16.9.12
Isaltino (outra vez) e as exceções
12 de maio – A propósito do caso Isaltino, reparem bem como se passam as coisas neste país ao nível da justiça: "O requerimento deu entrada no Tribunal da Relação, que deverá pronunciar-se sobre a sua admissibilidade" - até aqui tudo bem - "sendo que a lei estabelece um conjunto de apertados requisitos para que o tribunal aceite" - mau - "Em caso de indeferimento na Relação" - a coisa acaba, certo? Errado. Isso é que era bom - "o arguido terá a possibilidade de recorrer dessa decisão para o Constitucional." - mas quantas vezes se pode recorrer para o Constitucional? - "Em caso contrário" - a coisa acaba? Acaba, não acaba? - "a admissibilidade do recurso será ainda objecto de uma nova avaliação no TC" - n-n-nova avaliação?! Mas acabou de sair de lá!! - "que não fica vinculado pela eventual admissão do recurso pela Relação" - claro que não. Isso seria demasiado fácil - "Uma vez no Palácio Ratton, o apelo pode ser objecto de decisão sumária do juiz relator, se - há sempre um "se" - "a questão a decidir já tiver sido objeto de anterior decisão do TC, ou se" - estão a brincar, certo? - "for julgada manifestamente infundada" - manifestamente infundada. De certeza que a coisa acaba aqui. Não. Esperem. Em que país julgam que estão? - "Dessa decisão sumária o interessado pode também reclamar para a conferência de juízes" - e para o júri dos "Ídolos", imagino.
"No caso de ser admitido o recurso, Isaltino terá um prazo de 30 dias para apresentar alegações" - sim, porque, afinal, ainda só teve meia dúzia de anos para se explicar - "Em apoio das mesmas, poderá apresentar pareceres encomendados a especialistas em Direito Constitucional. O processo vai depois ao Ministério Público junto do TC, que tem mais dez dias" - Ah, ah. Ah, ah, ah-ah-ah - "para se pronunciar, após os quais os juízes dispõem de cinco dias" - aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhh - "para apreciação, a seguir aos quais" - isto acaba, não é? Acaba. Ou bem que o prendem ou bem que o soltam - "é MARCADO O JULGAMENTO".
Eutanásia, por favor. Onde é que eu assino?
16 de maio – O leitor já percebeu por aquilo que vai vendo e ouvindo que Portugal é um país muito especial. Podemos até chamar-lhe o País das Excepções. Afinal, o pagamento da crise não é igual para todos. Já todos o sabemos e não é uma surpresa. Os cortes são só para alguns. Os senhores que comem caviar, que se banham em perfumes, que se passeiam de Bentley e jogam golfe não podem ser prejudicados nas suas vidinhas. Era descaramento a mais do Governo tratar todos de forma igual.
Rapazes bens cheirosos, charmosos e de porte elegante merecem o estatuto de excepção. É justo. Os que vieram ao mundo para sofrer e suportar os sacrifícios é que devem pagar a crise. Pensar de outra forma é revelador de inveja, sentimento mais mesquinho do indivíduo. E se refilarem, porrada neles.
Com o fim do colonialismo, em que tínhamos brancos e negros, agora temos brancos de primeira, segunda e terceira categorias. É a estratificação social mais adequada e proporcional à importância do custo e do cheiro do perfume de cada um. É assim que está o País, cheio de gente que luta sem esperança. Tiram-lhes tudo sem sequer pedir licença. E todos consentem no silêncio do sofrimento.
Para além do estatuto de excepção, o Governo criou uma espécie de apartheid social. Obrigar os homens do caviar a conviver, no mesmo espaço social, com gente que nada tem, mal nutrida e que não é solidária com o estatuto de excepção é de uma violência sem limites e piedade. Só a razão pública pode potenciar a criação de sociedades menos injustas.
Governar é fazer escolhas. As escolhas foram feitas e a lista dos privilegiados, que gozam deste estatuto de excepção, tem crescido.
No Orçamento para a Assembleia da República, aprovado por todos os partidos, os deputados e os funcionários da AR mantêm os subsídios de férias e de Natal em 2012; à semelhança do que se passa na TAP Portugal, para a SATA, para a CGD e para o Banco de Portugal.
Reparem bem: este ano, o Governo autorizou vinte e três empresas e institutos públicos a terem regras mais abertas e flexíveis no que toca às reduções salariais, quer dos trabalhadores, quer dos gestores. Os principais beneficiários das excepções são os administradores de empresas públicas, que levaram muitas delas à ruína financeira.
A lista está a crescer não na medida das necessidades, mas da ganância: CTT, NAV, ANA, Parque Expo, Instituto Nacional de Estatística e Infarmed…
Haja decoro! Nenhuma razão pública justifica esta afronta de excepção na não partilha dos sacrifícios.
É muito injusta a sociedade que estamos a criar.
in Nova Aliança, 6 / 6 / 2012
Mário Soares, Miguel Portas e Marinho Pinto
25 de abril – Há muito tempo que me habituei a declarações sem sentido de Mário Soares. Hoje aconteceu mais uma. Recordo ao leitor que são os nossos impostos que lhe pagam carro, motorista e, aparentemente, multas de trânsito. Pelo seu passado, tem responsabilidades institucionais e o dever de as cumprir. A sua "solidariedade" com os militares de Abril é das atitudes mais vergonhosas da sua longa carreira, e é sobretudo uma hipocrisia do tamanho do défice português. Esse senhor esqueceu-se de certeza que trouxe o FMI para Portugal num dos seus governos. Esqueceu-se também de ter pago os subsídios de Natal aos funcionários públicos em certificados de aforro. Nessa altura, onde é que estava Abril? Mais recentemente, não se cansou de louvar o visionário Sócrates e a sua política desastrosa que nos levou à falência e nos colocou de mão estendida diante da troika. E agora é este senhor que nos vem dar lições de democracia? Por favor, haja alguém que o ajude a passar os seus dias com dignidade.
26 de abril – Não conheci pessoalmente Miguel Portas. Só sabia que era filho de e irmão de. Dizem-me que foi também um político cordato. É bom saber que tinha família notável e que a convicção não obriga à antipatia. Na hora dos obituários – generosos e abundantes, como é costume entre nós - cai bem que se diga bem. Contudo, não havia muitas informações. Os jornais, pelo menos, não as deram. Sabemos que passou pelo PCP e fundou o Bloco de Esquerda. Mas isso não é necessariamente um grande feito. Muitos devem ter feito o mesmo caminho entre as duas forças.
De repente, dei-me conta de um vídeo: "Não consigo compreender como um eurodeputado no dia em que viaja pode receber 300 euros em ajudas de custo, mais o subsídio de distância e mais um subsídio de tempo...", protestava o eurodeputado Miguel Portas, de forma educada (mas não foi só isso que anotei), no Parlamento Europeu, em fevereiro de 2010, já em tempo de crise, onde se acabava de votar um aumento para eles próprios, os eurodeputados. "Temos a obrigação de dar o exemplo e hoje demos um mau exemplo", concluiu ele. Discurso bonito mas isolado. Pelo menos, não me recordo de mais nenhum eurodeputado português com o mesmo tipo de discurso. Ontem, escrevia um correspondente em Bruxelas: "Ele foi o mais ativo na luta contra os privilégios desmesurados dos seus colegas deputados." E alinhava vários exemplos. Ontem, foi pelo texto desse jornalista de um jornal estrangeiro, El Mundo, que eu confirmei a dimensão pública de Miguel Portas. E tive pena que em Portugal o não tivessem escrito.
28 de abril – Gostaria o leitor que alguém lhe chamasse escaravelho do diabo ou mosca morta? Conheço pelo menos uma pessoa que não se importaria. O seu nome? Marinho Pinto, o representante máximo dos advogados.
Tenho a certeza que o bastonário não processará quem o considere um mero inseto ou uma venenosa carraça, sobretudo depois de o termos visto a insultar a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, no programa ‘Conversas Improváveis’ da SIC Notícias.
Como se diz em linguagem jurídica, o momento televisivo deve criar jurisprudência. Se Marinho resolve chamar "barata tonta" a uma senhora, concorde-se ou não com as suas políticas sobre a Justiça, todos temos o direito de chamar sapo ao sr. bastonário. Ou pior. O que quererá ele? Audiência? Deveria concorrer à próxima edição da Casa dos segredos.
2 de maio -Ontem aconteceu qualquer coisa ‘nova’ no País. Nas ruas, as centrais sindicais assinalaram o 1º de Maio com ainda menos gente do que o habitual.
No Pingo Doce, foi ignorado o Dia do Trabalhador e as lojas abriram com uma promoção que atraiu milhares. Nas ruas, protestou-se com pouco eco contra o Governo, no ‘hiper’ as pessoas acotovelaram-se contra a crise. Com confusão, pancada, protestos, caos.
Atenção ao que se passou. Entre o protesto e a barriguinha, desmobilizou-se a luta cívica e venceu a fúria do açambarcamento. Qualquer fósforo mal usado pode mesmo incendiar o nosso pequeno retângulo.
in Nova Aliança, 10 / 5 / 2012
A grande 'festa' da Parque Escolar
15 de abril - O texto de hoje é uma festa. Por três minutos, convido os leitores a esquecer a crise, a troika, os aumentos da gasolina, as contas do supermercado. Provavelmente, quando chegar ao fim, não vai sentir vontade de rir mas… é a vida e a vida é uma festa. A senhora Maria de Lurdes Rodrigues, antiga ministra de José Sócrates, defendeu no Parlamento, com o mesmo humor de qualquer humorista, que o programa Parque Escolar foi "um êxito", não "houve derrapagens", enfim, "foi uma festa para o País". Chamada a explicar no Parlamento as trapalhadas da Parque Escolar, Maria de Lurdes Rodrigues resumiu-as numa frase: "A Parque Escolar foi uma grande festa para o País."
( Como o leitor já reparou, abre-se aqui um parêntesis para ‘ler’ o que vai na imaginação da personagem. Ora, para ela, a cena deve ter-se passado da seguinte forma: Os professores celebravam. As crianças riam. Populares davam vivas aos governantes. As janelas abriram-se para mostrar colchas e rendas vistosas. Agrupamentos de escolas e EB 2/3 abraçavam-se e entoavam cânticos de louvor ao alegado engenheiro Sócrates. Eu própria saí à rua e fiquei tão feliza fim por me juntar à alegria que tomara conta de Portugal inteiro. Fico assim sempre que um desígnio público –lembram-se dos estádios do Euro? - desata a espatifar o dinheiro dos meus impostos e enviar 180 milhões para destino desconhecido. É uma vergonha como se pode dizer mal de tudo isso… Cambada de ingratos e de antipatriotas… Veja-se, por exemplo, as verbas que, a troco de uns candeeiros, desaguaram no arquitecto Siza Vieira. Como a minha ex-colega Isabel Canavilhas bem registou, os candeeiros de autor justificam-se porque Siza Vieira é "um grande artista" e o ambiente nas escolas não pode ser "nivelado por baixo". Esta linha de pensamento obriga-me a aconselhar a decoração das novas salas de aula com originais de Degas e Vermeer, artistas ligeiramente maiores do que Siza Vieira e, sem dúvida, dignos da apreciação dos nossos corpos docente e discente. E digo mais, ensino propriamente dito pode rastejar à vontade, convivemos bem com os currículos anedóticos, a erosão dos padrões de exigência, a indisciplina e a pura violência frequentes nos liceus, até aceitamos bem o baixíssimo nível dos senhores que coloca a tutelar o sector. A única coisa que não posso tolerar é uma escola feia, e quem sugerir ser absurdo gastar fortunas (e desviar fortunas) para embelezar uma inutilidade (e animar clientelas) escandaliza as pessoas de bem. Vamos mas é a aceitar os candeeiros de Siza Vieira e o resto e, em troca, a dispensar as audições parlamentares, que invariavelmente servem para nada ).
Neste ponto, faço questão a fazer notar ao leitor que os parêntesis fecharam, o que significa que agora sou eu que falo e não alguém que delira. A verdade é que uma auditoria à empresa Parque Escolar se revela arrasadora. A crueza dos números do Tribunal de Contas aponta para um agravamento de 337% no custo previsto das obras, ou seja, de 940 milhões em 2007, chegou-se aos 3168 milhões em 2010. Valores que não convencem a dita senhora. Ainda imbuída do mesmo tom festivo, expressa um conceito inovador: "Deixámos uma dívida boa." Não sei se conseguem alcançar a subtileza da expressão… “Dívida boa!!!!!!!!!!!!!”
Já durante a audição a Isabel Alçada, ex-governante que justifica a utilização de mármores e madeiras nobres, a mesma Gabriela Canavilhas defendeu a existência de candeeiros de Siza Vieira nas escolas por se tratar de "um grande artista", acusando a maioria parlamentar de querer "nivelar por baixo".
Miseráveis? Nunca! A ideia é gastar à tripa-forra e quem vier a seguir que pague a conta. Foi por esta linha de raciocínio que agora estamos a penar, e ainda a procissão vai no adro.
Que grande festa.
in Nova Aliança, 26 / 4 / 2012
Millôr Fernandes
30 de Março – Millôr Fernandes era um dos maiores cronistas de língua portuguesa. A sua morte recente deve levar-nos a ler os textos que deixou. Como este, chamado ‘Notas de Um Ignorante’ que aqui deixo transcrito com todo o respeito pelo autor.
“ Entre as coisas que me surpreendem e humilham, figura esta, fundamental, que é a cultura de meus amigos e conhecidos. Não só a cultura no sentido clássico, mas também o conhecimento imediato das coisas e fatos que lhe estão sob os olhos no dia-a-dia da existência. Quem está a meu lado sempre leu mais livros do que eu, conhece mais política do que eu, já esteve em mais países do que eu, já teve mais casos sentimentais do que eu, estudou mais do que eu, praticou e pratica mais esportes. Paro e me pergunto que fiz dos meus anos de vida. Já fui atropelado e sofri alguns acidentes, como explosão, queda e afogamento. Mas entre os acidentados não estou na primeira fila. Tenho vários amigos que já caíram de avião, outros de cavalo, alguns sofreram pavorosos desastres de automóveis, um esteve preso num armário enquanto uma casa (não a dele, é claro!) se incendiava, outro ajudou a salvar o navio Madalena em meio a tremendas ondas que ameaçavam arrebentar sua lancha a todo momento.
Que fiz eu de minha vida? Em matéria de cultura encontro imediatamente quinhentas pessoas, só entre as que eu conheço, que sabem mais línguas do que eu, leram mais, falam melhor e mais logicamente, conhecem mais de teatro e citam com precisão escolas filosóficas, afirmando que tal pensamento pertence a esta e contradiz aquela. Que fiz eu? De esportes ignoro tudo, não sei sequer contar os pontos de vôlei, só assisti até hoje a uma partida de pólo, nunca joguei futebol e quando vou ver esses jogos desse esporte, só consigo reconhecer os jogadores mais famosos. Esqueço o nome de todos, e no domingo seguinte já não sei mais o escore da partida a que assisto neste. Nado mal, corro pedras, jamais consegui me levantar num esqui aquático, não guio lancha, joguei golfe uma vez, tênis seis meses, não entendo de velejar (o que já me causou uma grande humilhação diante de esportivíssimas americanas de quinze anos que me conduziram num passeio lá na terra delas), e, em matéria de mares, nunca lhes sei os ventos e fico parvo com o senso de direção de muitos e muitos de meus amigos que jamais supus tomassem nada de brisa e tufões. Guio, mas o motor de meu carro é para mim um mistério indevassável. Sei apenas abrir o capô e contemplar a máquina, atitude metafísica que até hoje não pôs carro algum em marcha.
Seria eu então um homem dedicado á cultura propriamente dita, aos livros, ao estudo, ao amor da leitura e do pensamento? Não, pois meu pensamento é confuso e minha leitura parca. Conheço homens, dos que não vivem de escrever, que pensam muito melhor do que eu e leram muito mais, sem contar os especialistas, que conhecem livro pelo cheiro.
Entre os que viajam também não sou dos que tenham viajado mais. Com o agravante de que nunca sei bem onde estou, não conheço a distância que vai de Roma a Paris, nem sei se Marselha está ao Sul ou ao Norte da Itália. Fico boquiaberto quando vejo amigos meus apontarem estátuas e falarem sobre os personagens que elas representam com uma facilidade com que falariam de si próprios. Mesmo o conhecimento de nomes, pessoas e fatos adquiridos em viagens eu o esqueço em três semanas. Mas não adianta o leitor querer me consolar, dizendo que talvez eu seja um bonvivã, porque nunca o fui dos maiores, tendo minha vida sido conduzida sempre numa certa disciplina, necessária a quem veio de muito longe. Donde o amigo poderá concluir então que eu sou um trabalhador infatigável, um esforçado, um detonado. E isso também não é verdade porque, com raras exceções, nunca trabalhei demasiadamente e cada vez procuro trabalhar menos, numa conquista ao mesmo tempo prática e filosófica. Bebo? Bebo mal e ocasionalmente. Não sei quando a bebida é boa ou falsificada. Não sei o nome dos vinhos mais triviais e sempre me esqueço qual é o restaurante em que eles fazem um prato que certa vez eu adorei. Por mais jantares a que tenha ido e por melhores alguns lugares que tenha freqüentado, devo sempre esperar que alguém se sirva na minha frente para não pegar o talher errado e o copo idem. Além do que não como muito, nem tenho nenhuma particular predileção por comer. Gosto então da vida calma, sou um praticante da meditação e do ioga? Nunca dos que mais o são. Por outro lado a extrema agitação também não me é familiar.
Que fiz da minha vida? Quando há um acidente de rua, vem-me o pavor de tomar partido, pois nunca tenho realmente a convicção do lado certo. Se fala o mais poderoso eu sou inclinado a ficar de seu lado por uma tendência a defender os que hoje são mais comumente acusados de todos os males, vítimas do tempo. Se fala o mais humilde sinto-me inclinado a defendê-lo por um ancestralismo que me faz seu irmão, por idéias arraigadas que fazem com que todo homem queira lutar instintivamente pelo mais fraco. Por quê? Não sei. Sou bom de guardar nomes, caras, datas? Já disse que não. Sempre esqueço o nome dos conhecidos e troco o dos amigos mais íntimos num fenômeno parifásico que só a loucura mesma explicaria ou então a bobeira nata que Deus me deu. E política meu conhecimento chega ao máximo de saber que o Sr. Plínio Salgado pertence ao PRP, o Brigadeiro à UDN e Jango ao PTB e creio que há alguns outros partidos também. Mas mesmo essas convicções não são inabaláveis e, se alguém me pegar desprevenido e fizer dessas letras e nomes outras combinações, lá vou eu a aceitá-las, embrulhado e tonto, até que outro interlocutor crie para mim novas combinações e novas confusões.
Mas peguem um puro e simples crime e eu nunca sei quem matou a empregada e em meu peito jamais se chegou a criar uma suspeita sólida a respeito do poeta de Minas. Isso, aliás é o máximo a que vou – sei que houve um crime em Minas Gerais, alguém matou alguém. O morto não está na lista de minhas lembranças, não sei de quem se trata. Sei que o indiciado assassino é um poeta, vi sua cara barbada e meio calva em muitos jornais e revistas. Mas meus conhecidos sabem de tudo. As mulheres de meus conhecidos então nem se fala. Que fiz eu de minha vida? – me pergunto de novo, honestamente, com a surpresa e a amargura com que o Senhor perguntava: “Caim, que fizeste de teu irmão?” Pois boêmio não sou, embora tenha gasto milhares de noites solto pelas ruas. Mas os boêmios me consideram um arrivista da boemia assim como os homens cultos me consideram um marginal da cultura. E os esportistas a mesma coisa com relação aos parcos esportes que pratico. Todos com carradas de razão.
E nem a maior parte do meu tempo foi gasta em conquistas amorosas, pois nesse terreno o Porfírio Rubirosa, se me conhecesse, me olharia com o mesmo desprezo com que me olham conhecidos galãs nacionais.
Dessa mente confusa, dessa existência confusa, dessas mal-traçadas-linhas de viver creio que só resta mesmo uma conclusão a que durante anos e anos me recusei por orgulho e vergonha – sou, por natureza e formação, um humorista.”
in Nova Aliança, 12 / 4 / 2012
Política inglesa vs Política portuguesa
24 de março – Lê-se num jornal diário :”O chefe do Governo britânico está sob pressão, na sequência do escândalo de corrupção que envolveu o co-tesoureiro do Partido Conservador e o levou à demissão. (…)
O Partido Trabalhista britânico exigiu a abertura de um inquérito independente para investigar a venda de favores feita em nome do primeiro-ministro David Cameron, embora este tenha negado a existência de financiamentos paralelos no seu Partido e anunciado a abertura de um inquérito interno.
"Todas as doações ao Partido Conservador têm de cumprir os requisitos da lei eleitoral", garantiu David Cameron.
O governante está sob pressão, após a demissão do co-tesoureiro do Partido Conservador Peter Cruddas, na sequência de ter sido filmado pelo "Sunday Times" a oferecer favores do Governo, mediante avultadas doações.
"250 mil libras dá acesso à 'Primeira Liga', que inclui um jantar com o primeiro-ministro, David Cameron, e a oportunidade de poder influenciar a política do Governo", disse Peter Cruddas aos jornalistas do "Sunday Times", que fingiam ser potenciais investidores de um fundo sediado no Liechtenstein.
Cruddas acreditava que o facto de as doações serem oriundas do Liechenstein levava a que passassem despercebidas à luz da lei eleitoral britânica.
"Se não estiverem satisfeitos com alguma coisa, vamos ouvi-los e faremos chegar as vossas questões à comissão política da porta nº 10 de Downing Street", explicava ainda aos jornalistas disfarçados de investidores.
O escândalo levou à demissão do co-tesoureiro do Partido Conservador inglês, que veio pedir desculpa em público pelo sucedido, lamentando "qualquer impressão de impropriedade."
"Que fique claro que nenhum donativo pode influenciar a política ou dar acesso indevido a políticos", disse Peter Cruddas, contrariando aquilo que tinha dito no vídeo.
Em Portugal, pelo que conhecemos da recente experiência portuguesa isto devia passar-se assim:
a) O video não devia ser visto porque era ilegal
b) O título teria vários alegados
c) Várias vozes estariam a bradar contra os péssimos jornais e os péssimos jornalistas que divulgavam o video
d) O conteúdo do video sera considerado matéria privada e o video não seria aceite em inquérito algum
e) Ninguém se demitiria e não só passava por mártir do neoliberalismo e da direita trauliteira como ainda exigia aos seus colegas de partido que defendessem a sua honra
f) Provavelmente teríamos altas figuras deste país a mandar destrur o video, a tentar cortá-lo em fatias com uma tesoura ou a dizer que ele dava vontade rir.
27 de março – Este país é de modas. E quem está na moda hoje é… António Costa. Político profissional há mais de 20 anos, várias funções ocupadas, de deputado a autarca passando por ministro sem que, em nenhuma delas, se lhe reconheça qualquer obra minimamente relevante.
Mas reúne outros requisitos e qualidades de monta para aqueles que julgam que escolhem: é de cor, tem um discurso redondo, é filho e irmão de jornalistas. Quanto baste para ser o melhor candidato de sempre a qualquer coisa de topo, seja a presidência da República ( já imaginaram a suprema felicidade de também termos um Obama? ) ou a “insegura” liderança do PS. Assim de repente, lembro-me da ocasião em que estalou a ‘bomba’ Casa Pia e o cavalheiro foi ‘alegadamente’ apanhado nas escutas a fazer tráfico de influências junto de tudo o que era juiz e ministro da justiça, secretários de estado….para libertar o seu camarada de partido.
Com candidatos a cargos de topo desta envergadura, é fácil vaticinar a trajetória de Portugal :
1º Continuação de um estado enorme, altamente corrupto onde os governantes negoceiam contratos ruinosos para o estado e altamente lucrativos e sem risco para certas empresas , para onde saltam como administradores e outros cargos após alguns anos (poucos) de nojo.
2º Continuação do estimulo á pobreza, colocando entraves ao investimento, à iniciativa e ao trabalho bem como incentivando e subsidiando empresas falidas ou inviáveis.
3º Continuação duma carga de impostos de tal maneira elevados que impedem a produção e a viabilidade de muitas iniciativas.
4º Continuação de subsídios diversos, mantendo a ociosidade de uma mole imensa de potenciais votantes nesses candidatos.
5º Continuação da produção de leis que protejem essencialmentes estas “elites” governantes que, ao contrário da restante população que empobrece, enriquece com rendas vitalicias pagas pelo estado e lugares em empresas que previamente beneficiaram ou empresas públicas ou universidades ‘manhosas’, etc.
6º A justiça continuará igual, incapaz de castigar um corrupto, um grande ladrão ou um grande vigarista.
in Nova Aliança, 30 / 3 / 2012
Os 'dinossauros' autárquicos e a nossa justiça
3 de Março - Nas próximas eleições autárquicas, alguns dos chamados ‘dinossauros’ do poder autárquico irão tentar ser reeleitos, apesar de a lei de limitação de mandatos o proibir expressamente. Já não no seu concelho, mas emigrando para o município vizinho. Nascerá agora a figura do presidente de câmara emigrante, ainda por cima emigrante ilegal.
A lei de limitação de mandatos é clara, determinando que "o presidente de câmara municipal só pode ser eleito para três mandatos consecutivos". E "não pode assumir aquelas funções durante o quadriénio imediatamente subsequente ao último mandato consecutivo permitido".
Mas, sem surpresa, os partidos vêm agora reinterpretar a lei no sentido contrário ao do seu espírito. Como o líder distrital do PS de Bragança, que disse que "um presidente não se pode recandidatar caso tenha concluído três mandatos com o mesmo colégio eleitoral. Mas se houver mudança de colégio eleitoral, o PS entende que essa pessoa pode candidatar-se".
Mais uma vez, sobrepõe-se a lógica dos aparelhos partidários. Como irão findar o seu terceiro mandato cerca de cento e setenta presidentes de câmara que passarão à situação de desempregados políticos, os partidos tentam encontrar uma solução para estes seus caciques.
Colocá-los em lugares de topo da administração pública provocaria enorme contestação, como aliás se verificou com a nomeação de Manuel Frexes para a presidência da Águas de Portugal.
A lei de limitação de mandatos foi pensada para impedir ligações perigosas e continuadas a alguns poderes económicos num dado concelho. Mas se for em dois concelhos, parece já não haver problema. Com este estratagema, vão espalhar o mal pelas aldeias, a bem dos caciques locais.
6 de Março - Quem roube um polvo num supermercado, uma galinha ou uns pacotes de leite, pode ser julgado, condenado e preso. Já aos que estão envolvidos em fraude fiscal, crime económico ou corrupção, nada acontece. Alguns são até eleitos deputados e uns quantos condecorados no 10 de Junho.
Como diz a ministra da Justiça, "há uma justiça para pobres e outra para os ricos". E estes passam completamente impunes pelo sistema judicial português. De facto, é mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha do que um rico entrar numa cadeia portuguesa.
Ciente disto, a ministra resolveu dar um sinal de que iria haver mais igualdade na justiça, vindo anunciar que os pequenos furtos iriam ser menos perseguidos pelos tribunais. Deixarão de ser crime público e passarão a ser investigados apenas se houver acusação particular da parte dos lesados.
Um sinal perigoso, em minha opinião. A ministra deveria promover uma moralização, lutando para que os grandes burlões fossem perseguidos, acusados, julgados e presos. Mas fez exactamente o contrário. Em vez de democratizar a justiça, propõe-se é generalizar a injustiça e até a roubalheira.
As consequências desta medida serão tremendas. A impunidade anunciada irá provocar o aumento da pequena criminalidade. E o comerciante de rua estará em muitos maus lençóis. Enquanto as grandes superfícies poderão contratar seguranças, promover a acusação dos assaltantes e acompanhar os processos com os seus advogados, não será assim com o pequeno comércio. Sem apoio jurídico, sem meios, sem capacidade de promover a referida acusação particular, o comércio de proximidade estará à mercê do saque. Alguns comerciantes irão ficar mais pobres do que os vadios que os assaltam.
in Nova Aliança, 16 / 3 / 2012
A justiça espanhola, os grupos económicas e os velhos que morrem sozinhos
17 de fevereiro - Em 15 dias, a Justiça espanhola arrumou o processo de Sara Norte. A portuguesa foi detida em 6 de Fevereiro, em Tarifa, no Sul de Espanha, quando chegava de Marrocos com 800 gramas de haxixe no estômago.
Ontem, Sara foi condenada a 16 meses de cadeia. Uma decisão rápida e eficaz – porque foi possível à defesa e à acusação chegarem a um acordo sancionado por um juiz: fez-se justiça e poupou-se tempo e dinheiro com um longo julgamento. Por cá, é tudo mais lento, mas nem por isso mais racional: 15 dias depois ainda o processo não teria merecido a atenção do Ministério Público – e nem acusação havia. A nossa Justiça insiste em deixar-se enrolar em velhas teias que lhe tiram lucidez.
20 de fevereiro – A crise para eles não existe. Até hoje, cativam uma parte significativa do orçamento de estado, à custa do qual se habituaram a enriquecer. Beneficiam de rendas das parcerias público-privadas da saúde, como acontece com o grupo Mello ou Espírito Santo. Recebem milhões pelo pagamento de juros da dívida pública. Obtêm concessões em monopólio, como acontece com a Brisa, detentora, por autorização governamental, das auto-estradas de Porto a Lisboa.
Os favores que recebem do estado têm revestido as mais diversas formas. No tempo do fascismo, obtinham licenças num regime de condicionamento industrial, em que só os amigos do regime podiam criar empresas. O seu domínio sobre a economia e a política vem dos tempos da monarquia, onde pontificava o conde do Cartaxo, antepassado da família Mello. Já os Espírito Santo descendem do poderoso conde de Rendufe.
Assim, estes grupos conseguiram trazer até ao século XXI, incólume, a lógica feudal, a tradição de atribuição de prebendas aos poderosos. Com uma diferença. Enquanto no tempo do feudalismo o rei atribuía privilégios que consistiam na doação de benefícios económicos (terras), a par de poder político (títulos), hoje apenas se concedem favores económicos. Assim, estes grupos mantêm o poder sem os incómodos do escrutínio democrático. Sabem que mais importante do que ter o poder na mão é ter a mão no poder. Até porque sempre influenciaram a política. Conseguiram-no no tempo de Salazar, através do fascínio que Ricardo Espírito Santo exercia sobre o ditador. Em democracia, contratam políticos de todas as tendências. Eanistas como Henrique Granadeiro, socialistas como Manuel Pinho ou social-democratas como Catroga.
Neste jogo democrático viciado, os cidadãos são hoje como os servos da gleba de outrora, mas agora sob a forma de contribuintes usurpados. E reféns do sistema vigente, que muitos chamam de neoliberalismo, mas que não é novo nem é liberal. É apenas a manutenção do velho feudalismo e eles vivem felizes..
26 de fevereiro – Infelizmente, o mundo não gira de forma igual para todos. Quando uma crise desafia o futuro colectivo de um povo não há muito espaço para outras angústias. Essa angústia maior de um futuro que se dissipa tende a monopolizar a estrutura emocional de toda a gente. Nestes tempos, porém, em que tudo se mede pela lógica do dinheiro, dos cortes e da austeridade, convém não ignorar o que nos coloca perante o mais essencial da vida. Ontem, duas irmãs de 74 e 80 anos foram descobertas mortas em casa, há várias semanas, no centro de Lisboa. Idosas, doentes, sem família, sem nada. Sem um pingo de ajuda ou de preocupação de um Estado cada vez mais exíguo, cada vez mais um mero suporte de uma elite endinheirada e longínqua do povo. Este é, cada vez mais, o nosso mundo.
in Nova Aliança, 2 / 3 / 2012
Os espertos, os funcionários públicos e Fernando Assis Pacheco
4 de Fevereiro – Os portugueses são realmente pessoas engraçadas. Anda agora toda a gente muito exaltada, acirrada, enervada devido a uma frase inócua de Pedro Passos Coelho, porque ousou pedir que não fossemos piegas. Caiu o Carmo e a Trindade e parece que entrámos no domínio do delírio.
Poupem-nos, por favor. De repente, todos nos esquecemos do senhor que nos conduziu ao estado em que estamos e que continua sem ser julgado em tribunal por isso, vivendo tranquilamente e sem rebates de consciência num dos mais caros bairros de Paris.
A nossa imprensa, sempre tão rápida a atacar alguns, esquece-se de investigar de onde virá o dinheiro para o dia a dia deste senhor que, recordo, pediu licença sem vencimento na Câmara da Covilhã. Sei perfeitamente como se programam as agendas num meio de comunicação para fazer passar determinada mensagem mas neste caso não queiram tomar-nos a todos por parvos.
Acho que um politico não pode insultar, mentir, ofender, achincalhar, humilhar, fazer de nós parvos, e ser negligentemente surdo. Ou seja, não pode ser como Sócrates quando mentiu, não pode ser como Cavaco quando falou das suas contas pessoais. Mas pode pedir para não sermos piegas.
O mais saudoso Presidente americano, John Kennedy, também nos deixou coisinhas meigas e nem por isso é menos admirado e lembrado. Uma para amostra: “Não reze para ter uma vida fácil. Reze para ser um homem forte”. Não falando em Churchill, que nos deixou dezenas: “O vício do capitalismo é a distribuição desigual de benesses; o do socialismo é a distribuição por igual das misérias”...
Não estou a comparar o génio destes com o modesto percurso de Passos Coelho, estou apenas a tentar dizer que os políticos, mormente os governantes, não deixam de ser pessoas e de poder fazer afirmações num estilo informal. Mário Soares terá sido, nesse domínio, o primeiro a saber conjugar a linguagem acessível, até mesmo o desabafo de ocasião, com a elegância e o estatuto.
Dito isto, e aqui entre nós, quando ouvi o primeiro-ministro falar de piegas, dei-lhe alguma razão. Lembrei-me logo dos gerentes de restaurante e dos taxistas a quem, em anos de crise ou de vacas gordas, na miséria ou na riqueza, se perguntarmos como vai o negócio, nunca deixam de ensaiar o discurso (piegas) da lamúria (lembrando Sampaio): “ah, sabe lá, isto anda mal, o negócio já não é como era dantes...”.
Um estilo que vem de longe e se remata com o clássico “saudinha é que é preciso”. Pois é. Mas concordo que este é um bom momento para tentarmos ser menos piegas. Menos queixinhas. E mais chegados à frente.
7 de Fevereiro - Eu acho uma injustiça tremenda o permanente ataque aos funcionários públicos, agravado agora com a história da tolerância de ponto. Afinal de contas, são eles que pagam impostos e sem eles não há serviço público. Por outro são eles que pagam a maior factura da austeridade. O ataque aos funcionários públicos é atacar a nós próprios porque atacamos os professores, os médicos, os bombeiros, os juízes, os procuradores, os policias, etc, etc. Isto é, cada aplauso à função pública menos médicos, menos enfermeiros, menos policias, menos tudo, o que como consequência, pior serviço público. Menos escolas, menos hospitais e centros de saúde, menos tribunais, menos esquadras, etc, etc.
Somos cúmplices da destruição do serviço público ao aplaudir este constante mal dizer dos funcionários públicos. Até parece que a crise do país é culpa deles. Obviamente que quem estuda Filosofia em Paris assobia para o lado e finge, por ser mentiroso, que não é nada com ele.
12 de Fevereiro – Recordo hoje Fernando Assis Pacheco, que teria hoje 75 anos (morreu em 1995, à porta da Livraria Buchholz). Aproveitando a saída de uma biografia intitulada Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, da autoria de Nuno Costa Santos (autor também de um documentário que passou no dia do lançamento), vários cronistas da revista Ler dedicam no seu último número ( fevereiro 2012 ) os seus textos ao grande poeta e prosador (na literatura e no jornalismo) que, embora ao de leve, tive a felicidade de conhecer na redação de O Jornal e que não tinha televisão em casa, apesar de ter vários filhos então pequenos. Mas, além das memórias e testemunhos alheios, a revista brinda-nos com inéditos deste artista bem-disposto e versátil, que foi uma espécie de mestre para muitos jornalistas e escreveu um grande romance intitulado Trabalhos e Paixões de Benito Prada, que tem das melhores e mais surpreendentes aberturas da literatura portuguesa. Obrigada, pois, por no-lo trazerem de volta e lhe darem o destaque que merece.
in Nova Aliança, 17 / 2 / 2012
Isaltino e Eusébio
26 de janeiro – A novela ‘Isaltino’ continua. Ele não é apenas um autarca ou até só um réu. É já um símbolo deste regime decrépito. Representa infelizmente o que há de pior na promiscuidade entre negócios e política, simboliza a corrupção e a total impunidade.
Toda a sua vida política e empresarial e todo o seu enriquecimento são representativos do quanto este regime se degradou. E não nos podemos queixar…
As suas sucessivas eleições para a Câmara de Oeiras já nem surpreendem. Os oeirenses sabem que a generalidade dos políticos não é séria e por isso acreditam que ter como presidente um ‘criminoso’ com obra é talvez um mal menor. Lembram-se do slogan "Rouba mas faz"?
Isaltino foi acusado dos crimes de participação económica em negócio, corrupção, branqueamento de capitais, abuso de poder e fraude fiscal. Segundo a acusação, Isaltino Morais "recebia dinheiro em envelopes entregues no seu gabinete" para licenciar loteamentos, construções ou permutas de terrenos.
Depois de um longo processo, já com sete anos, veio a consequente condenação. A que se seguiram recursos e mais recursos. Mas, mesmo depois de os recursos terem sido declarados improcedentes, o presidente da Câmara de Oeiras continua à solta.
O próprio presidente do Supremo Tribunal de Justiça veio proclamar que a prisão já deveria ter tido lugar e que "não faz sentido que a pena ainda não tenha sido executada". Mas graças ao seu enorme peso político, e dispondo do apoio de advogados que se mexem com perfeição no pântano em que o aparelho de Justiça se transformou, Isaltino permanece impune.
A sua não detenção faz perigar o Estado de direito, pois o mínimo que se exige a um sistema de Justiça é que consiga executar as suas decisões. E esta situação pode até constituir uma sentença de morte para a própria democracia.
Pode um Estado que não é de direito ser democrático? Não creio…
30 de janeiro – Durante o dia não se falou de outra coisa: o 70.º aniversário de Eusébio. Deixem-me recordar-vos uma data grandiosa da Hiostória de Portugal: 23 de julho de 1966.
Nesse sábado, o Eusébio da Silva Ferreira ensinou aos portugueses o que é vontade e pertinácia - afinal valores que ajudam mais os portugueses, sobretudo agora, do que a futilidade dos futebóis.
Nessa tarde, um grupo de sábios portugueses defrontava colegas da Coreia do Norte, em Inglaterra. Discutiam um problema que apaixonava e continua a apaixonar o mundo - quantas vezes era possível meter uma esfera de couro num cabaz de rede pousado na relva? - e os asiáticos, aos 25 minutos, já tinham metido três. O grave foi ver como os portugueses desesperaram.
Todos? Não: o ‘professor’ Silva Ferreira pegou na esfera (viu-a armilar, como a da pátria na bandeira) e, sozinho, levou-a, uma, duas, três e quatro vezes ao destino. Os colegas de apáticos viraram eufóricos, quiseram aplaudi-lo mas ele enxotou-os: a hora era de lutar. Só à 4.ª esfera aceitou abraços e ainda ofereceu uma 5.ª a um colega.
Um jornal inglês titulou: "Master-mind Eusebio". Silva Ferreira tinha o mesmo nome do tal futebolista, mas o jornal ao chamar-lhe "Espírito Superior" não estava a falar de pés.
O vídeo desse Portugal-Coreia do Norte deveria passar nas escolas e em todos os locais de trabalho para formar o carácter dos portugueses.
in Nova Aliança, 3 / 2 / 2012
Manuel António Pina
28 de Novembro - Há alguns assuntos que, por falta de espaço, são ultrapassados por outros, por vezes de pertinência mais duvidosa. A atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina é exatamente um deles. Conheço-o melhor como cronista no Jornal de Notícias mas Pina é um poeta raríssimo. Temos sorte em tê-lo na nossa língua. A sua obra é uma referência de beleza e de perplexidade, uma investigação sobre a natureza da própria poesia e da profunda religiosidade que a cerca, limita e abre para o resto do mundo.
Tem um poema (‘A poesia vai acabar', do seu primeiro livro ‘Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo, Calma é Apenas um Pouco Tarde', de 1974), entre muitos, que me maravilha e comove - e onde pergunta: "Que fez algum poeta por este senhor?" Essa interrogação estende-se a quase todos os seus livros (traduzindo: o que faz a poesia pelas pessoas?) como uma procura do humano e do poético. O Prémio Camões não festeja apenas uma das vozes maiores da nossa língua - é a homenagem a um grande poeta em qualquer geografia.
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
Manuel António Pina
Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde
Nas crónicas, Pina demonstra a coragem que escasseia no actual meio literário, em que não faltam exemplos de escritores que permanecem no jogo da promiscuidade de acordo com as forças políticas do momento.
Alguns críticos estão certos que as suas crónicas vão ser estudadas no futuro, até em teses de doutoramento, pela forma como incorporam a literatura em todas as áreas do quotidiano. Não são textos meramente circunstanciais, embora estejam ligados ao tempo a que pertencem, comparando-as superiores às 'Farpas' de Ramalho Ortigão Defendendo que as crónicas do poeta não têm paralelo na imprensa portuguesa, o Prémio Camões é uma bofetada de luva branca para os que insultaram Manuel António Pina, apelidando-o de pseudo-intelectual".
O que é mais espantoso nele é que as qualidades literárias e humanas são equivalentes e ambas elevadas. E isso, nos dias que vão correndo, é muito difícil acontecer.
in Nova Aliança, 22 / 12 / 2011
A justiça portuguesa, a Mota-Engil e os bolsos dos portugueses
15 de Novembro - A justiça portuguesa está de parabéns e isso só nos pode deixar felizes. Depois de anos e anos a batalhar eis que surgem os primeiros resultados. Recordam-se da Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, dos desaparecimentos de Madeleine McCann e de Rui Pedro, do caso Casa Pia, do caso Portucale, da operação Furacão, da compra dos submarinos, das escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente, do caso da Universidade Moderna, dos casos de Pinto da Costa, da corrupção dos árbitros, da corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras, de Isaltino Morais, da Braga Parques, das queixas tardias de Catalina Pestana, das de João Cravinho, dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida, do processo Costa Freire / Zezé Beleza, do miúdo electrocutado no semáforo, do outro afogado num parque aquático, das crianças assassinadas na Madeira, do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico, do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal, da miúda desaparecida na Figueira, de todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou, das famosas fotografias de Teresa Costa Macedo, onde ela reconheceu imensa gente ‘importante’, jogadores de futebol, milionários e políticos, dos crimes de evasão fiscal de Artur Albarran, dos negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, daquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência, etc, etc, etc.
Depois de anos e anos a batalhar eis que surgem os primeiros resultados: prenderam um jovem que fez um download de música. Até que enfim ! O país vivia inquieto mas finalmente foi condenado um português por pirataria musical na Internet Tal indivíduo, esse perigoso meliante, poderá passar entre 60 a 90 dias atrás das grades por ter feito o download e partilhado música ilegalmente com outros utilizadores.
Ainda bem, sinto-me mais seguro!
19 de Novembro – Recentemente, no seu habitual comentário televisivo, Marques Mendes, recuou até 2010, o ano em foi decido colocar portagens nas Scut, lembrando que houve um acordo entre o Governo de Sócrates e o grupo Mota / Engil para a introdução de portagens nas auto-estradas Costa de Prata, Grande Porto e Beira Litoral.
“Só que nessa ocasião o Grupo Mota exigiu que para introduzir portagens naquelas três Scut fossem também renegociados os contratos de outras duas concessões (a da Grande Lisboa e a do Norte – A7 e A11). Aqui é que começou o problema. E que problema”, afirmou Mendes.
Para Mendes, que o Grupo Mota Engil “faça uma exigência dessas é um problema seu”, porque “está a defender o seu interesse particular”. “Agora, que o Governo tivesse aceite aquela exigência, isso é que é absolutamente irresponsável. Porque é suposto o Governo defender não o interesse particular mas sim o interesse público”, acrescentou.
E logo a seguir revelou os custos para o país deste ‘grande’ negócio. Em 2010, os encargos do Estado com aquelas duas concessões (a da Grande Lisboa e a do Norte – A7 e A11) “eram zero, a partir de 2010, a estimativa de encargos que o Estado vai ter com aquelas duas concessões será de 1,42 mil milhões de Euros”, revelou citando uma estimativa oficial da Direcção Geral do Tesouro). Ou seja, 281 milhões na Grande Lisboa e 1,139 mil milhões na do Norte.
Obviamente que, se este fosse um país a sério, os autores de mais este escândalo já estariam presos há algum tempo. É importante saber quanto ganham os políticos, e que relação deve o salário ter com a economia real. Em Inglaterra, essa conversa surgiu depois dos escândalos com os lagos de patos, cozinhas e casas de campo pagas pelos contribuintes. Em França e outros tantos países europeus, tem havido denúncias semelhantes. Em Portugal, o assunto costuma ser arrumado com a compensação justa por estarem ao serviço do povo, e não a ganhar dinheiro no privado. A crise e o orçamento são a oportunidade de ouro para levantar este assunto.
Na Eslováquia, por exemplo, a responsabilidade política passa directamente pelos bolsos dos políticos. Para começo de conversa, o salário dos deputados tem uma relação com o salário médio nacional.
Uma pesquisa rápida diz-me que, em Portugal, o salário de um deputado era três vezes superior ao salário médio. Era esta a relação considerada justa e necessária. Depois, com défices acima dos 7%, o parlamento voltou a olhar para a relação salarial, e optou por lhe acrescentar um pozinho: se o défice está acima dos 3%, os seus responsáveis (i.e., os altos funcionários do Estado, incluindo ministros e deputados) têm um corte salarial proporcional. Se o défice melhorar, retomam o salário anterior. Os incentivos para o cumprimentos de umas finanças públicas saudáveis não podiam ser maiores...
in Nova Aliança, 24 / 11 / 2011
16.11.11
Os funcionários públicos e os funcionários privados
1 de Novembro – Como responderia o leitor à questão: ‘Dava 24% do seu salário em troca da segurança de emprego vitalício?’
Muitos funcionários públicos deram, mesmo que ninguém lhes tenha perguntado nada. A decisão poupa milhões mas, em minha opinião, não tem pés nem cabeça. Há uma colectividade numerosa que defende estes cortes com base em dois argumentos: o de que os funcionários públicos têm segurança no trabalho; e que ganham mais do que o sector privado. Esta raiva contra a Função Pública é já um sintoma de cisão social. Mas está assente em várias falácias.
Os trabalhadores com contrato de função pública têm segurança do trabalho (apetece dizer: por enquanto). Mas estes cortes afectam muitos outros que a não têm: os funcionários das empresas públicas, de empresas municipais e de institutos que venham a ser extintos, se tiverem contrato individual de trabalho. Mas a principal falácia é outra: a de que os funcionários públicos ganham mais. Isso é verdade... em média.
Segundo estudos do Banco de Portugal, os funcionários públicos auferem entre 10% e 20% de remuneração superior à iniciativa privada. No entanto, são os que estão nas funções de baixas qualificações que ganham mais, o que se inverte ao longo da hierarquia. Ou seja, quanto "pior" se é, mais se ganha face às empresas; quanto "melhor" se é, pior se ganha comparando com a iniciativa privada.
Esta disfunção salarial é conhecida e não é resolvida, antes agravada, por este corte de salários cego. Quem mais ganha terá um corte superior a quem menos ganha, o que sendo socialmente justo, alarga o fosso face à iniciativa privada. O incentivo para sair da Função Pública (ou para baixar os braços) é agora grande e aqueles que o poderão fazer são os melhores. Há quem ache que são todos malandros e portanto é correr com eles. Essa sanha é míope: a desvalorização da Função Pública tem sido um pecado contra o Estado quase tão grande quanto foi a engorda do número dos seus quadros.
O problema da Função Pública é ser grande demais para o que faz (ou produzir de menos para a dimensão que tem), estar muitíssimo mal chefiada, mal distribuída e enfeudada. Seria estrategicamente melhor para o Estado ter feito um despedimento do que este corte cego. Os custos sociais, no entanto, seriam impraticáveis, tendo em conta o desemprego.
Ver tanta gente a exultar com esta navalhada é inquietante. Como o é ver que ninguém parece querer falar dos pensionistas, a quem também se retiram 14% das pensões dos próximos dois anos. Talvez seja porque os pensionistas não tenham sindicato... Mas não duvide: o Estado está a falhar num contrato que assinou. E se o Governo diz que 80% dos pensionistas não serão afectados, isso só significa que 80% das pensões são baixas.
O Governo ainda não explicou as contas para um corte tão profundo. O desvio do défice do primeiro semestre explica muito mas não tudo. Parece claro que o corte prometido da despesa intermédia está a falhar, e que a reforma do Estado avança como um caracol. Vítor Gaspar faz bem em assegurar o cumprimento das metas mas isso não pode significar a desistência do que Pedro Passos Coelho prometeu e ainda não fez. E, já agora, se o primeiro-ministro está tão cismado em encontrar os responsáveis políticos do desmando actual, devia actuar junto do mesmo sistema que o fez e fará medrar: o político. O financiamento partidário. O número de deputados. A reforma administrativa, que tem de ir mais longe.
Não havia alternativa a medidas com este alcance. Mas havia outras medidas possíveis. Teria sido melhor um imposto extraordinário sobre todos os rendimentos e sobre todo o património. É polémico, claro, mas não menos do que cortar salários à Função Pública. O Governo, que está refém da sua própria pressão de cortar despesa, optou por um caminho que corre o risco da demagogia.
O Estado não está a reestruturar a Função Pública, está a aniquilá-la. O país, no estado que está, precisa da "boa" administração do Estado e é esta que está a enxotar. Arrisca-se a ficar apenas com a "má", que é a comparativamente cara e improdutiva. A todos pede agora compaixão: que apesar de tirar quatro salários dos próximos 48, seja missionário. A salvação do Estado deixou, pois, de ser uma questão de governação. Passou a ser uma questão de fé. Que ela nos proteja.
Nova Aliança, 10 / Novembro / 2011
Muitos funcionários públicos deram, mesmo que ninguém lhes tenha perguntado nada. A decisão poupa milhões mas, em minha opinião, não tem pés nem cabeça. Há uma colectividade numerosa que defende estes cortes com base em dois argumentos: o de que os funcionários públicos têm segurança no trabalho; e que ganham mais do que o sector privado. Esta raiva contra a Função Pública é já um sintoma de cisão social. Mas está assente em várias falácias.
Os trabalhadores com contrato de função pública têm segurança do trabalho (apetece dizer: por enquanto). Mas estes cortes afectam muitos outros que a não têm: os funcionários das empresas públicas, de empresas municipais e de institutos que venham a ser extintos, se tiverem contrato individual de trabalho. Mas a principal falácia é outra: a de que os funcionários públicos ganham mais. Isso é verdade... em média.
Segundo estudos do Banco de Portugal, os funcionários públicos auferem entre 10% e 20% de remuneração superior à iniciativa privada. No entanto, são os que estão nas funções de baixas qualificações que ganham mais, o que se inverte ao longo da hierarquia. Ou seja, quanto "pior" se é, mais se ganha face às empresas; quanto "melhor" se é, pior se ganha comparando com a iniciativa privada.
Esta disfunção salarial é conhecida e não é resolvida, antes agravada, por este corte de salários cego. Quem mais ganha terá um corte superior a quem menos ganha, o que sendo socialmente justo, alarga o fosso face à iniciativa privada. O incentivo para sair da Função Pública (ou para baixar os braços) é agora grande e aqueles que o poderão fazer são os melhores. Há quem ache que são todos malandros e portanto é correr com eles. Essa sanha é míope: a desvalorização da Função Pública tem sido um pecado contra o Estado quase tão grande quanto foi a engorda do número dos seus quadros.
O problema da Função Pública é ser grande demais para o que faz (ou produzir de menos para a dimensão que tem), estar muitíssimo mal chefiada, mal distribuída e enfeudada. Seria estrategicamente melhor para o Estado ter feito um despedimento do que este corte cego. Os custos sociais, no entanto, seriam impraticáveis, tendo em conta o desemprego.
Ver tanta gente a exultar com esta navalhada é inquietante. Como o é ver que ninguém parece querer falar dos pensionistas, a quem também se retiram 14% das pensões dos próximos dois anos. Talvez seja porque os pensionistas não tenham sindicato... Mas não duvide: o Estado está a falhar num contrato que assinou. E se o Governo diz que 80% dos pensionistas não serão afectados, isso só significa que 80% das pensões são baixas.
O Governo ainda não explicou as contas para um corte tão profundo. O desvio do défice do primeiro semestre explica muito mas não tudo. Parece claro que o corte prometido da despesa intermédia está a falhar, e que a reforma do Estado avança como um caracol. Vítor Gaspar faz bem em assegurar o cumprimento das metas mas isso não pode significar a desistência do que Pedro Passos Coelho prometeu e ainda não fez. E, já agora, se o primeiro-ministro está tão cismado em encontrar os responsáveis políticos do desmando actual, devia actuar junto do mesmo sistema que o fez e fará medrar: o político. O financiamento partidário. O número de deputados. A reforma administrativa, que tem de ir mais longe.
Não havia alternativa a medidas com este alcance. Mas havia outras medidas possíveis. Teria sido melhor um imposto extraordinário sobre todos os rendimentos e sobre todo o património. É polémico, claro, mas não menos do que cortar salários à Função Pública. O Governo, que está refém da sua própria pressão de cortar despesa, optou por um caminho que corre o risco da demagogia.
O Estado não está a reestruturar a Função Pública, está a aniquilá-la. O país, no estado que está, precisa da "boa" administração do Estado e é esta que está a enxotar. Arrisca-se a ficar apenas com a "má", que é a comparativamente cara e improdutiva. A todos pede agora compaixão: que apesar de tirar quatro salários dos próximos 48, seja missionário. A salvação do Estado deixou, pois, de ser uma questão de governação. Passou a ser uma questão de fé. Que ela nos proteja.
Nova Aliança, 10 / Novembro / 2011
O aeroportdo de Frankfurt em Beja e Edite Estrela
15 de outubro – Querem perceber como chegámos aqui? Com exemplos destes: no primeiro semestre de 2011, o aeroporto de Frankfurt cresceu 8,3% em número de passageiros, para um total de 26,5 milhões. Numa escala diferente, o Aeroporto Francisco Sá Carneiro cresceu 17% em 2010, para um total de cinco milhões de passageiros. Numa terceira escala, o Aeroporto de Beja cresceu de forma incomensurável, e não precisou de dois semestres. Nem sequer de um. Para dizer a verdade também não precisou de muitos passageiros: em escassos quatro meses, subiu dos zero aos 798 felizes viajantes, os quais se distribuíram por 44 voos a uma média de 18,1 ocupantes por voo. A continuar assim, Beja terminará o primeiro ano de actividade com uns fulgurantes 2394 passageiros, só um nadinha aquém do milhão previsto para 2015 pelo saudoso Governo de Sócrates.”
Rui Oliveira, relações públicas da ANA, explica o sucesso: o Alentejo "é um destino de baixa notoriedade turística internacional"; a região "tem uma oferta hoteleira de reduzida dimensão e diversidade"; não há praias e é grande a distância até à Costa Vicentina, o que significa que "os transferes são onerosos"; "não existe uma cidade costeira alentejana onde o programa turístico se possa concentrar"; a região do Alentejo é "bastante quente" no Verão; os operadores turísticos e as companhias aéreas "evidenciam uma reconhecida aversão ao risco"; "não foi tarefa fácil" convencer o único operador turístico (inglês) a funcionar em Beja; foi "bastante complicado" convencer outros a comprar lugares nos charters em questão.
Critérios semelhantes ou aparentados justificariam a criação de aeroportos internacionais em Almeida, Nisa e Torre de Moncorvo. O que igualmente se justifica é uma pergunta: se, segundo a própria ANA, tudo conspira para tornar o Aeroporto de Beja um hilariante fiasco, que desmioladas, corruptas ou perversas cabeças se lembraram de o construir? Outra pergunta: porque é que as cabeças em causa não estão em tribunal, a responder pelos 33 milhões de euros gastos naquela simpática fraude? Os leitores conhecem as respostas e a sua justificação: isto não é um país a sério, é só um local mal frequentado.
Claro que ambas, respostas e justificação, esclarecem a presente situação de um país acabado, um país cujos descontentes protestam no centro de Lisboa em vez de se manifestarem por exemplo na pista de Beja (o volume de tráfego não ofereceria perigo), um país que parcialmente reclama a perpetuação dos exactos delírios que estrafegaram as suas contas. Por falar em contas, um cínico apuraria que o "investimento" no referido aeroporto chegava para financiar os táxis a partir da Portela aos dois mil e tal turistas anuais durante quatro ou cinco décadas - ou durante século e meio, se os turistas preferissem o rent-a-car. Já um optimista ouviria apenas o senhor da ANA garantir que, de acordo com um inquérito realizado às dúzias de pioneiros britânicos que aterraram no terminal do Baixo Alentejo, a "qualidade percepcionada foi alta". Valha-nos isso, estamos muito mais descansados agora.
17 de outubro – Confesso que gosto da senhora. Diz umas graças e alegra-nos nestes dias mórbidos. Além disso, acho profunadamente injusto admirar as proezas dos escassos compatriotas célebres no estrangeiro e ignorar Edite Estrela. O que fez ela desta vez? Apresentou no Parlamento Europeu uma declaração a exigir junto da ONU que o dia 22 de Setembro seja consagrado como o Dia Internacional da Rapariga. O objectivo, cito, é "assegurar que as raparigas usufruam do investimento e reconhecimento que merecem como cidadãs e importantes agentes da mudança". A proposta não surge agora por acidente: surge em plena Semana Europeia da Acção pelas Raparigas, invenção que coube, é escusado acrescentar, igualmente à dra. Edite.
Claro que, dado o significado da palavra no Brasil, é duvidoso que a dra. Edite conte com o entusiasmo da "presidenta" Dilma. Mas nada de dramas: não faltarão apoios às pobres raparigas que, volto a citar, "têm maior probabilidade de sofrer de má nutrição, estão mais expostas à violência ou intimidação, bem como a serem traficadas, vendidas ou exploradas sexualmente". Uma investigação recente sugere também que as raparigas são mais sujeitas a preencher o expediente laboral com disparates. Mas esta conclusão é resultado de uma amostra restrita que apenas incluía a dra. Edite. E a quem, por cortesia, os investigadores não perguntaram a idade.
Nova Aliança, 27 / Outubro / 2011
Rui Oliveira, relações públicas da ANA, explica o sucesso: o Alentejo "é um destino de baixa notoriedade turística internacional"; a região "tem uma oferta hoteleira de reduzida dimensão e diversidade"; não há praias e é grande a distância até à Costa Vicentina, o que significa que "os transferes são onerosos"; "não existe uma cidade costeira alentejana onde o programa turístico se possa concentrar"; a região do Alentejo é "bastante quente" no Verão; os operadores turísticos e as companhias aéreas "evidenciam uma reconhecida aversão ao risco"; "não foi tarefa fácil" convencer o único operador turístico (inglês) a funcionar em Beja; foi "bastante complicado" convencer outros a comprar lugares nos charters em questão.
Critérios semelhantes ou aparentados justificariam a criação de aeroportos internacionais em Almeida, Nisa e Torre de Moncorvo. O que igualmente se justifica é uma pergunta: se, segundo a própria ANA, tudo conspira para tornar o Aeroporto de Beja um hilariante fiasco, que desmioladas, corruptas ou perversas cabeças se lembraram de o construir? Outra pergunta: porque é que as cabeças em causa não estão em tribunal, a responder pelos 33 milhões de euros gastos naquela simpática fraude? Os leitores conhecem as respostas e a sua justificação: isto não é um país a sério, é só um local mal frequentado.
Claro que ambas, respostas e justificação, esclarecem a presente situação de um país acabado, um país cujos descontentes protestam no centro de Lisboa em vez de se manifestarem por exemplo na pista de Beja (o volume de tráfego não ofereceria perigo), um país que parcialmente reclama a perpetuação dos exactos delírios que estrafegaram as suas contas. Por falar em contas, um cínico apuraria que o "investimento" no referido aeroporto chegava para financiar os táxis a partir da Portela aos dois mil e tal turistas anuais durante quatro ou cinco décadas - ou durante século e meio, se os turistas preferissem o rent-a-car. Já um optimista ouviria apenas o senhor da ANA garantir que, de acordo com um inquérito realizado às dúzias de pioneiros britânicos que aterraram no terminal do Baixo Alentejo, a "qualidade percepcionada foi alta". Valha-nos isso, estamos muito mais descansados agora.
17 de outubro – Confesso que gosto da senhora. Diz umas graças e alegra-nos nestes dias mórbidos. Além disso, acho profunadamente injusto admirar as proezas dos escassos compatriotas célebres no estrangeiro e ignorar Edite Estrela. O que fez ela desta vez? Apresentou no Parlamento Europeu uma declaração a exigir junto da ONU que o dia 22 de Setembro seja consagrado como o Dia Internacional da Rapariga. O objectivo, cito, é "assegurar que as raparigas usufruam do investimento e reconhecimento que merecem como cidadãs e importantes agentes da mudança". A proposta não surge agora por acidente: surge em plena Semana Europeia da Acção pelas Raparigas, invenção que coube, é escusado acrescentar, igualmente à dra. Edite.
Claro que, dado o significado da palavra no Brasil, é duvidoso que a dra. Edite conte com o entusiasmo da "presidenta" Dilma. Mas nada de dramas: não faltarão apoios às pobres raparigas que, volto a citar, "têm maior probabilidade de sofrer de má nutrição, estão mais expostas à violência ou intimidação, bem como a serem traficadas, vendidas ou exploradas sexualmente". Uma investigação recente sugere também que as raparigas são mais sujeitas a preencher o expediente laboral com disparates. Mas esta conclusão é resultado de uma amostra restrita que apenas incluía a dra. Edite. E a quem, por cortesia, os investigadores não perguntaram a idade.
Nova Aliança, 27 / Outubro / 2011
O cidadão anónimo do Cacém, o prémio escolar e os médicos mortos que passam receitas
3 de Outubro – Tão iguais e tão diferentes. Conhecem Isaltino Morais? Claro que sim. Ele esteve um dia preso por erro de uma juíza. É, ainda assim, um homem com sorte. Mário Brites, conhecem? Não acredito. Ele é um anónimo cidadão do Cacém que passou injustamente cinco longos meses atrás das grades. A história mete dois polícias que não merecem a farda, uma procuradora do Ministério Público que vai em conversas e, por fim, um juiz de instrução com escassa argúcia. Um agente da PSP vive em guerra com um vizinho. Uma vulgar questão de condomínio. Arranja maneira de tramar o outro. Apresenta queixa por tentativa de homicídio: jura que o vizinho tentou dar-lhe dois tiros e apresenta um colega como testemunha do crime. A procuradora percebeu, na sua fina inteligência, que Mário Brites, o inocente, mentia e que os dois polícias, mentirosos, falavam verdade - e promoveu a prisão preventiva do denunciado, prontamente aceite por um zeloso juiz. Resultado: Mário Brites passou cinco meses preso - até que a Polícia Judiciária, tarde e a más horas chamada ao caso, deu pela mentira. Parece que vai acabar tudo em bem: os polícias continuam polícias, a procuradora não deixa de ser procuradora e o juiz fica juiz. Ttudo normal…
6 de Outubro – De vez em quando, querem atirar-nos poeira para os olhos quando falam de "responsabilidade social" nas grandes empresas. Os relatórios que dão conta do contributo dos grupos económicos em prol da sociedade nunca deixaram de me parecer uma forma tosca de esconder a má consciência de administradores e directores. Com a decisão do Governo de anular os prémios de 500 € aos melhores alunos do secundário, fiquei convencido de que tinha chegado a oportunidade para os grandes empresários se juntarem aos que dizem que o mérito não pode passar sem reconhecimento. Esperei que uma EDP se adiantasse e chamasse a si a atribuição do prémio… uma Portugal Telecom que viesse dizer não, os melhores alunos têm direito a prémio e sou eu quem o vai pagar; uma Galp que se insurgisse contra a decisão de não premiar o mérito e tomasse como sua essa responsabilidade… mas nada. Foi por isso com enorme alegria que dei conta de que uma pequena empresa de Viana do Castelo, que felizmente desconhece a importância dos relatórios de "responsabilidade social", não quis defraudar as expectativas do melhor aluno da cidade (média de 19,4 valores e entrou em Medicina no Porto) e fez questão de pagar o prémio imediatamente. Senhores António Mexia, Zeinal Bava e Ferreira de Oliveira… que desilusão!...
9 de Outubro - Abençoada troika: desde que chegou, os esqueletos começaram a sair dos armários. Esqueletos metafóricos, como nas contas da Madeira; ou literais, como nos 500 médicos mortos que continuam nas bases de dados do sistema. Mortos ou, pelo menos, com grandes probabilidades de já não estarem vivos, disse o vice--presidente da Administração Central do Sistema de Saúde., não sei se por piada. A verdade é que não sei se deverei ficar descansado com a imprecisão da frase: se o nosso sistema de saúde já não sabe distinguir os vivos dos mortos, que Deus nos ajude a todos. Mas talvez a dúvida do vice-presidente se prenda com a quantidade de receitas que os médicos mortos continuam a passar aos vivos, tal como denunciado pela inspecção-geral. Meros casos de fraude? Admito que sim. Mas também admito que Portugal seja o único país do mundo onde os mortos, por motivos de solidariedade nacional, continuam a dar o seu contributo para sairmos da crise. Alguém devia dizer à sra. Merkel que a nossa falta de produtividade não é coisa do outro mundo.
Nova Aliança, 13 / Outubro / 2011
6 de Outubro – De vez em quando, querem atirar-nos poeira para os olhos quando falam de "responsabilidade social" nas grandes empresas. Os relatórios que dão conta do contributo dos grupos económicos em prol da sociedade nunca deixaram de me parecer uma forma tosca de esconder a má consciência de administradores e directores. Com a decisão do Governo de anular os prémios de 500 € aos melhores alunos do secundário, fiquei convencido de que tinha chegado a oportunidade para os grandes empresários se juntarem aos que dizem que o mérito não pode passar sem reconhecimento. Esperei que uma EDP se adiantasse e chamasse a si a atribuição do prémio… uma Portugal Telecom que viesse dizer não, os melhores alunos têm direito a prémio e sou eu quem o vai pagar; uma Galp que se insurgisse contra a decisão de não premiar o mérito e tomasse como sua essa responsabilidade… mas nada. Foi por isso com enorme alegria que dei conta de que uma pequena empresa de Viana do Castelo, que felizmente desconhece a importância dos relatórios de "responsabilidade social", não quis defraudar as expectativas do melhor aluno da cidade (média de 19,4 valores e entrou em Medicina no Porto) e fez questão de pagar o prémio imediatamente. Senhores António Mexia, Zeinal Bava e Ferreira de Oliveira… que desilusão!...
9 de Outubro - Abençoada troika: desde que chegou, os esqueletos começaram a sair dos armários. Esqueletos metafóricos, como nas contas da Madeira; ou literais, como nos 500 médicos mortos que continuam nas bases de dados do sistema. Mortos ou, pelo menos, com grandes probabilidades de já não estarem vivos, disse o vice--presidente da Administração Central do Sistema de Saúde., não sei se por piada. A verdade é que não sei se deverei ficar descansado com a imprecisão da frase: se o nosso sistema de saúde já não sabe distinguir os vivos dos mortos, que Deus nos ajude a todos. Mas talvez a dúvida do vice-presidente se prenda com a quantidade de receitas que os médicos mortos continuam a passar aos vivos, tal como denunciado pela inspecção-geral. Meros casos de fraude? Admito que sim. Mas também admito que Portugal seja o único país do mundo onde os mortos, por motivos de solidariedade nacional, continuam a dar o seu contributo para sairmos da crise. Alguém devia dizer à sra. Merkel que a nossa falta de produtividade não é coisa do outro mundo.
Nova Aliança, 13 / Outubro / 2011
O último filme de Woody Allen
19 de Setembro - Woody Allen tem filmado na Europa. Mas a Europa parece ignorá-lo. Eu esperei que "Meia Noite em Paris" chegasse a Portugal.
Veio agora e fui vê-lo. Chegou num Renault dos anos 20 e levou-me para o melhor filme de Woody Allen desde "Crimes e Pecados" (1989). Surpreendidos? Curiosamente, é sempre a mesma coisa: não há filme de Woody Allen que não transporte o mesmo descontentamento. O descontentamento do presente.
Esse descontentamento tem vários nomes, em vários filmes. Em "Stardust Memories - Memórias" (1980), filme pouco citado e pouco amado, chama-lhe Woody "a melancolia de Ozymandias", uma referência ao poema de Shelley no qual um antigo viajante encontra uma estátua de Ozymandias, "rei dos reis", perdida nas areias do deserto.
A melancolia de Woody expressa a perplexidade de Shelley: como é possível alimentar qualquer vaidade sobre a existência terrena quando a morte e o esquecimento são certos? Trata-se de uma questão gélida porque Woody Allen exclui a hipótese literalmente sagrada: a hipótese de um Deus onipresente e onipotente, que confere à passagem terrena um propósito e um sentido.
Mas a questão que devemos colocar é: haverá propósito? Ou então: haverá sentido? Parafraseando as palavras do Prof. Levy em "Crimes e Pecados" (que, sintomaticamente, se suicida no final), são os seres humanos que conferem propósito e sentido às suas vidas; e fazem-no através de coisas tão mundanas como o amor, a amizade, a arte, o trabalho --e a esperança de que talvez as gerações futuras possam saber mais.
Repito: propósito e sentido. É exatamente o que falta a Gil em "Meia Noite em Paris" (soberbo Owen Wilson). Ele, roteirista em Hollywood com assinalável desprezo por Hollywood, visita Paris com a noiva e os futuros sogros. Para ele, Paris é uma festa. Melhor: Paris era uma festa, uma "festa móvel", tal como Hemingway a descreveu no famoso relato dos anos 20. O presente é apenas uma pálida imagem desse tempo ‘jurássico’.
Difícil discordar. Sobretudo para quem leu "Paris é uma Festa" com grata voracidade. E se o fizemos na adolescência, a coisa piora: será possível ser tão pobre e tão feliz, perguntava eu nessa idade, abismado pela vitalidade da prosa límpida de Hemingway?
É possível, dizia-me ele, quando amamos o que fazemos: existe no trabalho bem feito uma gratificação existencial que suplanta qualquer luxo. Era --e é-- uma grande verdade, que só o tempo acabaria por confirmar.
Hemingway foi o meu Virgílio. Imaginava-o a almoçar no Deux Magots e na Brasserie Lipp. (O Michaud era mais caro --mas, espreitando pela vitrine, era possível ver James Joyce a almoçar com a família).
Bebia muito: xerez seco e, nos dias especiais, uma garrafa de Pouilly-Fuissé. Comia ainda melhor e com pouco dinheiro: "pommes à l'huile", ostras "marennes" (melhores que as "portugaises", dizia Hemingway, para me provocar), trutas "au bleu".
Quando o bolso apertava, ficava em casa, a trabalhar, onde havia tangerinas e castanhas assadas. Ou, nas visitas ao salão de Gertrude Stein, ameixas escuras e amoras silvestres.
Foi Miss Stein, aliás, quem me deu o mais importante conselho literário: só ler livros verdadeiramente bons ou verdadeiramente maus. São os únicos que ensinam alguma coisa.
Woody Allen também leu "Paris é uma Festa". E também o viveu. E o que impressiona em "Meia Noite em Paris" é a apropriação criativa da idealização de Hemingway --essa "idade de ouro" que ressuscita com as doze badaladas para resgatar Gil do descontentamento do seu presente, transportando-o para o passado.
Gil vai. Vai e conhece Zelda, Scott Fitzgerald, Cole Porter e Hemingway "himself", que fala como o verdadeiro escrevia: em golfadas de romantismo e fanfarronice. Mas também conhece Adriana (Marion Cottillard, "ma chérie"), que partilha com Gil a mesma nostalgia pelo passado. Só que, para ele, o passado é Paris nos anos 20. Para ela, que vive nos anos 20, a verdadeira nostalgia é Paris na Belle Époque.
E quando ambos recuam ainda mais e vão visitar a Belle Époque ao Moulin Rouge de Toulouse-Lautrec, encontram Gauguin e Degas, descontentes com a Belle Époque --e suspirando pelo Renascimento de Ticiano e Michelangelo.
Vamos recuando, sempre e sempre, para evitar o descontentamento do presente. Mas essa forma de escape não é apenas ilusória porque todas as "idades de ouro" são sempre um tempo presente e, por isso, descontente para quem as habitou. Esse escape permanente impede Gil de viver no seu presente. E de fazer as escolhas que dão sentido e propósito à sua vida.
Não que essas escolhas sejam garantia de nada. Afinal, o descontentamento da nossa condição é erradicável --e constitui o cimento filosófico do cinema de Woody Allen.
Nova Aliança, 30 / Setembro / 2011
Veio agora e fui vê-lo. Chegou num Renault dos anos 20 e levou-me para o melhor filme de Woody Allen desde "Crimes e Pecados" (1989). Surpreendidos? Curiosamente, é sempre a mesma coisa: não há filme de Woody Allen que não transporte o mesmo descontentamento. O descontentamento do presente.
Esse descontentamento tem vários nomes, em vários filmes. Em "Stardust Memories - Memórias" (1980), filme pouco citado e pouco amado, chama-lhe Woody "a melancolia de Ozymandias", uma referência ao poema de Shelley no qual um antigo viajante encontra uma estátua de Ozymandias, "rei dos reis", perdida nas areias do deserto.
A melancolia de Woody expressa a perplexidade de Shelley: como é possível alimentar qualquer vaidade sobre a existência terrena quando a morte e o esquecimento são certos? Trata-se de uma questão gélida porque Woody Allen exclui a hipótese literalmente sagrada: a hipótese de um Deus onipresente e onipotente, que confere à passagem terrena um propósito e um sentido.
Mas a questão que devemos colocar é: haverá propósito? Ou então: haverá sentido? Parafraseando as palavras do Prof. Levy em "Crimes e Pecados" (que, sintomaticamente, se suicida no final), são os seres humanos que conferem propósito e sentido às suas vidas; e fazem-no através de coisas tão mundanas como o amor, a amizade, a arte, o trabalho --e a esperança de que talvez as gerações futuras possam saber mais.
Repito: propósito e sentido. É exatamente o que falta a Gil em "Meia Noite em Paris" (soberbo Owen Wilson). Ele, roteirista em Hollywood com assinalável desprezo por Hollywood, visita Paris com a noiva e os futuros sogros. Para ele, Paris é uma festa. Melhor: Paris era uma festa, uma "festa móvel", tal como Hemingway a descreveu no famoso relato dos anos 20. O presente é apenas uma pálida imagem desse tempo ‘jurássico’.
Difícil discordar. Sobretudo para quem leu "Paris é uma Festa" com grata voracidade. E se o fizemos na adolescência, a coisa piora: será possível ser tão pobre e tão feliz, perguntava eu nessa idade, abismado pela vitalidade da prosa límpida de Hemingway?
É possível, dizia-me ele, quando amamos o que fazemos: existe no trabalho bem feito uma gratificação existencial que suplanta qualquer luxo. Era --e é-- uma grande verdade, que só o tempo acabaria por confirmar.
Hemingway foi o meu Virgílio. Imaginava-o a almoçar no Deux Magots e na Brasserie Lipp. (O Michaud era mais caro --mas, espreitando pela vitrine, era possível ver James Joyce a almoçar com a família).
Bebia muito: xerez seco e, nos dias especiais, uma garrafa de Pouilly-Fuissé. Comia ainda melhor e com pouco dinheiro: "pommes à l'huile", ostras "marennes" (melhores que as "portugaises", dizia Hemingway, para me provocar), trutas "au bleu".
Quando o bolso apertava, ficava em casa, a trabalhar, onde havia tangerinas e castanhas assadas. Ou, nas visitas ao salão de Gertrude Stein, ameixas escuras e amoras silvestres.
Foi Miss Stein, aliás, quem me deu o mais importante conselho literário: só ler livros verdadeiramente bons ou verdadeiramente maus. São os únicos que ensinam alguma coisa.
Woody Allen também leu "Paris é uma Festa". E também o viveu. E o que impressiona em "Meia Noite em Paris" é a apropriação criativa da idealização de Hemingway --essa "idade de ouro" que ressuscita com as doze badaladas para resgatar Gil do descontentamento do seu presente, transportando-o para o passado.
Gil vai. Vai e conhece Zelda, Scott Fitzgerald, Cole Porter e Hemingway "himself", que fala como o verdadeiro escrevia: em golfadas de romantismo e fanfarronice. Mas também conhece Adriana (Marion Cottillard, "ma chérie"), que partilha com Gil a mesma nostalgia pelo passado. Só que, para ele, o passado é Paris nos anos 20. Para ela, que vive nos anos 20, a verdadeira nostalgia é Paris na Belle Époque.
E quando ambos recuam ainda mais e vão visitar a Belle Époque ao Moulin Rouge de Toulouse-Lautrec, encontram Gauguin e Degas, descontentes com a Belle Époque --e suspirando pelo Renascimento de Ticiano e Michelangelo.
Vamos recuando, sempre e sempre, para evitar o descontentamento do presente. Mas essa forma de escape não é apenas ilusória porque todas as "idades de ouro" são sempre um tempo presente e, por isso, descontente para quem as habitou. Esse escape permanente impede Gil de viver no seu presente. E de fazer as escolhas que dão sentido e propósito à sua vida.
Não que essas escolhas sejam garantia de nada. Afinal, o descontentamento da nossa condição é erradicável --e constitui o cimento filosófico do cinema de Woody Allen.
Nova Aliança, 30 / Setembro / 2011
O massacre de Oslo
4 de Setembro – Quando as imagens do massacre de Oslo nos entraram em casa, julgámos estar na presença de um louco. Uma leitura na diagonal das 1500 páginas que Anders Breivik publicou antes de sair da sua quinta norueguesa para provocar explosões no centro de Oslo, dirigir-se ao acampamento de Utøya e matar a sangue-frio dezenas de jovens, reforçou a minha ideia de que estamos mais perante um fanático. O que ele escreve é arrepiante, muitas vezes mentiroso, mas ele sabe o que escreve e por que escreve, quando lhe é útil mentir ou não mentir.
Sabe também que vocabulário usar. Nunca diz que o seu opus é um “manifesto” (palavra que erradamente tem sido usada) mas um “compêndio”, ou seja, um conjunto de textos que pretendem abranger um tema. O compêndio dele tem pelo menos uma meia-dúzia de partes. Numa das primeiras, tenta explicar como o “marxismo cultural” tomou conta do Ocidente a partir dos anos 60. Noutra, tenta provar que demograficamente os muçulmanos dominarão a Europa. Até aqui, nada que não tenhamos lido no conservadorismo mais rebarbativo, com o mesmo manipular de dados e excitar de fobias. Noutra parte ainda, analisa em detalhe a lei canónica para demonstrar que é lícito aos cristãos usar da violência, matarem infiéis e martirizarem-se. Depois passa à explicação de como fabricar bombas ou que alvos atingir (universidades ou eventos literários onde se encontrem muitos “multiculturalistas”, por exemplo). Descansem, caros leitores, não entrarei em pormenores…
Aquilo não é uma coisa incongruente, tendo em conta as intenções do autor. Aquilo é um vírus. Depois de preso ou morto, Breivik desejava contaminar o cérebro de outros como ele. Seria uma excelente surpresa que não o conseguisse…
Como devemos responder? Escrevo aqui enquanto “traidor de categoria B” (na qual Breivik inclui “políticos multiculturalistas, parlamentares europeus, escritores, conferencistas” e outros a punir com execução e expropriação) e posso apenas dizer: não com prisões secretas, não com tortura, não com “rendições extraordinárias”, não com mais paranóia, não com discurso securitário, não com violação de privacidade a cidadãos não-suspeitos, não com interferências à liberdade de expressão, não com leis feitas à medida, não com estados de exceção, não com invasões de países, não com mentiras para as justificar, não com guerras de civilizações ou do que quer que seja. Não queremos nada disso, e não precisamos de nada disso.
A nossa sociedade necessita de um mandamento para o século: não odeies. Pensem nele. É simples. É para todos. É difícil. Não odeies.
Não me atreveria a propor amar o próximo, amar o teu irmão de outra religião — seria provavelmente considerado multicultural demais, relativista demais, efeminado demais, politicamente correcto demais — e essas são,ao que parece, as grandes vergonhas da nossa época.
Então fica assim — como mínimo denominador comum, ao menos, poderemos acertar nisso? — não odeies. Não odeies o outro. Não odeies o seu erro se queres amar a tua verdade. Não odeies a sua verdade se queres amar o teu erro. Não odeies sequer o ódio. O ódio quer ser odiado. O ódio deseja fervorosamente mais ódio. Se dissermos aos outros para não odiarem, pode ser que este século corra bem. É simples. Não odeies nada. Eu disse que era difícil…
Nova Aliança, 9 / Setembro / 2011
Sabe também que vocabulário usar. Nunca diz que o seu opus é um “manifesto” (palavra que erradamente tem sido usada) mas um “compêndio”, ou seja, um conjunto de textos que pretendem abranger um tema. O compêndio dele tem pelo menos uma meia-dúzia de partes. Numa das primeiras, tenta explicar como o “marxismo cultural” tomou conta do Ocidente a partir dos anos 60. Noutra, tenta provar que demograficamente os muçulmanos dominarão a Europa. Até aqui, nada que não tenhamos lido no conservadorismo mais rebarbativo, com o mesmo manipular de dados e excitar de fobias. Noutra parte ainda, analisa em detalhe a lei canónica para demonstrar que é lícito aos cristãos usar da violência, matarem infiéis e martirizarem-se. Depois passa à explicação de como fabricar bombas ou que alvos atingir (universidades ou eventos literários onde se encontrem muitos “multiculturalistas”, por exemplo). Descansem, caros leitores, não entrarei em pormenores…
Aquilo não é uma coisa incongruente, tendo em conta as intenções do autor. Aquilo é um vírus. Depois de preso ou morto, Breivik desejava contaminar o cérebro de outros como ele. Seria uma excelente surpresa que não o conseguisse…
Como devemos responder? Escrevo aqui enquanto “traidor de categoria B” (na qual Breivik inclui “políticos multiculturalistas, parlamentares europeus, escritores, conferencistas” e outros a punir com execução e expropriação) e posso apenas dizer: não com prisões secretas, não com tortura, não com “rendições extraordinárias”, não com mais paranóia, não com discurso securitário, não com violação de privacidade a cidadãos não-suspeitos, não com interferências à liberdade de expressão, não com leis feitas à medida, não com estados de exceção, não com invasões de países, não com mentiras para as justificar, não com guerras de civilizações ou do que quer que seja. Não queremos nada disso, e não precisamos de nada disso.
A nossa sociedade necessita de um mandamento para o século: não odeies. Pensem nele. É simples. É para todos. É difícil. Não odeies.
Não me atreveria a propor amar o próximo, amar o teu irmão de outra religião — seria provavelmente considerado multicultural demais, relativista demais, efeminado demais, politicamente correcto demais — e essas são,ao que parece, as grandes vergonhas da nossa época.
Então fica assim — como mínimo denominador comum, ao menos, poderemos acertar nisso? — não odeies. Não odeies o outro. Não odeies o seu erro se queres amar a tua verdade. Não odeies a sua verdade se queres amar o teu erro. Não odeies sequer o ódio. O ódio quer ser odiado. O ódio deseja fervorosamente mais ódio. Se dissermos aos outros para não odiarem, pode ser que este século corra bem. É simples. Não odeies nada. Eu disse que era difícil…
Nova Aliança, 9 / Setembro / 2011
A Felicidade
19 de Agosto - Quando, certa vez, perguntaram ao escritor Gonzalo Torrente Ballester o que pensava de determinado assunto, ele encarou o seu entrevistador e atirou: “E o que tem o senhor a ver com isso?”
Podemos falar sobre a Felicidade? Uns dirão: Felicidade, haverá tema mais infeliz? Dou-vos um único conselho: não vale a pena seguir conselhos. Os livros de auto-ajuda que estão por aí na moda são livros de anti-ajuda. O que eles fazem é transformar a felicidade em direito e, coisa pior, em dever. Conheço casos: gente que começou infeliz lendo um desses manuais e, no final da maratona, estava mais infeliz ainda.
Se isso acontece para os indivíduos, o cenário muda de figura para as nações. Infelizmente, para pior… Falar de um "país feliz" é tão absurdo como falar de um "gambozino". Os países não são pessoas. Mas os políticos tentam.
Leio regularmente que, por esse mundo fora, filósofos, psicólogos e economistas estudam medidas públicas destinadas a elevar a felicidade da população. Alguns especialistas, para medir a riqueza de um país, falam mesmo em "Felicidade Interna Bruta" como mais importante que "Produto Interno Bruto".
O "The New York Times" conta até que, nos Estados Unidos, o Censo de Boston começou a perguntar aos habitantes quão felizes eles se sentiam. Estão a ver: a ideia do poder político é reunir respostas, fazer gráficos rigorosos sobre os humores da população - e depois aplicar medidas para tornar o pessoal mais alegre. Sem ser através de químicos no ar ou na água.
É bom deixar já o aviso: nada disso funciona. E não funciona porque a felicidade não existe - no coletivo. Existem felicidades particulares, individuais, muitas vezes intransmissíveis, que não podem ser reduzidas a um denominador comum. Eu sou feliz quando toco harmónica. O meu vizinho é infeliz quando me ouve a tocar harmónica. Definitivamente, caso encerrado.
Afinal de contas, as pessoas não são números. São pessoas: distintas, irrepetíveis. Muitas vezes insondáveis e insolúveis. E aquilo que as torna felizes, ou infelizes, varia de caso para caso e, mais ainda, de momento para momento. De nada vale eu responder ao Censo que me sinto feliz hoje quando, ainda ontem, eu estava infeliz da vida.
Mas a felicidade não é apenas um conceito deslocado para pensarmos politicamente; ele pode ser sobretudo perigoso. A ideia 'utilitarista' de que o governo deve perseguir sempre 'a maior felicidade para o maior número', apesar do seu agradável apelo democrático, pode legitimar situações intrinsecamente desumanas ou imorais.
Se, por hipótese remota, uma comunidade se sente feliz perseguindo judeus, ou negros, ou mulheres, ou homossexuais, ou anões, que podem os "utilitaristas" responder a esse conjunto de preferências coletivas? Acreditar que a vida moral é uma mera questão quantitativa abrirá sempre portas para horrores mil.
O Estado quer "promover" a felicidade? Muito simples: basta que se retire das vidas individuais sem exercer sobre elas qualquer poder paternal, autoritário, totalitário.
Quando um Estado pergunta "quão feliz você se sente?", só é possível responder a isso com uma nova pergunta: "E o que você tem a ver com o assunto?"
Nova Aliança, 3 / Setembro / 2011
Podemos falar sobre a Felicidade? Uns dirão: Felicidade, haverá tema mais infeliz? Dou-vos um único conselho: não vale a pena seguir conselhos. Os livros de auto-ajuda que estão por aí na moda são livros de anti-ajuda. O que eles fazem é transformar a felicidade em direito e, coisa pior, em dever. Conheço casos: gente que começou infeliz lendo um desses manuais e, no final da maratona, estava mais infeliz ainda.
Se isso acontece para os indivíduos, o cenário muda de figura para as nações. Infelizmente, para pior… Falar de um "país feliz" é tão absurdo como falar de um "gambozino". Os países não são pessoas. Mas os políticos tentam.
Leio regularmente que, por esse mundo fora, filósofos, psicólogos e economistas estudam medidas públicas destinadas a elevar a felicidade da população. Alguns especialistas, para medir a riqueza de um país, falam mesmo em "Felicidade Interna Bruta" como mais importante que "Produto Interno Bruto".
O "The New York Times" conta até que, nos Estados Unidos, o Censo de Boston começou a perguntar aos habitantes quão felizes eles se sentiam. Estão a ver: a ideia do poder político é reunir respostas, fazer gráficos rigorosos sobre os humores da população - e depois aplicar medidas para tornar o pessoal mais alegre. Sem ser através de químicos no ar ou na água.
É bom deixar já o aviso: nada disso funciona. E não funciona porque a felicidade não existe - no coletivo. Existem felicidades particulares, individuais, muitas vezes intransmissíveis, que não podem ser reduzidas a um denominador comum. Eu sou feliz quando toco harmónica. O meu vizinho é infeliz quando me ouve a tocar harmónica. Definitivamente, caso encerrado.
Afinal de contas, as pessoas não são números. São pessoas: distintas, irrepetíveis. Muitas vezes insondáveis e insolúveis. E aquilo que as torna felizes, ou infelizes, varia de caso para caso e, mais ainda, de momento para momento. De nada vale eu responder ao Censo que me sinto feliz hoje quando, ainda ontem, eu estava infeliz da vida.
Mas a felicidade não é apenas um conceito deslocado para pensarmos politicamente; ele pode ser sobretudo perigoso. A ideia 'utilitarista' de que o governo deve perseguir sempre 'a maior felicidade para o maior número', apesar do seu agradável apelo democrático, pode legitimar situações intrinsecamente desumanas ou imorais.
Se, por hipótese remota, uma comunidade se sente feliz perseguindo judeus, ou negros, ou mulheres, ou homossexuais, ou anões, que podem os "utilitaristas" responder a esse conjunto de preferências coletivas? Acreditar que a vida moral é uma mera questão quantitativa abrirá sempre portas para horrores mil.
O Estado quer "promover" a felicidade? Muito simples: basta que se retire das vidas individuais sem exercer sobre elas qualquer poder paternal, autoritário, totalitário.
Quando um Estado pergunta "quão feliz você se sente?", só é possível responder a isso com uma nova pergunta: "E o que você tem a ver com o assunto?"
Nova Aliança, 3 / Setembro / 2011
A 'morte' no serviço público de televisão e o 'eterno' detetive Columbo
1 de Julho – Num dia em que a situação grega está na ordem do dia e o programa do governo é apresentado na Assembleia da República, um dos telejornais abre com imagens do local onde os admiradores de Angélico Vieira estão concentrados.
Tal facto diz muito da ideia que alguns têm da famosa expressão ‘serviço público’. Para o endeusamento que se faz da personagem, não interessa nada que o carro circulasse na via pública sem seguro, ou que a maioria dos ocupantes não tivesse colocado o cinto de segurança.
Também parece não interessar a ninguém saber a que velocidade ia a viatura ou se o condutor apresentava excesso de álcool ou drogas no sangue.
Ninguém falou disso. A comunicação social em peso preferiu a exploração do efeito emocional e ficou por aí.
Sensivelmente na mesma altura morreu o empresário Salvador Caetano. É verdade que o senhor tinha 85 anos ( uma eternidade ) e estava doente ( uma normalidade ), mas a histeria mediática à volta do desaparecimento do jovem artista Angélico Vieira, por contraste com a discrição da notícia da morte do empresário nos órgãos de informação dá-nos um excelente retrato da ordem de valores da sociedade actual.
Por aqui se vê que um jovem cantor e actor - que há meia dúzia de anos era um total desconhecido - é muito mais importante do que um homem que subiu na vida a pulso, construiu um império industrial com a importação de automóveis do Japão, contribuiu para a produção da riqueza nacional e deu emprego a milhares de pessoas. Numa altura, sublinhe-se, em que não havia Internet, fax, telemóveis e em que as chamadas internacionais era principescamente paga.
Por aqui se vê que, para muita gente, é mais importante uma novela de duvidosa qualidade, com adolescentes, do que construir fábricas, criar empregos no país e dar comida a inúmeras famílias.
Apesar de tudo entendo muito bem a reacção dos adolescentes neste caso. A culpa desta inversão de valores nem sequer é deles. É da geração anterior, dos pais, que os educaram assim. Para a diversão e não para o trabalho.
3 de Julho - Há mais de trinta anos, quando a televisão e a leitura preenchiam grande parte dos tempos livres, muitas personagens entravam dentro de casa e ‘exigiam’ um espaço. Peter Falk ( 1927-2011 ) foi um deles. O ‘eterno’ detective Columbo fazia parte da minha adolescência televisiva e ajudou a passar muitos serões na época ( foram 70 episódios ).
O seu modelo de investigação era desarmante, a voz nasalada era um convite ao riso, os modos eram os de um desastrado e desmazelado – havia quem usasse gabardines ‘à Columbo’.
Também era verdade que, enquanto assistíamos aos episódios, na TV, desconhecíamos a ‘teoria da ciência’ do seu método de investigação, e que o aproximaria de um Sherlock Holmes californiano. Peter Falk nunca conseguiu deixar de ser Peter Falk e de se confundir com o talento triste e solitário de Columbo. ‘Só mais uma coisa’, costumava ele dizer no fim para finalmente enredar o culpado. E fazia-o. Columbo ou Peter Falk? Morreram os dois.
Nova Aliança, 7 / Julho / 2011
Tal facto diz muito da ideia que alguns têm da famosa expressão ‘serviço público’. Para o endeusamento que se faz da personagem, não interessa nada que o carro circulasse na via pública sem seguro, ou que a maioria dos ocupantes não tivesse colocado o cinto de segurança.
Também parece não interessar a ninguém saber a que velocidade ia a viatura ou se o condutor apresentava excesso de álcool ou drogas no sangue.
Ninguém falou disso. A comunicação social em peso preferiu a exploração do efeito emocional e ficou por aí.
Sensivelmente na mesma altura morreu o empresário Salvador Caetano. É verdade que o senhor tinha 85 anos ( uma eternidade ) e estava doente ( uma normalidade ), mas a histeria mediática à volta do desaparecimento do jovem artista Angélico Vieira, por contraste com a discrição da notícia da morte do empresário nos órgãos de informação dá-nos um excelente retrato da ordem de valores da sociedade actual.
Por aqui se vê que um jovem cantor e actor - que há meia dúzia de anos era um total desconhecido - é muito mais importante do que um homem que subiu na vida a pulso, construiu um império industrial com a importação de automóveis do Japão, contribuiu para a produção da riqueza nacional e deu emprego a milhares de pessoas. Numa altura, sublinhe-se, em que não havia Internet, fax, telemóveis e em que as chamadas internacionais era principescamente paga.
Por aqui se vê que, para muita gente, é mais importante uma novela de duvidosa qualidade, com adolescentes, do que construir fábricas, criar empregos no país e dar comida a inúmeras famílias.
Apesar de tudo entendo muito bem a reacção dos adolescentes neste caso. A culpa desta inversão de valores nem sequer é deles. É da geração anterior, dos pais, que os educaram assim. Para a diversão e não para o trabalho.
3 de Julho - Há mais de trinta anos, quando a televisão e a leitura preenchiam grande parte dos tempos livres, muitas personagens entravam dentro de casa e ‘exigiam’ um espaço. Peter Falk ( 1927-2011 ) foi um deles. O ‘eterno’ detective Columbo fazia parte da minha adolescência televisiva e ajudou a passar muitos serões na época ( foram 70 episódios ).
O seu modelo de investigação era desarmante, a voz nasalada era um convite ao riso, os modos eram os de um desastrado e desmazelado – havia quem usasse gabardines ‘à Columbo’.
Também era verdade que, enquanto assistíamos aos episódios, na TV, desconhecíamos a ‘teoria da ciência’ do seu método de investigação, e que o aproximaria de um Sherlock Holmes californiano. Peter Falk nunca conseguiu deixar de ser Peter Falk e de se confundir com o talento triste e solitário de Columbo. ‘Só mais uma coisa’, costumava ele dizer no fim para finalmente enredar o culpado. E fazia-o. Columbo ou Peter Falk? Morreram os dois.
Nova Aliança, 7 / Julho / 2011
5.7.11
O copianço dos futuros juízes e os 'erros' das sondagens
17 de Junho – Se dúvidas houvesse sobre o modo como se faz justiça em Portugal, o recente caso do copianço generalizado num teste de uma cadeira do Centro de Estudos Judiciários.retiraria qualquer dúvida.
Acrescente-se que, perante o facto, o CEJ, por decisão administrativa, atribuiu um 10 a todos os alunos. E o próprio director adjunto do CEJ justificou a decisão afirmando que entre os 140 auditores de Justiça houve quem não tivesse copiado, pelo que uma sanção mais pesada seria injusta para estes últimos, que também ficaram com nota 10.
Quer isto dizer que é legítimo punir os inocentes, desde que a pena não seja muito pesada. No caso concreto, a instituição optou por nivelar por baixo, punindo cegamente e sem fundamento todos por igual. Por não ter criado em devido tempo mecanismo que impedem o copianço e mecanismos que detectem sem margens para dúvida quem copia, o CEJ vê-se obrigado a punir levemente todos, incluindo os que não copiam.
Mas como vão ser juízes, é melhor ficarmos caladinhos perante uma rasteirice que não se aceita nem nos momentos mais tristes da vida de uma escola pública comum.Para que serve eu tentar incutir brio nos meus alunos, se é com isto que eles se deparam em candidatos a exercer um dos poderes basilares da República. Copiar num exame é infantil e desonesto; e para todos os efeitos é um crime – que, em princípio, a lei não pune. Que seja cometido por futuros juízes e magistrados é ainda mais grave.
Protejam-se, cidadãos, eles estão a chegar...
19 de Junho – Como muitos outros, fiquei surpreendido com a diferença entre os resultados finais das últimas eleições e as sondagens divulgadas até à véspera das mesmas. Tenho para mim que as razões desta discrepância são diversas, mas a confusão lançada na opinião pública poderia ter sido evitada.
Julgo, em primeiro lugar, que as sondagens constituem uma estimativa da intenção de voto num dado momento, embora sejam interpretadas pelo público, e até pelos media, como uma previsão. De forma a dissipar esta confusão, impõe-se que os institutos passem a apresentar não só o resultado das sondagens, mas que expliquem também de que forma estes podem antecipar (ou não, pelos vistos) os resultados eleitorais.
Para além disso, o nível de indecisos e não respondentes incluídos nos estudos foi enorme ao longo da última campanha eleitoral, atingindo valores da ordem dos trinta e muitos por cento, o que inviabiliza a priori qualquer previsão. Compreende-se agora, a afirmação veiculada pelos que anunciavam que os indecisos da área socialista ficaram em casa para penalizar Sócrates, enquanto os da área social-democrata foram votar, num último impulso que os impelia à mudança.
Por último, as sondagens dos diversos institutos não consideraram a distribuição de mandatos pelos diversos círculos. Desde logo, ignoravam que, em cerca de quinze dos vinte círculos, a distribuição de mandatos é quase inamovível. De facto, a adopção do método de Hondt, nos círculos com quatro ou seis deputados, exclui os pequenos partidos e privilegia os dois maiores. Aliás, o sistema apenas se revela verdadeiramente proporcional nos maiores círculos, como Porto e Lisboa. Acresce ainda que nos cálculos apresentados não foram considerados os votantes das ilhas e dos círculos da emigração, onde o PSD é claramente dominante face ao Partido Socialista.
Com todos estes efeitos somados, não é pois de admirar que as intenções de voto no PSD tenham sido subavaliadas ( com que interesse escondido? ), enquanto relativamente ao Partido Socialista e ao CDS eram sucessivamente inflacionadas.
Mas a verdade está reposta com o acto eleitoral, que constituiu o dia do juízo final, não só para Sócrates, mas também para as sondagens.
Nova Aliança, 22 / Junho / 2011
Acrescente-se que, perante o facto, o CEJ, por decisão administrativa, atribuiu um 10 a todos os alunos. E o próprio director adjunto do CEJ justificou a decisão afirmando que entre os 140 auditores de Justiça houve quem não tivesse copiado, pelo que uma sanção mais pesada seria injusta para estes últimos, que também ficaram com nota 10.
Quer isto dizer que é legítimo punir os inocentes, desde que a pena não seja muito pesada. No caso concreto, a instituição optou por nivelar por baixo, punindo cegamente e sem fundamento todos por igual. Por não ter criado em devido tempo mecanismo que impedem o copianço e mecanismos que detectem sem margens para dúvida quem copia, o CEJ vê-se obrigado a punir levemente todos, incluindo os que não copiam.
Mas como vão ser juízes, é melhor ficarmos caladinhos perante uma rasteirice que não se aceita nem nos momentos mais tristes da vida de uma escola pública comum.Para que serve eu tentar incutir brio nos meus alunos, se é com isto que eles se deparam em candidatos a exercer um dos poderes basilares da República. Copiar num exame é infantil e desonesto; e para todos os efeitos é um crime – que, em princípio, a lei não pune. Que seja cometido por futuros juízes e magistrados é ainda mais grave.
Protejam-se, cidadãos, eles estão a chegar...
19 de Junho – Como muitos outros, fiquei surpreendido com a diferença entre os resultados finais das últimas eleições e as sondagens divulgadas até à véspera das mesmas. Tenho para mim que as razões desta discrepância são diversas, mas a confusão lançada na opinião pública poderia ter sido evitada.
Julgo, em primeiro lugar, que as sondagens constituem uma estimativa da intenção de voto num dado momento, embora sejam interpretadas pelo público, e até pelos media, como uma previsão. De forma a dissipar esta confusão, impõe-se que os institutos passem a apresentar não só o resultado das sondagens, mas que expliquem também de que forma estes podem antecipar (ou não, pelos vistos) os resultados eleitorais.
Para além disso, o nível de indecisos e não respondentes incluídos nos estudos foi enorme ao longo da última campanha eleitoral, atingindo valores da ordem dos trinta e muitos por cento, o que inviabiliza a priori qualquer previsão. Compreende-se agora, a afirmação veiculada pelos que anunciavam que os indecisos da área socialista ficaram em casa para penalizar Sócrates, enquanto os da área social-democrata foram votar, num último impulso que os impelia à mudança.
Por último, as sondagens dos diversos institutos não consideraram a distribuição de mandatos pelos diversos círculos. Desde logo, ignoravam que, em cerca de quinze dos vinte círculos, a distribuição de mandatos é quase inamovível. De facto, a adopção do método de Hondt, nos círculos com quatro ou seis deputados, exclui os pequenos partidos e privilegia os dois maiores. Aliás, o sistema apenas se revela verdadeiramente proporcional nos maiores círculos, como Porto e Lisboa. Acresce ainda que nos cálculos apresentados não foram considerados os votantes das ilhas e dos círculos da emigração, onde o PSD é claramente dominante face ao Partido Socialista.
Com todos estes efeitos somados, não é pois de admirar que as intenções de voto no PSD tenham sido subavaliadas ( com que interesse escondido? ), enquanto relativamente ao Partido Socialista e ao CDS eram sucessivamente inflacionadas.
Mas a verdade está reposta com o acto eleitoral, que constituiu o dia do juízo final, não só para Sócrates, mas também para as sondagens.
Nova Aliança, 22 / Junho / 2011
A agressão das duas adolescentes e Martin Amis
31 de Maio – Não acredito que o leitor não tenha visto o filmezinho em que duas adolescentes espancam uma terceira junto a um centro comercial de Benfica. E quem mais se esforçou para que toda a gente o visse foram os outros adolescentes que testemunharam a cena, registaram-na no vídeo do telemóvel e publicaram-na imediatamente no Facebook. E os jornais televisivos que a transmitiu não sei quantas vezes no noticiário enquanto uma jornalista (em off) descrevia o horror que aquelas imagens devem suscitar.
Sobre o episódio, julgo não hver muito a acrescentar. As imagens falam por si. Histórias de proezas idênticas surgem com crescente frequência mas apetece-me comentar o comentário da jornalista em questão, que encerrou a "peça" confessando a estranheza que lhe suscita a selvajaria de uma geração que, cito de memória, tem tudo para não ser selvagem.
Eu até compreendo, em Portugal todos somos especialistas em Educação. Mas a senhora estava à espera de quê? Uma escola "inclusiva" e reduzida a depósito da criançada? Professores sem autoridade e vontade? Pais que não educam por incapacidade ou demissão? Consolas de jogos? Telemóveis? O Magalhães?
Até parece que o universo em peso parece conspirar de modo a facilitar, ou a incentivar, a fúria animal das meninas de Benfica. Ao contrário da senhora jornalista, o que me espanta é o facto de ainda haver adolescentes que não passam os seus dias a pontapear o semelhante. Ou talvez passem e não chegam ao Facebook. Ou chegam ao Facebook e os telejornais não notaram. Ou notaram e eu não reparei nos telejornais, que têm tudo para ser úteis e afinal… são isto.
3 de Junho - Gosto de Martin Amis. Dos ensaios e dos romances. Penso que, depois de Gore Vidal, não existe pena mais inteligente sobre livros e literatos.
Ora, é pena que, ao natural, Amis não tenha a mesma elegância. Agora, conta o "The Sunday Telegraph", o escritor inglês desceu o chicote sobre a Família Real em declarações à imprensa francesa. "Filistinos", diz Amis. E porquê?
Logicamente, porque ignoram a importância de Martin Amis no esquema geral do mundo. Pior: nem sequer conhecem a sua obra literária. "A rainha não escuta ninguém", diz Amis, que teve encontros formais com a rainha e percebeu, pelo olhar enfadado da senhora, quão insignificante ele era.
O mesmo com o marido, o duque de Edimburgo. "Sou escritor", disse-lhe Amis. O duque, espantado, replicou: "A sério?"
As palavras de Martin Amis têm interesse porque não é todos os dias que vemos um "snob" lambendo as feridas em público. E uso o termo "snob" no sentido em que ele era usado para hierarquizar os alunos na universidade de Cambridge no momento da matrícula: depois do nome, aparecia a condição social. Para quem não nascera em berço aristocrático, um "sine nobilitas" ("sem nobreza", i.e., "s.nob") arrumava com o sujeito.
Exatamente como Amis se sente arrumado, prova acabada de que o "filistino", na verdade, é ele. Se Amis não concedesse à Família Real importância alguma, jamais haveria semelhante exibição de vaidade e ressentimento. Para os neutros em matéria monárquica, a existência dos Windsor é, quando muito, um anacronismo pitoresco do qual não exigimos reconhecimento ou aplauso.
Mas Martin Amis quer reconhecimento e aplauso. E apesar de deplorar a histeria mundial com o casamento real do passado dia 29 de abril, ele não se distingue das multidões sentimentais que encheram Londres para saudar William e Kate.
A única diferença é que as multidões aplaudiram os noivos. Amis, se pudesse, atirar-lhes-ia tomates ou ovos podres. Duas formas de paixão são duas formas de paixão.O leitor, que intimamente também alimenta iguais sentimentos de amor e ódio pela instituição monárquica, sabe do que falo.
Para concluir, Amis confessa ainda, em tom dramático, que gostaria de não ser inglês. Pobre Martin. Só um perfeito inglês teria uma relação tão intensa e patológica com a primeira das famílias nativas.
Nova Aliança, 9 / Junho / 2011
Sobre o episódio, julgo não hver muito a acrescentar. As imagens falam por si. Histórias de proezas idênticas surgem com crescente frequência mas apetece-me comentar o comentário da jornalista em questão, que encerrou a "peça" confessando a estranheza que lhe suscita a selvajaria de uma geração que, cito de memória, tem tudo para não ser selvagem.
Eu até compreendo, em Portugal todos somos especialistas em Educação. Mas a senhora estava à espera de quê? Uma escola "inclusiva" e reduzida a depósito da criançada? Professores sem autoridade e vontade? Pais que não educam por incapacidade ou demissão? Consolas de jogos? Telemóveis? O Magalhães?
Até parece que o universo em peso parece conspirar de modo a facilitar, ou a incentivar, a fúria animal das meninas de Benfica. Ao contrário da senhora jornalista, o que me espanta é o facto de ainda haver adolescentes que não passam os seus dias a pontapear o semelhante. Ou talvez passem e não chegam ao Facebook. Ou chegam ao Facebook e os telejornais não notaram. Ou notaram e eu não reparei nos telejornais, que têm tudo para ser úteis e afinal… são isto.
3 de Junho - Gosto de Martin Amis. Dos ensaios e dos romances. Penso que, depois de Gore Vidal, não existe pena mais inteligente sobre livros e literatos.
Ora, é pena que, ao natural, Amis não tenha a mesma elegância. Agora, conta o "The Sunday Telegraph", o escritor inglês desceu o chicote sobre a Família Real em declarações à imprensa francesa. "Filistinos", diz Amis. E porquê?
Logicamente, porque ignoram a importância de Martin Amis no esquema geral do mundo. Pior: nem sequer conhecem a sua obra literária. "A rainha não escuta ninguém", diz Amis, que teve encontros formais com a rainha e percebeu, pelo olhar enfadado da senhora, quão insignificante ele era.
O mesmo com o marido, o duque de Edimburgo. "Sou escritor", disse-lhe Amis. O duque, espantado, replicou: "A sério?"
As palavras de Martin Amis têm interesse porque não é todos os dias que vemos um "snob" lambendo as feridas em público. E uso o termo "snob" no sentido em que ele era usado para hierarquizar os alunos na universidade de Cambridge no momento da matrícula: depois do nome, aparecia a condição social. Para quem não nascera em berço aristocrático, um "sine nobilitas" ("sem nobreza", i.e., "s.nob") arrumava com o sujeito.
Exatamente como Amis se sente arrumado, prova acabada de que o "filistino", na verdade, é ele. Se Amis não concedesse à Família Real importância alguma, jamais haveria semelhante exibição de vaidade e ressentimento. Para os neutros em matéria monárquica, a existência dos Windsor é, quando muito, um anacronismo pitoresco do qual não exigimos reconhecimento ou aplauso.
Mas Martin Amis quer reconhecimento e aplauso. E apesar de deplorar a histeria mundial com o casamento real do passado dia 29 de abril, ele não se distingue das multidões sentimentais que encheram Londres para saudar William e Kate.
A única diferença é que as multidões aplaudiram os noivos. Amis, se pudesse, atirar-lhes-ia tomates ou ovos podres. Duas formas de paixão são duas formas de paixão.O leitor, que intimamente também alimenta iguais sentimentos de amor e ódio pela instituição monárquica, sabe do que falo.
Para concluir, Amis confessa ainda, em tom dramático, que gostaria de não ser inglês. Pobre Martin. Só um perfeito inglês teria uma relação tão intensa e patológica com a primeira das famílias nativas.
Nova Aliança, 9 / Junho / 2011
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