Imaginemos que o caso Dominique Strauss-Kahn tinha acontecido ontem, em Portugal, no hotel Ritz. O indivíduo, sozinho numa suite, tentar abusar sexualmente de uma empregada o hotel. E fugir do local, à pressa, deixando para trás telemóvel e outras coisas pessoais.
Imaginemos que a empregada fazia queixa na esquadra de polícia mais próxima, indicando os factos, a nacionalidade do suspeito e o evidente perigo de fuga do indivíduo.
Que fazia a PSP, neste caso? Tomava "conta da ocorrência". Escrevia no computador o relato da vítima, pedia-lhe provas a apresentar e...ficava por aí.
A PSP nunca iria ao aeroporto, à noite, tentar interceptar o suspeito em fuga. Nunca teria o bestunto e a racionalidade em abordar com rapidez exigível o responsável do aeroporto e diligenciar legalmente pela detenção do suspeito para averiguação necessariamente sumária e antes de apresentação a um juiz.
Mas consideremos que havia no posto da PSP um agente que tivesse esse dom raro da capacidade investigatória adequada às circunstâncias. Imaginemos que iria em patrulha ao aeroporto, entraria no avião e deteria o suspeito. E imediatamente comunicava o facto ao MºPº como manda a lei processual penal.
O que aconteceria? Não é difícil de imaginar, tendo em conta o que sucedeu no processo Casa Pia, até porque os intervenientes são quase os mesmos.
O inefável Rui Pereira seria acordado às duas da manhã. O que faria? Será difícil de imaginar? Faria como Souto Moura fez nessa altura em que António Costa, um ex-ministro da Justiça do PS fez, pressionando-o para resolver o assunto a contento dos socialistas em perigo? Diria que nada poderia fazer porque o assunto estava já nas mãos de um juiz de instrução ou, no caso, do MºPº?
Alguma vez poderíamos supor que o suspeito ficaria detido para apresentação a um juiz, não hoje, mas amanhã, segunda-feira?
A resposta a estas perguntas deve ser colocada ao responsável pelo FMI que por cá esteve a dar palpites sobre o nosso sistema jurídico-penal...
Uma mulher grávida de 34 semanas foi violada no consultório do psiquiatra que consultou para a ajudar a ultrapassar a depressão de que sofria. O médico que a violou, com sexo oral e cópula, foi absolvido pelo Tribunal da Relação do Porto porque os actos praticados, considerados provados, não foram praticados com a violência a que a lei obriga, deliberaram dois dos três magistrados.
O acórdão foi revelado esta quinta-feira pelo Diário de Notícias. A relatora do acórdão, a juíza Eduarda Pinto e Lobo, considerou que não ficou provado se o médico, ao obrigar a paciente a realizar sexo oral, o fez a agarrar a vítima pela cabeça ou pelos cabelos.
«Não se vislumbra como é possível considerar o acto de agarrar a cabeça como traduzindo o uso de violência de modo a constranger alguém à prática de um acto contra a sua vontade. A não ser que se admitisse que o mero acto de agarrar a cabeça provoca inevitável e automaticamente a abertura da boca», lê-se no documento, citado pelo DN.
Os juízes que assinaram a absolvição do médico, que tinha sido condenado em primeira instância a cinco anos de pena suspensa e a pagar 30 mil euros à vítima, consideraram ainda que a grávida de sete meses não ofereceu resistência.
«Se a força física utilizada tem de ser, como atrás se disse, a destinada a vencer uma resistência oferecida ou esperada, o que pode afirmar-se é que no que respeita ao coito oral não se provou qualquer tipo de resistência por parte da vítima. Ou, pelo menos, uma resistência que o arguido tivesse tido necessidade de vencer através do uso da violência», escreveram.
A violação da paciente não foi apenas no sexo oral. O médico obrigou a vítima à cópula empurrando-a contra o sofá do consultório. Facto que também não convenceu os meritíssimos juízes.
«Os factos provados não permitem concluir que, ao empurrar a ofendida contra o sofá, o arguido visou coarctar-lhe a possibilidade de resistência aos seus intentos ou se, com esse acto, pretendeu apenas o arguido concretizar a cópula que, de outra forma, não conseguiria, dado o avançado estado de gravidez da vítima: 34 semanas. Para que o empurrão na ofendida integrasse o conceito de violência, visado como elemento objectivo do crime de violação, teria de traduzir um «plus» relativamente à força física normalmente utilizada na prática de um acto sexual», determinaram.
Um dos juízes do colectivo, José Baião Papão, votou contra esta decisão e na declaração de voto escreveu que a «aparente fruste resistência da assistente é inteiramente compatível com o estado de fragilização em que então se encontrava: depressão e gravidez».
30 de Abril – Durante vários dias não se falou de outra coisa. Muitos ansiaram pelo dia de hoje apenas para o ver. À frente dos televisores, verdadeiras multidões aguardaram religiosamente para o poder avistar.
Claro que não falo do acordo com o FMI. Isso não é verdadeiramente importante ao lado do que realmente interessa: o vestido de noiva de Kate Midleton
Em jornais e televisões, não havia especialista doméstico que não oferecesse palpites sobre o modelo escolhido. O caso pode despertar um riso malicioso. Não contem comigo. Eu também o vi.
Segundo os especialistas, o casamento terá custado entre 20 a 30 milhões de euros, em grande parte suportados pelos contribuintes, para garantir a segurança do evento e a limpeza das ruas. Mas é possível que o retorno do ‘turismo real’ (hotéis, restaurantes, televisões, etc.) ascenda aos 6 mil milhões.
Curioso: nós, latinos e vulgares, desprezamos estas coisas de reis e princesas e, em vez disso, construímos estádios de futebol que continuam por aí a apodrecer e a arruinar o bolso público. Os ingleses, monárquicos e elitistas, montam e desmontam uma festa global em poucos dias – e multiplicam o investimento rumo à estratosfera. Se fosse necessário um argumento de peso a favor da restauração monárquica, bastaria este: um vestido de noiva não precisa de grande manutenção.
4 de Maio – Deixem-me apresentar-vos um dos melhores cronistas da língua portuguesa: Luís Fernando Veríssimo. Um dos mais populares escritores brasileiros, mais conhecido pelas suas crónicas e textos de humor publicados diariamente em vários jornais brasileiros, Verissimo é também cartoonista e tradutor, além de guionista de televisão, autor de teatro e romancista. Já foi publicitário e é ainda músico, tendo tocado saxofone em alguns grupos. Com mais de 60 títulos publicados, é filho do também escritor Erico Verissimo. Eis um dos seus textos, transcrito do original com a devida vénia:
“Minha mulher e eu temos o segredo para fazer um casamento durar:
Duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida e um bom companheirismo. Ela vai às terças-feiras e eu, às quintas.
Nós também dormimos em camas separadas: a dela é em Fortaleza e a minha, em São Paulo.
Eu levo minha mulher a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta.
Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento, "em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!" ela disse. Então, sugeri a cozinha.
Nós sempre andamos de mãos dadas...
Se eu soltar, ela vai às compras!
Ela tem um liquidificador, uma torradeira e uma máquina de fazer pão, tudo elétrico.
Então, ela disse: "nós temos muitos aparelhos, mas não temos lugar pra sentar".
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.
Lembrem-se: o casamento é a causa número 1 para o divórcio. Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento. Eu me casei com a "senhora certa".
Só não sabia que o primeiro nome dela era "sempre".
Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.
Mas, tenho que admitir: a nossa última briga foi culpa minha.
Ela perguntou: "O que tem na TV?"
E eu disse: "Poeira".”
Nova Aliança, 12 / Maio / 2011
5.7.11
A aterragem de emergência e Terry Jones
16 de Abril – Podem não acreditar mas juro que é verdade. E juroporque li. Ontem, um jornalista foi esperar os passageiros do voo Rio-Lisboa que teve de fazer uma aterragem de emergência em Salvador. Lembram-se do caso? Houve uma explosão, sentiu-se cheiro a queimado, viu-se fumo na cabina, até que o avião aterrou na pista cercada por ambulâncias e carros de bombeiros. Que susto, não é? Podem crer mas a história não acaba aqui. No texto da agência publicado pelos jornais, cito o parágrafo a seguir ao susto: "O pior mesmo, segundo o testemunho [de uma] passageira, passou-se já em pleno aeroporto de Salvador..." E a testemunha, confirmada por outros passageiros, insistiu (e os jornais publicaram e eu li ): "Aí é que foi pior..." Ali, no aeroporto de Salvador. Ali, pois, aconteceu o indizível mesmo para as pessoas curtidas por uma quase desgraça recentíssima. Mas aconteceu, o quê? Uma bomba, como a da ETA em Barajas? Um homem-bomba, como recentemente no moscovita aeroporto de Domodedovo? Racketing da polícia como no aeroporto de Kinshasa?... Vou directo ao horror sofrido pelos passageiros: "Estiveram até depois das 06.00 até que foram transferidos para um hotel." Vocês dão-se conta da ironia da história? Horas até ser transferido para um hotel! Outro qualquer tinha ido para o bar comemorar não ter ido para o galheiro e escapava-me a oportunidade de pôr nos meus cartões de visita: "Fulano de Tal - Ex-sobrevivente de uma transferência demorada para um hotel em Salvador." Claro que nunca me faltaria conversa nos jantares sociais.
19 de Abril – O nome de Terry Jones diz-vos alguma coisa? Eu relembro: Jones, pastor na Flórida, ameaçou em tempos que queimaria o Corão por considerar o livro nefasto e diabólico. Felizmente, acabou por desistir da ideia e, dessa maneira, regressou ao justo esquecimento de onde nunca deveria ter saído.
Por pouco tempo, vê-se agora. Recentemente, Jones voltou ao local do crime e queimou mesmo o Corão. Os meios de comunicação norte-americanos, dessa vez, ofereceram reduzido palco ao pastor. Mas um discurso do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, condenou o ato e voltou a trazer Terry Jones para o mundo dos vivos. Ou, melhor dizendo, dos mortos: na cidade afegã de Mazar-i-Sharif, um ataque a funcionários da ONU provocou 7 vítimas. Em Kandahar, mais 9, sem falar de incontáveis feridos, destruição de lojas, escolas e carros. E no Ocidente?
No Ocidente, é provável que o digníssimo leitor se sinta indignado pela atitude de Jones, questionando seriamente: por que motivo o pastor ofendeu a religião dos outros?
Não tenciono desculpar Terry Jones, que merece tratamento psiquiátrico e não defesa pública. Mas, em vez dessa, talvez devessemos fazer a perguntaa pergunta: será razoável matar e destruir porque alguém queimou o Corão do outro lado do mundo?
Responder a essa questão não é difícil. Basta que o leitor faça uma inversão de papéis e, mesmo sendo profundamente cristão, imaginar por momentos o que faria se um tresloucado afegão queimasse a Bíblia por considerar o texto herético.
Aposto que não sairia por aí decidido a matar e a destruir ( afinal de contas, tenho em grande conta o meu leitor… ). Existe uma diferença fundamental entre queimar livros e queimar gente. Ou não existe?
Terry Jones, no seu fundamentalismo bacoco e fanfarrão, é com certeza um personagem doente. Mas nessa história do Corão queimado é preciso não esquecer onde está a verdadeira doença.O leitor sabe do que eu estou a falar…
Nova Aliança, 28 / Abril / 2011
19 de Abril – O nome de Terry Jones diz-vos alguma coisa? Eu relembro: Jones, pastor na Flórida, ameaçou em tempos que queimaria o Corão por considerar o livro nefasto e diabólico. Felizmente, acabou por desistir da ideia e, dessa maneira, regressou ao justo esquecimento de onde nunca deveria ter saído.
Por pouco tempo, vê-se agora. Recentemente, Jones voltou ao local do crime e queimou mesmo o Corão. Os meios de comunicação norte-americanos, dessa vez, ofereceram reduzido palco ao pastor. Mas um discurso do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, condenou o ato e voltou a trazer Terry Jones para o mundo dos vivos. Ou, melhor dizendo, dos mortos: na cidade afegã de Mazar-i-Sharif, um ataque a funcionários da ONU provocou 7 vítimas. Em Kandahar, mais 9, sem falar de incontáveis feridos, destruição de lojas, escolas e carros. E no Ocidente?
No Ocidente, é provável que o digníssimo leitor se sinta indignado pela atitude de Jones, questionando seriamente: por que motivo o pastor ofendeu a religião dos outros?
Não tenciono desculpar Terry Jones, que merece tratamento psiquiátrico e não defesa pública. Mas, em vez dessa, talvez devessemos fazer a perguntaa pergunta: será razoável matar e destruir porque alguém queimou o Corão do outro lado do mundo?
Responder a essa questão não é difícil. Basta que o leitor faça uma inversão de papéis e, mesmo sendo profundamente cristão, imaginar por momentos o que faria se um tresloucado afegão queimasse a Bíblia por considerar o texto herético.
Aposto que não sairia por aí decidido a matar e a destruir ( afinal de contas, tenho em grande conta o meu leitor… ). Existe uma diferença fundamental entre queimar livros e queimar gente. Ou não existe?
Terry Jones, no seu fundamentalismo bacoco e fanfarrão, é com certeza um personagem doente. Mas nessa história do Corão queimado é preciso não esquecer onde está a verdadeira doença.O leitor sabe do que eu estou a falar…
Nova Aliança, 28 / Abril / 2011
As viagens em 'económica', as viaturas dos gestores e o aquecimento global
4 de Abril – Há coisas engraçadas. Quando as viagens de avião dos eurodeputados eram pagas ao quilómetro, eles escolhiam ir em turística. Pudera, convinha nessa altura. Depois, passaram a ser reembolsados só mediante a entrega do bilhete e começaram a viajar em executiva. Obviamente interessava a mudança. Esta semana, o eurodeputado português Miguel Portas (do BE) fez uma proposta para que as viagens de avião com menos de quatro horas fossem só em turística. Em tempo de crise, a proposta fazia poupanças públicas (por exemplo, um Lisboa--Bruxelas ficava três vezes mais barato). E, além do mais, tinha sentido nos tempos que correm:... Ora, o Parlamento de Estrasburgo votou contra (402-216), confirmando o egoísmo dos que ‘podem’ explorar o próximo ("temos de apertar o cinto: apertem!"). Havia, porém, uns eurodeputados em condição especial, os portugueses, que votavam na mesma semana em que o seu país foi oficialmente para todos os efeitos dado por falido. Desses, esperava-se, pelo menos, oportunismo ou fingimento. Exigia-se deles um faz-de-conta sem mácula. Mas votaram assim: 9 a favor e 9 contra. Quem quiser vá às notícias ver a que correspondem em grupos políticos. O importante, mesmo, foi 9 agarrarem-se ao seu privilégio do aperitivo antes do descolar. No fundo, foram ‘coerentes’.Terem-se agarrado a isso em troca de se exporem demasiado releva uma sinceridade preocupante: mostraram desprezo pelos seus eleitores e não se importam.
10 de Abril - A notícia veio no Correio da Manhã do dia 1 de Abril e eu, que sou um ingénuo, julguei que se tratava de uma mentira própria do dia: a administração da Carris ter-se-ia autocontemplado, em 2010, com quatro viaturas topo de gama em ALD, apesar de a empresa apresentar um "buraco" financeiro de 776,6 milhões de euros.
Todos sabemos que a generalidade das empresas públicas cumpre a patriótica tarefa de dar emprego a "boys" e "girls" do PS e do PSD. Por isso mesmo, a última aliança parlamentar dos dois partidos-comadres antes da zanga foi para chumbarem na AR uma proposta no sentido de, em tempos de crise, haver também limites para os salários, prémios e mordomias várias dos chamados gestores públicos.
Sendo a paciência dos contribuintes e eleitores ilimitada, os salários e prémios dos "boys" continuam a não ter, na prática, outros limites senão os da decência dos próprios. Daí que, além dos novos Mercedes, Audi e BMW, os administradores da Carris também se tenham aumentado em 2010, premiando-se por terem conseguido o milagre económico de afundar nesse ano a empresa com mais 42,3 milhões em resultados negativos.
Compreendem agora a minha ingenuidade. É ou não esta uma boa peta do 1 de Abril? Só que hoje, em Portugal, 1 de Abril é sempre que um homem quiser. E, nos últimos anos, tem sido todos os dias.
12 de Abril – Não desesperem, ainda há boas notícias. Parece que um "número recorde" de 134 países aderiu à edição deste ano da Hora do Planeta e desligou as luzes entre as 20.30 e as 21.30 de sábado a fim de sensibilizar o mundo para, cito, "os perigos do aquecimento global".
Compreendo o problema. Também acho necessário sensibilizar o mundo, que é casmurro, para os perigos do aquecimento global, da gripe A, dos papões do FMI e de outras coisas imaginárias e assustadoras. Mas não, não apaguei a luz, não senhor.
Todavia, contribuí à minha maneira: dado que evitei perder dezenas de horas a publicar convocatórias alusivas ao "apagão" no Facebook, no Twitter, nos blogs, e acabei por poupar muito mais electricidade do que os militantes que participaram activamente na causa.
Dessa forma, participei passivamente no combate a outra calamidade, menos fictícia e popular: a crendice colectiva que, ao contrário do aquecimento global ou dos fantasmas, provoca-me um medo desgraçado. Uff!
Nova Aliança, 14 / Abril / 2011
10 de Abril - A notícia veio no Correio da Manhã do dia 1 de Abril e eu, que sou um ingénuo, julguei que se tratava de uma mentira própria do dia: a administração da Carris ter-se-ia autocontemplado, em 2010, com quatro viaturas topo de gama em ALD, apesar de a empresa apresentar um "buraco" financeiro de 776,6 milhões de euros.
Todos sabemos que a generalidade das empresas públicas cumpre a patriótica tarefa de dar emprego a "boys" e "girls" do PS e do PSD. Por isso mesmo, a última aliança parlamentar dos dois partidos-comadres antes da zanga foi para chumbarem na AR uma proposta no sentido de, em tempos de crise, haver também limites para os salários, prémios e mordomias várias dos chamados gestores públicos.
Sendo a paciência dos contribuintes e eleitores ilimitada, os salários e prémios dos "boys" continuam a não ter, na prática, outros limites senão os da decência dos próprios. Daí que, além dos novos Mercedes, Audi e BMW, os administradores da Carris também se tenham aumentado em 2010, premiando-se por terem conseguido o milagre económico de afundar nesse ano a empresa com mais 42,3 milhões em resultados negativos.
Compreendem agora a minha ingenuidade. É ou não esta uma boa peta do 1 de Abril? Só que hoje, em Portugal, 1 de Abril é sempre que um homem quiser. E, nos últimos anos, tem sido todos os dias.
12 de Abril – Não desesperem, ainda há boas notícias. Parece que um "número recorde" de 134 países aderiu à edição deste ano da Hora do Planeta e desligou as luzes entre as 20.30 e as 21.30 de sábado a fim de sensibilizar o mundo para, cito, "os perigos do aquecimento global".
Compreendo o problema. Também acho necessário sensibilizar o mundo, que é casmurro, para os perigos do aquecimento global, da gripe A, dos papões do FMI e de outras coisas imaginárias e assustadoras. Mas não, não apaguei a luz, não senhor.
Todavia, contribuí à minha maneira: dado que evitei perder dezenas de horas a publicar convocatórias alusivas ao "apagão" no Facebook, no Twitter, nos blogs, e acabei por poupar muito mais electricidade do que os militantes que participaram activamente na causa.
Dessa forma, participei passivamente no combate a outra calamidade, menos fictícia e popular: a crendice colectiva que, ao contrário do aquecimento global ou dos fantasmas, provoca-me um medo desgraçado. Uff!
Nova Aliança, 14 / Abril / 2011
8.4.11
Como chegámos a isto?
16 de Março: Em tempo de crise ouvimos perguntar: Como chegámos a ‘isto’? A resposta não é nada complicada. Basta olhar à volta, pegar no papel e apontar exemplos. Aí vão dois.
Lembram-se do que aconteceu no dia 17 de Abril de 1969? Durante uma cerimónia na Universidade de Coimbra, o líder da associação de estudantes violou o protocolo e pediu a palavra ao presidente Américo Tomás. Ao contrário dos outros, não foi convidado para jantar. A cerimónia terminou ali, o dirigente associativo, que se chamava Alberto Martins, acabou detido, e o resto é história.
Os anos passaram e a história que continua nos nossos dias, agora com Alberto Martins licenciado e no cargo de ministro da Justiça. É uma história feia, muito feia. Segundo o DN, é a seguinte: Maria da Conceição Correia Fernandes, cônjuge de Martins e procuradora adjunta, recebeu 72 mil euros do ministério que o marido curiosamente tutela. A verba, que respeita a uma situação de funções acumuladas, teve o aval de um ex-secretário de Estado de Martins e o parecer negativo da Procuradoria-Geral. E a senhora teve sorte, visto que um seu colega, em condições laborais iguaizinhas, também curiosamente, não viu um único cêntimo.
Perante isto, qual foi a reacção do ‘valente’ dr. Martins? A julgar pela ousadia revelada na juventude e pelos hábitos dos políticos em democracias normais, seria de esperar que o homem devolvesse o dinheiro e apresentasse imediatamente a demissão. Convém verificar à nossa volta se temos bancos e esperarmos sentados: Alberto Martins limitou-se a pedir uma investigação ao episódio, que não lhe pareceu digno de investigações quando os 72 mil euros entraram na conta da família e só se lembrou da ética no momento da divulgação pública.
Conhecem a história da mulher de César? Este caso já desceu à cave onde os pequeninos Césares perderam toda a vergonha.
Mais um salto no tempo, desta vez para 16 de Março de 2011. Durante a inauguração do ano judicial, Martins afirmou que o sector "enfrenta duras dificuldades". Disse ainda querer "restabelecer" a "confiança" dos cidadãos na Justiça. Ninguém o interrompeu, ninguém lhe pediu a palavra.
O segundo caso conta-se também rapidamente. A notícia de que Armando Vara passou à frente dos pacientes de um centro de saúde de modo a obter um atestado suscitou o inevitável, e repugnante, populismo das massas. Ora, na opinião de Vara, as ‘massas’ deviam até ter ficado satisfeitas. Ver uma pessoa tão importante e que tanto deu ao país recorrer aos mesmos clínicos do contingente geral, sabe Deus com que riscos para a saúde, deveria ser um motivo de orgulho.
Em segundo lugar, os privilegiados a sério não fazem recados, contam com empregados para lhos fazerem. Vara faz os recados pessoalmente, comprometendo a sua atarefada agenda nestas coisas pequenas.
Em terceiro lugar, quando não arranjam alternativa, os privilegiados a sério visitam hospitais particulares. O coitado do Vara resigna-se aos serviços públicos, expondo-se inclementemente aos vírus, bactérias e populares que os frequentam.
Em quarto lugar, os privilegiados a sério possuem jactos privados. Vara explicou a urgência no atendimento com a pressa de apanhar um mero avião comercial, o transporte dos simples.
Em quinto lugar, os privilegiados a sério não dão satisfações a ninguém. A ética de Vara obriga-o a justificar as ausências, do emprego ou das sessões do "Face Oculta", mediante documento adequado.
Em sexto lugar, os privilegiados a sério não expõem as maleitas ao comum dos mortais. A rapidez com que a médica do centro de saúde assinou o atestado prova que Vara não teme exibir a sua debilidade e, além disso, prova que o homem está realmente doente.
Tenhamos respeito por quem sofre e por quem anda atarefado. Se cada um de nós imitasse Vara e, em lugar de ocupar a preguiça nos centros de saúde a aguardar a sua vez, passasse à frente na fila dos centros de saúde, a produtividade nacional seria outra.
Aí têm como chegámos a ‘isto’.
Nova Aliança, 31 / Março / 2011
Lembram-se do que aconteceu no dia 17 de Abril de 1969? Durante uma cerimónia na Universidade de Coimbra, o líder da associação de estudantes violou o protocolo e pediu a palavra ao presidente Américo Tomás. Ao contrário dos outros, não foi convidado para jantar. A cerimónia terminou ali, o dirigente associativo, que se chamava Alberto Martins, acabou detido, e o resto é história.
Os anos passaram e a história que continua nos nossos dias, agora com Alberto Martins licenciado e no cargo de ministro da Justiça. É uma história feia, muito feia. Segundo o DN, é a seguinte: Maria da Conceição Correia Fernandes, cônjuge de Martins e procuradora adjunta, recebeu 72 mil euros do ministério que o marido curiosamente tutela. A verba, que respeita a uma situação de funções acumuladas, teve o aval de um ex-secretário de Estado de Martins e o parecer negativo da Procuradoria-Geral. E a senhora teve sorte, visto que um seu colega, em condições laborais iguaizinhas, também curiosamente, não viu um único cêntimo.
Perante isto, qual foi a reacção do ‘valente’ dr. Martins? A julgar pela ousadia revelada na juventude e pelos hábitos dos políticos em democracias normais, seria de esperar que o homem devolvesse o dinheiro e apresentasse imediatamente a demissão. Convém verificar à nossa volta se temos bancos e esperarmos sentados: Alberto Martins limitou-se a pedir uma investigação ao episódio, que não lhe pareceu digno de investigações quando os 72 mil euros entraram na conta da família e só se lembrou da ética no momento da divulgação pública.
Conhecem a história da mulher de César? Este caso já desceu à cave onde os pequeninos Césares perderam toda a vergonha.
Mais um salto no tempo, desta vez para 16 de Março de 2011. Durante a inauguração do ano judicial, Martins afirmou que o sector "enfrenta duras dificuldades". Disse ainda querer "restabelecer" a "confiança" dos cidadãos na Justiça. Ninguém o interrompeu, ninguém lhe pediu a palavra.
O segundo caso conta-se também rapidamente. A notícia de que Armando Vara passou à frente dos pacientes de um centro de saúde de modo a obter um atestado suscitou o inevitável, e repugnante, populismo das massas. Ora, na opinião de Vara, as ‘massas’ deviam até ter ficado satisfeitas. Ver uma pessoa tão importante e que tanto deu ao país recorrer aos mesmos clínicos do contingente geral, sabe Deus com que riscos para a saúde, deveria ser um motivo de orgulho.
Em segundo lugar, os privilegiados a sério não fazem recados, contam com empregados para lhos fazerem. Vara faz os recados pessoalmente, comprometendo a sua atarefada agenda nestas coisas pequenas.
Em terceiro lugar, quando não arranjam alternativa, os privilegiados a sério visitam hospitais particulares. O coitado do Vara resigna-se aos serviços públicos, expondo-se inclementemente aos vírus, bactérias e populares que os frequentam.
Em quarto lugar, os privilegiados a sério possuem jactos privados. Vara explicou a urgência no atendimento com a pressa de apanhar um mero avião comercial, o transporte dos simples.
Em quinto lugar, os privilegiados a sério não dão satisfações a ninguém. A ética de Vara obriga-o a justificar as ausências, do emprego ou das sessões do "Face Oculta", mediante documento adequado.
Em sexto lugar, os privilegiados a sério não expõem as maleitas ao comum dos mortais. A rapidez com que a médica do centro de saúde assinou o atestado prova que Vara não teme exibir a sua debilidade e, além disso, prova que o homem está realmente doente.
Tenhamos respeito por quem sofre e por quem anda atarefado. Se cada um de nós imitasse Vara e, em lugar de ocupar a preguiça nos centros de saúde a aguardar a sua vez, passasse à frente na fila dos centros de saúde, a produtividade nacional seria outra.
Aí têm como chegámos a ‘isto’.
Nova Aliança, 31 / Março / 2011
Isabel Alçada, o BPN e a ASAE
10 de Março – Há uns tempos, Isabel Alçada condenou que se manipulassem meninos e meninas para fins de propaganda e difusão de falsidades. Julguei que a senhora decidira trocar o cargo pela frontalidade e denunciar um estilo que, não sendo inédito, marcou os últimos tempos da Educação em Portugal. Durante uns instantes, dei por mim a admirar intensamente a coragem da senhora e cheguei mesmo a esboçar um poema em seu louvor. Depois li o resto da notícia e os versos foram para o lixo.
Afinal, a senhora apenas discorda do uso de alunos num protesto contra a redução das subvenções às escolas privadas ditas com contrato de associação. Não se opõe a que os mesmos alunos sejam, por exemplo, aparafusados diante do Magalhães e ensinados a jurar os méritos da geringonça na presença do primeiro-ministro e das câmaras televisivas. Quando o Governo se serve dos fedelhos, trata-se de divulgação de "boas práticas" ( reparem na expressão distinta ). Quando são os pais a ‘servirem-se’, trata-se de vil propaganda.
Sempre empenhado em crescer, porque as clientelas o exigem e porque é esse o seu desígnio, o Estado decide as escolas em que as criancinhas devem "estudar", as manifestações em que as criancinhas devem participar, os alimentos que as criancinhas devem comer, as horas a que as criancinhas devem dormir e os modelos gerais de comportamento de acordo com os quais as criancinhas devem ser criadas. As criancinhas, em suma, pertencem ao Estado e não às famílias que, admita-se, ao longo de décadas assistiram indiferentes ou entusiasmadas ao sequestro e, em qualquer dos casos, pagaram-no. Aí está a factura.
13 de Março – É bom reflectir para não esquecer. A burla cometida no BPN não tem precedentes na história de Portugal. O montante do desvio atribuído a Oliveira e Costa, Luís Caprichoso, Francisco Sanches e Vaz Mascarenhas é algo de tão elevado, que só a sua comparação com coisas palpáveis nos pode dar uma ideia da sua grandeza.
Com 9.710.539.940,09 € (NOVE MIL SETECENTOS E DEZ MILHÕES DE EUROS…..) poderíamos:
Comprar 48 aviões Airbus A380 (o maior avião comercial do mundo).
Comprar 16 plantéis de futebol iguais ao do Real Madrid.
Construir 7 TGV de Lisboa a Gaia.
Construir 5 pontes para travessia do Tejo.
Construir 3 aeroportos como o de Alcochete.
Para transportar os 9,7 MIL MILHÕES DE EUROS seriam necessárias 4.850 carrinhas de transporte de valores. Assim, talvez já se perceba melhor o que está em causa.
Distribuído pelos 10 milhões de portugueses, caberia a cada um cerca de 971 € …
14 de Março – Em Nisa, uma visita da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) à empresa Louro e Louro – a última queijaria a funcionar em Nisa – deixou o proprietário às portas de um enfarte. "Somos um casal de 72 e 73 anos, que trabalha desde os dez anos, sete dias por semana. Garantimos trabalho nesta região, para além de garantirmos o escoamento do leite de pequenos produtores. Mas há algum tempo que nos sentimos perseguidos", lamenta Joaquim Louro. De acordo com o produtor, a ASAE "implicou" há três meses com as ervas que existem nas imediações da empresa. "Sou contra os químicos, sempre fui, se for preciso agarro nas ervas e como-as para provar que não fazem qualquer mal. Mas a ASAE quer que ponha herbicida, o que realmente faz mal", contesta o homem. No início do mês, os inspectores voltaram à fabrica para verificar se a ordem já tinha sido cumprida. "É a falta de senso que manda neste País, onde fazem leis sem perceber do que estão a tratar, e depois outros aplicam-nas sem perceber nada do andam a fazer", diz. E tem toda a razão, acrescento eu. Querem saber porquê? Aí vão dois exemplos: há três anos, a ASAE enverrou uma câmara da fábrica por haver queijos com bolor. Lamentavelmente, os ‘inspectores’ desconheciam que era uma fase normal da produção. Mais recentemente, há três meses, a empresa recebeu duas coimas. Uma delas era motivada pela “existência de cadáveres na fábrica”. Tratava-se de uma mosca.
Nova Aliança, 19 / Março / 2011
Afinal, a senhora apenas discorda do uso de alunos num protesto contra a redução das subvenções às escolas privadas ditas com contrato de associação. Não se opõe a que os mesmos alunos sejam, por exemplo, aparafusados diante do Magalhães e ensinados a jurar os méritos da geringonça na presença do primeiro-ministro e das câmaras televisivas. Quando o Governo se serve dos fedelhos, trata-se de divulgação de "boas práticas" ( reparem na expressão distinta ). Quando são os pais a ‘servirem-se’, trata-se de vil propaganda.
Sempre empenhado em crescer, porque as clientelas o exigem e porque é esse o seu desígnio, o Estado decide as escolas em que as criancinhas devem "estudar", as manifestações em que as criancinhas devem participar, os alimentos que as criancinhas devem comer, as horas a que as criancinhas devem dormir e os modelos gerais de comportamento de acordo com os quais as criancinhas devem ser criadas. As criancinhas, em suma, pertencem ao Estado e não às famílias que, admita-se, ao longo de décadas assistiram indiferentes ou entusiasmadas ao sequestro e, em qualquer dos casos, pagaram-no. Aí está a factura.
13 de Março – É bom reflectir para não esquecer. A burla cometida no BPN não tem precedentes na história de Portugal. O montante do desvio atribuído a Oliveira e Costa, Luís Caprichoso, Francisco Sanches e Vaz Mascarenhas é algo de tão elevado, que só a sua comparação com coisas palpáveis nos pode dar uma ideia da sua grandeza.
Com 9.710.539.940,09 € (NOVE MIL SETECENTOS E DEZ MILHÕES DE EUROS…..) poderíamos:
Comprar 48 aviões Airbus A380 (o maior avião comercial do mundo).
Comprar 16 plantéis de futebol iguais ao do Real Madrid.
Construir 7 TGV de Lisboa a Gaia.
Construir 5 pontes para travessia do Tejo.
Construir 3 aeroportos como o de Alcochete.
Para transportar os 9,7 MIL MILHÕES DE EUROS seriam necessárias 4.850 carrinhas de transporte de valores. Assim, talvez já se perceba melhor o que está em causa.
Distribuído pelos 10 milhões de portugueses, caberia a cada um cerca de 971 € …
14 de Março – Em Nisa, uma visita da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) à empresa Louro e Louro – a última queijaria a funcionar em Nisa – deixou o proprietário às portas de um enfarte. "Somos um casal de 72 e 73 anos, que trabalha desde os dez anos, sete dias por semana. Garantimos trabalho nesta região, para além de garantirmos o escoamento do leite de pequenos produtores. Mas há algum tempo que nos sentimos perseguidos", lamenta Joaquim Louro. De acordo com o produtor, a ASAE "implicou" há três meses com as ervas que existem nas imediações da empresa. "Sou contra os químicos, sempre fui, se for preciso agarro nas ervas e como-as para provar que não fazem qualquer mal. Mas a ASAE quer que ponha herbicida, o que realmente faz mal", contesta o homem. No início do mês, os inspectores voltaram à fabrica para verificar se a ordem já tinha sido cumprida. "É a falta de senso que manda neste País, onde fazem leis sem perceber do que estão a tratar, e depois outros aplicam-nas sem perceber nada do andam a fazer", diz. E tem toda a razão, acrescento eu. Querem saber porquê? Aí vão dois exemplos: há três anos, a ASAE enverrou uma câmara da fábrica por haver queijos com bolor. Lamentavelmente, os ‘inspectores’ desconheciam que era uma fase normal da produção. Mais recentemente, há três meses, a empresa recebeu duas coimas. Uma delas era motivada pela “existência de cadáveres na fábrica”. Tratava-se de uma mosca.
Nova Aliança, 19 / Março / 2011
Os idosos de novo e a lusofonia
22 de Fevereiro – Depois da notícia da senhora da Rinchoa que jazia há mais de oito anos e meio morta em casa e que só foi encontrada porque o Fisco executou a penhora da habitação, os casos de mortes solitárias de idosos ganharam visibilidade nas notícias.
Torna-se forçoso reconhecer que tais casos são apenas a ponta do icebergue do desespero em que muitos idosos vivem. Obviamente que todos somos responsáveis, por muito que não o queiramos admitir.
A situação mais exemplar de abandono dos mais velhos aconteceu ontem em Caselas, um bairro de Lisboa. Luís Carlos, de 83 anos, já não conseguia cuidar da mulher, Isabel, de 89 anos, que sofria de Alzheimer. Desesperado, matou-a e suicidou-se.
Ora, um Estado que deixa uma pessoa com essa doença ao cuidado de um idoso falha estrondosamente no cuidado aos mais desfavorecidos. São cada vez mais as situações de idosos incapacitados, muitos com demências, deixados ao deus--dará. E nem adianta culpar o abandono da família, porque frequentemente já nem existe rede familiar. O empobrecimento do País conjugado com o acentuado envelhecimento da população, o esforço financeiro sobre a Segurança Social e a pressão nas reformas vão provocar o aumento de situações semelhantes. Num Estado com recursos cada vez mais escassos, tem de haver prioridades – e os idosos não podem ser esquecidos.
24 de Fevereiro – Ao longo dos anos, os nossos responsáveis políticos tentam descobrir o melhor modo de promover a lusofonia. Sem grande sucesso até ao momento. Soubemos agora que a organização desvirtua aquele desejo. A solução, estranha à partida, é precisamente a desorganização. Se preferirem, a desarrumação.
É verdade: basta ser desarrumado. Isso e espalhar uns discursos numa sala cheia de altos dignitários estrangeiros. Uns minutos depois e certamente que um deles vai comecar a lê-los por engano
Os leitores que acompanham as reuniões do Conselho de Segurança da ONU assistiram, esta semana, a um momento de grande prestígio para o nosso país. É certo que só durou três minutos ( e desde quando é que o tempo de duração se relaciona com o prestígio, qualquer que ele seja? ) e deveu-se a um engano bastante caricato, mas prestígio é prestígio, ora essa.
O ministro dos Negócios Estrangeiros indiano dirigiu-se à câmara, exprimindo o seu mais profundo regozijo por haver atualmente dois membros da comunidade lusófona naquele órgão. A lusofonia foi celebrada por um dirigente indiano com um entusiasmo que os dirigentes lusófonos não costumam exibir. Para lá das ligações históricas com esse país, não esquecemos os lugares cimeiros da Índia nos rankings escolares. Por isso, a sala comoveu-se. Bom, talvez a parte da sala que fala português. Quero dizer, a parte da sala que não estava a dormir.
Tal apreço pelo português indicava três coisas: que ainda estamos vivos, a importância do nosso idioma e, não menos importante, que o ministro dos Negócios Estrangeiros português tinha deixado o seu discurso em cima da mesa e o ministro indiano - que, como é evidente, não tinha ouvido o discurso do ministro português nem tinha escrito o seu - começou a lê-lo. Infelizmente para todos um dos seus assessores, três minutos depois, deu pelo erro e fez com que ele passasse a ler o discurso certo. Que, surpreendentemente, não fazia qualquer referência à comunidade lusófona, antes começando com uma citação de Gandhi. E foi assim que, pela primeira vez na História, alguém, numa intervenção pública, citou primeiro Luís Amado e depois o Mahatma. E reparem que não existirão muitas pessoas no mundo que se poderão orgulhar do mesmo…
E eis como, com este episódio, podemos aprender e até explicar alguns aspectos da nossa crise. Se um dirigente indiano pode ler discursos portugueses por engano, é possível que um dirigente português ande a ler discursos indianos sem se aperceber.
Por exemplo, ainda na semana passada se soube que, em 2010, os bancos tinham pago menos 55% de impostos do que em 2009, ano em que, no primeiro semestre, já tinham pago menos 30% de impostos do que no mesmo período de 2008. Tais notícias sugerem que Sócrates pode ter implementado, inadvertidamente, medidas indianas no nosso país.
Parece-me que esta situação de privilégio demonstra claramente que alguém introduziu por engano o sistema de castas na política portuguesa. Por isso, creio que é urgente acabar com este intercâmbio de discursos entre Portugal e a Índia.
Que se ‘dane’ a lusofonia.
Nova Aliança, 5 / Março / 2011
Torna-se forçoso reconhecer que tais casos são apenas a ponta do icebergue do desespero em que muitos idosos vivem. Obviamente que todos somos responsáveis, por muito que não o queiramos admitir.
A situação mais exemplar de abandono dos mais velhos aconteceu ontem em Caselas, um bairro de Lisboa. Luís Carlos, de 83 anos, já não conseguia cuidar da mulher, Isabel, de 89 anos, que sofria de Alzheimer. Desesperado, matou-a e suicidou-se.
Ora, um Estado que deixa uma pessoa com essa doença ao cuidado de um idoso falha estrondosamente no cuidado aos mais desfavorecidos. São cada vez mais as situações de idosos incapacitados, muitos com demências, deixados ao deus--dará. E nem adianta culpar o abandono da família, porque frequentemente já nem existe rede familiar. O empobrecimento do País conjugado com o acentuado envelhecimento da população, o esforço financeiro sobre a Segurança Social e a pressão nas reformas vão provocar o aumento de situações semelhantes. Num Estado com recursos cada vez mais escassos, tem de haver prioridades – e os idosos não podem ser esquecidos.
24 de Fevereiro – Ao longo dos anos, os nossos responsáveis políticos tentam descobrir o melhor modo de promover a lusofonia. Sem grande sucesso até ao momento. Soubemos agora que a organização desvirtua aquele desejo. A solução, estranha à partida, é precisamente a desorganização. Se preferirem, a desarrumação.
É verdade: basta ser desarrumado. Isso e espalhar uns discursos numa sala cheia de altos dignitários estrangeiros. Uns minutos depois e certamente que um deles vai comecar a lê-los por engano
Os leitores que acompanham as reuniões do Conselho de Segurança da ONU assistiram, esta semana, a um momento de grande prestígio para o nosso país. É certo que só durou três minutos ( e desde quando é que o tempo de duração se relaciona com o prestígio, qualquer que ele seja? ) e deveu-se a um engano bastante caricato, mas prestígio é prestígio, ora essa.
O ministro dos Negócios Estrangeiros indiano dirigiu-se à câmara, exprimindo o seu mais profundo regozijo por haver atualmente dois membros da comunidade lusófona naquele órgão. A lusofonia foi celebrada por um dirigente indiano com um entusiasmo que os dirigentes lusófonos não costumam exibir. Para lá das ligações históricas com esse país, não esquecemos os lugares cimeiros da Índia nos rankings escolares. Por isso, a sala comoveu-se. Bom, talvez a parte da sala que fala português. Quero dizer, a parte da sala que não estava a dormir.
Tal apreço pelo português indicava três coisas: que ainda estamos vivos, a importância do nosso idioma e, não menos importante, que o ministro dos Negócios Estrangeiros português tinha deixado o seu discurso em cima da mesa e o ministro indiano - que, como é evidente, não tinha ouvido o discurso do ministro português nem tinha escrito o seu - começou a lê-lo. Infelizmente para todos um dos seus assessores, três minutos depois, deu pelo erro e fez com que ele passasse a ler o discurso certo. Que, surpreendentemente, não fazia qualquer referência à comunidade lusófona, antes começando com uma citação de Gandhi. E foi assim que, pela primeira vez na História, alguém, numa intervenção pública, citou primeiro Luís Amado e depois o Mahatma. E reparem que não existirão muitas pessoas no mundo que se poderão orgulhar do mesmo…
E eis como, com este episódio, podemos aprender e até explicar alguns aspectos da nossa crise. Se um dirigente indiano pode ler discursos portugueses por engano, é possível que um dirigente português ande a ler discursos indianos sem se aperceber.
Por exemplo, ainda na semana passada se soube que, em 2010, os bancos tinham pago menos 55% de impostos do que em 2009, ano em que, no primeiro semestre, já tinham pago menos 30% de impostos do que no mesmo período de 2008. Tais notícias sugerem que Sócrates pode ter implementado, inadvertidamente, medidas indianas no nosso país.
Parece-me que esta situação de privilégio demonstra claramente que alguém introduziu por engano o sistema de castas na política portuguesa. Por isso, creio que é urgente acabar com este intercâmbio de discursos entre Portugal e a Índia.
Que se ‘dane’ a lusofonia.
Nova Aliança, 5 / Março / 2011
Idosos esquecidos e a geração rasca
7 de Fevereiro - Morta em casa há nove anos
O corpo de Augusta Duarte Martinho, que completava 96 anos no passado dia 12, esteve nove anos no chão da cozinha do apartamento onde residia sozinha, na Rinchoa, Rio de Mouro, em Sintra.
Foi encontrado pela PSP depois de o andar ter sido vendido em leilão pelas Finanças. A nova proprietária, 58 anos, que comprou o apartamento por 30 mil euros há três meses, e entrava pela primeira vez na casa, ficou em estado de choque.
"Ainda estou horrorizada", disse. O desaparecimento já tinha sido participado à GNR, em Novembro de 2002, por uma vizinha. Aida Martins explica que deixou de ver Augusta Martinho em Agosto desse ano. Três meses depois avisou a GNR. "Eles vieram cá mas disseram que não podiam arrombar a porta", refere, assegurando "que nunca houve mau cheiro". A única companhia da idosa era um cão pequeno que foi encontrado morto na varanda da habitação.
Nos nossos tempos, esta história está longe de nos espantar. Na nossa sociedade, procuramos atirar as nossas responsabilidades para cima de outros. Os tribunais não fazem o que têm de fazer e s polícias também não. Ninguém quer chatices. A senhora desapareceu? Tem a certeza? Coisa de velhos, terão pensado. Nem a segurança social, nem os serviços de saúde fizeram alguma coisa.. Ninguém. Afinal de contas, era ‘apenas’ uma velha num prédio de uns subúrbios. Passou oito anos a bater a portas. A burocracia impediu que alguém fizesse alguma coisa. A porta não podia ser arrombada.
Curiosamente, a inviolabilidade do domicílio é sagrada. Mas, claro, se o domicílio for vendido em hasta pública, sem conhecimento do dono, o novo dono já pode entrar. Mas Augusta, cidadã portuguesa, era também contribuinte. E aí deram por falta dela. Tinha uma dívida. Sem um único contato, a frieza da máquina leiloou o seu apartamento. Quando os novos donos chegaram, a porta foi finalmente arrombada. E lá estava Augusta, morta no chão da cozinha.
O que impressiona, para além da solidão que permite que alguém morra sem que ninguém dê por nada, é que o mesmo Estado que dá pelo não pagamento de uma dívida ao fisco não dê, não queira dar, pelo desaparecimento de um ser humano. Que o contribuinte exista, mas o cidadão não.
Diz-se que só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. Sabemos agora que para o Estado português só a segunda parte é verdadeira.
12 de Fevereiro – A canção dos Deolinda
Há por aí um ‘debate’ sobre uma canção dos Deolinda. A letra é repetida atá à exaustão. Mas afinal, o que cantará Ana Bacalhau? Coisas simples, mesmo muito simples: que a vida não está fácil e que ter um cursinho universitário (ainda por cima destes) não é um seguro para os anos que se aproximam.
O problema é que os portugueses se deixam enfeitiçar por refrões sobre como a vida é injusta. A canção ‘pede’ também que a geração mais velha se preocupe com as novas gerações, que não têm emprego garantido. Não têm? Lutem por ele. Estão desanimados? Festivais de rock esgotam sempre no Verão e ‘gadgets’ andam de mão em mão. A vida está difícil? Ninguém prometeu um mar de rosas, a não ser nas canções.
Perguntem aos avós e aos pais quantos iam buscar os netos e os filhos às escolas há vinte ou trinta anos atrás. Conversem um bocadinho sobre como a vida era ‘mesmo’ difícil há vinte, trinta anos. E se recuarem mais no tempo, então era mesmo muito ‘difícil’.
Vá lá, cresçam.
Nova Aliança, 17 / Fevereiro / 2011
O corpo de Augusta Duarte Martinho, que completava 96 anos no passado dia 12, esteve nove anos no chão da cozinha do apartamento onde residia sozinha, na Rinchoa, Rio de Mouro, em Sintra.
Foi encontrado pela PSP depois de o andar ter sido vendido em leilão pelas Finanças. A nova proprietária, 58 anos, que comprou o apartamento por 30 mil euros há três meses, e entrava pela primeira vez na casa, ficou em estado de choque.
"Ainda estou horrorizada", disse. O desaparecimento já tinha sido participado à GNR, em Novembro de 2002, por uma vizinha. Aida Martins explica que deixou de ver Augusta Martinho em Agosto desse ano. Três meses depois avisou a GNR. "Eles vieram cá mas disseram que não podiam arrombar a porta", refere, assegurando "que nunca houve mau cheiro". A única companhia da idosa era um cão pequeno que foi encontrado morto na varanda da habitação.
Nos nossos tempos, esta história está longe de nos espantar. Na nossa sociedade, procuramos atirar as nossas responsabilidades para cima de outros. Os tribunais não fazem o que têm de fazer e s polícias também não. Ninguém quer chatices. A senhora desapareceu? Tem a certeza? Coisa de velhos, terão pensado. Nem a segurança social, nem os serviços de saúde fizeram alguma coisa.. Ninguém. Afinal de contas, era ‘apenas’ uma velha num prédio de uns subúrbios. Passou oito anos a bater a portas. A burocracia impediu que alguém fizesse alguma coisa. A porta não podia ser arrombada.
Curiosamente, a inviolabilidade do domicílio é sagrada. Mas, claro, se o domicílio for vendido em hasta pública, sem conhecimento do dono, o novo dono já pode entrar. Mas Augusta, cidadã portuguesa, era também contribuinte. E aí deram por falta dela. Tinha uma dívida. Sem um único contato, a frieza da máquina leiloou o seu apartamento. Quando os novos donos chegaram, a porta foi finalmente arrombada. E lá estava Augusta, morta no chão da cozinha.
O que impressiona, para além da solidão que permite que alguém morra sem que ninguém dê por nada, é que o mesmo Estado que dá pelo não pagamento de uma dívida ao fisco não dê, não queira dar, pelo desaparecimento de um ser humano. Que o contribuinte exista, mas o cidadão não.
Diz-se que só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. Sabemos agora que para o Estado português só a segunda parte é verdadeira.
12 de Fevereiro – A canção dos Deolinda
Há por aí um ‘debate’ sobre uma canção dos Deolinda. A letra é repetida atá à exaustão. Mas afinal, o que cantará Ana Bacalhau? Coisas simples, mesmo muito simples: que a vida não está fácil e que ter um cursinho universitário (ainda por cima destes) não é um seguro para os anos que se aproximam.
O problema é que os portugueses se deixam enfeitiçar por refrões sobre como a vida é injusta. A canção ‘pede’ também que a geração mais velha se preocupe com as novas gerações, que não têm emprego garantido. Não têm? Lutem por ele. Estão desanimados? Festivais de rock esgotam sempre no Verão e ‘gadgets’ andam de mão em mão. A vida está difícil? Ninguém prometeu um mar de rosas, a não ser nas canções.
Perguntem aos avós e aos pais quantos iam buscar os netos e os filhos às escolas há vinte ou trinta anos atrás. Conversem um bocadinho sobre como a vida era ‘mesmo’ difícil há vinte, trinta anos. E se recuarem mais no tempo, então era mesmo muito ‘difícil’.
Vá lá, cresçam.
Nova Aliança, 17 / Fevereiro / 2011
A memória futura e o simplex
18 de Janeiro – Elementos para memória futura.
8 de Janeiro de 2010: Valter Lemos destaca elevado desemprego em toda a Europa
«Em Outubro éramos o sexto país com o desemprego mais elevado, passámos para oitavo [...]»
30 de Abril de 2010: Valter Lemos espera abrandamento do desemprego para o Verão
18 de Maio de 2010: Valter Lemos satisfeito com descida dos números de inscritos nos centros de emprego
26 de Maio de 2010: Governo garante que o desemprego vai cair ainda este ano
30 de Julho de 2010: O secretário de Estado do Emprego, Valter Lemos, considerou hoje, em declarações à agência Lusa, que a inversão da tendência da taxa de desemprego, estimada pelo Eurostat para junho, é uma “boa notícia” para Portugal.
17 de Setembro de 2010:Desemprego: «Números mostram tendência de estabilização»
1 de Outubro de 2010: O secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional, Valter Lemos, disse hoje que os dados do Eurostat são previsões e afirmou estar a aguardar pela confirmação, ou não, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
29 de Outubro de 2010: Valter Lemos: taxa do Eurostat mostra que o desemprego se manteve estável
17 de Janeiro de 2011: «O pior do desemprego já passou» – Valter Lemos
.
Nota: A taxa de desemprego foi de 10,6% no primeiro trimestre, 10,6% no segundo trimestre e 10,9% no terceiro trimestre.
28 de Janeiro - Tenho mais medo de entrar numa repartição de Finanças ou da Segurança Social do que no consultório do dentista. Por isso, quando entrei na Segurança Social para pedir um documento até tremi.. Tirei a senha e, oh alegria!, era a senha 35 e já iam na 14, não devia demorar muito.
Nem valia a pena sentar-me, fiquei encostado à parede a olhar para os que iam chegando, e tirando senhas, e suspirando.
Quando, hora e meia depois, ainda se continuava na senha 14, comecei a não achar graça.
Reparo então - tenho pouca prática destas coisas - numas senhas com a designação de "prioritárias". Pergunto quais as prioridades que abrangem - mas ninguém me sabe responder.
De repente, num ecrã em que passa muita informação a correr, com toda a gente a sorrir muito, a dizerem-nos - a nós, que já ali estamos há horas - como tudo agora é fácil e rápido, descubro que basta uma pessoa ter mais de 65 anos para usufruir dessa benesse.
Tiro outra senha, desta vez a 20, quando já estavam a chamar a 10. Óptimo, agora é que era.
O pior é que se estava na hora do almoço - e ,durante mais de uma hora, nenhuma senha mexeu.
Palavra que temi um levantamento popular. Uma senhora começou a fazer um comício às massas, "devíamos era ir com panelas a São Bento!", mas como a maior parte não estava a perceber o que faziam ali as panelas, ela lá explicou que era uma coisa que tinha acontecido no Chile, mas na sua cabeça as coisas deviam andar um pouco baralhadas porque, dali a momentos, já era a Argentina e as mães da Praça de Maio, e nós que éramos todos uns bananas, que amochávamos tudo. Desiste de esperar e vai embora, ela e mais alguns, e por isso, ao fim de seis horas de ali estar, chamam-me para me informarem que o que eu quero não é com eles.
Deve ser a isto que o nosso primeiro chama o "simplex".
Nova Aliança, 3 / Fevereiro / 2011
8 de Janeiro de 2010: Valter Lemos destaca elevado desemprego em toda a Europa
«Em Outubro éramos o sexto país com o desemprego mais elevado, passámos para oitavo [...]»
30 de Abril de 2010: Valter Lemos espera abrandamento do desemprego para o Verão
18 de Maio de 2010: Valter Lemos satisfeito com descida dos números de inscritos nos centros de emprego
26 de Maio de 2010: Governo garante que o desemprego vai cair ainda este ano
30 de Julho de 2010: O secretário de Estado do Emprego, Valter Lemos, considerou hoje, em declarações à agência Lusa, que a inversão da tendência da taxa de desemprego, estimada pelo Eurostat para junho, é uma “boa notícia” para Portugal.
17 de Setembro de 2010:Desemprego: «Números mostram tendência de estabilização»
1 de Outubro de 2010: O secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional, Valter Lemos, disse hoje que os dados do Eurostat são previsões e afirmou estar a aguardar pela confirmação, ou não, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
29 de Outubro de 2010: Valter Lemos: taxa do Eurostat mostra que o desemprego se manteve estável
17 de Janeiro de 2011: «O pior do desemprego já passou» – Valter Lemos
.
Nota: A taxa de desemprego foi de 10,6% no primeiro trimestre, 10,6% no segundo trimestre e 10,9% no terceiro trimestre.
28 de Janeiro - Tenho mais medo de entrar numa repartição de Finanças ou da Segurança Social do que no consultório do dentista. Por isso, quando entrei na Segurança Social para pedir um documento até tremi.. Tirei a senha e, oh alegria!, era a senha 35 e já iam na 14, não devia demorar muito.
Nem valia a pena sentar-me, fiquei encostado à parede a olhar para os que iam chegando, e tirando senhas, e suspirando.
Quando, hora e meia depois, ainda se continuava na senha 14, comecei a não achar graça.
Reparo então - tenho pouca prática destas coisas - numas senhas com a designação de "prioritárias". Pergunto quais as prioridades que abrangem - mas ninguém me sabe responder.
De repente, num ecrã em que passa muita informação a correr, com toda a gente a sorrir muito, a dizerem-nos - a nós, que já ali estamos há horas - como tudo agora é fácil e rápido, descubro que basta uma pessoa ter mais de 65 anos para usufruir dessa benesse.
Tiro outra senha, desta vez a 20, quando já estavam a chamar a 10. Óptimo, agora é que era.
O pior é que se estava na hora do almoço - e ,durante mais de uma hora, nenhuma senha mexeu.
Palavra que temi um levantamento popular. Uma senhora começou a fazer um comício às massas, "devíamos era ir com panelas a São Bento!", mas como a maior parte não estava a perceber o que faziam ali as panelas, ela lá explicou que era uma coisa que tinha acontecido no Chile, mas na sua cabeça as coisas deviam andar um pouco baralhadas porque, dali a momentos, já era a Argentina e as mães da Praça de Maio, e nós que éramos todos uns bananas, que amochávamos tudo. Desiste de esperar e vai embora, ela e mais alguns, e por isso, ao fim de seis horas de ali estar, chamam-me para me informarem que o que eu quero não é com eles.
Deve ser a isto que o nosso primeiro chama o "simplex".
Nova Aliança, 3 / Fevereiro / 2011
26.1.11
A memória e a fama em Portugal
8 de Janeiro – Viagem no tempo ou o que começava por não custar um euro ao contribuinte
5 de Novembro de 2008: O ministro Teixeira dos Santos explicou aos deputados que o BPN comprometeu a sua situação financeira porque estava em iminência de rotura de pagamentos, o que colocaria em risco os depósitos de milhares de depositantes.
7 de Novembro de 2008: Teixeira dos Santos, depois de muito pressionado, acabou por dizer que os prejuízos acumulados no banco BPN atingem 700 milhões de euros.
5 de Fevereiro de 2009: Teixeira dos Santos defende que Estado “não gastou dinheiro dos contribuintes” no BPN e no BPP
5 de Fevereiro de 2009: Teixeira dos Santos adiantou que o Governo decidiu nacionalizar o BPN não pelo prejuízo apurado de 700 milhões de euros, mas sim para proteger os depositantes.
18 de Junho de 2009:O ministro das Finanças afirmou hoje que “até agora o Estado não suportou um euro sequer” relativamente ao BPN, explicando que a Caixa Geral de Depósitos realizou operações de liquidez no banco avaliadas em 2,5 mil milhões de euros.
27 de Novembro de 2009 : [Teixeira dos Santos] diz que a insolvência do BPN poderia ter um efeito sistémico sobre a banca nacional. Se atingisse 10% das contas dos depositantes portugueses, a factura poderia chegar aos 15 mil milhões de euros.
27 de Outubro de 2010:BPN: Nacionalização evitou “catástrofe” do sistema financeiro — Teixeira dos Santos
11 de Janeiro de 2011: Teixeira dos Santos diz que perdas detectadas já depois da nacionalização mostram que a decisão foi acertada
11 de Janeiro de 2011: Teixeira dos Santos: “Valor de referência para custo da nacionalização do BPN são dois mil milhões”
12 de Janeiro – A Fama em Portugal
Quem estiver minimamente atento verificará que, em Portugal, a culpa, se calhar, é dos dicionários: "fama" e "sucesso" vêm antes de "trabalho". E é essa a ordem de factores que é apregoada pelas televisões. "Em directo da casa mais famosa do país...", e mostra-se gente que não aprendeu nada, que não sabe nada, que não viveu nada e que de sentimentos só conhece a versão lambisgóia. "És o ídolo de Portugal!", grita um imberbe para outro imberbe, num desses concursos de caça-talentos em que o protagonista nem entende, apesar de anunciado, o papel que lhe destinam: ser caçado. Na noite da apoteose, Portugal chama com valor acrescentado e faz do miúdo um famoso. Assim, num repente. Com a plateia de pé, os colegas fracassados aos abraços apertados (alguém tem de fracassar para servir de pedestal), os pais a chorar de orgulho. Famoso. No dia seguinte, já há clube de fãs. O Facebook explode de amigos. Millôr Fernandes poetou sobre isso: "Na tela/ Em cada programa/ Notoriedades da hora/ Desconhecidos de ontem/ Famosíssimos de agora." Famoso. Ainda sem saber de quê, nem se interessando porquê, mas já conhecendo as regras: agarrar-se aos holofotes e, sobretudo, a quem detém as luzes dos holofotes. Famoso. Os mais sortudos saberão em breve como a condição é efémera. Os mais infelizes descobrem-se, um dia, mesmo famosos: aparecem nas primeiras páginas dos jornais, até de Nova Iorque.
Nova Aliança, 20 / Janeiro / 2011
5 de Novembro de 2008: O ministro Teixeira dos Santos explicou aos deputados que o BPN comprometeu a sua situação financeira porque estava em iminência de rotura de pagamentos, o que colocaria em risco os depósitos de milhares de depositantes.
7 de Novembro de 2008: Teixeira dos Santos, depois de muito pressionado, acabou por dizer que os prejuízos acumulados no banco BPN atingem 700 milhões de euros.
5 de Fevereiro de 2009: Teixeira dos Santos defende que Estado “não gastou dinheiro dos contribuintes” no BPN e no BPP
5 de Fevereiro de 2009: Teixeira dos Santos adiantou que o Governo decidiu nacionalizar o BPN não pelo prejuízo apurado de 700 milhões de euros, mas sim para proteger os depositantes.
18 de Junho de 2009:O ministro das Finanças afirmou hoje que “até agora o Estado não suportou um euro sequer” relativamente ao BPN, explicando que a Caixa Geral de Depósitos realizou operações de liquidez no banco avaliadas em 2,5 mil milhões de euros.
27 de Novembro de 2009 : [Teixeira dos Santos] diz que a insolvência do BPN poderia ter um efeito sistémico sobre a banca nacional. Se atingisse 10% das contas dos depositantes portugueses, a factura poderia chegar aos 15 mil milhões de euros.
27 de Outubro de 2010:BPN: Nacionalização evitou “catástrofe” do sistema financeiro — Teixeira dos Santos
11 de Janeiro de 2011: Teixeira dos Santos diz que perdas detectadas já depois da nacionalização mostram que a decisão foi acertada
11 de Janeiro de 2011: Teixeira dos Santos: “Valor de referência para custo da nacionalização do BPN são dois mil milhões”
12 de Janeiro – A Fama em Portugal
Quem estiver minimamente atento verificará que, em Portugal, a culpa, se calhar, é dos dicionários: "fama" e "sucesso" vêm antes de "trabalho". E é essa a ordem de factores que é apregoada pelas televisões. "Em directo da casa mais famosa do país...", e mostra-se gente que não aprendeu nada, que não sabe nada, que não viveu nada e que de sentimentos só conhece a versão lambisgóia. "És o ídolo de Portugal!", grita um imberbe para outro imberbe, num desses concursos de caça-talentos em que o protagonista nem entende, apesar de anunciado, o papel que lhe destinam: ser caçado. Na noite da apoteose, Portugal chama com valor acrescentado e faz do miúdo um famoso. Assim, num repente. Com a plateia de pé, os colegas fracassados aos abraços apertados (alguém tem de fracassar para servir de pedestal), os pais a chorar de orgulho. Famoso. No dia seguinte, já há clube de fãs. O Facebook explode de amigos. Millôr Fernandes poetou sobre isso: "Na tela/ Em cada programa/ Notoriedades da hora/ Desconhecidos de ontem/ Famosíssimos de agora." Famoso. Ainda sem saber de quê, nem se interessando porquê, mas já conhecendo as regras: agarrar-se aos holofotes e, sobretudo, a quem detém as luzes dos holofotes. Famoso. Os mais sortudos saberão em breve como a condição é efémera. Os mais infelizes descobrem-se, um dia, mesmo famosos: aparecem nas primeiras páginas dos jornais, até de Nova Iorque.
Nova Aliança, 20 / Janeiro / 2011
7.1.11
Monteiro Lobato e os relatórios escolares
27 de Dezembro - A minha infância foi televisivamente pobre. E nem poderia ser de outra forma. Os dois únicos canais “obrigavam” a uma programação, no mínimo, incipiente.
Mas havia excepções. Uma delas era "O Sítio do Picapau Amarelo", uma produção da TV Globo baseada na obra de Monteiro Lobato (1882 - 1948). Lembro-me das aventuras de Pedrinho e Narizinho com a mesma gratidão com que me lembro das aventuras de Lucy ou Edward nas crónicas de Nárnia de C.S. Lewis, que li na mesma idade. Sem falar da boneca Emília, de Dona Benta e da Tia Nastácia. Puro encantamento.
Por causa de Monteiro Lobato, conheci melhor o folclore brasileiro; e, claro, a própria literatura brasileira. Depois da série, li Monteiro Lobato "lui même". E, por causa do autor, fui entrando no cânone.
Primeiro, "O Meu Pé de Laranja Lima", de José Mauro de Vasconcelos, desde logo porque havia um "portuga" na trama. O livro fez um sucesso em Portugal, digno de J.K. Rowling. E depois passei a “dietas” mais pesadas, com Lima Barreto, Nelson Rodrigues. E o notabilíssimo Rubem Fonseca.
O racismo de Monteiro Lobato incomodou-me? Nem pensei nisso. Não penso nisso agora. O que não significa que Monteiro Lobato não o fosse: as suas referências a "pretos" podem ser desconfortáveis para uma audiência moderna. Mas se as audiências modernas apenas lessem o que se ajusta ao cânone politicamente correcto do momento, que obras ficariam nas nossas bibliotecas? Precisamente. Poucas. Quase nenhumas. Todas as épocas têm as suas fogueiras.
Por isso pasmo com a decisão, vinda do Brasil, do Conselho Nacional de Educação de sinalizar com pânico radioactivo e instintos censórios a obra "Caçadas de Pedrinho", publicada por Monteiro Lobato em 1933. O caso já chegou à imprensa portuguesa, que tem dedicado alguma atenção ao assunto. Deveria dedicar mais porque estamos na presença de um exemplo clássico de ignorância cultural. E, ironicamente, de preconceito ideológico.
Segundo leio, o livro "Caçadas de Pedrinho" tem referências que não são agradáveis à população negra. Uma princesa, por exemplo, aconselha Emília a não beber café. Para não ficar "morena". E a Tia Nastácia, que cozinhava os melhores petiscos da minha infância, é referida como "pobre preta".
Isso, para o Conselho de Educação, é intolerável. A função do ensino, para o nobre órgão, é inculcar os valores certos na cabeça das crianças, afastando qualquer ofensa às minorias.
Sou capaz de entender a generosidade do Conselho de Educação. Mas se a função do ensino é afastar do currículo tudo aquilo que ofende a sensibilidade moderna, repito, não fica nada para mostrar.
Apagar o passado que nos interpela com seu rol de ofensas e preconceitos é apagar Platão ou Aristóteles, dois conhecidos esclavagistas com intoleráveis tendências misóginas. É apagar os versos de Dante na sua "Comédia" com passagens islamofóbicas. É apagar Voltaire pelas mesmas razões, a começar pela sua peça "Maomé". É apagar Mark Twain pelos mesmos motivos que nos levam a censurar Monteiro Lobato. É não permitir que Shakespeare nos contamine com seu esporádico anti-semitismo. E, por falar em anti-semitismo, é jogar no lixo a poesia de T.S. Eliot, o maior de todos os modernistas. E etc. etc. etc. A lista não tem fim.
Avaliar a cultura passada com as lentes ideológicas do nosso tempo não é apenas um grosseiro erro de anacronismo. É vandalizar esse passado pela destruição do mundo que ele expressa; é, no limite, uma privação cultural.
E esse crime não é apenas um crime que cometemos sobre o passado. É também uma porta que abrimos para crimes futuros: para que as gerações vindouras, dominadas por seus próprios valores ou preconceitos, possam usar a guilhotina sobre os nossos valores ou preconceitos; sobre a nossa voz singular e presente; sobre nossos vícios e virtudes; sobre nós. Uma inquisição permanente que não tem descanso.
O caso Monteiro Lobato é mais um exemplo de como o objectivo do pensamento politicamente correcto não é "corrigir" o pensamento politicamente incorrecto. É criar um mundo de silêncio, transformando o passado num imenso cemitério.
31 de Dezembro – Depois de uma euforia balofa e totalmente desonesta com os mais recentes resultados do PISA, o Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério da Educação veio agora confirmar que os nossos alunos estão menos burros mas continuam burros. Depois de uma análise exaustiva a 1700 escolas, parece que os alunos do 8º ao 12º ano não sabem raciocinar nem escrever. Segundo o GAVE, as nossas ‘crianças’ são incapazes de estruturar um texto; explicar um raciocínio com lógica; utilizar linguagem rigorosa; e, Deus meu, utilizar diferentes conceitos da mesma disciplina. Por outras palavras: as nossas ‘crianças’ são capazes de exercícios elementares, como acontece com alguns símios de laboratório; mas o passo final para o conhecimento humano está-lhes interdito.
Obviamente que isto, ao contrário do que sucedeu com o PISA, não mereceu do governo um comentário. O que se compreende: os nossos governantes, a começar pelo líder da banda, são também um produto do analfabetismo e da lassidão que reinam no sistema de ensino. Confrontados com o relatório do GAVE, o mais certo é não saberem lê-lo ou interpretá-lo.
Nova Aliança, 6 / 1 / 2011
Mas havia excepções. Uma delas era "O Sítio do Picapau Amarelo", uma produção da TV Globo baseada na obra de Monteiro Lobato (1882 - 1948). Lembro-me das aventuras de Pedrinho e Narizinho com a mesma gratidão com que me lembro das aventuras de Lucy ou Edward nas crónicas de Nárnia de C.S. Lewis, que li na mesma idade. Sem falar da boneca Emília, de Dona Benta e da Tia Nastácia. Puro encantamento.
Por causa de Monteiro Lobato, conheci melhor o folclore brasileiro; e, claro, a própria literatura brasileira. Depois da série, li Monteiro Lobato "lui même". E, por causa do autor, fui entrando no cânone.
Primeiro, "O Meu Pé de Laranja Lima", de José Mauro de Vasconcelos, desde logo porque havia um "portuga" na trama. O livro fez um sucesso em Portugal, digno de J.K. Rowling. E depois passei a “dietas” mais pesadas, com Lima Barreto, Nelson Rodrigues. E o notabilíssimo Rubem Fonseca.
O racismo de Monteiro Lobato incomodou-me? Nem pensei nisso. Não penso nisso agora. O que não significa que Monteiro Lobato não o fosse: as suas referências a "pretos" podem ser desconfortáveis para uma audiência moderna. Mas se as audiências modernas apenas lessem o que se ajusta ao cânone politicamente correcto do momento, que obras ficariam nas nossas bibliotecas? Precisamente. Poucas. Quase nenhumas. Todas as épocas têm as suas fogueiras.
Por isso pasmo com a decisão, vinda do Brasil, do Conselho Nacional de Educação de sinalizar com pânico radioactivo e instintos censórios a obra "Caçadas de Pedrinho", publicada por Monteiro Lobato em 1933. O caso já chegou à imprensa portuguesa, que tem dedicado alguma atenção ao assunto. Deveria dedicar mais porque estamos na presença de um exemplo clássico de ignorância cultural. E, ironicamente, de preconceito ideológico.
Segundo leio, o livro "Caçadas de Pedrinho" tem referências que não são agradáveis à população negra. Uma princesa, por exemplo, aconselha Emília a não beber café. Para não ficar "morena". E a Tia Nastácia, que cozinhava os melhores petiscos da minha infância, é referida como "pobre preta".
Isso, para o Conselho de Educação, é intolerável. A função do ensino, para o nobre órgão, é inculcar os valores certos na cabeça das crianças, afastando qualquer ofensa às minorias.
Sou capaz de entender a generosidade do Conselho de Educação. Mas se a função do ensino é afastar do currículo tudo aquilo que ofende a sensibilidade moderna, repito, não fica nada para mostrar.
Apagar o passado que nos interpela com seu rol de ofensas e preconceitos é apagar Platão ou Aristóteles, dois conhecidos esclavagistas com intoleráveis tendências misóginas. É apagar os versos de Dante na sua "Comédia" com passagens islamofóbicas. É apagar Voltaire pelas mesmas razões, a começar pela sua peça "Maomé". É apagar Mark Twain pelos mesmos motivos que nos levam a censurar Monteiro Lobato. É não permitir que Shakespeare nos contamine com seu esporádico anti-semitismo. E, por falar em anti-semitismo, é jogar no lixo a poesia de T.S. Eliot, o maior de todos os modernistas. E etc. etc. etc. A lista não tem fim.
Avaliar a cultura passada com as lentes ideológicas do nosso tempo não é apenas um grosseiro erro de anacronismo. É vandalizar esse passado pela destruição do mundo que ele expressa; é, no limite, uma privação cultural.
E esse crime não é apenas um crime que cometemos sobre o passado. É também uma porta que abrimos para crimes futuros: para que as gerações vindouras, dominadas por seus próprios valores ou preconceitos, possam usar a guilhotina sobre os nossos valores ou preconceitos; sobre a nossa voz singular e presente; sobre nossos vícios e virtudes; sobre nós. Uma inquisição permanente que não tem descanso.
O caso Monteiro Lobato é mais um exemplo de como o objectivo do pensamento politicamente correcto não é "corrigir" o pensamento politicamente incorrecto. É criar um mundo de silêncio, transformando o passado num imenso cemitério.
31 de Dezembro – Depois de uma euforia balofa e totalmente desonesta com os mais recentes resultados do PISA, o Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) do Ministério da Educação veio agora confirmar que os nossos alunos estão menos burros mas continuam burros. Depois de uma análise exaustiva a 1700 escolas, parece que os alunos do 8º ao 12º ano não sabem raciocinar nem escrever. Segundo o GAVE, as nossas ‘crianças’ são incapazes de estruturar um texto; explicar um raciocínio com lógica; utilizar linguagem rigorosa; e, Deus meu, utilizar diferentes conceitos da mesma disciplina. Por outras palavras: as nossas ‘crianças’ são capazes de exercícios elementares, como acontece com alguns símios de laboratório; mas o passo final para o conhecimento humano está-lhes interdito.
Obviamente que isto, ao contrário do que sucedeu com o PISA, não mereceu do governo um comentário. O que se compreende: os nossos governantes, a começar pelo líder da banda, são também um produto do analfabetismo e da lassidão que reinam no sistema de ensino. Confrontados com o relatório do GAVE, o mais certo é não saberem lê-lo ou interpretá-lo.
Nova Aliança, 6 / 1 / 2011
O Nobel da Pz e o país de totós
10 de Dezembro - "Sabemos quem foi Confúcio, mas não sabemos nada do prémio", disse à BBC o porta-voz de Lien Chan, antigo vice-presidente de Taiwan, a quem a China atribuiu o Prémio Confúcio da Paz, um Nobel da Paz "made in China" já que, segundo o governo chinês, o original se desprestigiou junto da "esmagadora maioria das pessoas do mundo" ao ser atribuído a Liu Xiaobo, que o regime de Pequim meteu 11 anos na cadeia por defender a democracia e os direitos humanos (em tradução directa do mandarim, por "subversão").
"Não sabendo nada", o premiado não apareceu na cerimónia, tendo sido substituído por uma menina de 6 anos. (Uma criança fica sempre bem em acontecimentos do género, mas é recomendável que, no futuro, o prémio seja atribuído a pessoas mais bem informadas; talvez, quem sabe? Ahmadinejad ou Chavez).
Liu Xiaobo também não comparecerá hoje em Oslo para receber o original. Não porque não saiba "nada sobre o prémio", mas pela comezinha razão de que os seus carcereiros não o deixam ir (nem a ele, nem à mulher, nem a nenhum amigo).
Não comparecerão igualmente, além da China, mais 18 países: Afeganistão, Arábia Saudita, Cazaquistão, Colômbia, Cuba, Egipto, Filipinas, Irão, Iraque, Marrocos, Paquistão, Rússia, Sérvia, Sudão, Tunísia, Ucrânia, Vietname e Venezuela. Tudo boa gente, justamente reputada por ser grande consumidora de direitos humanos (de direitos humanos "made in China", naturalmente).
13 de Dezembro - No outro dia, um amigo estrangeiro de um amigo meu sugeriu um livro que falta no panorama editorial: "Portugal for dummies". Traduzo: "Portugal para totós". Um título mais naquela colecção de livros técnicos de capa amarela que explicam coisas complexas. Na verdade, o título é enganador. Portugal tem tantas idiossincrasias que nem mesmo os mais inteligentes e cultos politólogos o entendem. Experimentem explicar, por exemplo, a um americano, o sistema semipresidencial português. Quais as funções do presidente da República? Árbitro? Moderador? E que poder tem, de facto? Difícil, não? Daí, a ideia do livro, que faria jeito, aposto, mesmo a quem nos conhece bem. Por exemplo, nós próprios.
O momento presente seria ideal para a publicação de um livro destes. Ideal para exemplos vividos e recentes. Toda a gente de bom senso já percebeu que o actual momento político-económico é tão difícil que precisa de uma maioria governativa, e, no actual cenário, de uma coligação onde os interesses do país estejam à frente de todos os outros. Apesar dessa clarividência - expressa desta vez por Luís Amado, este fim-de-semana, em entrevista ao "Expresso" - nenhum dos partidos do arco governamental aceita dar esse passo. Ah, e tal, o PSD está à espera de ganhar as próximas eleições, e o PS não pode dar parte de fraco... e vai atirando as responsabilidades para o lado... Pois, tudo isso é muito bonito como joguinho político, se não estivesse a empenhar o nosso futuro como país.
Um livro como o "Portugal for Dummies" podia explicar, precisamente, por que é que as coligações são corriqueiras, por exemplo, na Alemanha e na Inglaterra, e em Portugal parecem impossíveis. A explicação passaria certamente por algo bem pouco nobre: os partidos têm como fundo de comércio os lugares, funções e dependências do Estado que obtêm quando chegam ao poder, para distribuir pelas suas bases. Sendo assim, o único objectivo de um partido português é... ganhar eleições. De preferência, sozinho.
Tudo isto funciona bem em duas circunstâncias: quando os tempos são de vacas gordas ou quando há maiorias. O pior problema é quando há minorias em tempos de vacas magras. Aí, os governos ficam maus. Ou de mãos atadas porque não conseguem fazer passar medidas, ou eleitoralistas - se bem que esta é uma tendência de todos os governos, mesmo os de maioria, porque quando as têm já sabem que as perdem com medidas difíceis, daí estarem sempre a pensar nas próximas eleições.
E, como o sistema português não obriga a maiorias, nem as forma automaticamente, o que acontece é que ... andamos sempre nisto. Com um olho no burro e outro no cigano, para explicar bem a situação a verdadeiros totós. Totós que somos nós todos: temos um sistema político que nos prejudica, a nós, que o inventámos e que através dele nos regulamos. E nada fazemos para o mudar.
Portugal precisa, portanto, de um "Portugal para totós". A falta desse livro deve explicar, em parte, o facto de as agências internacionais de rating continuarem a dar-nos na cabeça, mesmo depois de haver um acordo orçamental entre os dois maiores partidos portugueses, e de o Orçamento propor cortes e mais cortes e nenhum deles convencer quem nos avalia os nossos empréstimos. Outra hipótese é terem-no percebido bem de mais: que os dois partidos, PS e PSD, são, afinal, duas faces da mesma moeda. E que muito pouco vai mudar enquanto continuarmos neste jogo de roda bota fora.
Nova Aliança, 23 / 12 / 2010
"Não sabendo nada", o premiado não apareceu na cerimónia, tendo sido substituído por uma menina de 6 anos. (Uma criança fica sempre bem em acontecimentos do género, mas é recomendável que, no futuro, o prémio seja atribuído a pessoas mais bem informadas; talvez, quem sabe? Ahmadinejad ou Chavez).
Liu Xiaobo também não comparecerá hoje em Oslo para receber o original. Não porque não saiba "nada sobre o prémio", mas pela comezinha razão de que os seus carcereiros não o deixam ir (nem a ele, nem à mulher, nem a nenhum amigo).
Não comparecerão igualmente, além da China, mais 18 países: Afeganistão, Arábia Saudita, Cazaquistão, Colômbia, Cuba, Egipto, Filipinas, Irão, Iraque, Marrocos, Paquistão, Rússia, Sérvia, Sudão, Tunísia, Ucrânia, Vietname e Venezuela. Tudo boa gente, justamente reputada por ser grande consumidora de direitos humanos (de direitos humanos "made in China", naturalmente).
13 de Dezembro - No outro dia, um amigo estrangeiro de um amigo meu sugeriu um livro que falta no panorama editorial: "Portugal for dummies". Traduzo: "Portugal para totós". Um título mais naquela colecção de livros técnicos de capa amarela que explicam coisas complexas. Na verdade, o título é enganador. Portugal tem tantas idiossincrasias que nem mesmo os mais inteligentes e cultos politólogos o entendem. Experimentem explicar, por exemplo, a um americano, o sistema semipresidencial português. Quais as funções do presidente da República? Árbitro? Moderador? E que poder tem, de facto? Difícil, não? Daí, a ideia do livro, que faria jeito, aposto, mesmo a quem nos conhece bem. Por exemplo, nós próprios.
O momento presente seria ideal para a publicação de um livro destes. Ideal para exemplos vividos e recentes. Toda a gente de bom senso já percebeu que o actual momento político-económico é tão difícil que precisa de uma maioria governativa, e, no actual cenário, de uma coligação onde os interesses do país estejam à frente de todos os outros. Apesar dessa clarividência - expressa desta vez por Luís Amado, este fim-de-semana, em entrevista ao "Expresso" - nenhum dos partidos do arco governamental aceita dar esse passo. Ah, e tal, o PSD está à espera de ganhar as próximas eleições, e o PS não pode dar parte de fraco... e vai atirando as responsabilidades para o lado... Pois, tudo isso é muito bonito como joguinho político, se não estivesse a empenhar o nosso futuro como país.
Um livro como o "Portugal for Dummies" podia explicar, precisamente, por que é que as coligações são corriqueiras, por exemplo, na Alemanha e na Inglaterra, e em Portugal parecem impossíveis. A explicação passaria certamente por algo bem pouco nobre: os partidos têm como fundo de comércio os lugares, funções e dependências do Estado que obtêm quando chegam ao poder, para distribuir pelas suas bases. Sendo assim, o único objectivo de um partido português é... ganhar eleições. De preferência, sozinho.
Tudo isto funciona bem em duas circunstâncias: quando os tempos são de vacas gordas ou quando há maiorias. O pior problema é quando há minorias em tempos de vacas magras. Aí, os governos ficam maus. Ou de mãos atadas porque não conseguem fazer passar medidas, ou eleitoralistas - se bem que esta é uma tendência de todos os governos, mesmo os de maioria, porque quando as têm já sabem que as perdem com medidas difíceis, daí estarem sempre a pensar nas próximas eleições.
E, como o sistema português não obriga a maiorias, nem as forma automaticamente, o que acontece é que ... andamos sempre nisto. Com um olho no burro e outro no cigano, para explicar bem a situação a verdadeiros totós. Totós que somos nós todos: temos um sistema político que nos prejudica, a nós, que o inventámos e que através dele nos regulamos. E nada fazemos para o mudar.
Portugal precisa, portanto, de um "Portugal para totós". A falta desse livro deve explicar, em parte, o facto de as agências internacionais de rating continuarem a dar-nos na cabeça, mesmo depois de haver um acordo orçamental entre os dois maiores partidos portugueses, e de o Orçamento propor cortes e mais cortes e nenhum deles convencer quem nos avalia os nossos empréstimos. Outra hipótese é terem-no percebido bem de mais: que os dois partidos, PS e PSD, são, afinal, duas faces da mesma moeda. E que muito pouco vai mudar enquanto continuarmos neste jogo de roda bota fora.
Nova Aliança, 23 / 12 / 2010
A crise, as praxes e uma lição de vida
22 de Novembro – As notícias são hoje, infelizmente, quase diárias ("Cinco mil famílias em lista de espera para receber apoio alimentar de instituições"; "Classe média está a chegar à sopa dos pobres"...) e, nelas, alguns poucos parágrafos davam conta ontem do apelo do arcebispo de Braga aos párocos para que dêem um "sinal sacerdotal" e prescindam do salário de um mês para acudir "àqueles que, cada vez mais, não têm o mínimo para sobreviver". "Trata-se - diz o arcebispo - de colocar em questão este modelo económico e acreditar que a solidariedade tem capacidade para dar dignidade a todos".
A obra assistencial da Igreja, juntamente com a de instituições como o Banco Alimentar ou as Misericórdias, é hoje a última fronteira da esperança de muitas dezenas de milhares de famílias que a "crise" (é difícil escrever a palavra sem aspas quando a Banca, poupada aos "sacrifícios para todos", continua a lucrar milhões por dia) atirou para a fome e a miséria. E todos os dias se ouvem apelos da parte do clero à solidariedade. Mas é a primeira vez que um bispo vem louvavelmente lembrar que, "na partilha, os sacerdotes não podem pôr-se de lado".
Neste contexto, seria bom a própria Igreja não se pôr de lado e decidir-se a prescindir de uma pequeníssima parte dos rendimentos do Santuário de Fátima a favor "daqueles que, cada vez mais, não têm o mínimo para sobreviver".
26 de Novembro – No Outono, com o cair da folha e o início do ano lectivo, começam a ver-se por aí, onde existam universidades e aparentados, os habituais espectáculos de bandos de imberbes caloiros apascentados por não menos imberbes "doutores" ministrando-lhes todo o tipo de boçalidades e indignidades que a rasca imaginação lhes permite, com o devido enquadramento de bebedeiras, comas alcoólicos e música pimba que ilustram o nível moral e intelectual não só dos futuros caixas de supermercado da Nação mas igualmente das escolas que os formam.
Todos os anos a história se repete mas pelos vistos ninguém aprende. Pôr jovens estudantes de joelhos e obrigá-los a suportar com um sorriso nos lábios as prepotências dos mais velhos é, alega-se, uma forma de "integrar" os alunos recém-chegados na vida e no espírito universitários. E, Deus nos valha, se calhar é. Não restem dúvidas de que, de tal ponto de vista, as universidades cumprem até à excelência a missão que, de há uns tempos para cá, alegremente pretendem assumir, não de lugares de estudo e investigação, mas de fornecedores de mão-de-obra qualificada (na circunstância em despotismo e docilidade acrítica) ao mundo empresarial e do trabalho.
2 de Dezembro – Por falar na universidade, no ensino e no mercado de trabalho, esta é uma história que todos os pais deveriam ler à noite aos filhos para que eles possam aprender que, ao contrário do que professores antiquados ainda ensinam na escola, não é com estudo e trabalho, ou com mérito, que se vai longe na vida.
Pedro era um petiz de palmo e meio e frequentava o ensino secundário. Vivia com o pai, funcionário do PS, numa casa da Câmara de Lisboa pagando 48 euros de renda. Cedo percebeu que, se tirasse um curso superior, decerto acabaria como caixa de supermercado e, miúdo esperto, rapidamente deixou as aulas e se tornou, como o pai, funcionário partidário. Obviamente estava lançado na vida. Algum tempo depois, rescindiu o contrato e, assim desempregado "por motivo de reestruturação, viabilização ou recuperação da empresa [o PS], quer por a empresa se encontrar em situação económica difícil", obteve do IEFP 40 mil euros de subsídios para a criação da sua própria empresa - que nem precisou de ter actividade - e do seu próprio posto de trabalho. Meteu os subsídios ao bolso e arranjou "o seu próprio posto de trabalho" na Câmara de Lisboa a ganhar 3950 euros por mês como assessor político (o que quer que isso seja) de uma vereadora do PS.
O "Público", que traz a história do jovem Pedro, hoje com 26 anos e um grande futuro político pela frente, sugere que ela é ilegal e imoral. Deixará de ser quando quem faz as leis fizer também a moral. Não tardará muito.
Nova Aliança, 9 / 12 / 2010
A obra assistencial da Igreja, juntamente com a de instituições como o Banco Alimentar ou as Misericórdias, é hoje a última fronteira da esperança de muitas dezenas de milhares de famílias que a "crise" (é difícil escrever a palavra sem aspas quando a Banca, poupada aos "sacrifícios para todos", continua a lucrar milhões por dia) atirou para a fome e a miséria. E todos os dias se ouvem apelos da parte do clero à solidariedade. Mas é a primeira vez que um bispo vem louvavelmente lembrar que, "na partilha, os sacerdotes não podem pôr-se de lado".
Neste contexto, seria bom a própria Igreja não se pôr de lado e decidir-se a prescindir de uma pequeníssima parte dos rendimentos do Santuário de Fátima a favor "daqueles que, cada vez mais, não têm o mínimo para sobreviver".
26 de Novembro – No Outono, com o cair da folha e o início do ano lectivo, começam a ver-se por aí, onde existam universidades e aparentados, os habituais espectáculos de bandos de imberbes caloiros apascentados por não menos imberbes "doutores" ministrando-lhes todo o tipo de boçalidades e indignidades que a rasca imaginação lhes permite, com o devido enquadramento de bebedeiras, comas alcoólicos e música pimba que ilustram o nível moral e intelectual não só dos futuros caixas de supermercado da Nação mas igualmente das escolas que os formam.
Todos os anos a história se repete mas pelos vistos ninguém aprende. Pôr jovens estudantes de joelhos e obrigá-los a suportar com um sorriso nos lábios as prepotências dos mais velhos é, alega-se, uma forma de "integrar" os alunos recém-chegados na vida e no espírito universitários. E, Deus nos valha, se calhar é. Não restem dúvidas de que, de tal ponto de vista, as universidades cumprem até à excelência a missão que, de há uns tempos para cá, alegremente pretendem assumir, não de lugares de estudo e investigação, mas de fornecedores de mão-de-obra qualificada (na circunstância em despotismo e docilidade acrítica) ao mundo empresarial e do trabalho.
2 de Dezembro – Por falar na universidade, no ensino e no mercado de trabalho, esta é uma história que todos os pais deveriam ler à noite aos filhos para que eles possam aprender que, ao contrário do que professores antiquados ainda ensinam na escola, não é com estudo e trabalho, ou com mérito, que se vai longe na vida.
Pedro era um petiz de palmo e meio e frequentava o ensino secundário. Vivia com o pai, funcionário do PS, numa casa da Câmara de Lisboa pagando 48 euros de renda. Cedo percebeu que, se tirasse um curso superior, decerto acabaria como caixa de supermercado e, miúdo esperto, rapidamente deixou as aulas e se tornou, como o pai, funcionário partidário. Obviamente estava lançado na vida. Algum tempo depois, rescindiu o contrato e, assim desempregado "por motivo de reestruturação, viabilização ou recuperação da empresa [o PS], quer por a empresa se encontrar em situação económica difícil", obteve do IEFP 40 mil euros de subsídios para a criação da sua própria empresa - que nem precisou de ter actividade - e do seu próprio posto de trabalho. Meteu os subsídios ao bolso e arranjou "o seu próprio posto de trabalho" na Câmara de Lisboa a ganhar 3950 euros por mês como assessor político (o que quer que isso seja) de uma vereadora do PS.
O "Público", que traz a história do jovem Pedro, hoje com 26 anos e um grande futuro político pela frente, sugere que ela é ilegal e imoral. Deixará de ser quando quem faz as leis fizer também a moral. Não tardará muito.
Nova Aliança, 9 / 12 / 2010
O senhor do adeus, as tatuagens e Pilar
9 de Novembro - Chamava-se João Serra e tinha por hábito acenar aos carros e os carros que, divertidos e agradecidos, lhe acenavam de volta. Uma forma de amaciar a solidão, dizia ele, que assim amaciava a nossa: encontrá-lo era uma secreta alegria; uma suspensão da realidade; um toque de irrisão na rotina das rotinas. É por isso que, hoje, qualquer assunto dominante sobre as misérias da política perde todo o sentido. Pausa. O momento pede um último adeus ao fantasma do Saldanha.
11 de Novembro – A tatuagem está na moda. Cantores, novos e velhos, projectos de actor, novos e velhos, entram-nos diariamente em casa com uns riscos no corpo. Como explicar essa epidemia de tatuagens que transforma o nosso mundo num retorno à pré-história, com muitos ‘modelos’ feitos pinturas rupestres?
Um nome possível é Norbert Elias (1897 - 1990), o grande historiador da França pré-revolucionária, que nas obras sobre a "sociedade da corte" disserta com talento inultrapassável sobre a forma como a nobreza sempre se procurou distinguir da populaça circundante.
Conta Elias, sobretudo em "O Processo Civilizacional", que as elites procuravam essa distinção pela busca de novos e refinados símbolos (nos adereços, no vestuário, nos comportamentos). Só depois a plebe corria atrás, procurando imitar e, pela imitação, "nobilitando-se". A ascensão social fazia-se por imitação social, ou seja, por imitação "superior".
As tatuagens representam uma pequena revolução civilizacional. Pela primeira vez em toda a história social do Ocidente, a classe média procura distinguir-se por imitação "inferior": se os nossos antepassados olhavam para cima, os nossos contemporâneos olham para baixo. Para as marcas tangíveis, carnais, inapagáveis de roqueiros ou marginais, como se essa descida fosse uma forma paradoxal de ascensão.
O problema desses movimentos miméticos é que eles acabam sempre por atingir estágios de estagnação, onde é necessário encontrar novas marcas distintivas - não é por acaso, escreve Elias, que Paris se foi refinando continuamente: uma vez imitada pela plebe, a nobreza partia em busca de novos códigos exclusivos que por sua vez acabariam por ser imitados, e abandonados, e trocados por outros. "Ad infinitum".
Hoje, a imitação "inferior" bateu contra o mesmo tipo de parede - e a tatuagem, que era a exceção na paisagem, passou a ser regra. Difícil não é ter ou ver uma tatuagem. Difícil é não ter ou não ver.
O que significa que, mais cedo ou mais tarde, não será de excluir que, à nossa volta, comecem a aparecer indivíduos com ossos no nariz, em imitação de uma qualquer tribo primitiva e, de preferência, assaz remota e assaz exclusiva.
Uma civilização que já olhou para cima e para baixo para se "nobilitar" socialmente, talvez encontre novos caminhos de distinção olhando para longe.
16 de Novembro – Com a morte de Saramago, Pilar, a viúva, ganha uma visibilidade diferente. Ela sempre lá esteve mas agora ‘vê-se’ mais. E continua-o. A sua voz espanhola lendo um livro de Saramago, sobreposta na voz portuguesa de José - é um artifício da montagem do filme "José e Pilar", mas é também a vida real, duas vozes coladas uma na outra, duas línguas entrelaçadas como as mãos que se agarram várias vezes durante a vida e durante um documentário que merece todos os elogios. O tempo urge e a doença reduz a voz do escritor, ameaçando-o com a morte, com a impossibilidade de escrever mais, de amar ainda mais. Saramago tem muita graça, mesmo muita, como quando, cansado da correria mediática, propõe a história do escritor que mata jornalistas em série. Como um casal, Pilar e José discordam um do outro no banco traseiro do carro ou discutem por causa de Hillary e Obama. Como um par de namorados, ela apoia-se na porta do quarto de hospital de José, triste e irritada com os jornais que querem escrever um obituário precoce. Quando ele diz: "Se eu tivesse morrido antes de conhecer Pilar teria morrido muito mais velho." Pensamos que talvez só o amor impeça a morte. Talvez por isso José diga que quer que Pilar o continue. O escritor que vivia desassossegado e escrevia para desassossegar também diz, sozinho e apaixonado, para a câmara: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio." E nós acreditamos, nós só podemos acreditar.
Nova Aliança, 25 / 11 / 2010
11 de Novembro – A tatuagem está na moda. Cantores, novos e velhos, projectos de actor, novos e velhos, entram-nos diariamente em casa com uns riscos no corpo. Como explicar essa epidemia de tatuagens que transforma o nosso mundo num retorno à pré-história, com muitos ‘modelos’ feitos pinturas rupestres?
Um nome possível é Norbert Elias (1897 - 1990), o grande historiador da França pré-revolucionária, que nas obras sobre a "sociedade da corte" disserta com talento inultrapassável sobre a forma como a nobreza sempre se procurou distinguir da populaça circundante.
Conta Elias, sobretudo em "O Processo Civilizacional", que as elites procuravam essa distinção pela busca de novos e refinados símbolos (nos adereços, no vestuário, nos comportamentos). Só depois a plebe corria atrás, procurando imitar e, pela imitação, "nobilitando-se". A ascensão social fazia-se por imitação social, ou seja, por imitação "superior".
As tatuagens representam uma pequena revolução civilizacional. Pela primeira vez em toda a história social do Ocidente, a classe média procura distinguir-se por imitação "inferior": se os nossos antepassados olhavam para cima, os nossos contemporâneos olham para baixo. Para as marcas tangíveis, carnais, inapagáveis de roqueiros ou marginais, como se essa descida fosse uma forma paradoxal de ascensão.
O problema desses movimentos miméticos é que eles acabam sempre por atingir estágios de estagnação, onde é necessário encontrar novas marcas distintivas - não é por acaso, escreve Elias, que Paris se foi refinando continuamente: uma vez imitada pela plebe, a nobreza partia em busca de novos códigos exclusivos que por sua vez acabariam por ser imitados, e abandonados, e trocados por outros. "Ad infinitum".
Hoje, a imitação "inferior" bateu contra o mesmo tipo de parede - e a tatuagem, que era a exceção na paisagem, passou a ser regra. Difícil não é ter ou ver uma tatuagem. Difícil é não ter ou não ver.
O que significa que, mais cedo ou mais tarde, não será de excluir que, à nossa volta, comecem a aparecer indivíduos com ossos no nariz, em imitação de uma qualquer tribo primitiva e, de preferência, assaz remota e assaz exclusiva.
Uma civilização que já olhou para cima e para baixo para se "nobilitar" socialmente, talvez encontre novos caminhos de distinção olhando para longe.
16 de Novembro – Com a morte de Saramago, Pilar, a viúva, ganha uma visibilidade diferente. Ela sempre lá esteve mas agora ‘vê-se’ mais. E continua-o. A sua voz espanhola lendo um livro de Saramago, sobreposta na voz portuguesa de José - é um artifício da montagem do filme "José e Pilar", mas é também a vida real, duas vozes coladas uma na outra, duas línguas entrelaçadas como as mãos que se agarram várias vezes durante a vida e durante um documentário que merece todos os elogios. O tempo urge e a doença reduz a voz do escritor, ameaçando-o com a morte, com a impossibilidade de escrever mais, de amar ainda mais. Saramago tem muita graça, mesmo muita, como quando, cansado da correria mediática, propõe a história do escritor que mata jornalistas em série. Como um casal, Pilar e José discordam um do outro no banco traseiro do carro ou discutem por causa de Hillary e Obama. Como um par de namorados, ela apoia-se na porta do quarto de hospital de José, triste e irritada com os jornais que querem escrever um obituário precoce. Quando ele diz: "Se eu tivesse morrido antes de conhecer Pilar teria morrido muito mais velho." Pensamos que talvez só o amor impeça a morte. Talvez por isso José diga que quer que Pilar o continue. O escritor que vivia desassossegado e escrevia para desassossegar também diz, sozinho e apaixonado, para a câmara: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio." E nós acreditamos, nós só podemos acreditar.
Nova Aliança, 25 / 11 / 2010
17.11.10
Carta a um Professor e o desportivismo nos anos 50
3 de Novembro - "Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, por cada vilão há um herói, que por cada egoísta há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que por cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o, também, perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales.
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando está triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.
Eu sei que estou a pedir muito, mas veja que pode fazer, caro professor".
É uma carta de 1830, de Abraham Lincon ao professor do filho que começava a aprendizagem. Um texto certo, lindíssimo, um exemplo de vida. De muitas vidas, sem data e com destinatário: nós, todos.
7 de Novembro – Procurar nos arquivos traz muitas curiosidades. Na véspera de um Porto-Benfica, em Dezembro de 1953, O Porto, jornal do F.C.Porto, escrevia o seguinte“Portistas, vem aí o Benfica. É claro que os vamos receber como ele merece: à moda do Porto. Os encarnados do sul vêm de longada até à Cidade Invicta encher de alegria os olhos dos desportistas tripeiros. Que vença, Deus o permita, o nosso glorioso clube. É legítimo. Que os bravos benfiquistas nos perdoem a tripeira fraqueza. ..Nada de hipocrisias, porque os dois baluartes do futebol nacional já habituaram de tal maneira os seus adeptos à exibição plena das mais nobres virtudes da ética desportiva…”
O Porto ganhou e o jornal O Benfica de 14 de Janeiro de 1954 escrevia:“Ganhou o Porto. Foi naquela tarde o melhor. Mas também soube pôr na vitória o timbre da firmeza e educação que só os atletas de elite possuem. Perdeu o Benfica. Mas nem por isso saiu diminuído da contenda. Deixou no belo estádio o perfume da sua categoria de grande equipa, grande na maneira de jogar, enorme na forma como soube aceitar a derrota”.
Reconhecem este desportivismo nos tempos presentes?
Nova Aliança, 11 de Novembro de 2010
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando está triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.
Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.
Eu sei que estou a pedir muito, mas veja que pode fazer, caro professor".
É uma carta de 1830, de Abraham Lincon ao professor do filho que começava a aprendizagem. Um texto certo, lindíssimo, um exemplo de vida. De muitas vidas, sem data e com destinatário: nós, todos.
7 de Novembro – Procurar nos arquivos traz muitas curiosidades. Na véspera de um Porto-Benfica, em Dezembro de 1953, O Porto, jornal do F.C.Porto, escrevia o seguinte“Portistas, vem aí o Benfica. É claro que os vamos receber como ele merece: à moda do Porto. Os encarnados do sul vêm de longada até à Cidade Invicta encher de alegria os olhos dos desportistas tripeiros. Que vença, Deus o permita, o nosso glorioso clube. É legítimo. Que os bravos benfiquistas nos perdoem a tripeira fraqueza. ..Nada de hipocrisias, porque os dois baluartes do futebol nacional já habituaram de tal maneira os seus adeptos à exibição plena das mais nobres virtudes da ética desportiva…”
O Porto ganhou e o jornal O Benfica de 14 de Janeiro de 1954 escrevia:“Ganhou o Porto. Foi naquela tarde o melhor. Mas também soube pôr na vitória o timbre da firmeza e educação que só os atletas de elite possuem. Perdeu o Benfica. Mas nem por isso saiu diminuído da contenda. Deixou no belo estádio o perfume da sua categoria de grande equipa, grande na maneira de jogar, enorme na forma como soube aceitar a derrota”.
Reconhecem este desportivismo nos tempos presentes?
Nova Aliança, 11 de Novembro de 2010
A lição do Chile
14 de Outubro – A lição que recebemos
Podemos dizer que se trata de uma frase feita. Podemos dizer que nem sempre se verifica mas a ‘tal’ frase impossível - o Natal é quando o homem quiser - calhou ontem, 13 de Outubro. O cântico foi da velha chilena Violeta Parra: ‘Gracias a la vida’. Os presentes vinham num embrulho em forma de cápsula que ia e vinha e trazia sempre as mesmas letras e sempre certas: Fénix.
Quem tira os minerais do fundo da terra? Quem passa lá uma vida inteira? Quem destrói o corpo em busca do salário mensal? E esses presentes eram tão raros que muitos os deu como desaparecidos. Quem levantou os grandes monumentos? Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta a Muralha da China? A grande Roma está cheia de arcos de triunfo - quem os levantou?
Perguntas antigas, que ontem tiveram resposta, tiveram nomes. Florencio Ávalos, Carlos Mamani, Jimmy Sánchez, Victor Zamora, Esteban Rojas e mais vinte e oito iguais. Ontem, chorávamos todos, o filho do Florencio, a loira da Sky News, o solitário no café da aldeia.
Ontem, um dos danados da terra e desapossados de nome, mal ganhou nome, Mário Sepúlveda, o segundo da dinastia dos 33, falou por ele e por todos - cumprindo as palavras de Violeta Parra: ‘El canto de todos que es mi proprio canto’. Pousou o bornal e tirou dele pedaços de rocha que arrancou à mina, que distribuiu. E depois disse isso em palavras: "Não me tratem como artista, sou Mário, o trabalhador mineiro." Só…
15 de Outubro – Ainda o Chile
Todos seguimos a transmissão televisiva com maior audiência da história: 33 mineiros soterrados a 700 metros de profundidade regressaram, 69 dias depois, à luz e à vida. Como escreve Hernán Letelier, a história do deserto de Atacama está coroada de tragédias como um largo muro coroado de vidros quebrados: greves, marchas da fome, acidentes fatais, mineiros mortos em inconcebíveis massacres. Mas no passado dia 13 o que se viu foi o triunfo da vida, da resistência humana, a recusa da rendição a um desfecho que parecia inevitável, o engenho científico e tecnológico ao serviço de 33 mineiros pobres e desconhecidos e o mundo inteiro suspenso por esse arrojo em que se lançaram o presidente chileno, os poderosos detentores da tecnologia de ponta e os 33 homens soterrados vivos e que, rapidamente, contagiou o mundo inteiro.
Esta operação, sumamente complexa e teoricamente nunca pensada, foi posta em prática com a precisão de um cronómetro, sem precipitações, sem erros, sem falhas. Tornou-se um ponto de honra comum à humanidade, sobrepondo-se à secura dos corações, ao conformismo e à indiferença fruto dos atributos da cultura utilitarista dos nossos dias, assente no individualismo, na ganância, no desprezo pelos mais pobres e mais fracos e no desvalor da vida humana. A história da mina de San José é, também por isso, uma revolução cultural.
Não foi apenas um resgate - o que por si já seria muito - mas um cuidar activo e eficaz conseguido com muita tecnologia, engenho e arte, criando em escassos 800 metros simulações da luz do dia para controlar os biorritmos, a temperatura e o grau de humidade, introduzindo sondas para enviar provisões, rádios e material de primeiros socorros e até pastilhas elástica com nicotina para aliviar os fumadores, para além de livros e um projector para verem filmes e futebol. O resto, um enorme resto, chama--se resistência humana, liderança activa e disciplina espiritual. Mario Sepúlveda, o mineiro que fez a vezes de jornalista nas gravações de vídeo filmadas a 700 metros de profundidade, disse quando chegou ao mundo dos vivos "Estive com Deus e estive com o Diabo, e ganhou Deus. Agarrei-me à melhor mão." Os 33 homens apareceram com uma T-shirt onde se lia "gracias, Señor".
Este final feliz, arrancado à sua própria improbabilidade, culmina um tempo sobre o qual os mineiros estabeleceram um pacto de silêncio entre si: nenhum falará sobre os outros. Ainda que seja provável que um dia se escreva um best-seller ou se realize um filme sobre esta história, boa de mais para ser verdadeira, eles não querem ser os protagonistas. Tudo ficou 700 metros abaixo do solo, e percebemos porquê. Nenhuma história pode ser tão íntima na trama com que foi tecida como a de esta extraordinária convivência. Nada pode operar transformações tão profundas no interior de cada homem como o fio do tempo - 69 dias - no qual se penduraram as fraquezas e as forças, a fé e o desespero, o medo e a coragem, o pior e o melhor de cada um daqueles seres humanas que a tragédia desnudou até ao tutano da alma.
Alberto Urzúa Iribarren, "Don Lucho" como lhe chamaram dentro e fora da mina, foi o último a sair como compete a quem assumiu ser o chefe natural daquele grupo logo após a primeira avalanche. Organizou grupos e rações: "Duas colherinhas de atum por dia, para cada um", disse. Enquanto, cá fora, Piñera fazia esta afirmação lapidar: "Procurámo-los como filhos. Encontrámo-los com a ajuda de Deus. Resgatámo-los como chilenos."
Nova Aliança, 28 de Outubro de 2010
Podemos dizer que se trata de uma frase feita. Podemos dizer que nem sempre se verifica mas a ‘tal’ frase impossível - o Natal é quando o homem quiser - calhou ontem, 13 de Outubro. O cântico foi da velha chilena Violeta Parra: ‘Gracias a la vida’. Os presentes vinham num embrulho em forma de cápsula que ia e vinha e trazia sempre as mesmas letras e sempre certas: Fénix.
Quem tira os minerais do fundo da terra? Quem passa lá uma vida inteira? Quem destrói o corpo em busca do salário mensal? E esses presentes eram tão raros que muitos os deu como desaparecidos. Quem levantou os grandes monumentos? Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta a Muralha da China? A grande Roma está cheia de arcos de triunfo - quem os levantou?
Perguntas antigas, que ontem tiveram resposta, tiveram nomes. Florencio Ávalos, Carlos Mamani, Jimmy Sánchez, Victor Zamora, Esteban Rojas e mais vinte e oito iguais. Ontem, chorávamos todos, o filho do Florencio, a loira da Sky News, o solitário no café da aldeia.
Ontem, um dos danados da terra e desapossados de nome, mal ganhou nome, Mário Sepúlveda, o segundo da dinastia dos 33, falou por ele e por todos - cumprindo as palavras de Violeta Parra: ‘El canto de todos que es mi proprio canto’. Pousou o bornal e tirou dele pedaços de rocha que arrancou à mina, que distribuiu. E depois disse isso em palavras: "Não me tratem como artista, sou Mário, o trabalhador mineiro." Só…
15 de Outubro – Ainda o Chile
Todos seguimos a transmissão televisiva com maior audiência da história: 33 mineiros soterrados a 700 metros de profundidade regressaram, 69 dias depois, à luz e à vida. Como escreve Hernán Letelier, a história do deserto de Atacama está coroada de tragédias como um largo muro coroado de vidros quebrados: greves, marchas da fome, acidentes fatais, mineiros mortos em inconcebíveis massacres. Mas no passado dia 13 o que se viu foi o triunfo da vida, da resistência humana, a recusa da rendição a um desfecho que parecia inevitável, o engenho científico e tecnológico ao serviço de 33 mineiros pobres e desconhecidos e o mundo inteiro suspenso por esse arrojo em que se lançaram o presidente chileno, os poderosos detentores da tecnologia de ponta e os 33 homens soterrados vivos e que, rapidamente, contagiou o mundo inteiro.
Esta operação, sumamente complexa e teoricamente nunca pensada, foi posta em prática com a precisão de um cronómetro, sem precipitações, sem erros, sem falhas. Tornou-se um ponto de honra comum à humanidade, sobrepondo-se à secura dos corações, ao conformismo e à indiferença fruto dos atributos da cultura utilitarista dos nossos dias, assente no individualismo, na ganância, no desprezo pelos mais pobres e mais fracos e no desvalor da vida humana. A história da mina de San José é, também por isso, uma revolução cultural.
Não foi apenas um resgate - o que por si já seria muito - mas um cuidar activo e eficaz conseguido com muita tecnologia, engenho e arte, criando em escassos 800 metros simulações da luz do dia para controlar os biorritmos, a temperatura e o grau de humidade, introduzindo sondas para enviar provisões, rádios e material de primeiros socorros e até pastilhas elástica com nicotina para aliviar os fumadores, para além de livros e um projector para verem filmes e futebol. O resto, um enorme resto, chama--se resistência humana, liderança activa e disciplina espiritual. Mario Sepúlveda, o mineiro que fez a vezes de jornalista nas gravações de vídeo filmadas a 700 metros de profundidade, disse quando chegou ao mundo dos vivos "Estive com Deus e estive com o Diabo, e ganhou Deus. Agarrei-me à melhor mão." Os 33 homens apareceram com uma T-shirt onde se lia "gracias, Señor".
Este final feliz, arrancado à sua própria improbabilidade, culmina um tempo sobre o qual os mineiros estabeleceram um pacto de silêncio entre si: nenhum falará sobre os outros. Ainda que seja provável que um dia se escreva um best-seller ou se realize um filme sobre esta história, boa de mais para ser verdadeira, eles não querem ser os protagonistas. Tudo ficou 700 metros abaixo do solo, e percebemos porquê. Nenhuma história pode ser tão íntima na trama com que foi tecida como a de esta extraordinária convivência. Nada pode operar transformações tão profundas no interior de cada homem como o fio do tempo - 69 dias - no qual se penduraram as fraquezas e as forças, a fé e o desespero, o medo e a coragem, o pior e o melhor de cada um daqueles seres humanas que a tragédia desnudou até ao tutano da alma.
Alberto Urzúa Iribarren, "Don Lucho" como lhe chamaram dentro e fora da mina, foi o último a sair como compete a quem assumiu ser o chefe natural daquele grupo logo após a primeira avalanche. Organizou grupos e rações: "Duas colherinhas de atum por dia, para cada um", disse. Enquanto, cá fora, Piñera fazia esta afirmação lapidar: "Procurámo-los como filhos. Encontrámo-los com a ajuda de Deus. Resgatámo-los como chilenos."
Nova Aliança, 28 de Outubro de 2010
Acreditar na Constituição, o Caso Casa Pia e a leitura dos indicadores económicos
14 de Setembro – Devemos acreditar na Constituição?
O Público dá hoje destaque na 1ª Página a uma reportagem cujo tema é “Quanto custa educar um filho?”. Não se percebe de que estão a falar. A Constituição diz que cabe ao Estado estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino e a criação de uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população. Educar um filho é, 35 anos após a gloriosa revolução de Abril, totalmente gratuito.
Andam a propagar a mentira de que o futebolista José Torres terá tido dificuldades financeiras no fim da vida, agravados pelo facto de sofrer de Alzheimer. Não pode ser verdade porque a Constituição portuguesa garante que o direito à protecção da saúde é realizado através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito.
Será impressão minha ou a Constituição anda-nos a enganar?
16 de Setembro – O que sabemos do processo Casa Pia.
Terá terminado o processo Casa Pia? Se descontarmos os recursos que aí vêm, parece que sim. Será que se fez justiça? Tirando melhor opinião, parece que sim, e exactamente do modo que a opinião pública desejava. Não é verdade que, antes da leitura da sentença, todos os inquiridos, anónimos ou não, afirmavam querer que a dita justiça se fizesse? E acrescentavam, por palavras meias ou inteiras, esperar que os arguidos fossem condenados, o que sugere que a justiça não tinha muita escolha e não se teria feito em caso de absolvição.
Não sei, não posso realmente saber, o que sucedeu nas referidas casas de Elvas e de Lisboa, e não sei se o sucedido envolveu os sujeitos apontados pelas testemunhas e agora confirmados pelo tribunal. Mas sei algumas coisas: sei que se mandou em paz a senhora que, na opinião dos juízes, era a anfitriã dos presumidos regabofes e logo conheceria cada um dos respectivos participantes; sei que o julgamento foi adiado para o dia seguinte a duas sucessivas, e relevantes, alterações ao Código Penal; sei que os condenados não ficaram detidos e que um deles andou, com ou sem advogado furioso a tiracolo, a insultar o tribunal que assim decidira frente às câmaras de tudo quanto é estação; sei que o julgamento demorou seis inacreditáveis anos; sei que a confiança que os poderes judiciais inspiram no momento em que o processo Casa Pia termina não é idêntica à que inspiravam no momento em que começou; sei que o processo Casa Pia é menos causa do que consequência deste desgraçado, e talvez irremediável, estado das coisas; sei que, por isto e por aquilo, já não se consegue fazer justiça em Portugal sem espalhar a proverbial sombra de uma dúvida. E sei que a alegria de muitos face à condenação de meia dúzia de suspeitos contrasta com a indignação de uns tantos enquanto, até certa altura, houve um sétimo e peculiar suspeito no rol. Quem? Vocês sabem de quem eu estou a falar…
29 de Setembro – Ainda teremos memória?
É bom não esquecer que: 25 de Novembro de 2009 Sócrates garantiu que não aumentaria impostos; a 8 de Março de 2010 Sócrates vangloriou-se: “O mais fácil seria aumentar impostos”; a 12 de Maio de 2010 Sócrates estava satisfeito com o crescimento no primeiro trimestre; a 6 de Junho de 2010 Sócrates garantiu que o mais recente aumento de impostos era suficiente; a 2 de Julho de 2010 Sócrates dizia que o crescimento do desemprego vai continuar a abrandar ; a 13 de Agosto de 2010 Sócrates garantia que o crescimento do PIB no segundo trimestre consiste num “sinal de grande encorajamento e confiança para a recuperação da economia portuguesa”; a 24 de Agosto de 2010 Sócrates afirmava que o crescimento da economia portuguesa, entre Janeiro e Junho, foi o dobro do previsto pelo Governo; a 29 de Setembro de 2010 Sócrates anuncia o segundo aumento de impostos do ano e decreta mais um roubo na função pública. Perante tal “responsabilidade”, “coerência” e “competência”, é fácil seguir o seu raciocínio:
1. De entre os indicadores disponíveis, escolher os mais favoráveis.
2. Entre a variação homóloga e a trimestral escolher a mais favorável.
3. Se todos os indicadores pioram, escolher os que pioram menos que os dos restantes países europeus.
4. Se um dado indicador é pior que os dos restantes países europeus, comparar com as previsões do governo/FMI/Bando de Portugal.
5. De entre várias previsões (União europeia/FMI/Bando de Portugal), escolher a mais favorável ao governo.
6. Se o desemprego aumenta, atribuir o aumento à sazonalidade.
7. Se o desemprego diminui, destacar as políticas do governo.
8. Se os dados estatísticos são desfavoráveis, alegar que estão desactualizados e que os dados mais recentes vão provar que o governo está no bom caminho.
9. Se um indicador for desfavorável atacar a credibilidade da fonte.
10. Justificar os maus indicadores com factores que não dependem do governo (crise internacional, preço do petróleo, desvalorização do euro, valorização do euro).
11. Se um indicador piora ligeiramente, alegar que estabilizou. Se melhora ligeiramente falar em retoma sustentada.
12. Evitar gráficos que dêem uma visão global dos indicadores, excepto quando os gráficos são favoráveis.
13. Se os resultados de curto e médio prazo são desfavoráveis, citar a tendência de longo prazo.
Nova Aliança, 14 de Outubro de 2010
O Público dá hoje destaque na 1ª Página a uma reportagem cujo tema é “Quanto custa educar um filho?”. Não se percebe de que estão a falar. A Constituição diz que cabe ao Estado estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino e a criação de uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população. Educar um filho é, 35 anos após a gloriosa revolução de Abril, totalmente gratuito.
Andam a propagar a mentira de que o futebolista José Torres terá tido dificuldades financeiras no fim da vida, agravados pelo facto de sofrer de Alzheimer. Não pode ser verdade porque a Constituição portuguesa garante que o direito à protecção da saúde é realizado através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito.
Será impressão minha ou a Constituição anda-nos a enganar?
16 de Setembro – O que sabemos do processo Casa Pia.
Terá terminado o processo Casa Pia? Se descontarmos os recursos que aí vêm, parece que sim. Será que se fez justiça? Tirando melhor opinião, parece que sim, e exactamente do modo que a opinião pública desejava. Não é verdade que, antes da leitura da sentença, todos os inquiridos, anónimos ou não, afirmavam querer que a dita justiça se fizesse? E acrescentavam, por palavras meias ou inteiras, esperar que os arguidos fossem condenados, o que sugere que a justiça não tinha muita escolha e não se teria feito em caso de absolvição.
Não sei, não posso realmente saber, o que sucedeu nas referidas casas de Elvas e de Lisboa, e não sei se o sucedido envolveu os sujeitos apontados pelas testemunhas e agora confirmados pelo tribunal. Mas sei algumas coisas: sei que se mandou em paz a senhora que, na opinião dos juízes, era a anfitriã dos presumidos regabofes e logo conheceria cada um dos respectivos participantes; sei que o julgamento foi adiado para o dia seguinte a duas sucessivas, e relevantes, alterações ao Código Penal; sei que os condenados não ficaram detidos e que um deles andou, com ou sem advogado furioso a tiracolo, a insultar o tribunal que assim decidira frente às câmaras de tudo quanto é estação; sei que o julgamento demorou seis inacreditáveis anos; sei que a confiança que os poderes judiciais inspiram no momento em que o processo Casa Pia termina não é idêntica à que inspiravam no momento em que começou; sei que o processo Casa Pia é menos causa do que consequência deste desgraçado, e talvez irremediável, estado das coisas; sei que, por isto e por aquilo, já não se consegue fazer justiça em Portugal sem espalhar a proverbial sombra de uma dúvida. E sei que a alegria de muitos face à condenação de meia dúzia de suspeitos contrasta com a indignação de uns tantos enquanto, até certa altura, houve um sétimo e peculiar suspeito no rol. Quem? Vocês sabem de quem eu estou a falar…
29 de Setembro – Ainda teremos memória?
É bom não esquecer que: 25 de Novembro de 2009 Sócrates garantiu que não aumentaria impostos; a 8 de Março de 2010 Sócrates vangloriou-se: “O mais fácil seria aumentar impostos”; a 12 de Maio de 2010 Sócrates estava satisfeito com o crescimento no primeiro trimestre; a 6 de Junho de 2010 Sócrates garantiu que o mais recente aumento de impostos era suficiente; a 2 de Julho de 2010 Sócrates dizia que o crescimento do desemprego vai continuar a abrandar ; a 13 de Agosto de 2010 Sócrates garantia que o crescimento do PIB no segundo trimestre consiste num “sinal de grande encorajamento e confiança para a recuperação da economia portuguesa”; a 24 de Agosto de 2010 Sócrates afirmava que o crescimento da economia portuguesa, entre Janeiro e Junho, foi o dobro do previsto pelo Governo; a 29 de Setembro de 2010 Sócrates anuncia o segundo aumento de impostos do ano e decreta mais um roubo na função pública. Perante tal “responsabilidade”, “coerência” e “competência”, é fácil seguir o seu raciocínio:
1. De entre os indicadores disponíveis, escolher os mais favoráveis.
2. Entre a variação homóloga e a trimestral escolher a mais favorável.
3. Se todos os indicadores pioram, escolher os que pioram menos que os dos restantes países europeus.
4. Se um dado indicador é pior que os dos restantes países europeus, comparar com as previsões do governo/FMI/Bando de Portugal.
5. De entre várias previsões (União europeia/FMI/Bando de Portugal), escolher a mais favorável ao governo.
6. Se o desemprego aumenta, atribuir o aumento à sazonalidade.
7. Se o desemprego diminui, destacar as políticas do governo.
8. Se os dados estatísticos são desfavoráveis, alegar que estão desactualizados e que os dados mais recentes vão provar que o governo está no bom caminho.
9. Se um indicador for desfavorável atacar a credibilidade da fonte.
10. Justificar os maus indicadores com factores que não dependem do governo (crise internacional, preço do petróleo, desvalorização do euro, valorização do euro).
11. Se um indicador piora ligeiramente, alegar que estabilizou. Se melhora ligeiramente falar em retoma sustentada.
12. Evitar gráficos que dêem uma visão global dos indicadores, excepto quando os gráficos são favoráveis.
13. Se os resultados de curto e médio prazo são desfavoráveis, citar a tendência de longo prazo.
Nova Aliança, 14 de Outubro de 2010
6.10.10
A Gripe A e a estação tonta
3 de Setembro – Lembram-se da gripe A? Fizeram-se avisos, assustaram-nos de morte, obrigaram-nos a lavar as mãos em todos os compartimentos onde entrássemos. Ora, há poucas semanas e ainda não totalmente satisfeita, a Organização Mundial de Saúde avisava oficialmente, pela enésima vez, que a gripe A não terminara. E fundamentava o parecer. Para o especialista britânico John Oxford, por exemplo, a "segunda vaga" da gripe vinha a caminho e com redobrado vigor. A vacinação, referiu o dr. Oxford, é essencial. Para o português Francisco George, o H1N1 iria "com certeza" regressar e "ser responsável por nova actividade epidémica". As pessoas, referiu o dr. George, devem continuar a vacinar-se. A despropósito, note-se que o dr. Oxford é o responsável científico de um importante laboratório de investigação de vacinas e que o dr. George é um dos rostos do sistema de saúde que gastou, perdão, investiu dezenas de milhões nas ditas, ainda assim uma pequenina parcela dos 5 mil milhões gastos, perdão, investidos globalmente.
Agora, pela voz da sua directora, a OMS admite que a gripe, afinal, acabou, com um saldo de vítimas algumas vezes inferior ao da gripe comum e muitas vezes inferior ao previsto. Ao decreto do fim, a dra. Margaret Chan acrescentou uma curiosa constatação: "O mundo teve sorte."
Não digo que não seja verdade, mas sorte de facto teve a OMS, que andou um ano e tal a incitar ao pânico e, após se provar o absurdo do incitamento, mantém inexplicáveis pretensões à credibilidade. E quem diz a OMS diz a imprensa, os investigadores com e sem aspas, os governantes e restantes elementos da brigada do medo, que no mínimo há um par de décadas assustam a humanidade com epidemias e cataclismos que, contas feitas, dão em nada ou em quase nada. Das vacas malucas às aves engripadas, passando, fora do zoológico, pelo "bug" do milénio ou pelo aquecimento global, os tempos recentes têm sido uma sucessão de desgraças anunciadas e nunca verificadas.
Felizmente. Excepto pelo receio de que as massas, as exactas massas que têm entrado em histeria a cada alarme falso, um dia ignorem um alarme verdadeiro. A julgar pelas evidências, Pedro pode gritar "Lobo!" tanto quanto quiser que surgiremos sempre a acudir ao rebanho. Isto na presunção de que o rebanho são os outros.
8 de Setembro – Sabemos todos que o Verão é, por designação, a estação tonta. E existem vários exemplos que o comprovam. O ministro da Defesa, Santos Silva, anunciou que Portugal vai ter espiões no Afeganistão e no Líbano. Se fosse dia 1 de Abril o ministro teria um bom pretexto para sair de uma história bizarra, barricando-se na mentirinha de 1 de Abril.
Ninguém lhe levaria a mal uma brincadeira, ainda que tola. Afinal de contas ninguém deve ter o monopólio da tolice. Um ministro, mesmo da Defesa, que tem obrigação de transportar a pose de Estado em cada gesto, em cada passo, tem direito a dizer umas coisas fora do baralho. Desde que, claro, o que disser não prejudique outras pessoas. Ora, no caso vertente, o ministro deverá ser o primeiro a saber que esse tipo de coisas – anunciar a criação de ‘estações’ de espiões em cenários de guerra – dificilmente se enquadra em matéria anunciável.
É certo que o Governo não resiste a uma ‘novidadezita’, mas dizer à malta da al-Qaeda que vamos mandar uns espiões para as miras de tiro ou para o raio de expansão das bombas deles é obra. A CIA já pagou, amargamente, a factura da mera presença no teatro de guerra. Mas a CIA, poder--se-á sempre argumentar, é um alvo global com mais de 50 anos. Pois, mas, mais à nossa escala, também os espanhóis, italianos e polacos pagaram a factura de lá estarem. E esses nem anunciaram...
P.S. Não me esqueci da sentença da Casa Pia. A seu tempo lá irei.
Nova Aliança, 16 / 9 / 2010
Agora, pela voz da sua directora, a OMS admite que a gripe, afinal, acabou, com um saldo de vítimas algumas vezes inferior ao da gripe comum e muitas vezes inferior ao previsto. Ao decreto do fim, a dra. Margaret Chan acrescentou uma curiosa constatação: "O mundo teve sorte."
Não digo que não seja verdade, mas sorte de facto teve a OMS, que andou um ano e tal a incitar ao pânico e, após se provar o absurdo do incitamento, mantém inexplicáveis pretensões à credibilidade. E quem diz a OMS diz a imprensa, os investigadores com e sem aspas, os governantes e restantes elementos da brigada do medo, que no mínimo há um par de décadas assustam a humanidade com epidemias e cataclismos que, contas feitas, dão em nada ou em quase nada. Das vacas malucas às aves engripadas, passando, fora do zoológico, pelo "bug" do milénio ou pelo aquecimento global, os tempos recentes têm sido uma sucessão de desgraças anunciadas e nunca verificadas.
Felizmente. Excepto pelo receio de que as massas, as exactas massas que têm entrado em histeria a cada alarme falso, um dia ignorem um alarme verdadeiro. A julgar pelas evidências, Pedro pode gritar "Lobo!" tanto quanto quiser que surgiremos sempre a acudir ao rebanho. Isto na presunção de que o rebanho são os outros.
8 de Setembro – Sabemos todos que o Verão é, por designação, a estação tonta. E existem vários exemplos que o comprovam. O ministro da Defesa, Santos Silva, anunciou que Portugal vai ter espiões no Afeganistão e no Líbano. Se fosse dia 1 de Abril o ministro teria um bom pretexto para sair de uma história bizarra, barricando-se na mentirinha de 1 de Abril.
Ninguém lhe levaria a mal uma brincadeira, ainda que tola. Afinal de contas ninguém deve ter o monopólio da tolice. Um ministro, mesmo da Defesa, que tem obrigação de transportar a pose de Estado em cada gesto, em cada passo, tem direito a dizer umas coisas fora do baralho. Desde que, claro, o que disser não prejudique outras pessoas. Ora, no caso vertente, o ministro deverá ser o primeiro a saber que esse tipo de coisas – anunciar a criação de ‘estações’ de espiões em cenários de guerra – dificilmente se enquadra em matéria anunciável.
É certo que o Governo não resiste a uma ‘novidadezita’, mas dizer à malta da al-Qaeda que vamos mandar uns espiões para as miras de tiro ou para o raio de expansão das bombas deles é obra. A CIA já pagou, amargamente, a factura da mera presença no teatro de guerra. Mas a CIA, poder--se-á sempre argumentar, é um alvo global com mais de 50 anos. Pois, mas, mais à nossa escala, também os espanhóis, italianos e polacos pagaram a factura de lá estarem. E esses nem anunciaram...
P.S. Não me esqueci da sentença da Casa Pia. A seu tempo lá irei.
Nova Aliança, 16 / 9 / 2010
Os incêndios e os casamentos gay
15 de Agosto – Os tempos vão estranhos. No ano passado, o mérito pela escassez de incêndios cabia ao Governo e não a um Verão particularmente fresco e húmido. Este ano, a culpa pela devastação em curso é do calor tórrido, dos criminosos, dos negligentes e do "aquecimento global": não é do Governo. Aparentemente, como em tantos outros aspectos, a acção preventiva do poder reflecte-se nos sucessos, não nos fracassos.
Mistérios à parte, a verdade é que o País voltou a arder e as cabeças encarregadas de o pensar também. Em países normais, impedir a calamidade discute-se antes da calamidade acontecer. Aqui discute-se durante a dita, embora não se trate do típico "casa roubada, trancas na porta", não senhor: em Portugal, debate-se o tipo de tranca enquanto a casa está a ser roubada. Depois de consumado o roubo, a porta continua aberta.
As trancas, corrijo, as medidas de prevenção sugeridas são inúmeras. A minha preferida é a do ministro da Agricultura, que deseja nacionalizar os terrenos abandonados. No universo peculiar do senhor António Serrano, obviamente habilitadíssimo para a pasta que carrega, as matas e florestas do Estado encontram-se limpas, vigiadas e pura e simplesmente não ardem. Eis o contributo mais original desde que um ministro do PSD – recordam-se? - atribuiu a origem dos fogos às granadas que os ex-combatentes trouxeram do Ultramar.
Ainda que sem o talento natural do dr. António Serrano, que ponderadamente pediu a 6 deste mês uma avaliação do Plano Nacional de Defesa da Floresta aprovado em 2006, as luminárias restantes fazem o que podem em matéria de desnorte. O ministro da Administração Interna compara, todo contente, a quantidade de área queimada com a equivalente de 2003 e declara-se preocupado com "a segurança das pessoas", uma evidência se por "pessoas" entendermos ele próprio, e por "segurança" a sua manutenção no cargo. Um secretário de Estado do Ambiente ciranda a anunciar "meios aéreos". O Presidente da República e o primeiro-ministro interrompem com pompa as respectivas férias mas, desrespeitosamente, as labaredas não interrompem o respectivo trabalho. E a ministra da Educação prossegue o encerramento em massa das escolas rurais e deixa cada aldeia entregue a três (ou quatro) velhinhas, assunto que nada tem a ver com os incêndios e por cuja invocação peço desculpa.
22 de Agosto – Sinal dos tempos, o casamento recente de um escritor português com o companheiro motivou uma ou outra notícia de jornal, uma ou outra coluna de opinião e uma razoável quantidade de sentimentalismo na Internet. Ora, como não se tratou do primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo, que sempre tinha o efeito da novidade, estranhei que tantos órgãos de comunicação e tantos comunicadores individuais imitassem a imprensa dos mexericos. E estranhei sobretudo que a comoção orientasse quase todos os desabafos.
A questão reside no facto de, ao contrário do que sucede no jornalismo dito "social", os autores dos desabafos em questão serem, ou parecem ser, esquerdistas convictos, daquela esquerda que gastou décadas a ridicularizar o matrimónio "burguês". Verifico divertido que, pelos vistos, bastou alterar a orientação sexual para que o que antes era ridículo se transformasse numa celebração do amor puro e irredutível. Num ápice, o formalismo opressor do "papel" passou a atestado indispensável de maioridade cívica e a motivo para lágrimas de alegria.
Será agora isto a igualdade? A igualdade que esteve no centro das reivindicações do casamento gay implicaria, agora que este se consumou em sentido lato, que se alargasse o enxovalho aos gays que cederam às "convenções" e à moralidade "tradicional".
Nova Aliança, 2 / 9 / 2010
Mistérios à parte, a verdade é que o País voltou a arder e as cabeças encarregadas de o pensar também. Em países normais, impedir a calamidade discute-se antes da calamidade acontecer. Aqui discute-se durante a dita, embora não se trate do típico "casa roubada, trancas na porta", não senhor: em Portugal, debate-se o tipo de tranca enquanto a casa está a ser roubada. Depois de consumado o roubo, a porta continua aberta.
As trancas, corrijo, as medidas de prevenção sugeridas são inúmeras. A minha preferida é a do ministro da Agricultura, que deseja nacionalizar os terrenos abandonados. No universo peculiar do senhor António Serrano, obviamente habilitadíssimo para a pasta que carrega, as matas e florestas do Estado encontram-se limpas, vigiadas e pura e simplesmente não ardem. Eis o contributo mais original desde que um ministro do PSD – recordam-se? - atribuiu a origem dos fogos às granadas que os ex-combatentes trouxeram do Ultramar.
Ainda que sem o talento natural do dr. António Serrano, que ponderadamente pediu a 6 deste mês uma avaliação do Plano Nacional de Defesa da Floresta aprovado em 2006, as luminárias restantes fazem o que podem em matéria de desnorte. O ministro da Administração Interna compara, todo contente, a quantidade de área queimada com a equivalente de 2003 e declara-se preocupado com "a segurança das pessoas", uma evidência se por "pessoas" entendermos ele próprio, e por "segurança" a sua manutenção no cargo. Um secretário de Estado do Ambiente ciranda a anunciar "meios aéreos". O Presidente da República e o primeiro-ministro interrompem com pompa as respectivas férias mas, desrespeitosamente, as labaredas não interrompem o respectivo trabalho. E a ministra da Educação prossegue o encerramento em massa das escolas rurais e deixa cada aldeia entregue a três (ou quatro) velhinhas, assunto que nada tem a ver com os incêndios e por cuja invocação peço desculpa.
22 de Agosto – Sinal dos tempos, o casamento recente de um escritor português com o companheiro motivou uma ou outra notícia de jornal, uma ou outra coluna de opinião e uma razoável quantidade de sentimentalismo na Internet. Ora, como não se tratou do primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo, que sempre tinha o efeito da novidade, estranhei que tantos órgãos de comunicação e tantos comunicadores individuais imitassem a imprensa dos mexericos. E estranhei sobretudo que a comoção orientasse quase todos os desabafos.
A questão reside no facto de, ao contrário do que sucede no jornalismo dito "social", os autores dos desabafos em questão serem, ou parecem ser, esquerdistas convictos, daquela esquerda que gastou décadas a ridicularizar o matrimónio "burguês". Verifico divertido que, pelos vistos, bastou alterar a orientação sexual para que o que antes era ridículo se transformasse numa celebração do amor puro e irredutível. Num ápice, o formalismo opressor do "papel" passou a atestado indispensável de maioridade cívica e a motivo para lágrimas de alegria.
Será agora isto a igualdade? A igualdade que esteve no centro das reivindicações do casamento gay implicaria, agora que este se consumou em sentido lato, que se alargasse o enxovalho aos gays que cederam às "convenções" e à moralidade "tradicional".
Nova Aliança, 2 / 9 / 2010
As 'intervenções' da cultura e a 'golden share'
23 de Julho - É sempre reconfortante verificar o modo como o dinheiro dos nossos impostos continua a ser gerido. A Cultura é um bom exemplo. José Pacheco Pereira apresenta-nos, na sua coluna da Sábado de hoje, um exemplo notável: a “3ª edição do projecto de intervenção e colaboração do Teatro do Vestido, Esta é a minha Cidade e Eu Quero Viver Nela, em que Joana Craveiro (...) convidou o criador e performer Miguel Bonneville”. O espectáculo tinha entrada livre com a seguinte nota: “Cada intervenção tem a duração aproximada de 15 minutos e uma entrada limitada a 5 pessoas. Recomendamos marcação prévia”. 5 pessoas, não parece haver gralha. E o que se passa nessa “intervenção”:
“Este espectáculo acontece em dois quartos de hotel com comunicação entre si.(...) . Este espectáculo é sobre estranhos, camas, lençóis sujos, telefones e telefonemas, comunicação, divisão, desencontrarmo-nos uma vez, o Navio Night, estar perdida de noite sem saber o caminho de regresso a casa, ser salvo por alguém, não haver salvação possível, arranjar uma alternativa, portas entreabertas, levantar o chão, cofres atrás de quadros, segredos, a solidão, não é sobre cartas, é sobre o depois das cartas, é uma carta-postal mais do que um telegrama, é sobre ter um lugar num daqueles restaurantes que está aberto a noite inteira e que tem a um canto um casal improvável e nós sozinhos noutro canto, é sobre uma música em específico, a solidão da Gena Rowlands no Opening Night, enganares-te num número, quase conseguir alguma coisa, uma declaração que é feita e para a qual não tens resposta, teres uma sensação de não caberes em lado nenhum, é sobre ele me ter deixado, é sobre acordar várias vezes durante a noite. Este espectáculo é sobre ser português. “
Esta “intervenção” foi apoiada pela Fnac, Internacional Design Hotel, Teatro Nacional D. Maria II e financiado pelo Ministério da Cultura. Eu gosto mesmo é de que “este espectáculo é sobre ser português.
28 de Julho – O acordo entre a PT e a Telefónica obriga a algumas reflexões:
1. A Oi é um activo estratégico de grande importância, um pouco como a insubstituível Vivo o era ainda há 15 dias.
2. Vender a Vivo por 7,5 mil milhões é um grande negócio. Há quinze dias atrás a venda por 7,15 mil milhões era uma asneira tendo em conta o grande potencial da empresa.
3. A Oi é uma empresa de grande potencial. Há 15 dias atrás era uma empresa cheia de problemas cujo potencial não tinha qualquer comparação com o da Vivo.
4. A PT está a vender a Vivo na altura certa. O potencial de crescimento está esgotado. Esgotou-se nos últimos 15 dias.
5. Ser minoritário na Oi não é um problema. Há 15 dias uma posição de controlo da Vivo era essencial.
6. O governo fez muito bem em usar a Golden Share. Conseguiu-se subir o preço e os accionistas privados ganharam. Há 15 dias intervenção estatal era justificada pelo interesse nacional, hoje intervenção estatal é justificada como forma de reforçar o poder de barganha de privados.
7. Se não fosse o uso da Golden Share a PT não tinha entrado na Oi. Há quem acredite nisso.
8. Conseguiu-se vender a Vivo por bom preço e ficar no Brasil. (Falta dizer que a Oi foi cara, o que em parte anula o bom negócio que se fez com a Vivo).
9. Há 15 dias era inaceitável vender a Vivo porque se teria que sair do mercado brasileiro. Entrar noutra empresa seria muito difícil. Ou a Vivo ou o caos. Ao fim de 15 dias trocou-se uma posição de controlo na Vivo por uma minoritária na Oi.
10. E já nem falo nos grandes nacionalistas portugueses, que se contentam com muito pouco. Basta a ilusão de que ser minoritário na Oi é tão bom como controlar a Vivo para os manter felizes. Ficam contentes por mandar menos em menos.
29 de Julho - Os Procuradores do Ministério Público tinham 27 perguntas para fazer ao primeiro-ministro, José Sócrates, no âmbito do processo Freeport mas os prazos impostos pela Procuradoria-Geral da República para o fim do processo inviabilizaram que Sócrates fosse interrogado, avança a edição desta quinta-feira do jornal 'Público'. Isto da falta de tempo também se aplica às restantes alminhas com quem os procuradores queiram falar?
Nova Aliança, 20 / 8 / 2010
“Este espectáculo acontece em dois quartos de hotel com comunicação entre si.(...) . Este espectáculo é sobre estranhos, camas, lençóis sujos, telefones e telefonemas, comunicação, divisão, desencontrarmo-nos uma vez, o Navio Night, estar perdida de noite sem saber o caminho de regresso a casa, ser salvo por alguém, não haver salvação possível, arranjar uma alternativa, portas entreabertas, levantar o chão, cofres atrás de quadros, segredos, a solidão, não é sobre cartas, é sobre o depois das cartas, é uma carta-postal mais do que um telegrama, é sobre ter um lugar num daqueles restaurantes que está aberto a noite inteira e que tem a um canto um casal improvável e nós sozinhos noutro canto, é sobre uma música em específico, a solidão da Gena Rowlands no Opening Night, enganares-te num número, quase conseguir alguma coisa, uma declaração que é feita e para a qual não tens resposta, teres uma sensação de não caberes em lado nenhum, é sobre ele me ter deixado, é sobre acordar várias vezes durante a noite. Este espectáculo é sobre ser português. “
Esta “intervenção” foi apoiada pela Fnac, Internacional Design Hotel, Teatro Nacional D. Maria II e financiado pelo Ministério da Cultura. Eu gosto mesmo é de que “este espectáculo é sobre ser português.
28 de Julho – O acordo entre a PT e a Telefónica obriga a algumas reflexões:
1. A Oi é um activo estratégico de grande importância, um pouco como a insubstituível Vivo o era ainda há 15 dias.
2. Vender a Vivo por 7,5 mil milhões é um grande negócio. Há quinze dias atrás a venda por 7,15 mil milhões era uma asneira tendo em conta o grande potencial da empresa.
3. A Oi é uma empresa de grande potencial. Há 15 dias atrás era uma empresa cheia de problemas cujo potencial não tinha qualquer comparação com o da Vivo.
4. A PT está a vender a Vivo na altura certa. O potencial de crescimento está esgotado. Esgotou-se nos últimos 15 dias.
5. Ser minoritário na Oi não é um problema. Há 15 dias uma posição de controlo da Vivo era essencial.
6. O governo fez muito bem em usar a Golden Share. Conseguiu-se subir o preço e os accionistas privados ganharam. Há 15 dias intervenção estatal era justificada pelo interesse nacional, hoje intervenção estatal é justificada como forma de reforçar o poder de barganha de privados.
7. Se não fosse o uso da Golden Share a PT não tinha entrado na Oi. Há quem acredite nisso.
8. Conseguiu-se vender a Vivo por bom preço e ficar no Brasil. (Falta dizer que a Oi foi cara, o que em parte anula o bom negócio que se fez com a Vivo).
9. Há 15 dias era inaceitável vender a Vivo porque se teria que sair do mercado brasileiro. Entrar noutra empresa seria muito difícil. Ou a Vivo ou o caos. Ao fim de 15 dias trocou-se uma posição de controlo na Vivo por uma minoritária na Oi.
10. E já nem falo nos grandes nacionalistas portugueses, que se contentam com muito pouco. Basta a ilusão de que ser minoritário na Oi é tão bom como controlar a Vivo para os manter felizes. Ficam contentes por mandar menos em menos.
29 de Julho - Os Procuradores do Ministério Público tinham 27 perguntas para fazer ao primeiro-ministro, José Sócrates, no âmbito do processo Freeport mas os prazos impostos pela Procuradoria-Geral da República para o fim do processo inviabilizaram que Sócrates fosse interrogado, avança a edição desta quinta-feira do jornal 'Público'. Isto da falta de tempo também se aplica às restantes alminhas com quem os procuradores queiram falar?
Nova Aliança, 20 / 8 / 2010
As lições do futebol
11 de Julho – Ainda o desporto-rei. O homem que mudou para sempre o destino do futebol espanhol é um tipo meio estranho, daqueles para quem se olha e dificilmente se acredita que está ali um astro dos relvados. Na edição de ontem da “Marca”, Roberto Palomar assinava uma coluna de opinião que retratava o herói do momento: “Visto de perto, Iniesta poderia ser um profissional de qualquer coisa menos de futebol. Podia ser um repositor de fruta ou um funcionário do Ministério da Agricultura. Qualquer coisa, mas nunca futebolista. Limpo de tatuagens, brincos ou pulseiras, pálido como leite, calvo, só se lhe conhecem duas excentricidades: um dia mandou calar Cristiano Ronaldo e agora atreveu-se a mostrar uma camisola com uma mensagem para Dani Jarque.”
De facto, está ali tudo menos o símbolo da estrela dos novos tempos. A subida aos céus de um jogador assim, tão discreto, deve ser uma dor de cabeça para os tubarões do marketing, que devem andar em palpos de aranha para perceber como vão conseguir pôr Iniesta a vender qualquer coisa.
Quando Sara Carbonero o entrevistava, no final do Espanha-Holanda, o jogador do Barcelona ouvia-se a custo e não era por causa das vuvuzelas. O tom de voz de sempre, acabrunhado, quase a pedir desculpa por ali estar. Ontem chegava a ser difícil encontrá-lo nas fotografias de celebração que foram publicadas nos vários jornais espanhóis. Provavelmente, não aprecia grandes festas nem confusões e, por isso, prefere ficar no seu cantinho.
Há pessoas assim: que nasceram para jogar e nada mais. Há cada vez menos, é verdade, mas ainda há. E, para além de jogar, este ainda ganha. Mundial’2010, Euro’2008, duas Ligas dos Campeões (2006 e 2009), quatro campeonatos de Espanha (2004/05; 2005/06; 2008/09; 2009/10), uma Supertaça Europeia (2009), três Supertaças de Espanha (2005, 2006 e 2009), uma Taça do Rei (2008/09) e um Campeonato Mundial de Clubes (2009). Se gostasse de falar, veja-se bem o que Andrés já não teria para contar.
12 de Julho – Os portugueses são assim: optimistas, sonhadores e arrogantes. Mas, por enquanto, uma das máximas do futebol diz que o campeão é sempre justo e esta Espanha merece mais do que todos os outros porque é, indiscutivelmente e sem margem para qualquer discussão, melhor do que todos os outros. Um percalço no primeiro jogo do Mundial não impediu que La Roja fizesse uma campanha fabulosa com constantes demonstrações de força, classe e um futebol capaz de maravilhar e criar unanimidade, porventura a coisa mais difícil de colher no universo futebolístico.
As razões para este fenómeno espanhol não se resumem aos fantásticos jogadores de que dispõe. É muito mais que isso e deveria ser uma lição para Portugal. Depois de terem conseguido acabar com a malapata do “quase” no Euro’2008, os espanhóis mudaram de selecionador mas não mudaram de filosofia. Ao contrário do que sucedeu por cá, Del Bosque foi inteligente e humilde ao ponto de perceber que aquilo que está bem não se muda. Os profissionais competentes e seguros de si não necessitam de suscitar revoluções para darem o cunho pessoal. O técnico espanhol manteve a estrutura, a filosofia e tentou (e conseguiu) aumentar a qualidade, resistindo à pressão e até aos ataques ferozes do bem-sucedido antecessor. Até ao fim foi um gentleman e um profissional de extrema competência e por alguma razão são estes que têm sucesso e não outros.
Uma frase de Del Bosque, ontem depois da vitória na final sobre a Holanda, deve igualmente servir de exemplo para os portugueses. “Os jogadores merecem tudo. Estivemos juntos 50 dias e não houve qualquer problema ou incidente”, afirmou o novo campeão do Mundo. A seleção espanhola está recheada de estrelas mas nenhuma delas se julga acima de todas as outras, puxando unicamente para si os louros na hora das vitórias e a azia nas derrotas. Por isso Iniesta, Xavi e Casillas vão acabar as carreiras como campeões e senhores do futebol.
Com tudo isto, justificar, daqui em diante, o insucesso português com o facto de termos sido eliminados pelos campeões do Mundo é uma patetice e uma aberração. Gracias Espanha, pelo exemplo e pela ajuda para o Mundial’2018.
Nova Aliança, 6 / Agosto / 2010
De facto, está ali tudo menos o símbolo da estrela dos novos tempos. A subida aos céus de um jogador assim, tão discreto, deve ser uma dor de cabeça para os tubarões do marketing, que devem andar em palpos de aranha para perceber como vão conseguir pôr Iniesta a vender qualquer coisa.
Quando Sara Carbonero o entrevistava, no final do Espanha-Holanda, o jogador do Barcelona ouvia-se a custo e não era por causa das vuvuzelas. O tom de voz de sempre, acabrunhado, quase a pedir desculpa por ali estar. Ontem chegava a ser difícil encontrá-lo nas fotografias de celebração que foram publicadas nos vários jornais espanhóis. Provavelmente, não aprecia grandes festas nem confusões e, por isso, prefere ficar no seu cantinho.
Há pessoas assim: que nasceram para jogar e nada mais. Há cada vez menos, é verdade, mas ainda há. E, para além de jogar, este ainda ganha. Mundial’2010, Euro’2008, duas Ligas dos Campeões (2006 e 2009), quatro campeonatos de Espanha (2004/05; 2005/06; 2008/09; 2009/10), uma Supertaça Europeia (2009), três Supertaças de Espanha (2005, 2006 e 2009), uma Taça do Rei (2008/09) e um Campeonato Mundial de Clubes (2009). Se gostasse de falar, veja-se bem o que Andrés já não teria para contar.
12 de Julho – Os portugueses são assim: optimistas, sonhadores e arrogantes. Mas, por enquanto, uma das máximas do futebol diz que o campeão é sempre justo e esta Espanha merece mais do que todos os outros porque é, indiscutivelmente e sem margem para qualquer discussão, melhor do que todos os outros. Um percalço no primeiro jogo do Mundial não impediu que La Roja fizesse uma campanha fabulosa com constantes demonstrações de força, classe e um futebol capaz de maravilhar e criar unanimidade, porventura a coisa mais difícil de colher no universo futebolístico.
As razões para este fenómeno espanhol não se resumem aos fantásticos jogadores de que dispõe. É muito mais que isso e deveria ser uma lição para Portugal. Depois de terem conseguido acabar com a malapata do “quase” no Euro’2008, os espanhóis mudaram de selecionador mas não mudaram de filosofia. Ao contrário do que sucedeu por cá, Del Bosque foi inteligente e humilde ao ponto de perceber que aquilo que está bem não se muda. Os profissionais competentes e seguros de si não necessitam de suscitar revoluções para darem o cunho pessoal. O técnico espanhol manteve a estrutura, a filosofia e tentou (e conseguiu) aumentar a qualidade, resistindo à pressão e até aos ataques ferozes do bem-sucedido antecessor. Até ao fim foi um gentleman e um profissional de extrema competência e por alguma razão são estes que têm sucesso e não outros.
Uma frase de Del Bosque, ontem depois da vitória na final sobre a Holanda, deve igualmente servir de exemplo para os portugueses. “Os jogadores merecem tudo. Estivemos juntos 50 dias e não houve qualquer problema ou incidente”, afirmou o novo campeão do Mundo. A seleção espanhola está recheada de estrelas mas nenhuma delas se julga acima de todas as outras, puxando unicamente para si os louros na hora das vitórias e a azia nas derrotas. Por isso Iniesta, Xavi e Casillas vão acabar as carreiras como campeões e senhores do futebol.
Com tudo isto, justificar, daqui em diante, o insucesso português com o facto de termos sido eliminados pelos campeões do Mundo é uma patetice e uma aberração. Gracias Espanha, pelo exemplo e pela ajuda para o Mundial’2018.
Nova Aliança, 6 / Agosto / 2010
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