aumento da dívida é um método peculiar, cujos resultados, de resto, são evidentes na actual situação do País. Em larga medida, o País atingiu os fundilhos actuais porque o Estado gasta acima, muito acima, do que tem e pode. O dr. Teixeira dos Santos quer que o Estado gaste ainda mais, coisa que suscita menos dúvidas sobre o nosso futuro do que sobre o presente do dr. Teixeira dos Santos e do Governo a que pertence.
Pelo renovado ânimo com que reage a cada confirmação do seu fracasso, já se percebeu que o Governo frequenta uma realidade própria e não partilhável. Falta perceber se o alheamento é deliberado ou natural. Dito de maneira diferente, convinha apurar se o Governo deseja conscientemente espatifar o que resta disto ou está de facto convencido da bondade das medidas que regularmente toma. A primeira hipótese revela uma crueldade peculiar; a segunda, uma inépcia sem grandes precedentes. Claro que as consequências de ambas são idênticas, mas seria útil entender se estamos nas mãos de sádicos ou de incompetentes, nem que fosse para escolhermos entre o papel de masoquistas e o de palhaços - pobres, escusado dizer.

Nova Aliança, 1 de Abril de 2010

A culpa dos feriados, a bandeira de Paredes e a força do 'povo'

18 de Fevereiro – A Associação Empresarial de Portugal (AEP) descobriu a causa do subdesenvolvimento português: os feriados. A melhor forma de reagir ao “período excepcionalmente difícil” que o país atravessa, segundo o vice-presidente da AEP, é cortando nos maléficos feriados. Nem é preciso grande esforço, de resto. Os empresários já fizeram as contas: depois do recurso à máquina de calcular, concluiram que Portugal tem mais dois feriados do que a média da União Europeia. Dois! Dois dias inteirinhos de trabalho que são desperdiçados com cnsequências catastróficas para o país – é essa a singela diferença que nos separa da riqueza da Alemanha. Com mais de 16 horas de trabalho por ano, acabaria o défice, o desemprego e o sobreendividamento. Só há um pequeno detalhe que estraga este raciocínio. É que a experiência das paragens para um cafezinho e das mensagens no Facebook indicam que o problema não é que os portugueses fazem quando não estão a trabalhar – é o que eles não fazem quando estão.

22 de Fevereiro - Está a causar certa polémica a decisão da Câmara de Paredes em erguer um mastro com cem metros de altura e uma bandeira nacional na ponta. Não percebo a razão. O edil lá do sítio, eleito nas listas do PSD, explica, e muito bem, que a bandeira visa comemorar o centenário da república e que o mastro visa "georreferenciar" (sic) o concelho. Ao contrário dos adversários do projecto, defendo que a república deve ser comemorada e sobretudo que Paredes deve ser "georreferenciada", até porque, a olho nu, não conseguiria encontrar semelhante lugar mesmo que quisesse.
Sem surpresa, o problema das más-línguas prende-se com o custo da obra: um milhão de euros. Com surpresa, as maiores más-línguas pertencem à oposição autárquica e invocam a ofensa aos contribuintes, de cujo bolso o mastro fatalmente sairá. Se não me engano, é a primeira vez que vejo socialistas preocupados com o destino do dinheiro alheio. O espanto aumenta quando um dos socialistas em questão se chama Artur Penedos (um nome familiar, nos dois sentidos) e é, além de vereador em Paredes, assessor do primeiro-ministro.
Aparentemente, o convívio com o eng. Sócrates não atirou o sr. Penedos para as leituras de Keynes e não lhe ensinou uma verdade irrefutável: o investimento público é essencial ao desenvolvimento do país, logo, por maioria de razão, ao desenvolvimento de Paredes. Como inúmeras das maravilhas que o eng. Sócrates diariamente publicita, o mastro com bandeira colocará Portugal na vanguarda da Europa em matéria de mastros e bandeiras, dinamizará a economia local através do turismo, estimulará a auto-estima dos autóctones mediante a elevação quase celestial da esfera armilar e, não satisfeito, criará empregos, no mínimo dois: um para subir e descer o pavilhão, outro para afugentar os cães que pretendam urinar na base da estrutura. Se o mastro é menos veloz que o comboio de alta velocidade, será inequivocamente mais alto, e 15 mil vezes mais barato.
19 de Março - Pouco depois da agressão a Berlusconi, um blogue português explicava o sucedido: "O que a democracia não resolve, resolve o povo!" A distinção é velha, e sempre engraçada. Uma coisa é o processo democrático, legitimado por massas alienadas que tendem a resignar-se à "normalidade" liberal. Outra coisa, muito mais bonita, é o "povo" enquanto entidade mítica. Não importa se o "povo" é formado por milhões, milhares ou centenas de pessoas. Aliás, não importa se o "povo" consiste apenas numa única criatura. Importa é que realize os nossos sonhos, incluindo o de espatifar o rosto de um velho ou, de modo genérico, o de arrasar os símbolos da "opressão" que estiverem a jeito.
É evidente que o "povo" com dinheiro e tempo disponíveis esteve em acção nas ruas de Copenhaga, vagamente a pretexto da recente Cimeira do clima. Aí, na falta de um estadista desprotegido, a fúria libertadora aliviou-se, sob a forma de pedregulhos, na polícia e em edifícios públicos. Parece que a palavra de ordem era "Queremos justiça climática!", embora o conceito, de tão absurdo, pudesse ter sido substituído sem prejuízo por qualquer frase, incluindo "Não gostamos de goiabada!" ou "Viva o chapéu de aba larga!". Durante a destruição, uma "activista" feliz berrava com maior precisão: "Isto é o que uma democracia deve ser!", por oposição, deduz-se, ao aborrecimento de colocar o voto na urna e acatar a vontade da maioria.

Nova Aliança, 18 de Março de 2010

O novo Sherlock Holmes e a conta do recém-nascido

16 de janeiro - Assisto a "Sherlock Holmes", o último filme de Guy Ritchie. Gostyo pouco de caricaturas e prefiro sempre os originais. Falo de Tarantino e, já agora, falo do Sherlock Holmes lendário, criado por Arthur Conan Doyle há mais de cem anos. Li as histórias na idade certa; e, depois, com uma gratidão infinita, vi a materialização do herói na composição magistral de Jeremy Brett, que legou o Sherlock Holmes definitivo (e inultrapassável!!) em dezenas de episódios filmados pela televisão britânica nas décadas de 80 e 90. Quem viu, não esquece: Brett não representa Sherlock Holmes; Brett é Sherlock Holmes. De tal forma que, dizem as más línguas, enlouqueceu com o papel. Acontece aos melhores.
O "Sherlock Holmes" de Ritchie diverte e Robert Downey Jr. é estimável como ator. Mas o seu Sherlock, de autêntico, só conserva o nome, embora fosse mais apropriado chamar-lhe "Indiana Holmes": ele corre, ele salta, ele luta. Não tem chicote, mas quase. No meio do frenesim, perdeu-se o essencial: um detective que era puro intelecto, um mestre da dedução lógica que desvendava crimes com a mesma elegância imóvel com que fumava o seu cachimbo.
Sem falar de um pormenor que escapa a Ritchie: o Sherlock de Conan Doyle é, no sentido preciso do termo, o primeiro existencialista moderno, consumido pela angústia do "spleen" urbano: uma angústia que ele tenta aliviar com as substâncias possíveis e a resolução de casos impossíveis. No fundo, duas formas de vício que cumprem o mesmo propósito: impedir que uma mente monstruosamente brilhante se devore a si própria. Conheço casos.
18 de janeiro – Raciocinemos um pouco: o que falta para inverter a baixíssima taxa de natalidade em Portugal? Vontade? Fertilidade? Emprego? Nada disso: faltam exactamente 200 euros, o montante que o Governo vai depositar na conta de cada recém-nascido e que este poderá levantar aos 18 anos - se, ao que percebi, entretanto completar a escolaridade obrigatória.
Bastaria isto para sairmos à rua numa manifestação de apoio. Quantas crianças trocaram precocemente a escola por uma vida de errância graças à inexistência de estímulo material? Ao contrário do que habitual e apressadamente se afirma, os trágicos resultados nacionais a Matemática, Português e etc. não se devem ao facto de os meninos e as meninas não saberem nada de coisa nenhuma, mas ao desânimo de quem sabe não ter 40 contos dos antigos à espera no fim do liceu.
Daqui em diante, o abandono escolar será uma memória difusa. Valerá a pena aguardar 18 anos para ver milhares de jovens iniciarem carreiras repletas de "empreendedorismo" e risco, munidos com o portentoso trunfo profissional que é o diploma do 12.º e os 200 euros (fora juros) que o Estado lhes deu. O que aconteceria se o Governo ousasse estipular donativos graduais para as crianças que adquirissem uma licenciatura (230 euros, por exemplo), um mestrado (245) ou um doutoramento (252)?
Contudo, tal como está, a medida ‘já’ é excelente. E possui a vantagem adicional de servir, nas palavras oficiais, de "incentivo à poupança". Pelos vistos, o Governo dispõe de indícios de que os progenitores nacionais médios são demasiado apalermados para se lembrarem sozinhos de abrir uma conta em prol da descendência. Ou seja, as famílias não poupavam porque não lhes ocorria.
Agora, por obra da generosidade governamental, não há esquecimento possível: os pais poderão poupar, poupar imenso, poupar tanto que os 200 euros virtuais que a criança recebe à nascença talvez alcancem os reais milhares que a criança nasce já a dever, por conta de um défice que medidas assim maravilhosas multiplicam e justificam em pleno.

Nova Aliança, 4 de Março

24.2.10

Outras gentes, outros hábitos...

7 de Fevereiro – ( Adaptado do Público de hoje ) Nove meses depois de o escândalo rebentar e a pouco mais de três meses da data prevista para as legislativas, a reputação do Parlamento a) sofreu ontem novo revés. O relatório às despesas dos deputados concluiu que o sistema de reembolsos é "profundamente defeituoso" e que a "cultura de deferência" que subsiste em b) favorece os abusos. Concluídas as investigações, mais de 300 actuais e antigos deputados terão de devolver ( sensivelmente ) 1,12 milhões de euros recebidos indevidamente desde 2004 - um pouco menos do que o custo final do inquérito.
"Documento da vergonha." Foi assim que o jornal c) chamou ao relatório de 241 páginas preparado por d), o antigo dirigente da administração pública que e) chamou para aplacar a polémica criada em Maio, quando o jornal f) publicou detalhes dos gastos (em alguns casos apenas excêntricos noutros totalmente irregulares) dos deputados com a segunda residência, aquela a que têm direito os eleitos por círculos fora de g).
E o veredicto ontem tornado público não podia ser mais devastador: o sistema é "profundamente defeituoso", as regras são "vagas" e em muito casos não existem documentos que justifiquem as despesas. "Tendo em conta a falta de transparência e a cultura de deferência, isto significa que falta legitimidade às decisões tomadas [pelos funcionários] do gabinete de despesas e muitas delas estavam de facto erradas", conclui d).
Ao todo, 364 deputados - mais de metade dos investigados - terão de devolver dinheiro recebido entre 2004 e 2009, em valores que variam entre os ( sensivelmente ) 42 mil libras exigidas à secretária de Estado da Administração local, h), e os ( sensivelmente ) 40 cêntimos pedidos ao deputado trabalhista i).
A maioria terá de devolver entre mil a cinco mil libras, uma conta muito inferior à apresentada ao casal j) . Durante anos, um deles recebeu ajuda do Parlamento para pagar um apartamento em k), enquanto ao outro eram pagas as prestações da residência familiar.
Seguindo as instruções dos líderes, a maioria dos visados devolveu o dinheiro antes de concluídas as investigações e, em vários casos, até pagaram somas superiores às que agora lhes são exigidas. Ao todo, regressaram ao Parlamento ( sensivelmente ) 800 mil libras.
Mas 75 deles optaram por recorrer, acusando d) de aplicar regras que então não existiam. E o juiz l), nomeado para decidir os recursos, concluiu que algumas das decisões foram "lesivas e injustas". Lembrou, por exemplo, que nada impedia um deputado de celebrar um contrato de arrendamento com um familiar. Por causa disso, 44 recursos foram aceites e 26 deputados viram mesmo as suas dívidas anuladas.
Na esperança de encerrar este episódio antes das legislativas, os líderes partidários apoiaram as conclusões. "Esta é uma etapa essencial para restaurar a confiança nas nossas instituições", disse um porta-voz do primeiro-ministro, enquanto m), líder dos conservadores, acredita que a reparação dos erros "permitirá criar um Parlamento em que o povo confie". "Espero que seja o episódio final deste Parlamento apodrecido", acrescentou o liberal-democrata n).
Expectativas que parecem irrealistas face à sugestão de que alguns deputados se preparam para recorrer aos tribunais, ainda que o Parlamento prometa cortar os salários dos que não tenham reparado a dívida até ao dia 22. E hoje o Ministério Público decide se acusa seis deputados suspeitos de ilícitos criminais e que não foram abrangidos pelo inquérito.
Parece, por isso, previsível que só as eleições permitam enterrar o caso: os deputados com a reputação abalada dificilmente serão reeleitos (muitos decidiram já não se recandidatar) e as novas regras para os gastos entrarão em vigor na próxima legislatura.
Nota: Como certamente o leitor reparou, este texto não se refere ao parlamento português, mas sim ao parlamento de um país onde ninguém está acima da lei e onde as investigações vão atá ao fim, aconteça o que acontecer. Um país onde as “calhandrices” do senhor Lacão não teriam lugar. Eis as legendas em falta: a)Britânico; b) Westminster; c) Times; d) Thomas Legg; e) Gordon Brown; f) Daily Telegraph; g) Londres; h) Barbara Follet; i)Mike Gapes; j) Andrew Mackay e Julie Kirkbride; k) Londres; l) Paul Kennedy; m) David Cameron; n) Nick Clegg.

Nova Aliança, 17 de Fevereiro de 2010

10.2.10

A lei da violência conjugal e ainda os exames a estrangeiros

6 de Janeiro - Em Espanha, um juiz denunciou o sentido único da Lei da Violência de Género, aprovada em 2004 e dedicada a punir em exclusivo os maus tratos dos homens sobre as mulheres. Em Portugal, há uns tempos atrás, o provedor dos leitores do Público lamentou a diferença na cobertura do diário a um homicídio da esposa pelo marido (chamada de primeira página) e a um homicídio do marido pela esposa (quatro linhas interiores).
É notável que, no Ocidente do século XXI, a emancipação feminina tenha de voltar a ser defendida e, ainda por cima, o seja por uns poucos excêntricos, sozinhos contra a nova misoginia emergente. Os exemplos citados mostram o modo como, décadas após a igualdade que tanto lhe custou alcançar, a fêmea da espécie se vê devolvida ao estatuto de penduricalho decorativo. Na justiça e na imprensa, a corrente histeria em volta da violência doméstica toma por adquirida a culpa do homem, sem dúvida na presunção de que o "sexo frágil" nunca reage a um conflito conjugal mediante tiros de caçadeira ou qualquer outro método desagradável. Provavelmente, acha-se que uma senhora é demasiado tontinha para carregar uma arma e demasiado inofensiva para premir o gatilho. Mesmo nos casos em que o marido é encontrado na cama com seis balas nas costas, a moralidade dominante inclina-se para o suicídio ou morte "natural" ("Ele devia estar a pedi-las"): o único papel disponível à mulher é o de vítima, estatuto que confere vantagens em divórcios litigiosos e não confere mais nada, incluindo humanidade.
A velha escola da discriminação desumanizava as "minorias" para as oprimir às claras. Nos subtis dias que correm, face às mulheres e ao resto, a desumanização das "minorias" é uma tendência comum aos que berram em seu alegado favor. Entre o berreiro, só os "inimigos", leia-se os indivíduos do sexo masculino, heterossexuais, caucasianos, etc., emergem como pessoas inteiras, capazes dos actos medonhos que também definem a espécie. Pela minha parte, obrigadinho, mas não alinho na sugestão de que o exercício de atrocidades está vedado a mulheres, homossexuais, pretos e similares grupos do catálogo em que o politicamente correcto armazena pessoas maiores e talvez vacinadas.
Além de mentiroso, o pressuposto é vexatório, na medida em que reduz as "minorias" ao tipo de clichés que afirma combater. As mulheres são passivos sacos de pancada. Os gays são criaturinhas festivas e frágeis, carentes de um aval do Estado para consumar uma atracção. E os pretos são condenados ao gueto da pequena delinquência "romântica" e a expressões de subjugação social, género capoeira ou hip-hop, para consumo, e consolo, do senhor branco.
Tudo isto, afinal, se inscreve na Síndroma Lorosae. Quando a independência de Timor era por cá "causa" obrigatória, era igualmente obrigatório tratar os timorenses de "dóceis" e "meigos" para baixo, adjectivos normalmente reservados a cachorrinhos e destinados a suscitar pena universal. Mal se percebeu que os timorenses eram gente e que a sua "docilidade" não os impedia de se chacinarem mutuamente, a "terra do Sol Nascente" saiu das notícias, nas quais, para evitar choques de realidade, as mulheres homicidas e o bom senso nem chegam a entrar.
13 de Janeiro – Regra geral, a cantiga de que os portugueses não valorizam o que têm de bom é uma desculpa para não se criticar o que temos de péssimo. Às vezes, curiosamente, a cantiga é verdadeira.
Veja-se o sucedido com os exames de português para imigrantes, de que, afinal, uma considerável parte não era realizada pelos candidatos à aquisição de nacionalidade, mas por familiares, amigos ou prestadores de serviços contratados. O SEF reparou na fraude e deteve noventa e tal sujeitos. Incompreensivelmente, não houve autoridade que reparasse no que de facto interessa: o pormenor de que existe por aí gente com um domínio mínimo da nossa língua, raridade que, ao invés de cadeia, devia dar direito a cargos de responsabilidade nos sectores privado e público, incluindo, a julgar pelas limitações verbais de um antigo secretário de Estado da Educação, no próprio Governo. Prender esses indivíduos é desperdiçar recursos de que o País carece e que, dada a exigência nula dos respectivos testes, os meninos e meninas do ensino secundário não prometem preencher.
É possível, admito, que a aparente taxa de sucesso nos exames para estrangeiros se justifique pela sua facilidade. Ainda assim, não podem ser tão fáceis quanto os do "secundário", ou então qualquer cidadão do Burkina Faso chegado anteontem à Portela os teria feito. E, como a bem intencionada porém cega acção do SEF revelou, não os fez.

Nova Aliança, 4 / Fevereiro / 2010

O exame para estrangeiros, o mastro de Paredes e a praia de Madrid

3 de Janeiro – De um modo geral, a cantiga de que os portugueses não valorizam o que têm de bom é uma desculpa para não se criticar o que temos de péssimo. Veja-se o sucedido com os exames de português para imigrantes em que, afinal, uma considerável parte não era realizada pelos candidatos à aquisição de nacionalidade, mas por familiares, amigos ou prestadores de serviços contratados. O SEF reparou na fraude e deteve noventa e tal sujeitos. Incompreensivelmente, não houve autoridade que reparasse no que de facto interessa: o pormenor de que existe por aí gente com um domínio mínimo da nossa língua. Prender esses indivíduos é desperdiçar recursos de que o País carece e que, dada a exigência nula dos respectivos testes, os meninos e meninas do ensino secundário não prometem preencher.
É possível, admito, que a aparente taxa de sucesso nos exames para estrangeiros se justifique pela sua facilidade. Ainda assim, não podem ser tão fáceis quanto os do "secundário", ou então qualquer cidadão do Burkina Faso chegado anteontem à Portela os teria feito. E, como a bem intencionada porém cega acção do SEF revelou, não os fez.
7 de Janeiro - Está a causar certa polémica a decisão da Câmara de Paredes em erguer um mastro com cem metros de altura e uma bandeira nacional na ponta. Não percebo a razão. O autarca em causa explica, e muito bem, que a bandeira visa comemorar o centenário da república e que o mastro visa "georreferenciar" (sic) o concelho. Ao contrário dos adversários do projecto, defendo que a república deve ser comemorada e sobretudo que Paredes deve ser "georreferenciada", até porque, a olho nu, não conseguiria encontrar semelhante lugar mesmo que quisesse (não quero).
Sem surpresa, o problema das más-línguas prende-se com o custo da obra: um milhão de euros. Com surpresa, as maiores más-línguas pertencem à oposição autárquica e invocam a ofensa aos contribuintes, de cujo bolso o mastro fatalmente sairá. O espanto aumenta quando uma das vozes em questão se chama Artur Penedos e é, além de vereador em Paredes, assessor do primeiro-ministro.
Aparentemente, o convívio com o eng. Sócrates não atirou o sr. Penedos para as leituras de Keynes e não lhe ensinou uma verdade irrefutável: o investimento público é essencial ao desenvolvimento do país, logo, por maioria de razão, ao desenvolvimento de Paredes. Como inúmeras das maravilhas que o eng. Sócrates diariamente publicita, o mastro com bandeira colocará Portugal na vanguarda da Europa em matéria de mastros e bandeiras, dinamizará a economia local através do turismo, estimulará a auto-estima dos autóctones mediante a elevação quase celestial da esfera armilar e, não satisfeito, criará empregos, no mínimo dois: um para subir e descer o pavilhão, outro para afugentar os cães que pretendam urinar na base da estrutura. Se o mastro é menos veloz que o comboio de alta velocidade, será inequivocamente mais alto, e 15 mil vezes mais barato.
9 de Janeiro – Via TSF - Na apresentação de mais um estudo sobre o impacto do projecto de alta velocidade no sector do turismo, o ministro das Obras Públicas reiterou que Portugal pode vir a beneficiar «bastante» com o TGV, sublinhando que Lisboa pode mesmo «transformar-se na praia de Madrid».
Foi apresentado, esta quinta-feira, mais um estudo sobre o impacto do projecto de alta velocidade no sector do turismo que aponta para uma subida do número de turistas espanhóis.
O ministro das Obras Públicas, António Mendonça, aproveitou esta oportunidade para reiterar que Portugal pode vir a beneficiar bastante com o TGV.
«Lisboa pode-se transformar por exemplo na praia de Madrid, em termos de condições turísticas, as condições que nós [Portugal] temos para desportos novos como o surf. Há um conjunto de ideias e de oportunidades que importa explorar para aproveitarmos o que esta ligação pode trazer», afirmou António Mendonça.
Este estudo indica que se apenas dois por cento do actuais turistas espanhóis visitarem Portugal em 2015, dois anos depois do TGV, serão 12 milhões e meio, e em 2030, devem ultrapassar largamente os 13 milhões.
É por causa destes estudos que o ministro António Mendonça desafiou os empresários a agarrar a oportunidade do TGV, recusando ter uma visão conservadora.
«Quando o comboio foi introduzido no século XIX, as carroças a cavalos caíram e se calhar na altura os agentes económicos que estavam ligados à exploração de carroças ficaram extremamente tristes, bem como todas as indústrias associadas a esta actividade», exemplificou o ministro.
Os autores deste estudo, a Deloite e a Confederação do Turismo, prevêem ainda que o número de empregos, ligados ao turismo, também dispare. Em 15 anos, serão mais de 35 mil os novos empregados no sector.


Nova Aliança, 21 / Janeiro / 2010

A escolha para a Cinemateca e a propaganda

27 de Dezembro - Sobretudo na respeitável área da "cultura", qualquer recém-nomeado para um cargo público lança os jornalistas na busca de opiniões de "personalidades" acerca do feliz contemplado. Por regra, não há surpresas: as opiniões são na maioria positivas, embora irrompam ocasionais manifestações de antipatia. Independentemente da sua orientação, porém, o teor "intimista" dos testemunhos revela o tamanho do meio, tão pequeno que não se encontra quem não tenha já roçado, metafórica ou literalmente, a criatura em questão.
Se a constatação da nossa dimensão paroquial deprime, pelo menos os argumentos das "personalidades" divertem. Recentemente, as reacções à designação de Maria João Seixas para directora da Cinemateca Nacional divertiram-me. Noto que, excepto por umas variedades televisivas, não conheço a senhora de lado nenhum, logo naturalmente não compreendo as razões da nomeação. O engraçado é que os que a conhecem também não parecem compreender, mas em nome da amizade elaboram imaginativas explicações.
O realizador João Botelho acha a dra. Maria João "culta, simpática e fora dos lóbis", duas razões etéreas e uma discutível. A realizadora Margarida Gil vê nela "uma pessoa do cinema", presumivelmente por ter sido casada com Fernando Lopes e recebido subsídios para publicitar fitas nacionais no estrangeiro. O produtor Paulo Branco elogia- -lhe, sem especificar, o "trabalho" e o "trajecto". E Medeiros Ferreira ganha de longe o prémio da justificação mais original: o antigo ministro e deputado louva a escolha porque num seu aniversário a dra. Maria João, cito, "convidou o plenário dos seus amigos para uma celebração natalícia na Cinemateca". Volto a citar o dr. Medeiros Ferreira: "Está tudo dito sobre o seu amor ao cinema."
Estará? Eu julgo que ainda falta aplaudir a devoção às aves de todos quantos festejam os anos em churrasqueiras. Falta esclarecer em que circunstâncias uma instituição pública se reserva para pândegas particulares. E falta certamente destacar a opinião de Nuno Artur Silva, dono das Produções Fictícias e o único a apresentar uma razão credível para a nomeação da dra. Maria João: o "traquejo político". Traduzido, isso significa que a novel directora foi assessora de António Guterres e mandatária em candidaturas de Jorge Sampaio, Mário Soares e Manuel Maria Carrilho. Agora sim, está tudo dito sobre o seu amor ao cinema.
2 de Janeiro - Aconteceu em Cacia. Durante o anúncio da construção de uma fábrica de baterias, o senhor José Sócrates Pinto de Sousa ergueu a mãozinha e juntou o polegar ao indicador para decretar: "Eu sou dos que acham que quando as cidades tiverem uma percentagem suficiente de carros eléctricos, sem emissões e sem barulho, já não vão querer andar para trás." Em seguida, explicou que Portugal será o primeiro país do mundo com uma rede nacional de abastecimento dos carros em questão. Por fim, conduziu, risonho, um exemplar dos ditos, com tamanho comparável a uma lata de atum e desempenho idem. Terminada a sessão, ficaram no ar clichés dispersos: "aposta", "investimento", "inovação", "ambição", "linha da frente", etc. Contas feitas, tratou-se de um espectáculo notável, mas quem não viu sabe exactamente o que perdeu.
Em quase cinco anos no poder, é impossível registar o número de ocasiões aproveitadas por Sócrates para nos informar de que o Governo, o dele, colocou Portugal na vanguarda internacional de uma maravilha qualquer. Agora é o carro eléctrico. Das outras vezes foram chips de computadores, caixas de computadores, "aerogeradores", placas solares e por aí fora. Invariavelmente, cada maravilha suscita três ou quatro cerimónias de propaganda até se dissolver em falências, fracassos, trapalhadas judiciais ou nas meras intenções. E até perder a atenção de Sócrates, capaz de abraçar a próxima maravilha com a candura de quem nunca se comprometeu com as anteriores.
Havia a anedota do sujeito que vendia bóias na praia enquanto o tsunami se aproximava: Sócrates continua a vendê-las após a devastação e, sobretudo, como se a devastação não tivesse ocorrido. Juro: não quero saber quanto do meu dinheiro reverte para essas duvidosas causas. Nem perguntar se não haverá um bom motivo para que nações de facto prósperas permitam a Portugal ser pioneiro no que quer que seja. Nem mesmo verificar a marca do computador que o primeiro-ministro usa, a origem da energia que consome ou o veículo em que, desde Cacia, se desloca.
O único ponto de interesse consiste em apurar se, depois de habituados às emissões e ao barulho que o PS produz, os portugueses algum dia vão querer seguir em frente. E, já agora, também conviria saber se em frente ainda haverá alguma coisa além do abismo.


Nova Aliança, 7 / Janeiro / 2010

O poder muda e o casamento entre católicos e não católicos

13 de Dezembro – O poder muda realmente as pessoas! É impressionante ver a transformação de algumas de condição modesta quando atingem posições importantes em termos de fama, de riqueza e de poder. Ainda hoje recordo um funcionário que todos os dias vinha ter comigo a lamentar-se da pouca saúde, dos problemas da mulher e dos filhos. Quando passou a chefe de outros funcionários, deixou de vir ter comigo e começou logo a atormentar os que dependiam dele.

Tenho visto muitos casos semelhantes entre operários e empregados. Já para não falar do que se passa na política. Antes das eleições, alguns políticos cumprimentam-nos calorosamente e pouco falta para nos abraçarem. Depois, assim que conseguem um cargo, tornam-se inacessíveis. Em alguns casos, é impossível contactá-los por telefone e não respondem a cartas. Com o tempo, acabei por perceber que agem assim por estarem convencidos de que o poder tem por base o medo. No início da carreira, invejam os superiores. Como os temem, para lhes caírem nas boas graças, comportam-se de forma reverencial, servil e até, como acontecia com o meu queixoso funcionário, tentam obter a piedade deles. Contudo, se os observarmos bem, percebemos que, no fundo, são pretensiosos e ávidos.

Não confiam nos colegas, não os respeitam, vêem-nos como adversários. Para alguns, os subordinados não passam de indivíduos invejosos e hostis que se comportam com deferência apenas por medo. É por isso que, após uma promoção, se tornam autoritários e déspotas: apenas se sentem seguros quando os subalternos obedecem a tremer. Quando conquistam cargos ainda mais importantes, todos os outros se tornam rivais. É por essa razão que apenas escolhem colaboradores medíocres que concordam com tudo. Felizmente, também há indivíduos que se comportam de forma oposta e que vêem o poder como uma liderança assente na criatividade, no mérito e na capacidade de obter resultados. E alguns, ao contrário dos primeiros, não sentem receio no início da carreira, porque confiam em si próprios e nas suas capacidades e apenas desejam poder exprimir--se e mostrar aquilo de que são capazes. Quando chegam ao poder, não vêem os seres talentosos como potenciais adversários; pelo contrário, procuram colaboradores com valor e rodeiam-se de especialistas, de homens de cultura e de artistas, a quem pedem opiniões e conselhos. No caso dos primeiros, o principal objectivo é aumentar o poder; os verdadeiros líderes têm ideais, sonhos e rodeiam-se de todos aqueles que desejam partilhá-los, para uma realização conjunta.
15 de Dezembro - O i-online dá notícia da proibição, pelo Papa Bento XVI, do casamento entre católicos e não católicos. O pretexto da notícia é uma tradução, parcial e não oficial, em espanhol de uma tradução em italiano do texto original em Latim.
Na parte respeitante ao casamento, a notícia é falsa. O Papa não proibiu coisa nenhuma (nem proibiu nada que não fosse já proibido). O Código de Direito Canónico (CIC) previa o casamento entre católicos e o casamento entre um católico e um não católico (casamento misto), sujeitando-os, porém, a ritos e requisitos algo diversos. E continua a prever depois da decisão papal que fundamenta a notícia. A alteração do texto de várias normas, como se explica no texto papal (que, nesta parte, não aparece na tradução espanhola usada pelo i), visou apenas clarificar o regime aplicável aos casamentos em que intervenha alguém baptizado, mas que se tenha afastado da Igreja (relativamente aos quais havia dúvidas sobre se deveria, ser tratados como católicos ou como não católicos, para efeitos da determinação do rito e requisitos aplicáveis).
Os jornalistas não têm de saber latim, mas não custava muito, por exemplo, consultar o texto anterior das normas do CIC, para perceber o disparate do título.

Nova Aliança,24 / Dezembro / 2009

12.12.09

As redes sociais e os minaretes suiços

1 de Dezembro - O mundo pula e avança. Eu fico. Há alguns anos, estavam os blogs na moda, resolvi fundar um. Eu não sabia exatamente o que era um blog. Quero dizer, conhecia-os mal mas apreciava a capacidade do ‘bicho’ para publicar em cima do acontecimento.
Em Portugal, os blogs eram poucos mas iniciava-se já a ‘febre’. O tempo livre era passado com actualizações dos ‘templates’. A ‘coisa’ queria-se de referência.
A certa altura o entusiasmo passou. É verdade que nunca vivi intensamente o fenômeno. Uma brincadeira é uma brincadeira e precisava do tempo aí dispendido para ler. Regressei aos livros e, claro, à imprensa. A internet é, de certa forma, um parque infantil. Quem deseja viver eternamente num parque infantil?
A resposta correta é: toda a gente. Dez anos depois, olho em volta e estou mais só do que nunca. Percebi isso numa reunião onde todos falavam de mundos que eu ainda não visitei. Facebook. Twitter. Esses são apenas os tradicionais. Depois existem os outros, com nomes impronunciáveis e virtualidades idem.
Parece que toda a gente ‘está’ no Facebook e ‘está’ no Twitter. Atenção ao verbo ‘estar’: fisicamente, os novos internautas podem estar sentados a uma mesa de jantar. E sorriem. E conversam. E parecem gente. Mas, na verdade, eles não ‘estão’ onde nós estamos. Onde eu estou. Eles habitam o espaço virtual, onde desenvolvem amizades virtuais, inimizades virtuais. Sem falar de amores ou traições rigorosamente virtuais. Não sei se existem casamentos, divórcios ou funerais virtuais. É provável.
Mas o pior de tudo é ser questionado. E eu? ‘Estou’ no Facebook? ‘Estou’ no Twitter? Respondo que não ‘estou’em nenhum. Alarme. Alguém comunica aos restantes que está um ser humano sentado à mesa. Olhares de estupefação e náusea. A minha vontade era responder: mas ‘estou’ aqui, em carne e osso. Podem tocar.
Erro meu. Se não ‘estou’ na internet, eu não ‘estou’ em lado algum. Eu simplesmente não existo. Ou existo, sim - mas numa cidade deserta, como o último sobrevivente de uma catástrofe nuclear.
Regresso a casa. Derrotado. Ao computador chegam periodicamente convites de ‘amizade’. Resisto. Não quero ‘amigar’ para depois ‘desamigar’.
Saio para a rua. O bulício das compras de Natal aí está. Sigo os meus autores. Talvez alguém me siga a mim. Nos sonhos, nunca devemos olhar para trás. Eu olho. E vejo. ‘Estou’ ?
4 de Dezembro – De forma irónica diz-se que a Suíça deu duas coisas ao mundo: relógios e Rousseau. Agora deve acrescentar-se à lista a grande surpresa da semana: contra todas as previsões, os suíços resolveram proibir a construção de minaretes islâmicos no seu espaço nacional. Convém lembrar que os minaretes são estruturas arquitectónicas, em forma de torre, que permitem chamar os fiéis para a oração.
Nada mais do que isso. O Partido do Povo da Suíça, a maior organização partidária do país, resolveu convocar um referendo. E o povo rejeitou a "islamização" do seu espaço público. Em certos cantões, e sobretudo com o apoio feminino, a rejeição foi esmagadora.
A atitude dos suíços horrorizou a Europa e alguns acusam-nos os de intolerância extrema. Os suíços têm ódio e medo perante o estrangeiro, dizem, e assim se explica o repúdio da religião islâmica e da sua expressão arquitectónica, uma atitude incompreensível e até irracional quando sabemos que os muçulmanos representam 5% da população suíça e são, na sua maioria, procedentes dos balcãs e da Turquia, e não necessariamente de países árabes extremistas.
Curiosamente, os suíços organizaram-se para impedir a construção de minaretes mas não, por exemplo, a construção de mais igrejas ou sinagogas. Mas existe um segundo pormenor que importa relembrar. Disse no início que a Suíça legou ao mundo relógios e Rousseau. Deixando de parte os relógios, fiquemos com Rousseau. Sobretudo com a sua particular concepção de "democracia direta", tão do agrado da chamada esquerda clássica. Se os estados justos são aqueles onde prevalece a "vontade geral", não se percebe por que motivo a "vontade geral" dos suíços horroriza assim tanto os seus herdeiros.

Nova Aliança, 10 / Dezembro / 2009

Maité Proença, ainda os animais e a actualidade de Eça

Quarta-feira, 4 de Novembro - Há dois anos, Maitê Proença, actriz de telenovelas, gravou um pequeno vídeo sobre Portugal, à época transmitido num programa da TV Globo. No vídeo, que se pretendia jocoso, a senhora imita o sotaque daqui, mostra uma casa em Sintra com o número da porta invertido e fala de um hotel de cinco estrelas sem técnico de informática. Aparentemente, isto bastou para que um nosso compatriota ressuscitasse agora tamanha irrelevância, promovesse um abaixo-assinado a exigir desculpas e incendiasse a Internet com fúria nacionalista.
O único problema da tentativa cómica da dita Proença é a falta de graça. Seria potencialmente hilariante se tratasse de características reais e realmente ridículas dos portugueses, como o fascínio pela "cultura" de países do Terceiro Mundo, Brasil incluído, que "compensa" o desconhecimento da cultura do Primeiro. Ou a capacidade de dar importância ao que não possui nenhuma.
Se, por exemplo, os franceses respondessem assim às paródias americanas, a Embaixada dos EUA em Paris seria obrigada a criar um departamento exclusivamente dedicado aos protestos. Nunca ouvi falar de protesto nenhum. Nações a sério concedem a brincadeiras o destaque que as brincadeiras merecem. A ofensa fácil e colectiva exige um caldo notável de presunção, insegurança, boçalidade e atraso de vida. O caso flagrante é o dos povos muçulmanos, que saem à rua em roupa interior sempre que alguém refere Maomé sem a devida vénia. Outro caso, menos flagrante, é curiosamente o brasileiro. Não há muito tempo, um episódio dos Simpsons que retratava o país enquanto um lugar de miséria e insegurança (imagine-se) motivou vasta indignação local, a ponto de altíssimas autoridades ameaçarem processar a produtora Fox.
Em abono do Brasil, lembro que os Simpsons são talvez a série mais influente da história da televisão. A absurda polémica em curso tornou Maitê célebre numa terra que reage a galhofas falhadas mediante pretextos para galhofas garantidas. Entretanto, a actriz de telenovelas gravou novo vídeo, este com o reclamado pedido de desculpas e a jura, a título justificativo, de que a senhora até goza o presidente (dela). Ou seja, na escala de respeito da Proença os portugueses situam-se abaixo de Lula. E isso já ofende o meu brio lusitano: não haverá um abaixo-assinado contra o segundo vídeo?

Sexta-feira, 13 de Novembro - Infelizmente, a lei que a prazo acabará com os animais selvagens nos circos não promete acabar com os animais teoricamente racionais que a inventaram. O presidente do Instituto da Conservação da Natureza, entidade irónica num país em que a natureza é periodicamente arrasada por construtores e incendiários, justifica a medida com a saúde pública e a segurança. Ignoro quantos milhares de pessoas os macacos do Chen e os tigres do Cardinali mataram até hoje. Porém, estimo em milhões as vítimas desta senha reguladora que aos poucos procura, e aos poucos vai conseguindo, censurar-nos a comida, o tabaco, o álcool, o sedentarismo, o automóvel, o jogos, os noticiários críticos do Governo e, em suma, tudo o que ainda distingue o homem civilizado da bicharada, selvagem ou outra.
Às vezes penso se os pequenos zelotas da padronização foram escolhidos para cargos públicos por serem assim ou ficaram assim depois de alcançar os cargos. A psiquiatria explicará. Para já, suspeito da primeira hipótese: além do Estado, não faltam na "sociedade civil" sujeitinhos sempre dispostos a apoiar ou instigar medidas repressivas. Veja-se, no caso dos animais, as associações do ramo. Conheço algumas e, salvo excepções dignas, nunca lhes notei a menor preocupação com o bem-estar dos bichos. Em compensação, aflige-os imenso que alguém os possa ter, gostar deles e ser retribuído. Os macacos e os tigres circenses são evidentemente um pretexto. Ou um início. A insignificância que dirige uma Associação Animal apareceu a avisar que a nova lei não basta: é urgente abolir todas as criaturas não humanas do circo. Entre parêntesis, diga--se que seria preferível abolir o dito: notoriamente, para ver palhaços não é necessário comprar bilhete e entrar numa tenda.
Fora de parêntesis, sabe-se como estas coisas começam e tenho um palpite sobre como podem acabar. Nem aprecio circos, mas é possível que tarde ou cedo o Estado e os parasitas que lhe habitam as franjas estendam o instinto totalitário à privacidade dos lares.
Sábado, 14 de Novembro - “A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os sócios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é impelirem-se e repelirem-se sucessivamente uns aos outros, até que a cada um deles chegue o mais frequentemente que for possível a vez de entrar e sair do governo. Nos pequenos períodos que decorrem entre a chegada e a partida de cada ministério o grupo respectivo renova-se, depondo alguns dos seus membros nos cargos públicos que vagaram e recrutando novos adeptos candidatos aos lugares que vierem a vagar. É este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que constitui a vida orgânica do que se chama a política portuguesa”.
Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, As Farpas, Agosto-Setembro de 1877

Nova Aliança, 26/ Novembro / 2009

Os animais e a escola na Finlândia

14 de Outubro - A partir de agora, os animais dos circos estão proibidos de se reproduzir. Ainda agora no rádio do carro escutei atentamente um acérrimo defensor desta medida explicar que há muitas soluções simples para garantir a extinção das espécies circenses. Sugeriu duas: 1. separar machos das fêmeas ou, 2. castrar os machos. Que crueldade. Nunca pensei ouvir tal sugestão da boca de um pretenso defensor dos animais. É preciso que a Sociedade Protectora dos Animais proteja os animais destes protectores de animais.
No primeiro caso, a separação por género, parece-me que há uma claríssima e inaceitável descriminação dos animais heterossexuais. Por favor, defensores da igualdade do género, mostrem a vossa indignação por esta solução que apenas permite uma prática sexual sã aos animais LGT e parcialmente aos B, ainda que reduzindo-lhes drasticamente a possibilidade de escolha. Espero da vossa parte uma posição clara de protesto contra estas medidas que condenam todo um grupo maioritário ao cinzentismo do auto-divertimento.
A segunda solução, para lá de arrepiante – brrrrr – é intolerável. Castrar os bichinhos? Que horror. Não só a medida é de enorme crueldade física como, mais uma vez, há uma óbvia descriminação de género, agravada pelos terríveis efeitos vexatórios sobre o bem-estar psíquico dos bichinhos a quem amputaram a sua virilidade.
A única medida que pode ser aceitável para estes casos é a pílula do dia seguinte – que deverá ser fornecida gratuitamente a todos os animais que o solicitarem nos centros de saúde da zona. (um comprimido para a macaca, 3 caixas para a elefanta).
Vamos lá, jugulares, defensores de causas profissionais e outros bloquistas, temos aqui temos uma nova causa fracturante, mexam-se. Lutemos juntos pela defesa do direito dos animais circenses a terminarem os seus mandatos com dignidade.
Os tigres dos circos não se podem reproduzir. Os macacos idem. Enfim nada disto tem importância por nada disto é para cumprir. É para ir cumprindo. Se a malta chateia lembram-lhe a legislação. Primeiro foi com a comida. A ASAE parecia omnipresente e omnipotente. Depois tivemos a fase da ginástica, dos ginásios e dos pescadores que tinham de andar de fita métrica para verificar a quantos metros estavam uns dos outros. Agora chegou a vez dos circos. Sugiro que a seguir se legisle sobre os palhaços. Não é aceitável que um ser humano seja achincalhado como acontece no número do palhaço rico e do palhaço pobre. Após os palhaços deve o legislador ou o grupo de peritos como soe dizer-se recomendar que se legisle sobre a ausência de prática desportiva entre as crianças ao fim-de-semana e o número de pactotes de batas fritas que ingerem enquanto vêem séries de televisão esticadinhas no sofá.

Já não é a primeira vez que se faz aqui a comparação com o país que foi considerado referência de topo pelo PM e pela ministra quando quiseram considerar os professores uns "malandros" .

16 de Outubro - Para os cidadãos, pais, professores, alunos, ministra que foi, ministra que chega, primeiro-ministro e deputados, aqui ficam as nove grandes diferenças entre portugal e a Finlândia:

1. Na Finlândia, as turmas têm 12 alunos;

2. Na Finlândia, há auxiliares de accção educativa acompanhando constantemente os professores e educandos;

3. Na Finlândia, os pais são estimulados a educar as crianças no intuito de respeitarem a Escola e os Professores;

4. Na Finlândia os professores têm tempo para preparar aulas e são profissionais altamente respeitados;

5. Na Finlândia, as aulas terminam às 3 da tarde e os alunos vão para
casa brincar, estudar e usufruir do seu tempo livre;

6. Na Finlândia, o ensino é totalmente gratuito inclusivamente os LIVROS, CADERNOS E OUTRO MATERIAL ESCOLAR;

7. Na Finlândia, todas as turmas que têm alunos com necessidades educativas especiais, têm na sala de aula um professor especializado a acompanhar o aluno que necessita de apoio;

8 . Na Finlândia, não há professores avaliadores, professores avaliados nem inspectores!

9. Na Finlândia, não há professores de primeira e de segunda.

Conseguiram perceber as diferenças?

Nova Aliança, 12 / Novembro / 2009

25.10.09

O 'professor' em Espanha e o Nobel de Obama

16 de Setembro - No jornal espanhol El Pais de ontem pode ler-se: “Los docentes serán autoridad pública en la Comunidad de Madrid. Es una de las medidas que introducirá la futura Ley de Autoridad del Profesor que la presidenta madrileña, Esperanza Aguirre, va a anunciar mañana en la cámara regional, según fuentes de su Ejecutivo, y cuyo texto llevará al hemiciclo en las próximas semanas.
La iniciativa de elevar el rango de los maestros ya la asumió el año pasado la Comunidad Valenciana y existe también, aunque sólo para los directores de los centros escolares, en Cataluña, desde hace unos meses. En el caso de Madrid persigue el objetivo de reforzar la figura del maestro.
Al ser reconocidos como autoridad pública, los profesores -al igual que jueces, policías, médicos o los pilotos y marinos al mando de una nave- cuentan con una protección especial. La agresión a uno de ellos está tipificada por el Código Penal como atentado contra la autoridad en los artículos 550 a 553, que recogen penas de prisión de dos a cuatro años.
Además, la autoridad pública tiene presunción de veracidad, lo que significa que su palabra tiene más valor que la de un ciudadano de a pie. Y permite a la fiscalía perseguir de oficio los delitos contra estos funcionarios públicos.
La futura ley de Aguirre también recogerá una mejora de la retribución para los niveles intermedios de mando de los centros escolares: secretarios y jefes de estudios. Esta subida se aplica ya desde el 1 de enero para los directores de los colegios madrileños, que perciben una media de 320 euros más que hace un año.
Para quem tem alguma rejeição à língua de Cervantes, eis a tradução dos 3º e 4º parágrafos:

"Ao serem reconhecidos como autoridade pública, os professores - tal como os juízes, polícias, médicos ou os pilotos e comandantes de navios - contam com uma protecção especial. A agressão a um professor está tipificada pelo Código Penal como atentado contra a autoridade (…) e pode valer pena de prisão de dois a quatro anos."
"Além de serem autoridade pública, têm presunção da verdade, o que significa que a sua palavra tem mais valor do que a de outro cidadão. E permite às autoridades fiscalizar os delitos contra estes funcionários públicos."
Em Portugal nestes quatro anos foi o que sabemos. Quão diferente é o "socialista" Sócrates do seu homólogo Zapatero..."
10 de Outubro - Há quem diga que este Nobel da Paz é pura fé e intenções. Obama ainda agora começou! Alguns até o comparam a galardoar um potencial génio que não concluiu a primária. Outros alongam-se naquela estafa sobre a politização da Academia.
Mas parte desta glória só pode dever-se ao nome Nobel, apelido do químico sueco que criou o prémio e que, em muitas línguas europeias, ressoa a nobre. Ou seja, digno ou honrado. Se o senhor se chamasse Svitjod a coisa não teria igual sucesso. Brincadeiras à parte, estes Nobel costumam ser mais polémicos. A paz é uma esperança. Raramente é um resultado final. Aliás, também outros são mera expectativa. Por exemplo, “descoberta que traz esperança ao tratamento do cancro” foi, neste ano, o Nobel da Medicina.
A guerra do Afeganistão continua e Obama não recebeu o Dalai Lama. Alterou a política americana no Leste, Irão, Israel, Guantánamo. E, assim, mantém o ‘Yes, we can’, nove meses de esperanças depois. Mas que não será eterno, como revelam as críticas nos próprios EUA. E, antes que acabe, celebre-se. Pessoa, crendo no papel do sonho na política, entendia que Portugal só sairia do marasmo “ressuscitando” D. Sebastião. Disparate? Talvez. Mas o poeta sabia bem que “O mito é o nada que é tudo”. Embora não tivesse ganho um Nobel...

11 de Outubro – Quem quiser explicar a um estrangeiro as idiosincrasias portuguesas, tem uma tarefa complicada. Temos de explicar-lhes que Portugal é um país brando e solarengo, mas cujos humores oscilam bastante. Temos uma tradição de homicídios políticos pela província.
Tudo se mistura: caçadeiras a monte, ódio político, disparate latente e questões sentimentais. O caso de Ermelo, Vila Real (900 eleitores), vem daí. Falta-nos humor para o essencial e coragem para olhar as coisas de longe. A miséria da política é como em Ermelo: pede a exclusão. Daí ao tiroteio é um passo.


Nova Aliança, 16 / Outubro / 2009

Os políticos eo 'interesse geral'

Com o devido respeito, eis um texto do professor Paulo Guinote, publicado no blog ‘A Educação do meu Umbigo’ ( http://educar.wordpress.com ):
“Há em alguns políticos e comentadores a tentação para se erigirem como detentores da capacidade de enxergarem e defenderem o Interesse Geral contra os mesquinhos interesses corporativos.
Criticam quem defenda a verdade, o rigor com os factos e as promessas, mas depois são eles que têm uma verdade maior, a verdade do Interesse Geral. Os outros são defensores de interesses particulares, menores, egoístas.
Esta é uma atitude profundamente arrogante porque Interesse Geral eu não conheço, nem nunca conheci como se determina ou se coloca em prática, ou defende, porque não passa de uma abstracção retórica. Ou então o Interesse Geral mais não passa do que o agregado dos diversos interesses particulares dos cidadãos de uma dada sociedade.
Aliás, o Interesse Geral, colocado assim, acima dos interesses dos indivíduos, remete-nos para um caldinho cultural vizinho dos regimes autoritários e totalitários que erigiram a Raça, a Nação, a Religião ou a Classe como Interesses Gerais do seu projecto político, espezinhando pelo caminho os interesses particulares e os indivíduos que se opuseram a esse projecto Colectivo de Unidade.
E acho estranho que quem se assuma defensor da liberdade, ou liberal no sentido político ou económico, embarque nestas aventuras estranhas do Interesse Geral, indemonstrável e volúvel conforme os contextos.
Só para contextualizar, relembremos o caso do défice, que em 2003 qualificaram como obsessão, em 2005 já era de Interesse Geral e agora em 2009 tem dias: se é para uns efeitos pode agravar-se, se é para outros deve conter-se.
O Interesse Geral mais não passa do que de um manto usado para cobrir interesses de facção, elevando-os a um patamar superior.
Eu prefiro ser realista e explicar o meu interesse particular. E acho que é da soma dos interesses particulares, conjugando-os, mas sem sacrificar brutalmente nenhuns, que se atinge um projecto de sociedade verdadeiramente liberal no sentido mais radical do termo.
Quem está sempre a acusar os interesses corporativos, sabe bem que uma sociedade não se constrói sobre uma amálgama indiferenciada de indivíduos, sem identidades socioprofissionais, por exemplo. A menos que seja esse o projecto do Interesse Geral: tornar a sociedade uma mera amálgama de indivíduos indiferenciados.
Há que fazer opções, é certo. A manta não dá para cobrir todos, aceito. Mas preciso que me expliquem e fundamentem as opções tomadas, não apenas que as enunciem como inadiáveis e há muito necessárias. É preciso mais do que isto.
O Interesse Geral não pode ser um vazio usado para ocultar vazios de ideias e projectos ou para legitimar opções políticas e económicas resultantes de interesses particulares, esses sim, transitoriamente com as rédeas do poder político para os impor ao resto da sociedade.
Por isso, sempre tive dificuldade em rever-me em projectos políticos com soluções mágicas para tudo, evocando um qualquer tipo de Interesse Geral para colocar o Colectivo acima do Indivíduo. Sejam de esquerda, de direita ou do centro.
Sejam baseados em Magalhães, em Livros Verdes, Vermelhos ou Laranjas. Na Bíblia ou em bíblias.
A deriva totalitária, mesmo que em democracia formal, é uma tentação de todos os homens que se acham providenciais.
O Interesse Geral, nova formulação aparentemente mais vazia dos velhos projectos de subordinação das massas aos projectos políticos de facção, não me serve como argumento para nada.
Em especial quando surge enroupado em coisa nenhuma, tirando fatiotas elegantes e meneios estudados.”


Nova Aliança, 1 / Outubro / 2009

A modorra dos dias de verão...

4 de Setembro – Ao contrário do que o leitor poderá pensar, em Julho e Agosto o mundo não pára e sucedem-se coisas tão interessantes como: em Lisboa, o ‘Zé’ lembrou-se de plantar girassóis – é, sem dúvida, a intervenção que a cidade mais precisa -; quatro lisboetas hastearam a bandeira monárquica na Câmara Municipal; é candidato a deputado um sujeito que engessou fraudulentamente um braço para evitar um reconhecimento de assinatura; surgiram dois novos partidos: o Partido Nulo – só desistem se ganharem as eleições – e o Partido Pirata – conteúdos grátis na Internet -; a senhora Clinton ficou furiosa por lhe terem perguntado pelas opiniões do senhor Clinton; o Presidente da Costa Rica despacha na cama, visto que tem gripe A, a mesma que levou os actores das novelas mexicana a eliminarem os beijos – estamos em plena histeria como se estivesse aí a peste negra quando os sintomas são a cefaleia e a expectoração; o czar Putin caça, pesca, mergulha, monta a cavalo e mostra o seu tronco ginasticado aos fotógrafos; o presidente francês contratou uma treinadora pessoal para o exercitar nos deveres conjugais; uma editora que planeava lançar um livro sobre Arafat recuou, e não foi com medo das recensões; o Hamas anunciou a criação de uma’Hamaswood’, uma espécie de Hollyood palestiniana onde podemos contar com explosões, incluindo as dos protagonistas; uma visitante do Louvre atirou chá quente à Mona Lisa; uma rapariga de ‘burquini’- uma burqa para a natação – foi impedida de frequentar uma piscina laica e republicana; o príncipe do Mónaco foi visto a dançar com uma namorada oficial enquanto trazia no ouvido um auricular; a namorada do príncipe William confessou que não gosta de cavalos, pecado grave na monarquia inglesa; falando em cavalos – mal comparado – um empresário abrantino tentou introduzir um burro no edifício camarário; um repórter fotográfico foi atropelado pelo carro que conduzia Pinto da Costa à saída do tribunal e apesar de um agente da PSP ter dado ordem de paragem – que não foi cumprido -, o Comando do Porto teve necessidade de lançar um comunicado desculpando o facto do condutor não ter acatado a ordem por se ter tratado de um acto ‘explícito’; um apresentador de televisão brasileiro encomendava crimes para aumentar a audiência do seu programa sobre crimes; o assaltante do Banco Espírito Santo confessou na cadeia que “o BES ainda é o meu banco”; o actor Carlos Areia, de 63 anos, tem uma namorada de 17 anos; a Câmara de Paços de Ferreira atribuiu o nome de Manuel Pinho a uma rua da cidade apenas porque no local não existe praça de touros; a televisiva Carolina Patrocínio – mandatária do PS para a juventude – confessou que só come cerejas se a empregada lhe tirar os caroços e uvas se a dita senhora lhe retirar previamente as grainhas; o mesmo rosto afirmou que prefere fazer batota a perder; o proprietário de uma charca apedrejou um helicóptero – dois vidros partidos e várias amolgadelas - que tentava abastecer no seu terreno durante o combate a um incêndio; um jornal televisivo – o de 6ª feira na TVI – foi suspenso porque o ‘estilo’ era considerado demasiado ‘agressivo’ para com o primeiro-ministro. Uff, as férias terminaram…

Nova Aliança, 4 / Setembro / 2009

14.9.09

Os exames de Português e Matemática do 9º Ano

14 de Agosto – Já ninguém fica espantado se um professor universitário contar que parte significativa dos seus alunos não sabe as regras básicas da gramática e coloca, por exemplo, uma virgula entre o nome e o verbo. Diga-se que o desconhecimento da Língua já chega aos próprios professores universitários. Uma professora de uma prestigiada instituição de ensino superior de Lisboa deu nota ‘çuficiente’ a trabalhos apresentados por alunos.
Foram conhecidos os resultados dos exames nacionais do Ensino Básico (Português e Matemática). Comparando com o ano lectivo anterior, houve uma diminuição considerável na percentagem de classificações negativas em Matemática (de 44,9% para 36,2%) e um aumento (praticamente uma duplicação!) na de Português (de 16,7% para 30,1%).

Independentemente de se tratar de subidas ou descidas, o que nos deve preocupar talvez acima de tudo é darem-se estas variações: nem se trata de pequenas oscilações, mas sim de autênticos e enormes solavancos.

Há um problema de fiabilidade nestes levantamentos. E, pior ainda, surgem dúvidas sobre a seriedade e a competência das orientações e critérios com que se elaboram os exames. Como se pode avaliar um processo que apresenta toda esta inconstância? É claro que este ministério da Educação não parece preocupado com isso: preocupa-se somente em produzir propaganda disparatada (como a acusação à Sociedade Portuguesa de Matemática [!] pelos maus resultados dos últimos exames, etc.).

Há, nos resultados tornados públicos hoje, um "pormenor" que não deve ser desprezado: veja-se que, tanto em Português que "piorou" muito, como também em Matemática que "melhorou", deu-se um aumento do número de alunos classificados com a nota mais baixa ( nota de 'um' ): de 310 para 700, em Português e, o que é mais espantoso, de 3107 para 3623, em Matemática.

E isto é ainda mais sério, se nos lembrarmos que o aumento é acompanhado por uma diminuição do universo dos alunos examinados: de 94832 em 2007 / 08 para 90184 este ano! Quer dizer, aumentou consideravelmente o número de alunos que praticamente não conseguiram responder a nada ou quase nada dos exames...

Ficar contente com estes resultados é um mau princípio. A escola tem de ser mais exigente, porque o futuro destes jovens vai ser muito competitivo e na vida real se não estiverem preparados terão os empregos menos qualificados e mais mal remunerados. O capital humano é a maior riqueza do País. Se o desbaratamos com uma má educação estamos a ser cúmplices de um terrível erro que prejudicará milhares de jovens e nos empobrecerá a todos no futuro.
A ministra disse que os resultados dos exames devem encher o País de orgulho. É difícil encontrar motivo de júbilo quando praticamente um em cada três alunos do nono ano chumba num exame relativamente fácil. Nenhuma pessoa no seu perfeito juízo se deve alegrar com estes resultados: continuamos com mais de um terço de classificações negativas em Matemática e com uma duplicação vergonhosa das negativas em Português. Ora, o que diz a isto a senhora ministra da Educação? Isto (leiam sentados, por favor):
“Gostava de sublinhar que a larga maioria dos alunos teve nota positiva tanto a Português como a Matemática. Isso deve-nos encher de orgulho. É muito positivo e muito bom para o país.”


Nova Aliança, 4 / Setembro / 2009

Os gestores, o governador e a gargalhada

13 de Julho – Segundo um estudo de Manuel António Pina, publicado no Jornal de Notícias de 24/10/08, "... se os portugueses comuns (os que têm trabalho) ganham pouco mais de metade (55%) do que se ganha na zona euro, os nossos gestores recebem, em média:
- mais 32% do que os americanos;
- mais 22,5% do que os franceses;
- mais 55 % do que os finlandeses;
- mais 56,5% do que os suecos"

E são estes mesmos gestores que chamam a nossa atenção porque "os portugueses gastam acima das suas possibilidades".

15 de Julho – Desculpem mas não posso deixar de voltar ao assunto. O senhor Vítor Constâncio ainda não percebeu que é um triste símbolo de um ciclo que terminou.
Fiado na sua imensa autoridade e contente na sua soberba, Constâncio decidiu pregar um raspanete à Assembleia da República por esta se ter imiscuído nos meandros da supervisão. Nem o relatório final da comissão de inquérito ao BPN, feito à sua medida, conseguiu acalmar os ânimos do governador do Banco de Portugal.
O PS, através da deputada Sanfona, apresentou um texto inócuo e inconclusivo, recheado de citações oficiais e de desculpas de mau pagador. Imune a este tipo de simpatias, Constâncio não perdeu tempo e apresentou-se imediatamente ao país, disposto a desfazer qualquer dúvida sobre a sua iluminada pessoa. E lá explicou, pela enésima vez, que a sua extraordinária actuação estava muito acima das capacidades de qualquer deputado.
Como se viu, só ele, na sua infinita sabedoria, se considera em condições de se avaliar a si próprio, longe da chicana parlamentar e dos golpes sujos da oposição. E ele, como se viu também, tem-se em alta conta: não há falha que o atinja, nem offshore que o diminua. Em guerra aberta com a realidade, consegue ser tudo menos aquilo que, na realidade, deveria ser: um governador do Banco de Portugal.
Durante anos, com suave persistência, Constâncio transformou o Banco de Portugal numa espécie de porta-voz oficial do ministério das Finanças, com défices ao sabor do cliente e previsões à altura das suas necessidades. Lembram-se como a descrição dos números mudavam quando a oposição era governo?
A conferência de imprensa que deu, na semana passada, foi a prova de que já ninguém precisava. Abrigado na sua imensa arrogância, Constâncio pretendeu apresentar-se como um mártir iluminado, sem compreender o espectáculo mais ou menos patético que confirmou apenas a solidão de um homem com o cargo errado no lugar errado.


17 de Julho – Está em marcha mais um atentado urbanístico em Abrantes. A criação pomposa de um Museu Ibérico ( os espanhóis saberão? ) de Arqueologia e Arte de Abrantes arrastará consigo um cubo de dimensões obscenas e que poluirá de forma desmedida um dos pontos mais elevados da cidade de Abrantes. Como, mais uma vez, os cidadãos não foram tidos nem achados, há que procurar outros meios. Está a circular uma petição no endereço electrónico
http://www.gopetition.com/online/28923.html e é essa petição que eu o convido a assinar.


19 de Julho – Antes de férias, eis um texto “actual” de Eça de Queirós. "A gargalhada nem é um raciocínio, nem uma ideia, nem um sentimento, nem uma crítica: nem é o desdém, nem é a indignação; nem julga, nem repele, nem pensa; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma! E no entanto é o único inventário do mundo político em Portugal. Um governo decreta? Gargalhada. Fala? Gargalhada. Reprime? Gargalhada. Cai? Gargalhada. E sempre a política, aqui, ou pensando, ou criando, ou liberal ou opressiva, terá em redor dela, diante dela, sobre ela, envolvendo-a, como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, cruel, implacável – a gargalhada!"



Nova Aliança, 23 / Julho / 2009

15.7.09

A TVI, o governador ingénuo e os "corninhos" de Pinho

20 de Junho - Quando Sócrates identificou a TVI como sua inimiga, surgiram notícias de incitamentos ao mais alto nível para que esta fosse comprada. O intuito visível desse eventual negócio era obviamente político.

A TVI causa a Sócrates o mesmo incómodo que o ‘Independente’ provocava aos governos de Cavaco Silva – mas com a amplificação popular que a televisão permite. É na TVI que se discute o confuso currículo do primeiro-ministro. É aí que as ‘reformas’ são desmontadas e que muitos ministros vêem expostas as suas estreitezas. Claro que o estranho é o silêncio da restante imprensa. Fosse Sócrates de outro partido e outro galo cantaria. É a diferença entre a “boa” e a “má” imprensa.
Sócrates convive mal com quem não o aprecia. Por isso, é natural que tente imitar o seu amigo venezuelano que encerrou uma televisão que o criticava. Felizmente estamos na Europa – aqui não se fecha: manda-se comprar.
26 de Junho - Parece que o Ministério Público mandou arquivar a queixa do primeiro-ministro contra João Miguel Tavares, autor de uma crónica (no ‘DN’) que José Sócrates considerou ofensiva – mas que este despacho considera inserir-se "no direito à crítica".
O primeiro-ministro tinha todo o direito de queixar-se aos tribunais mas é bom que a justiça reconheça que não basta "não gostar dos termos" em que um texto é escrito para avançar com uma queixa.
Grande parte da crónica política e jornalística do século XIX faria os tribunais de hoje entrar em colapso; Fialho, Eça, Camilo bastariam para escandalizar a respeitabilidade frágil dos políticos e acabariam presos. Mas também o bom-senso explica que a política não apenas é um bom alvo como merece ser alvejada. Quem vai à guerra dá e leva.
21 de Junho – Quando os meus alunos, candidatos a um curso de Economia, me perguntam que emprego seguir, respondo-lhes logo: Governador do Banco de Portugal. Ganha-se bem demais ( ao nível dos países mais ricos da Europa ), há poucas responsabilidades ( ao nível das sociedades mais primitivas ) e, se acontecer algo, sempre se pode dizer que talvez se tenha sido ingénuo e que nunca se pensava que os suspeitos fossem capazes de cometer os crimes de que são acusados.

3 de Julho - Lembram-se daquela anedota que Raúl Solnado imortalizou sobre touros e campinos? Eu relembro-a: um fulano questiona outro sobre a sua proveniência geogáfica, esse responde-lhe ser ribatejano. –Ah, do Ribatejo, terra de touros e campinos. O senhor é campino? - questionou. Como a resposta foi negativa, logo concluiu: Então é touro!!

Vem isto a propósito do episódio de Manuel Pinho na Assembleia da República. Julgo que o ministro estava a contar esta anedota a Bernardino Soares, pelo que considero uma verdadeira injustiça a sua demissão.

É bom lembrar que Pinho foi quem afirmou ter a crise acabado em Outubro de 2006, aquele que tentou atrair investidores na China invocando que os “custos salariais em Portugal são mais baixos que a média da EU”, aquele que, em Maio de 2007, anunciou em Bruxelas a criação de 250 empregos em Castelo Branco pela Delphi; esqueceu-se que esses empregos já estavam ocupados desde Janeiro, aquele que afirmou numa feira de calçado em Milão: “Eu vinha cá comprar sapatos italianos, mas fiquei tão impressionado com a qualidade do sapato português que vou levá-los. Vinha comprar italianos porque têm um óptimo nome em termos de design.”.

Ora, depois de tudo isto ser demitido pelos corninhos é realmente injusto. O gesto e a consequente demissão, alvos de atenções na imprensa mundial, suscitaram de um leitor da versão online do jornal brasileiro O Globo o seguinte comentário: “Em países sérios é assim, quem faz palhaçada dança!!”.

Vejam lá ao que nos sujeitamos, sermos chamados de país sério…

Nova Aliança, 9 / Julho / 2009

As ofertas do Estado português, a administração do Garcia de Orta e as "semelhanças" Sócrates / Loureiro

1 de Junho - O novo estádio da cidade de Al-Kahder, nos arredores de Belém, na Cisjordânia, cuja construção foi financiada por Portugal, através do Instituto Português de Cooperação para o Desenvolvimento, foi inaugurado na passada segunda-feira. O recinto custou dois milhões de dólares, tem capacidade para seis mil espectadores, é certificado pela FIFA e dispõe de piso sintético e iluminação. A cerimónia de inauguração abrirá com uma marcha de escuteiros locais, conduzindo as bandeiras de Portugal e da Palestina, e a execução dos respectivos hinos nacionais.
Já fechámos urgências, maternidades, centros de saúde e escolas primárias. Disseram-nos que havia que reduzir custos. Todavia, oferecemos agora um estádio à Palestina.
Devíamos fechar o Hospital de Santa Maria e oferecer um pavilhão multiusos ao Afeganistão. A seguir fechávamos a cidade universitária e oferecíamos um complexo olímpico (também com estádio) à Somália e por último fechávamos a Assembleia da República e oferecíamos os nossos políticos aos crocodilos do Nilo.

3 de Junho - Ministros ‘incomodados’ já são uns quantos. Juízes ‘chocados’ são vários. O próprio relator do acórdão que entregou Alexandra à mãe biológica ficou “perplexo” quando viu as imagens desta a dar umas palmadas na filha.
Estas palmadas russas na criança são, metaforicamente, também para a Justiça e Estado português. O juiz decidiu, como disse, perante “os factos que estavam no processo”. Não falou com ninguém, analisou o que tinha sido julgado na primeira instância mas fez uma valoração diferente dos factos.
A sua livre apreciação da causa foi tão radicalmente diferente do tribunal inferior que o levou a apontar uma “maternidade serôdia” à mãe de acolhimento. Não quis julgar a mãe biológica pelo quadro que era estabelecido pelos técnicos da Segurança Social, mas não se coibiu de arrasar a outra parte. Já agora, baseado em quê? Em que factos? A liberdade de decisão do juiz não se discute, mas a verdade é que esta não está a resistir a umas simples imagens das palmadas e a um lamentável quadro de exposição da criança a circunstâncias que cheiram a negócio.
Uma coisa este caso demonstra: os processos de menores não podem ser decididos em circunstâncias destas. Um monte de papel, factos avaliados à distância das pessoas, pura consideração de um determinismo biológico como critério dominante. É tal a ‘defesa da família’ que, tantas vezes, a pura realidade é atirada para o caixote do lixo.


9 de Junho –De acordo com o Correio da Manhã, os responsáveis dos serviços do Hospital Garcia de Orta, Almada, estão descontentes com a nova administração. Um desagrado que se reflecte nos utentes, com as reclamações a dispararem até às mil nos últimos cinco meses.


A situação mais complicada é apontada ao Serviço de Urgência, com o atendimento a demorar horas. Os bombeiros acabam por deixar as macas de um dia para o outro.
O descontentamento é grande entre os médicos e os directores de serviço, que acusam a direcção, nomeada pela ministra Ana Jorge, há cinco meses, de não promover reuniões com as comissões médicas e de enfermagem. Dois directores de serviço saíram e outros dez tencionam abandonar a unidade hospitalar até ao final do ano: aceleraram o pedido de reforma ou vão para o privado.
O presidente do conselho de administração do Garcia de Orta é Nélson Baltazar.

12 de Junho – Dias Loureiro e José Sócrates têm em comum:
1. São titulares de cargos públicos relevantes;
2. São acusados por terceiros da prática de factos ilícitos;
3. Ambos negam a autoria de tais factos;
4. Os terceiros que os acusam são eles próprios suspeitos da prática de diversos factos ilícitos.


O que os distingue:
Dias Loureiro demitiu-se e José Sócrates permanece no lugar.

16 de Junho – Abrantes prepara-se para aquelas corridas de aviões junto ao Tejo, como acontece anualmente no Porto. A “meta” já lá está pintada de vermelho…

Nova Aliança, 25 / Junho / 2009

As proibições dos alimentos, o caso Alexandra e o retrato da justiça

25 de Maio - Enquanto a Direcção Geral de Saúde cria uma "comissão" dentro de um "grupo consultivo" a fim de investigar as infracções à lei do tabaco, a pomposa Plataforma Contra a Obesidade (?) elabora "menus da crise" que visam regulamentar a dieta dos pobres e o Sistema Nacional de Saúde planta um nutricionista em cada região do país "para responder às necessidades dos cidadãos". Já ninguém estranha que os deputados da nação também se preocupem imenso com a saúde dos que os elegem, quer estes apreciem os cuidados, quer não.
O parlamentar socialista Jorge Almeida, autor da proposta que conduziu à limitação compulsiva do sal no pão, revelou há dias como se manipulam as massas, farináceas e populares.
Em artigo, modestamente intitulado "Uma grande causa, uma marca para o futuro", e publicado no Notícias de Vila Real, começa por avisar que o Estado não deve impor proibições aos comportamentos alimentares. Nos parágrafos seguintes, o dr. Almeida passa a descrever as inúmeras circunstâncias em que o Estado deve impor proibições aos comportamentos alimentares.
O pão, por exemplo, "não pode" ter o sal que, alegada ou realmente, vem tendo. E não pode porquê? Porque se o comermos "estamos a prejudicar o nosso organismo e a provocar doença" (sic). O meu organismo não é, precisamente, meu? Não importa, visto que o seu prejuízo é uma "factura" paga pela "comunidade". Quem diz? O dr. Almeida. E se eu discordar? Não adianta e, de qualquer modo, a discórdia é pouco provável: o dr. Almeida garante que se o teor do sal for reduzido "de forma que o consumidor não note, não proteste, se mantenha como bom consumidor", os valores exigidos por uma misteriosa Sociedade Portuguesa de Hipertensão serão alcançados sem barulho.
Eis a chave: o fundamental, portanto, é que, além de saudável, o consumidor permaneça manso. Embora deixem de utilizar a palavra "autista" nos insultos que trocam, não tencionam parar de chamar estúpido aos milhões que os elegem por inércia e acabam sujeitos aos seus desvairados caprichos. Com razão: ao contrário dos autistas, aparentemente os restantes eleitores nem reparam na ofensa. Muitos agradecem-na.

20 de Maio – Com o caso Alexandra, a justiça em Portugal parece-lhe ainda mais confusa? Não faz ideia porque é que todos os processos que envolvem pessoas importantes acabam sempre em regabofe? Por favor, diga não à desorientação! Em apenas 20 passos, eis o guia ideal para entender todos os casos que em Portugal começam com a palavra "caso":
1) Os jornais publicam uma notícia sobre qualquer pessoa muito importante que alegadamente fez qualquer coisa muito má. 2) Essa pessoa muito importante considera-se vítima de perseguição por parte de forças ocultas. 3) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso desrespeito do segredo de justiça em Portugal, que possibilita a actuação de forças ocultas. 4) Inicia-se o debate sobre o segredo de justiça em Portugal. 5) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar na legislação portuguesa para que estas coisas não aconteçam. 6) Toda a gente conclui que não se pode mudar a quente a legislação portuguesa. 7) A legislação portuguesa não chega a ser mudada para que estas coisas não aconteçam. 8) As coisas voltam a acontecer: os jornais publicam notícias sobre essa pessoa muito importante dizendo que ainda fez coisas piores do que as muito más. 9) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso jornalismo que se faz em Portugal, que nada investiga e se deixa manipular por forças ocultas. 10) Inicia-se o debate sobre o jornalismo português. 11) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar no jornalismo português. 12) Toda a gente conclui que estas mudanças só estão a ser debatidas porque quem alegadamente fez uma coisa muito má é uma pessoa muito importante. 13) Nada muda no jornalismo português. 14) Enquanto o mecanismo se desenrola do ponto 1) ao ponto 13) a justiça continua a investigar. 15) Após um período de investigação suficientemente longo para que já ninguém se lembre do que se estava a investigar a justiça finaliza as investigações e conclui que a pessoa muito importante: a) Não fez nada de muito mau. b) Já prescreveu o que quer que tenha feito de muito mau. c) É possível que tenha feito algo de muito mau mas não se reuniram provas suficientes. d) Afinal o que fez não era assim tão mau. 16) Pessoas importantes que são amigas dessa pessoa muito importante concluem que ela foi vítima de perseguição por parte de forças ocultas. 17) Pessoas importantes que não são amigas dessa pessoa muito importante concluem que em Portugal nada acontece às pessoas muito importantes que fazem coisas alegadamente muito más. 18) As pessoas citadas no ponto 17) iniciam mais um debate sobre a justiça em Portugal. 19) As pessoas citadas no ponto 16) iniciam mais um debate sobre o jornalismo em Portugal. 20) Os jornais publicam uma outra notícia sobre uma outra pessoa muito importante que alegadamente terá feito outra coisa muito má. Repetem-se os passos 1) a 19).

Nova Aliança, 11 / Junho / 2009

Os decotes, as sentenças e as limitações dos deputados

9 de Maio - Uma escola do Pinhal Novo decidiu, no seu regulamento interno, proibir o uso de "tops com decotes pronunciados, mini-saias muito curtas e calças descaídas".
O caso não é novo; periodicamente, há escolas que impõem regulamentos sobre o vestuário a não usar dentro dos seus muros – o que suscita alguma risota entre gente cosmopolita e moderna para quem não há mal em as escolas serem uma extensão da ‘vida real’ e das passerelles. ( Ainda ) Julgo que o estudo da Gramática ou de equações de segundo grau exija algum decoro. Matemática ilustrada com decotes e umbigos pode ser uma inovação, tal como boxers à mostra em aulas de Biologia e curtas mini-saias nas bibliotecas. Na escola ( ainda ) deve existir concentração.



12 de Maio - O espectáculo degradante que ontem foi, em Braga, a entrega de uma menina, que estava numa família de acolhimento há mais de quatro anos, à mãe biológica, é um retrato implacável e particularmente infeliz do Estado português.
A entrega da criança à mãe que a abandonou aos dois anos, devido a problemas de alcoolismo, decorreu de uma sentença judicial. Por mais fundamentada que possa estar a sentença – e não sei se o estará , por mais qualificados que sejam os técnicos – e não sei se o serão -, depois daquele espectáculo há uma coisa que jamais deixará dúvidas: o sofrimento da criança decorre da própria sentença.
O espectáculo de ontem conduz a um sentimento de enorme perplexidade sobre a decisão, que parece cega à felicidade da criança e faz a habitual - e formal - opção por aquilo que algumas pessoas julgam ser "o superior interesse da criança". Por aquilo que ontem o Estado lamentavelmente nos permitiu ver, há uma criança em grande sofrimento por ter sido arrancada ao único meio familiar que até agora conheceu. Mas se e mesmo que nada disto fosse importante, o que dizer da forma impensável como se consentiu a entrega da criança num átrio de um prédio, sem resguardo dos olhares e da ira popular face ao choro e à raiva da criança? Há coisas que NUNCA podem acontecer. Pelo menos desta maneira.

16 de Maio – Um texto do “Jornal de Notícias” chamou a atenção para isso. Muito recentemente, assistiu-se à tentativa de banir expressões relativas a deficiências ou limitações físicas do debate parlamentar. Analisando seriamente a questão, até fico com a ideia que esta seria uma medida revolucionária.
É difícil imaginar o nosso hemiciclo sem a tradicional “o pior cego é aquele que não quer ver” ou o clássico “é grave o autismo do governo nesta matéria” ou ainda “há uma paralisia do seu ministério”.
Na prática a medida beneficiaria a retórica. De uma assentada eliminavam-se um sem número de lugares comuns que, por força da repetição, lá se foram banalizando. Obrigávamos os deputados a puxarem pela imaginação. O que, em alguns casos, seria um enorme desafio.
O campeão das deficiências parlamentares é “cego”. 105 cegos para ser preciso. E como se não bastasse, só de “cegueira” são 76.
Deputados “surdos” são 25. Deputados com “surdez” 13. E no caminho para uma assembleia cada vez mais inclusiva, na X Legislatura, houve 91 “autistas”.
Com tanto surdo, tanto cego, tanto autista, percebemos facilmente como é que ninguém se entende naquela sala..
“Paralisias”são 43. É muito. É imenso. Especialmente num edifício daquele género cheio de escadarias, degraus e locais de difícil acesso. Ainda no campo da paralisia fica um último registo. “Impotentes” são 28. É possível que, na verdade, sejam bem mais. 28 impotências em 230 membros é um número abaixo da média nacional. Mas todos sabemos que este é um problema complicado de assumir.
Ao todo, 381 limitações de algum género. O que dá uma simpática média de 1.6 necessidades especiais por deputado. Nada mau. Nada mau mesmo. Eles lá vão cantando e rindo.

21 de Maio – “O conselho de administração do Banco de Portugal (BdP) não terá aumentos salariais este ano, nem aumento relativos a 2008, recuando na decisão anterior de proceder a uma actualização salarial de 5 por cento” A notícia, lida assim de chofre, faz-nos engasgar de raiva: mas porque é que esta questão se colocou sequer?
Então, quando toda a gente coloca em causa a eficiência e a eficácia do BdP, quando toda a gente sabe que o presidente da instituição é um dos mais bem pagos do planeta – estamos a falar para que não existam dúvidas de duas dezenas de milhares de euros mensais, quando toda a gente ouve o senhor dizer que não tem conhecimento de nada, no quadro das suas atribuições e competências, porque raio é que esta questão implicou um "recuo"?
Este senhor será capaz de enfrentar um desempregado ou um trabalhador com salários em atraso?



Nova Aliança, 28 / Maio / 2009

22.5.09

Vital no 1º de Maio, as crianças nos tempos de antena e as diferenças na Educação

1 de Maio – Vital Moreira acordou hoje bem disposto. Olhou para o calendário e sorriu. Há quanto tempo não participava na manifestação do 1º de Maio? 10, 15, 20 anos? Um impulso súbito empurrou-o para a rua. Sentiu um apelo do coração para estar presente. E como se apresentaria? Como representante do PS? Mas, que diabo, ele não é sequer filiado no PS. Em anteriores eleições europeias, sempre próximas do 1º de Maio, algum outro candidato do PS se foi mostrar ao vivo na manifestação da CGTP?

2 de Maio - O deputado socialista Ricardo Rodrigues, com cara de poucos amigos, acha que é normal os miúdos de Fafe serem grosseiramente interrogados por inspectores do Ministério da Educação; em sua opinião, novamente sem se rir, grave é a ministra ter sido impedida de visitar uma escola. .
Este senhor pertence à mesma geração que achava piada quando os políticos eram recebidos com assobios e ovos, ou quando os "adolescentes rebeldes", pobres coitados, mostravam o rabo a Manuela Ferreira Leite. Adoravam quando alguém pespegava uma tarte na cara de um político e orgulhavam-se de passar pela ponte 25 de Abril (durante o bloqueio) sem pagar. Sofriam da euforia dos revolucionários, que os levava a insultar ministros ou a gritar palavrões aos adversários. Agora, não. ( Passou quanto tempo? ) Agora, respeitinho. Dá pena, mas é assim…
4 de Maio - Diálogo previsível em breve:
- Se faz favor, para o Pingo Doce?
- A senhora vai sempre em frente. Quando chegar à rotunda vira à esquerda e depois é, passando o "porreiro pá", logo à direita.
- Ora bolas, tinham-me dito que era depois do Vital Moreira e já tive que dar uma volta enorme...
- Isso foi alguém que não é de cá e fez confusão, de certeza. O Minipreço é que é logo a seguir ao Vital Moreira. Mas é o Minipreço...



6 de Maio – As diferenças entre o antes e o depois 1974. Os professores:

- Tinham menos horas burocráticas na escola do que agora!
- Algumas reuniões eram pagas como trabalho extraordinário!
- Era bem mais fácil dar aulas, os alunos respeitavam os professores!
- O prestígio dos professores era incomparavelmente maior!
- Os alunos sabiam muito mais!
- Os alunos dos colégios, mesmo os da igreja, tinham de fazer exames no ensino público para passarem de ano (não havia a batota de agora: quem tem dinheiro vai para colégios e tem notas altas).
- Qualquer pessoa com valor tinha acesso a um ensino de elevada qualidade nos liceus ou nas escolas comerciais/industriais!"

7 de Maio - Uma escola do 1º Ciclo de Castelo de Vide foi contactada para uma reportagem sobre o computador "magalhães".
O contacto foi feito por alguém que se identificou como estando a falar em nome do Ministério da Educação.
Os professores pediram então autorização para recolha de imagens aos pais das crianças.
Na data marcada foi efectuada a reportagem em nome do Ministério da Educação.
Sucede que no dia 22 de Abril, a comunidade escolar de Castelo de Vide ficou chocada com o resultado da reportagem.
Os pais, alunos e professores verificaram, pela televisão, que não se tratou de uma recolha de imagens para o Ministério da Educação, mas antes para um tempo de antena do Partido Socialista.
Passados todos estes dias ainda não foram apuradas responsabilidades.

Nova Aliança, 16 de Maio de 2009

A privacidade, o vestuário da loja do cidadão e as prioridades

12 de Abril - Leio por aí alguns autores que defendem o direito à privacidade de jornalistas e políticos. Concordo, claro, assim essa privacidade seja preservada pelos jornalistas e políticos. Apresentada a questão desta maneira, julgo que poucos deixarão de concordar. Mas quando são os jornalistas e políticos a divulgarem repetidamente, de um modo ou de outro, dados objectivos que deveriam fazer parte da sua privacidade - um exemplo, fazendo com que uma ópera comece atrasada por causa deles próprios - não vejo onde está a violação de qualquer direito que seja. Mais: qualquer jornalista tem o direito a não ser chamada de namorada de um político qualquer, mas qualquer leitor tem também o direito a desconfiar das opiniões de uma jornalista que escreve repetidamente sobre assuntos relacionados com o seu namorado.

14 de Abril – Lembram-se d’ “O Zé Faz Falta”? Pois bem, o sr. Sá Fernandes – esse triste vereador da Câmara Municipal de Lisboa, depois de ter ornamentado o Marquês de Pombal com os seus cartazes, não queria agora que os outros pusessem lá os cartazes deles. Digamos que é uma visão muito “peculiar” da democracia. Os partidos em causa ignoraram o Zé e a Comissão Nacional de Eleições até lhes deu razão. O Zé, desde que está enfiado no bolso de trás das calças do dr. António Costa, não acerta uma.

15 de Abril – Na Loja do Cidadão de Faro, que o eng. Sócrates considerou "a mais avançada do país", as funcionárias foram proibidas de envergar: saias curtas, decotes, saltos altos, roupa interior escura, gangas e perfumes agressivos.
É questão de gosto e explico porquê. Por mim, dispenso as gangas. Os perfumes, especialmente se "agressivos", também. Mas julgo que o resto da indumentária interdita faria maravilhas pelo relacionamento entre a administração pública e os cidadãos, sobretudo quando as respectivas lojas não cumprem a rapidez que a propaganda anuncia e obrigam os desgraçados a passar horas em pé para requisitar um papel que lhes será entregue meses depois. Embora dependendo de quem estivesse dentro deles, os decotes e as saias reduzidas sempre seriam uma compensação para a parcela masculina do povo em fila. E, quem sabe, talvez os devedores ao fisco aparecessem…
Segundo consta, tal decisão coube à dona Maria Pulquéria ( curioso nome!! ) Lúcio, curiosamente vogal da Agência para a Modernização Administrativa (AMA), uma das dezoito mil instituições estatais que servem a população e, principalmente, a parte da população nelas empregada.
Por curiosidade, consultei o currículo da dona Pulquéria e verifiquei que, antes da tal AMA, a senhora passou pelo PRACE, pelo CRIP, pelo SIAFE, pelo IIAE e pelo BDAP. Não serviu de muito. Sob o entulho "progressista" dos acrónimos, sobreviveu a Pulquéria proverbial, cujo nome é todo um programa e, de brinde, uma metáfora do país oficial e uma lição. Pode-se cobrir Portugal de siglas, Simplex, banda larga, Magalhães, SMS, cruzamento de dados, cartões quinze em um, chips nos cartões, nas matrículas e nas cabeças: mal se remove o verniz "funcional" do "futuro", o mofo do passado, seminarista e mandão, mostra a sua cara. Quem nos quer mudar não muda e, desculpem a rima, a dona Pulquéria não ajuda. Neste país, há sempre algo que não condiz com o resto.

18 de Abril – As prioridades da nossa comunicação social são intrigantes.Um terramoto mata perto de 300 pessoas em Itália e a primeira, e típica, preocupação dos nossos "media" é averiguar se não há portugueses entre as vítimas. A segunda preocupação é entregarem-se ao escândalo por Berlusconi ter pedido aos desalojados que se imaginassem no campismo.
Certamente que é escusado insistir na infelicidade da frase, cujo autor é useiro e vezeiro em trapalhadas semelhantes. Fiquemos pelas calamidades "naturais". Ora, por cá, a revelação de que a gripe do início do ano matou cerca de 1500 criaturas (segundo o Instituto Ricardo Jorge) suscitou ao secretário de Estado da Saúde o seguinte comentário: "a resposta à epidemia foi razoável". Não sei se uma resposta "fraquinha" se teria traduzido em cinco mil mortos, uma resposta "má" em dez mil, e uma resposta péssima na repetição da "espanhola" de 1918. Não sendo sismógrafo ou especialista em saúde pública, também não sei até que ponto as consequências de uma gripe são mais ou menos evitáveis que as consequências dos tremores de terra.
O problema reside no facto de que a mesma imprensa aflitíssima com Berlusconi ignorou generosamente o lapso do secretário de Estado, embora este exprima a indiferença da tutela perante um sistema de Saúde que trata os pobres como bichos e, implicitamente, sugere aos restantes que se curem no "privado" ou na civilização. Além disso, parece-me que 300 ( ainda ) é um número menor que 1500; ainda por cima 1500 portugueses, cuja morte, pelos vistos, só conta se acontecer no estrangeiro.

Nova Aliança, 2 de Maio de 2009