1. Expliquem-nos, se faz favor, como se fôssemos muito burros: uma menina, Mónica, de 12 anos, foi retirada à mãe devido a desleixo, especialmente na higiene, por decisão do Tribunal, e a Comissão de Menores da sua área de residência não sabia sequer da existência do caso?
Respondam-nos: outra criança da mesma progenitora ficou à sua guarda alegadamente por ter apenas três anos – piolhos, pulgas e tudo o que esses parasitas indiciam só causam dano a partir de que idade?
Depois, a instituição onde a criança estava interna: então a Mónica tinha uma consulta no hospital, na manhã de uma quinta-feira, e a instituição autorizou-a a permanecer, de quarta para quinta-feira, na casa materna, de onde fora retirada? Mais: o seu cadáver só foi descoberto na madrugada de sexta-feira – alguém, responsável pela dita casa de acolhimento, se inquietou com a sua ausência injustificada?
Já agora, que iniciativa tomou para procurar uma menor que estava à sua guarda? Mais e muito pior: a criança faltou à escola na quinta-feira – esse facto desencadeou algum sistema de alerta? E se tivesse desencadeado, poderia Mónica ainda ser salva?
De cada vez que mais uma criança em risco morre no nosso país, a reacção da Imprensa tende a esbater-se perante o ‘déjà vu’. Nada há de mais errado: cada caso dramático grita ainda mais alto que a responsabilidade é do sistema e, em cada caso, de pessoas concretas que o deveriam servir.
2. Discretamente, na coluna da esquerda da primeira página do “Expresso”, surge a notícia: “O secretário de Estado do Orçamento, Emanuel dos Santos, alertou ontem em Coimbra para a possibilidade de os pensionistas deixarem de receber o subsídio de férias, para ajudar a equilibrar o Orçamento de Estado. Uma decisão que não será fácil, mas poderá ser inevitável, disse”. Mais tarde, o senhor veio desmentir que tenha dito o que disse ou, pelo menos, que estivesse a pensar no curto-prazo, embora repetisse que, “em teoria”, a medida deve ser pensada.
Não sei se estão a compreender esta forma de fazer política. Atira-se uma ideia, por mais espatafúrdia que pareça, para o ar com o objectivo de avaliar a sua recepção. Uma espécie de deitar barro à parede, a ver se pega. Algo que é feito à sucapa, clandestino e silencioso. Não há explicações nem especiais cuidados na sua divulgação. Falamos de que pensionistas?
Daqueles que recebem duzentos e trezentos euros por mês, normalmente trabalhadores agrícolas que habitam no Portugal profundo e não só e que vivem com o mínimo possível? Estes contam com o subsídio de férias para equilibrarem as despesas e pagarem as suas dívidas. É a estes que o Governo, preocupado com o equilíbrio das contas públicas ( embora não se compreenda como, apesar de tantas medidas, a situação económica estar cada vez pior de acordo com todos os relatórios, nacionais e internacionais ) quer cortar o subsídio de férias?
Ou falamos dos pensionistas que recebem milhares de euros mensalmente, que beneficiaram muitos deles de regimes especiais que possibilitaram a reforma aos quarenta e poucos anos? Aqueles que, como os deputados e os autarcas, atingem valores inimagináveis e conseguem a reforma com alguns anos de serviço?
Então agora “as pessoas ( já não ) têm de estar em primeiro lugar”? Então agora “todos os sacrifícios pedidos ( não ) precisam de ter em conta a dignidade mínima do modo de vida da população”?
Ficarei atento para ver se os membros do Governo serão os primeiros a dar o exemplo, prescindindo do 14º mês e trocando as férias no Quénia, na Suiça, em Cancun ou na Tailândia por um destino mais nacional como a praia do Meco.
3. Pensei que me estavam a gozar mas parece que é mesmo verdade. Pedi a duas pessoas que compraram o livro de Manuel Maria Carrilho que me dissessem que nomes ele me chamou. Garantiram-me que o analisaram à lupa, procurando em cada parágrafo um pequeno impropério, um adjectivo violento, um comentário agressivo sobre a minha pessoa. Nada! Apetece-me perguntar: onde é que eu falhei?
Por estas e por outras é que me passou pela cabeça acabar com esta coluna: uma pessoa esforça-se, escreve artigos violentos, utilizamos expressões como “egocêntrico”, “pavão”, “nariz empinado”, “projecto político”, e o que recebo em troca? O silêncio. Dizem-me que trinta e sete jornalistas e onze comentadores são nomeados no livro, vítimas de traulitada, má-língua e acerto de contas.
Ninguém me acusa de ter sido comprado por Cunha Vaz, de ser movido por uma sanha persecutória, de estar movido pela inveja que nos impede de ver a luz que se liberta do seu cerebelo. Por favor, Manuel Maria, bem sei que este é um jornal regional e o meu nome não é conhecido mas não se poderá arranjar um insulto só para mim?
Onde é que eu falhei?...
Nova Aliança, 26 / 05 / 2006
6.6.06
16.5.06
Uma imagem mil vezes repetida e o mau-perder dos fumadores
1.Existem diversas formas de intoxicação. Se preferir ler algumas linhas sobre o tabaco, fumadores activos e passivos deve o leitor dirigir o seu olhar e a sua atenção directamente para o ponto 2) deste texto. Todavia, se quiser sorrir por uns momentos e conhecer outra forma de intoxicação, continue a ler.
De vez em quando surgem erros informáticos que abalam temporariamente alguns sites da Internet. Confesso que a princípio julguei estar na presença de um caso desses mas rapidamente dei conta que não havia engano nenhum. Quem se deslocar a www.sejd.gov.pt – Portal da Secretaria de Estado da Juventude – e aceder a uma área chamada “Em Foco”, encontrará mais de cinquenta fotografias ( não são cinco, são cinquenta ) fotografias de Laurentino Dias, o próprio Secretário de Estado. Nessas admiráveis fotos encontramo-lo a discursar, a descerrar, a conviver, a ouvir, a premiar, a apreciar, a exclamar, a reclamar, a inaugurar, a responder, a criticar, a lamentar, a festejar. Títulos como “Laurentino e a lei de bases” ou “Laurentino Dias na Argélia para aprofundar a cooperação são bem exemplo do ridículo a que se chega.
Parece que o referido portal foi feito para um desfile de poses propositadamente para confirmar a tendência propagandística. O facto de não existirem duas fotografias iguais pressupõe já alguma atenção na escolha e um bom domínio do programa informático. Por outro lado, este episódio mostra que o projecto “Simplex” está realmente a funcionar: é verdade ou não que não existe nada mais simples do que encher um site sempre com o mesmo protagonista?
Se repetir mil vezes a mesma mentira faz dela uma verdade, neste caso repetir cinquenta vezes o mesmo rosto não faz dele um bom governante.
2.Se o leitor veio directamente para este ponto não sabe o que perdeu em cima mas, tudo bem, a escolha foi sua… Estávamos então a falar de intoxicações. Ora andam aí uns fumadores militantes a protestarem desesperadamente contra as medidas de protecção dos não-fumadores. Eles confundem propositadamente o inquestionável direito que tem o cidadão a não inalar involuntariamenteo fumo dos outros com uma pretensa guerra do “politicamente correcto” contra o coitado do fumador.
Se se seguisse o ridículo argumento de que o não-fumador poderia evitar os sítios com fumo, então bastar-lhe-ia evitar as entradas dos cinemas, dos teatros e dos hotéis, os restaurantes, as discotecas, os bares, os centros comerciais, as salas dos professores e grande parte dos locais de trabalho.
Por ser verdade, é preciso dizer que o “fumo público” é cancerígeno e indutor de crises respiratórias. Ele é constituído pelo fumo que sai directamente do cigarro em combustão e pelo fumo exalado pelo fumador activo. Actualmente, a evidência científica diz-nos que é possível medir o fumo ambiente e as suas consequências na saúde de duas maneiras: a primeira é através da detecção dos componentes do fumo do tabaco na atmosfera ( estudos realizados em bares com espaços dedicados a fumadores e não-fumadores detectavam as pequenas partículas de fumo do tabaco em todo o recinto por igual, provando assim a inutilidade prática da divisão dos espaços ); a segunda é através da detecção de biomarcadores no sangue, na urina e na saliva dos não-fumadores ( está provado que um bebé de colo exposto a mãe fumadora de um maço de cigarros por dia inala fumo equivalente a 3-4 cigarros inteiros ).
Não faltam estudos desde 1981 sobre a história dos fumadores passivos. Todos eles mostram à evidência uma associação entre o fumo passivo e o cancro do pulmão em dezenas de milhares de sujeitos. Para além disso, investigação clínica veio a determinar que o fumo passivo causava outras doenças em adultos. Os estudos relacionando a doença coronária com o fumo do tabaco são muito claros nas suas conclusões do efeito prejudicial do tabagismo.
O que aqui se defende não é proibir o uso do tabaco mas proteger apenas quem não fuma. Se é difícil para um fumador não fumar num restaurante, também é difícil pagar os impostos cada vez mais altos ou respeitar os 120 km/h na auto-estrada. A verdade é que vivemos em sociedade e nela existem as restrições da liberdade. Chamamos-lhe civilização!
De vez em quando surgem erros informáticos que abalam temporariamente alguns sites da Internet. Confesso que a princípio julguei estar na presença de um caso desses mas rapidamente dei conta que não havia engano nenhum. Quem se deslocar a www.sejd.gov.pt – Portal da Secretaria de Estado da Juventude – e aceder a uma área chamada “Em Foco”, encontrará mais de cinquenta fotografias ( não são cinco, são cinquenta ) fotografias de Laurentino Dias, o próprio Secretário de Estado. Nessas admiráveis fotos encontramo-lo a discursar, a descerrar, a conviver, a ouvir, a premiar, a apreciar, a exclamar, a reclamar, a inaugurar, a responder, a criticar, a lamentar, a festejar. Títulos como “Laurentino e a lei de bases” ou “Laurentino Dias na Argélia para aprofundar a cooperação são bem exemplo do ridículo a que se chega.
Parece que o referido portal foi feito para um desfile de poses propositadamente para confirmar a tendência propagandística. O facto de não existirem duas fotografias iguais pressupõe já alguma atenção na escolha e um bom domínio do programa informático. Por outro lado, este episódio mostra que o projecto “Simplex” está realmente a funcionar: é verdade ou não que não existe nada mais simples do que encher um site sempre com o mesmo protagonista?
Se repetir mil vezes a mesma mentira faz dela uma verdade, neste caso repetir cinquenta vezes o mesmo rosto não faz dele um bom governante.
2.Se o leitor veio directamente para este ponto não sabe o que perdeu em cima mas, tudo bem, a escolha foi sua… Estávamos então a falar de intoxicações. Ora andam aí uns fumadores militantes a protestarem desesperadamente contra as medidas de protecção dos não-fumadores. Eles confundem propositadamente o inquestionável direito que tem o cidadão a não inalar involuntariamenteo fumo dos outros com uma pretensa guerra do “politicamente correcto” contra o coitado do fumador.
Se se seguisse o ridículo argumento de que o não-fumador poderia evitar os sítios com fumo, então bastar-lhe-ia evitar as entradas dos cinemas, dos teatros e dos hotéis, os restaurantes, as discotecas, os bares, os centros comerciais, as salas dos professores e grande parte dos locais de trabalho.
Por ser verdade, é preciso dizer que o “fumo público” é cancerígeno e indutor de crises respiratórias. Ele é constituído pelo fumo que sai directamente do cigarro em combustão e pelo fumo exalado pelo fumador activo. Actualmente, a evidência científica diz-nos que é possível medir o fumo ambiente e as suas consequências na saúde de duas maneiras: a primeira é através da detecção dos componentes do fumo do tabaco na atmosfera ( estudos realizados em bares com espaços dedicados a fumadores e não-fumadores detectavam as pequenas partículas de fumo do tabaco em todo o recinto por igual, provando assim a inutilidade prática da divisão dos espaços ); a segunda é através da detecção de biomarcadores no sangue, na urina e na saliva dos não-fumadores ( está provado que um bebé de colo exposto a mãe fumadora de um maço de cigarros por dia inala fumo equivalente a 3-4 cigarros inteiros ).
Não faltam estudos desde 1981 sobre a história dos fumadores passivos. Todos eles mostram à evidência uma associação entre o fumo passivo e o cancro do pulmão em dezenas de milhares de sujeitos. Para além disso, investigação clínica veio a determinar que o fumo passivo causava outras doenças em adultos. Os estudos relacionando a doença coronária com o fumo do tabaco são muito claros nas suas conclusões do efeito prejudicial do tabagismo.
O que aqui se defende não é proibir o uso do tabaco mas proteger apenas quem não fuma. Se é difícil para um fumador não fumar num restaurante, também é difícil pagar os impostos cada vez mais altos ou respeitar os 120 km/h na auto-estrada. A verdade é que vivemos em sociedade e nela existem as restrições da liberdade. Chamamos-lhe civilização!
Alfornelos, Centro Comercial de Belém e o falecido notificado
1.Em Alfornelos os moradores constituíram uma associação cívica. O problema é que com a articulação de três vias de tráfego muito intenso ( IC17-CRIL, IC16-Radial da Pontinha e Radial de Lisboa ) e a conclusão da CRIL, entre a Buraca e a Pontinha. Aquela localidade, onde vivem umas quinze mil pessoas, transformar-se-á numa autêntica ilha cercada por auto-estradas por todos os lados. Está prevista a passagem diária de duzentos mil automóveis e a referida associação cívica tem feito tudo o que está ao seu alcance para evitar este autêntico “encurralamento”, um claro gueto de poluição ambiental, sonora e visual, de graves riscos permanentes de vida e de deterioração total da dessa qualidade num local onde vivem também jovens e idosos.
Defende esta associação uma solução que, para além de ser a de menor custo, a melhor e a mais segura, é “a única que respeita as regras mínimas de segurança rodoviária e possui um traçado de fácil execução técnica”. Repare-se que na procura de uma solução, esta associação não corta estradas, não chama as televisões, não provoca desacatos, não oferece espectáculos em frente da Assembleia da República. Pelo contrário, os habitantes criaram uma associação cívica, encomendaram um projecto alternativo, fizeram exposições, contactaram as entidades responsáveis, invocaram o direito aplicável nestes casos. O que ganharam com isso?
Depois de vermos o dinheiro gasto com uma passagem de sapos por debaixo da CRE; as “pegadas dos dinossauros” em Carenque, também na CREL; a interrupção na construção da estrada em Bragança devido ao aparecimento de uma colónia de ratos e outra de morcegos, concluímos que o problema de Alfornelos é precisamente a ausência de uma colónia de formigas raras. Existisse ela e tudo seria feito para se agir de outra maneira.
Assim, fácil se torna verificar que os habitantes de Alfornelos não contam para nada nem para ninguém. Ao contrário das formigas…
2.O Centro Cultural de Belém acabou de ser oferecido ao comendador Berardo. Não, a frase está correcta e não está invertida. Das quatro mil obras de arte da colecção do empresário, apenas 862 fazem parte do protocolo e passarão a ocupar o centro de exposições do Centro Cultural de Belém ( CCB ), totalmente cedido a uma nova fundação privada.
Tal fundação terá como presidente honorário e vitalício o comendador Berardo, que fica com o poder exclusivo de nomear ou destituir o director do futuro museu, que terá o seu nome. Os dois membros do Conselho de Administração, designados por Berardo, serão os únicos que podem deliberar a fusão, cisão, dissolução ou transformação da fundação. Esta mesma fundação será subsidiada pelo Estado, bem como os custos logísticos, manutenção e recuperação assim como os custos inerentes ao funcionamento do museu que serão suportados pelo CCB. Este vende os bilhetes, mas o dinheiro é para a fundação.
O protocolo prevê o investimento anual de 500mil euros para aquisição de novas obras mas, embora assinado, não se sabe como será o museu, quem o vai dirigir e qual o valor do reportório artístico. Ao fim de dez anos, a colecção pode ou não ficar em Portugal. Se o Estado a quiser comprar, terá de ser, pelo menos, pelo valor a ser determinado por uma leiloeira. Mas o comendador não fica obrigado a vender.
Desta forma, Lisboa fica sem um local capaz de acolher certames internacionais e sem acesso ao circuito internacional de exposições. Berardo teve tudo o que queria e pode continuar a expor pelo mundo fora.
Nós pagamos para ver o CCB transformar-se em Centro Comercial Berardo. Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte. O comendador é um espertalhão. Vocês sabem do que eu estou a falar…
3. Num acto verdadeiramente inqualificável dos Serviços do Ministério Público de Lagos, foi enviada uma notificação que chegou, via postal, no dia 29 de Março deste ano. O destinatário já tinha morrido mas este é um “simples” detalhe. A carta é bem explícita: “Notifica-se V. Exª, na qualidade de Falecido, nos termos e para os efeitos a seguir mencionados: Para no prazo de 10 dias, vir aos presentes autos, levantar a certidão requerida.” O que irá acontecer aos autores? Evidentemente, nada…
Defende esta associação uma solução que, para além de ser a de menor custo, a melhor e a mais segura, é “a única que respeita as regras mínimas de segurança rodoviária e possui um traçado de fácil execução técnica”. Repare-se que na procura de uma solução, esta associação não corta estradas, não chama as televisões, não provoca desacatos, não oferece espectáculos em frente da Assembleia da República. Pelo contrário, os habitantes criaram uma associação cívica, encomendaram um projecto alternativo, fizeram exposições, contactaram as entidades responsáveis, invocaram o direito aplicável nestes casos. O que ganharam com isso?
Depois de vermos o dinheiro gasto com uma passagem de sapos por debaixo da CRE; as “pegadas dos dinossauros” em Carenque, também na CREL; a interrupção na construção da estrada em Bragança devido ao aparecimento de uma colónia de ratos e outra de morcegos, concluímos que o problema de Alfornelos é precisamente a ausência de uma colónia de formigas raras. Existisse ela e tudo seria feito para se agir de outra maneira.
Assim, fácil se torna verificar que os habitantes de Alfornelos não contam para nada nem para ninguém. Ao contrário das formigas…
2.O Centro Cultural de Belém acabou de ser oferecido ao comendador Berardo. Não, a frase está correcta e não está invertida. Das quatro mil obras de arte da colecção do empresário, apenas 862 fazem parte do protocolo e passarão a ocupar o centro de exposições do Centro Cultural de Belém ( CCB ), totalmente cedido a uma nova fundação privada.
Tal fundação terá como presidente honorário e vitalício o comendador Berardo, que fica com o poder exclusivo de nomear ou destituir o director do futuro museu, que terá o seu nome. Os dois membros do Conselho de Administração, designados por Berardo, serão os únicos que podem deliberar a fusão, cisão, dissolução ou transformação da fundação. Esta mesma fundação será subsidiada pelo Estado, bem como os custos logísticos, manutenção e recuperação assim como os custos inerentes ao funcionamento do museu que serão suportados pelo CCB. Este vende os bilhetes, mas o dinheiro é para a fundação.
O protocolo prevê o investimento anual de 500mil euros para aquisição de novas obras mas, embora assinado, não se sabe como será o museu, quem o vai dirigir e qual o valor do reportório artístico. Ao fim de dez anos, a colecção pode ou não ficar em Portugal. Se o Estado a quiser comprar, terá de ser, pelo menos, pelo valor a ser determinado por uma leiloeira. Mas o comendador não fica obrigado a vender.
Desta forma, Lisboa fica sem um local capaz de acolher certames internacionais e sem acesso ao circuito internacional de exposições. Berardo teve tudo o que queria e pode continuar a expor pelo mundo fora.
Nós pagamos para ver o CCB transformar-se em Centro Comercial Berardo. Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte. O comendador é um espertalhão. Vocês sabem do que eu estou a falar…
3. Num acto verdadeiramente inqualificável dos Serviços do Ministério Público de Lagos, foi enviada uma notificação que chegou, via postal, no dia 29 de Março deste ano. O destinatário já tinha morrido mas este é um “simples” detalhe. A carta é bem explícita: “Notifica-se V. Exª, na qualidade de Falecido, nos termos e para os efeitos a seguir mencionados: Para no prazo de 10 dias, vir aos presentes autos, levantar a certidão requerida.” O que irá acontecer aos autores? Evidentemente, nada…
26.4.06
Onde se fala de bancos, escravatura e ilhas citadinas
1. Num daqueles exercícios recorrentes na imprensa portuguesa, surge mais um inquérito sobre a vida pessoal dos nossos governantes. Desta vez, uma revista económica ( a “Dia D” do Público ) questiona os nossos ministros sobre as aplicações que fazem do seu dinheiro pessoal. Depósitos a prazo e certificados de aforro são a prova exemplar da poupança e de aversão ao risco. Todos eles dão mostras de serem muito certinhos, sem ideias megalómanas de investimentos “malucos”, leia-se “agressivos”. Tais evidências mostram que, no meio da onda reformista e do choque tecnológico, está um português rural e medroso, capaz de enfiar o seu dinheiro no colchão.
Repare-se que estamos a falar do dinheiro pessoal porque se passamos para os dinheiros públicos, aqueles que nos pertencem, a coisa muda de figura. Aí existe uma coragem que nos deixa a todos surpreendidos. Aí já pode existir “risco”, “choque”, “inovação” e “ambição”. Como estão à porta mais dois elefantes brancos – a Ota e o TGV – espera-se que a maioria na Assembleia da República faça mais uma adenda constitucional de modo a que se possa ir aos colchões ministeriais buscar os dinheiros das derrapagens que aí chegarão. Vamos nessa?
2. A leitura de jornais em Portugal é inversamente proporcional ao tempo gasto frente à televisão. O jornal dá-nos as boas e as más notícias, a televisão oferece-nos os “circos das celebridades” e os programas de anedotas. Neste campo sabemos tudo e somos tudo menos ignorantes.
Os jornais ainda conseguem surpreender e ensinar-nos alguma coisa. Como esta, que li há dias em letras pequeninas: “O Governo brasileiro libertou os mais de quatro mil homens que foram encontrados, em 2005, a trabalhar como escravos em fazendas da Amazónia. No entanto, organizações humanitárias receiam que haja 250 mil brasileiros nessa situação.”
Estão a ver? Breves linhas esquecidas numa página interior informam-nos que num país que fala a nossa língua existem quatro mil homens a trabalhar como escravos. Mas o número pode aumentar e aumentar para um quarto de milhão, seja lá o que isso for...
Na televisão, mais uma anedota e mais uma acrobacia. Mas a notícia fica cá dentro, faz-nos abrir a boca de espanto, talvez indignarmo-nos mas não poderemos dizer que não sabemos.
Misérias, desgraças, tristezas. Os jornais vivem também dos “jackpots” e dos totolotos, das vitórias no futebol e dos colunáveis mas vejamos novamente o que surge noutro canto escondido do jornal: “Precisa de um canalizador ou simplesmente de um arranjo de bricolage? Os moradores do município de Sintra que necessitem destes serviços e não os possam realizar têm ao seu dispor a Oficina do Idoso, um projecto que visa prestar apoio domiciliário para a realização de pequenas reparações. O melhor de tudo: é um serviço gratuito, realizado por funcionários da câmara.”
Esta notícia ensinou-nos um pouco mais sobre o mundo, o “nosso” mundo. E mostra que no século XXI não há apenas escravos. Ainda bem.
3. A Estrada Nacional 128 entre Miranda e Bragança está velha, gasta e ultrapassada. Por isso, foi escolhido e iniciado um novo traçado que oferece mais segurança e qualidade de vida aos utilizadores. Contudo, as obras pararam porque foi descoberta no percurso uma espécie rara de morcegos. Novos acidentes na velha estrada e as obras recomeçaram. Por pouco tempo porque as associações ambientalistas verificaram que um rato ficaria com o habitat destruído. Nova interrupção e os responsáveis afirmam que um eventual novo traçado que passe ao lado dos territórios dos morcegos e dos ratos fará atrasar a obra para “nunca menos de 2011”.
Significa isto que estamos em presença de uma forma de fundamentalismo que urge combater. Com toda a atenção dada às espécies em vias de extinção corremos o risco de qualquer dia ninguém se preocupar com as necessidades básicas dessa verdadeira “espécie em vias de extinção” que é o Homem, se é que ele “merece” ser preservado...
Repare-se que estamos a falar do dinheiro pessoal porque se passamos para os dinheiros públicos, aqueles que nos pertencem, a coisa muda de figura. Aí existe uma coragem que nos deixa a todos surpreendidos. Aí já pode existir “risco”, “choque”, “inovação” e “ambição”. Como estão à porta mais dois elefantes brancos – a Ota e o TGV – espera-se que a maioria na Assembleia da República faça mais uma adenda constitucional de modo a que se possa ir aos colchões ministeriais buscar os dinheiros das derrapagens que aí chegarão. Vamos nessa?
2. A leitura de jornais em Portugal é inversamente proporcional ao tempo gasto frente à televisão. O jornal dá-nos as boas e as más notícias, a televisão oferece-nos os “circos das celebridades” e os programas de anedotas. Neste campo sabemos tudo e somos tudo menos ignorantes.
Os jornais ainda conseguem surpreender e ensinar-nos alguma coisa. Como esta, que li há dias em letras pequeninas: “O Governo brasileiro libertou os mais de quatro mil homens que foram encontrados, em 2005, a trabalhar como escravos em fazendas da Amazónia. No entanto, organizações humanitárias receiam que haja 250 mil brasileiros nessa situação.”
Estão a ver? Breves linhas esquecidas numa página interior informam-nos que num país que fala a nossa língua existem quatro mil homens a trabalhar como escravos. Mas o número pode aumentar e aumentar para um quarto de milhão, seja lá o que isso for...
Na televisão, mais uma anedota e mais uma acrobacia. Mas a notícia fica cá dentro, faz-nos abrir a boca de espanto, talvez indignarmo-nos mas não poderemos dizer que não sabemos.
Misérias, desgraças, tristezas. Os jornais vivem também dos “jackpots” e dos totolotos, das vitórias no futebol e dos colunáveis mas vejamos novamente o que surge noutro canto escondido do jornal: “Precisa de um canalizador ou simplesmente de um arranjo de bricolage? Os moradores do município de Sintra que necessitem destes serviços e não os possam realizar têm ao seu dispor a Oficina do Idoso, um projecto que visa prestar apoio domiciliário para a realização de pequenas reparações. O melhor de tudo: é um serviço gratuito, realizado por funcionários da câmara.”
Esta notícia ensinou-nos um pouco mais sobre o mundo, o “nosso” mundo. E mostra que no século XXI não há apenas escravos. Ainda bem.
3. A Estrada Nacional 128 entre Miranda e Bragança está velha, gasta e ultrapassada. Por isso, foi escolhido e iniciado um novo traçado que oferece mais segurança e qualidade de vida aos utilizadores. Contudo, as obras pararam porque foi descoberta no percurso uma espécie rara de morcegos. Novos acidentes na velha estrada e as obras recomeçaram. Por pouco tempo porque as associações ambientalistas verificaram que um rato ficaria com o habitat destruído. Nova interrupção e os responsáveis afirmam que um eventual novo traçado que passe ao lado dos territórios dos morcegos e dos ratos fará atrasar a obra para “nunca menos de 2011”.
Significa isto que estamos em presença de uma forma de fundamentalismo que urge combater. Com toda a atenção dada às espécies em vias de extinção corremos o risco de qualquer dia ninguém se preocupar com as necessidades básicas dessa verdadeira “espécie em vias de extinção” que é o Homem, se é que ele “merece” ser preservado...
4.4.06
Fumadores e Banqueiros
1. O combate contra o tabagismo está na ordem do dia e devemos meditar bem no exemplo que nos chega da Califórnia. Assim, a pequena localidade de Calabasas pode orgulhar-se, desde a passada semana, de ter uma das leis mais «avançadas» do planeta contra tal problema.
Aprovada por unanimidade no Conselho Municipal da pequena localidade de 25 mil habitantes, a lei proíbe o fumo em todos os espaços públicos, interiores e exteriores, incluindo esplanadas, campos de futebol, paragens de autocarro, parques, jardins e piscinas em condomínios privados. Por enquanto, os cidadãos de Calabasas ainda podem fumar dentro dos respectivos automóveis, mas só se os vidros estiverem fechados, de forma a não incomodarem eventuais passantes.
Tais medidas não são propriamente uma surpresa e não causará particular espanto a ninguém quando a interdição atingir residências privadas. Já há casos de apartamentos que não são alugados a fumadores e também já aconteceu um processo judicial colocado por um norte-americano que se sentia prejudicado pelo vizinho que fumava no jardim. Alegava o queixoso que o vento transportava o «veneno» até à sua residência... Nos tempos que correm, nos Estados Unidos, os fumadores juntam-se em pequenos grupos de pessoas nas esquinas enquanto são olhados com desconfiança pelos transeuntes.
Sem entrar em situações de pura paranóia, era bom que em Portugal se defendessem os direitos dos não fumadores. Basta que prevaleça o bom senso e se encontrem soluções equilibradas.
Registe-se, a finalizar, que os habitantes de Calabasas que infringirem a lei poderão incorrer em multas até 500 dólares – mas só se forem reincidentes. À primeira, levam apenas uma «repreensão amigável» e uma caixa de pastilhas de mentol...
2. Atenta à actualidade, a maioria dos portugueses não sabe o que é uma OPA. Ouve falar destas manobras bolsistas e financeiras com a mesma estranheza com que ouve falar da descoberta de novas estrelas a muitos anos-luz de distância. É através dos jornalistas e analistas, e em particular dos jornalistas e analistas económicos, detentores dos códigos de acesso e do vocabulário técnico, que os portugueses vão sabendo destas movimentações e operações bancárias de grande envergadura, e vão sabendo que de um dia para o outro podem ter um seguro ou ser clientes de um banco que passou ser refém de outro banco, ou que se transformou noutro banco, sem chegarem a perceber as diferenças implícitas, vantagens ou desvantagens da mudança até para si próprios. Passou-se isto com a venda dos seguros do Banco Comercial Português à Caixa Geral de Depósitos. Na maioria dos casos, os detentores desses seguros apenas viram mudar a tutela institucional das companhias, sem chegarem a perceber o que mudou no clausulado dos contratos e aplicação desse clausulado pelas seguradoras.
O consumidor português, incluindo o consumidor de produtos financeiros, é passivo e obediente embora, lá bem no seu íntimo, tenha os economistas em boa conta Agora que a economia e as movimentações micro e macroeconómicas começam a destronar a política (há muito destronaram a cultura, por exemplo) e que todas estas OPAS seguidas, as da Sonae e outras à PT, a do BCP ao BPI invadem o espaço noticioso diário, chegou a altura de os portugueses começarem a exigir mais informação e não contarem apenas com os jornalistas e comentadores. Não é suficiente ouvir os velhos “chavões”, que a economia portuguesa está a dar «sinais» de agitação, e que essa agitação parece ou pode ser benéfica para a banca, a Bolsa, a crise ou o consumo. Mas, entre a Bolsa de valores, com B grande, onde estas transacções são feitas, e a emagrecida bolsa dos consumidores, existe pelo menos uma diferença de escala.
Colocam-se então várias perguntas: todas estas OPAS reflectir-se-ão num acréscimo de qualidade de serviços para o consumidor? Numa poupança de meios? Num mercado mais competitivo e com maior concorrência e menos monopólio lesivo dos interesses dos particulares? Ou estamos apenas e sempre a falar de mais benefícios para os accionistas e mais lucros para a Banca que engorda a olhos vistos, mesmo em tempos conturbados de crise?
Nova Aliança, 31 / 03 / 2006
Aprovada por unanimidade no Conselho Municipal da pequena localidade de 25 mil habitantes, a lei proíbe o fumo em todos os espaços públicos, interiores e exteriores, incluindo esplanadas, campos de futebol, paragens de autocarro, parques, jardins e piscinas em condomínios privados. Por enquanto, os cidadãos de Calabasas ainda podem fumar dentro dos respectivos automóveis, mas só se os vidros estiverem fechados, de forma a não incomodarem eventuais passantes.
Tais medidas não são propriamente uma surpresa e não causará particular espanto a ninguém quando a interdição atingir residências privadas. Já há casos de apartamentos que não são alugados a fumadores e também já aconteceu um processo judicial colocado por um norte-americano que se sentia prejudicado pelo vizinho que fumava no jardim. Alegava o queixoso que o vento transportava o «veneno» até à sua residência... Nos tempos que correm, nos Estados Unidos, os fumadores juntam-se em pequenos grupos de pessoas nas esquinas enquanto são olhados com desconfiança pelos transeuntes.
Sem entrar em situações de pura paranóia, era bom que em Portugal se defendessem os direitos dos não fumadores. Basta que prevaleça o bom senso e se encontrem soluções equilibradas.
Registe-se, a finalizar, que os habitantes de Calabasas que infringirem a lei poderão incorrer em multas até 500 dólares – mas só se forem reincidentes. À primeira, levam apenas uma «repreensão amigável» e uma caixa de pastilhas de mentol...
2. Atenta à actualidade, a maioria dos portugueses não sabe o que é uma OPA. Ouve falar destas manobras bolsistas e financeiras com a mesma estranheza com que ouve falar da descoberta de novas estrelas a muitos anos-luz de distância. É através dos jornalistas e analistas, e em particular dos jornalistas e analistas económicos, detentores dos códigos de acesso e do vocabulário técnico, que os portugueses vão sabendo destas movimentações e operações bancárias de grande envergadura, e vão sabendo que de um dia para o outro podem ter um seguro ou ser clientes de um banco que passou ser refém de outro banco, ou que se transformou noutro banco, sem chegarem a perceber as diferenças implícitas, vantagens ou desvantagens da mudança até para si próprios. Passou-se isto com a venda dos seguros do Banco Comercial Português à Caixa Geral de Depósitos. Na maioria dos casos, os detentores desses seguros apenas viram mudar a tutela institucional das companhias, sem chegarem a perceber o que mudou no clausulado dos contratos e aplicação desse clausulado pelas seguradoras.
O consumidor português, incluindo o consumidor de produtos financeiros, é passivo e obediente embora, lá bem no seu íntimo, tenha os economistas em boa conta Agora que a economia e as movimentações micro e macroeconómicas começam a destronar a política (há muito destronaram a cultura, por exemplo) e que todas estas OPAS seguidas, as da Sonae e outras à PT, a do BCP ao BPI invadem o espaço noticioso diário, chegou a altura de os portugueses começarem a exigir mais informação e não contarem apenas com os jornalistas e comentadores. Não é suficiente ouvir os velhos “chavões”, que a economia portuguesa está a dar «sinais» de agitação, e que essa agitação parece ou pode ser benéfica para a banca, a Bolsa, a crise ou o consumo. Mas, entre a Bolsa de valores, com B grande, onde estas transacções são feitas, e a emagrecida bolsa dos consumidores, existe pelo menos uma diferença de escala.
Colocam-se então várias perguntas: todas estas OPAS reflectir-se-ão num acréscimo de qualidade de serviços para o consumidor? Numa poupança de meios? Num mercado mais competitivo e com maior concorrência e menos monopólio lesivo dos interesses dos particulares? Ou estamos apenas e sempre a falar de mais benefícios para os accionistas e mais lucros para a Banca que engorda a olhos vistos, mesmo em tempos conturbados de crise?
Nova Aliança, 31 / 03 / 2006
23.3.06
Exercício de Memória
Para todos aqueles que têm memória curta, proponho uma pequena viagem no tempo. Pequena porque a viagem é curta. Lembram-se do caso Marcelo? Eu lembro. Era o tempo em que o professor entrava pelo serão nos lares portugueses com as suas conversas dominicais. Criticava toda a gente e foi chamado ao gabinete da administração. Não terá gostado e preferiu sair. Levantaram-se logo todas as vozes: perseguição, falta de liberdade de expressão, fascismo nunca mais, a liberdade de imprensa é sagrada, etc, etc. O Presidente da República, com uma lágrima no canto do olho, concedeu-lhe logo uma audiência, que aquilo não podia ser, que era uma injustiça, onde é que já se viu querer calar uma voz livre.
Lembram-se do GIC? Eu lembro. O GIC, que oficialmente nunca existiu, era nem mais nem menos do que o Gabinete de Informação e Comunicação que o governo de Santana Lopes se propões criar e que Jorge Sampaio vetou, a 21 de Novembro de 2004, não tanto pelos sete coordenadores que o gabinete teria mas sobretudo por considerar que “não há défice, antes excesso de presença estatal e governamental nos meios de comunicação”. Sócrates, na oposição, congratulou-se com esta decisão porque “o Governo estava a passar das marcas na tentativa de pressão e controlo da comunicação social”. Opiniões patéticas quando se assiste hoje à cuidadosa gestão da mesma informação. O que antes era desinvestimento, pressão, fascismo, burocracia, agora é progresso, democracia, investimento, o futuro que “amanhã cantará”.
Lembram-se do caso 24 Horas? Eu lembro. A polícia judiciária, a mando do procurador-geral da República, invadiu as instalações do jornal naquele que constitui um verdadeiro atentado à liberdade de imprensa. Frustrado por nada conseguir descobrir, o procurador virou-se contra os próprios jornalistas mostrando que há quem possa fazer tudo o que lhe apetece, até mesmo violar o sigilo profissional dos jornalistas. O senhor juiz do Tribunal de Instrução criminal de Lisboa encarregue da investigação do caso autorizou o acesso aos computadores dos jornalistas, considerando que “a possibilidade de devassa do sigilo profissional é inferior ao crime que está em discussão”. Ora, como é que se pode dizer uma coisa destas? A partir de agora, poderá um jornalista continuar o seu legítimo trabalho de investigação? E o presidente da República? Ficou agora tão preocupado como há uns tempos atrás? Alguém o ouviu?
Lembram-se do que se propõe fazer-se? Eu lembro. Propõe-se mexer no Código Penal e punir todos os jornalistas que coloquem “em perigo” investigações criminais. Mas mais do que isso, a lei que estabelece a inefável Entidade Reguladora para a Comunicação Social equipara os funcionários deste organismo a “agentes da autoridade”, que terão poderes praticamente ilimitados para, sem mandato de captura, enfiarem o nariz nas redacções dos jornais. Noutra altura, qualquer espirro será encarado como uma ameaça democrática a que o regime respondia com vigor. Hoje…
Lembram-se dos terrenos do IPO? Eu lembro. Desta vez, vá lá saber-se porquê, a venda dos terrenos do IPO e a transferência dum hospital com estas características para outro local ainda a determinar não motivou a mais pequena inquietação nas habitualmente enérgicas comissões de utentes e de trabalhadores. Neste caso, tudo parece resumir-se a uns trocados sobre o valor dos terrenos. Outros tempos…
Lembram-se da co-incineração? Eu lembro. O anúncio do início dos testes para a co-
-incineração dos resíduos industriais perigosos foi recebido abulicamente pelas associações e movimentos que, com outros governos, se mostraram especialmente contundentes. Um exemplo. Em Março de 2004, o aeroporto da Ota era para a Quercus “um elefante branco”, em Julho de 2005 era “a única solução viável”. Outro exemplo. A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) apresentou em 2003 uma queixa em Bruxelas que levou à suspensão das obras da barragem de Odelouca. O projecto foi remodelado mas em Janeiro de 2005 o presidente da LPN declarava que dificilmente Odelouca poderia ser construída porque a barragem continha “graves distorções ambientais”. Em Junho de 2005, dirigentes da LPN assistiam ao lado do ministro do Ambiente ao anúncio do reinício das obras de Odelouca.
Então que tal a viagem? O sudoku arrastou consigo a moda dos exercícios de memória, convém fazê-los regularmente.
Lembram-se do GIC? Eu lembro. O GIC, que oficialmente nunca existiu, era nem mais nem menos do que o Gabinete de Informação e Comunicação que o governo de Santana Lopes se propões criar e que Jorge Sampaio vetou, a 21 de Novembro de 2004, não tanto pelos sete coordenadores que o gabinete teria mas sobretudo por considerar que “não há défice, antes excesso de presença estatal e governamental nos meios de comunicação”. Sócrates, na oposição, congratulou-se com esta decisão porque “o Governo estava a passar das marcas na tentativa de pressão e controlo da comunicação social”. Opiniões patéticas quando se assiste hoje à cuidadosa gestão da mesma informação. O que antes era desinvestimento, pressão, fascismo, burocracia, agora é progresso, democracia, investimento, o futuro que “amanhã cantará”.
Lembram-se do caso 24 Horas? Eu lembro. A polícia judiciária, a mando do procurador-geral da República, invadiu as instalações do jornal naquele que constitui um verdadeiro atentado à liberdade de imprensa. Frustrado por nada conseguir descobrir, o procurador virou-se contra os próprios jornalistas mostrando que há quem possa fazer tudo o que lhe apetece, até mesmo violar o sigilo profissional dos jornalistas. O senhor juiz do Tribunal de Instrução criminal de Lisboa encarregue da investigação do caso autorizou o acesso aos computadores dos jornalistas, considerando que “a possibilidade de devassa do sigilo profissional é inferior ao crime que está em discussão”. Ora, como é que se pode dizer uma coisa destas? A partir de agora, poderá um jornalista continuar o seu legítimo trabalho de investigação? E o presidente da República? Ficou agora tão preocupado como há uns tempos atrás? Alguém o ouviu?
Lembram-se do que se propõe fazer-se? Eu lembro. Propõe-se mexer no Código Penal e punir todos os jornalistas que coloquem “em perigo” investigações criminais. Mas mais do que isso, a lei que estabelece a inefável Entidade Reguladora para a Comunicação Social equipara os funcionários deste organismo a “agentes da autoridade”, que terão poderes praticamente ilimitados para, sem mandato de captura, enfiarem o nariz nas redacções dos jornais. Noutra altura, qualquer espirro será encarado como uma ameaça democrática a que o regime respondia com vigor. Hoje…
Lembram-se dos terrenos do IPO? Eu lembro. Desta vez, vá lá saber-se porquê, a venda dos terrenos do IPO e a transferência dum hospital com estas características para outro local ainda a determinar não motivou a mais pequena inquietação nas habitualmente enérgicas comissões de utentes e de trabalhadores. Neste caso, tudo parece resumir-se a uns trocados sobre o valor dos terrenos. Outros tempos…
Lembram-se da co-incineração? Eu lembro. O anúncio do início dos testes para a co-
-incineração dos resíduos industriais perigosos foi recebido abulicamente pelas associações e movimentos que, com outros governos, se mostraram especialmente contundentes. Um exemplo. Em Março de 2004, o aeroporto da Ota era para a Quercus “um elefante branco”, em Julho de 2005 era “a única solução viável”. Outro exemplo. A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) apresentou em 2003 uma queixa em Bruxelas que levou à suspensão das obras da barragem de Odelouca. O projecto foi remodelado mas em Janeiro de 2005 o presidente da LPN declarava que dificilmente Odelouca poderia ser construída porque a barragem continha “graves distorções ambientais”. Em Junho de 2005, dirigentes da LPN assistiam ao lado do ministro do Ambiente ao anúncio do reinício das obras de Odelouca.
Então que tal a viagem? O sudoku arrastou consigo a moda dos exercícios de memória, convém fazê-los regularmente.
8.3.06
As reformas autárquicas
Queixamo-nos anos e anos que a justiça portuguesa é lenta e depois apanhamos com histórias destas que nos desmentem com todas as letras. Prestem pois atenção.
Era uma vez um funcionário exemplar de uma Câmara Municipal portuguesa. Em dez anos de carreira, nunca faltou ao trabalho. Eis que, num belo dia, sem ninguém esperar, ele dá uma falta injustificada. E logo a seguir outra, e mais uma… Cinco, cinco faltas injustificadas ao exemplar funcionário. Todos se admiraram, onde é que já se viu tal coisa, patati, patatá, houve mesmo um processo disciplinar e, como o funcionário não apresentou recurso, curiosamente, ao fim de duas semanas havia já um relatório final. O assunto foi discutido em reunião de câmara e o funcionário recebeu a adequada punição ( de acordo com o jornal, a segunda mais grave da função pública ): compulsivamente mandado para a reforma. Qual foi o castigo: uma reformazita de mais de três mil euros, nada má para dez anos de serviço…
Duas semanas depois de estar em casa a gozar os rendimentos, este funcionário, prematuramente aposentado mas ainda cheio de força para trabalhar, foi convidado para uma nova função: administrador de uma empresa municipal. O leitor estará confuso e perguntará: de qual câmara? Ora, da mesma, evidentemente. E lá ficou o nosso jovem aposentado a acumular a reforma antecipada de seiscentos e tal contos mensais com mais alguns centos do novo cargo na administração. Digam lá se não existem mesmo momentos felizes…
( Entrementes, continuam a tentar convencer-nos que o país está numa situação difícil, que os funcionários públicos são uns malandros e os únicos culpados da crise e até o governador do Banco de Portugal aproveitou a “crise” para renovar a luxuosa frota automóvel da instituição. Fim do entrementes. )
Esta história não terminou aqui e acabou por ir parar ao tribunal. Existiam alguns pontos obscuros que deviam ser esclarecidos. Então um funcionário tão cumpridor dá repentinamente cinco faltas injustificadas, sofre um processo disciplinar, não esboça qualquer contestação, há uma decisão rapidíssima de passagem à reforma, logo a seguir o convite do mesmo patrão que o “castigara” para um cargo de responsabilidade. Quantas coincidências por aqui vão…
Em tribunal, constatou-se a falta de vergonha. Tudo tinha sido bem pensado e mais ou menos combinado e o juiz condenou o homem por abuso de poder. A pena foi só uma multa de 4650 euros, uma verba que um dos seus dois vencimentos pode pagar. Na sala de tribunal, o juiz afirmou que aquele era um procedimento relativamente vulgar na autarquia e eram conhecidos diversos casos semelhantes de “passagens compulsivas à reforma” por faltas injustificadas… É um “esquema” típico da malandrice portuguesa e pomo-nos apensar com os nossos botões quantos funcionários naquela câmara municipal, ou noutras, estão hoje tranquilamente a gozar as suas reformas devido a um qualquer “castigo” por não terem cumprido alguns deveres profissionais. Alguém desdenha um castigo destes?
A parte boa desta história é que, por vezes, a administração pública deste país é rápida: em pouco mais de um mês instaurou-se um processo disciplinar, houve a respectiva instrução e deu-se o veredicto. Coisa rara e eficiente… Para além disto, a justiça funcionou neste caso às mil maravilhas e muito rapidamente: o funcionário foi rapidamente “punido” com a tal reforma e, descoberto o truque, voltou a ser “punido” com uma elevada multa de 4650 euros. Digam lá agora se o crime compensa… ah, um último pormenor, o caso passou-se na Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.
Nova Aliança, 3 / Março / 2006
Era uma vez um funcionário exemplar de uma Câmara Municipal portuguesa. Em dez anos de carreira, nunca faltou ao trabalho. Eis que, num belo dia, sem ninguém esperar, ele dá uma falta injustificada. E logo a seguir outra, e mais uma… Cinco, cinco faltas injustificadas ao exemplar funcionário. Todos se admiraram, onde é que já se viu tal coisa, patati, patatá, houve mesmo um processo disciplinar e, como o funcionário não apresentou recurso, curiosamente, ao fim de duas semanas havia já um relatório final. O assunto foi discutido em reunião de câmara e o funcionário recebeu a adequada punição ( de acordo com o jornal, a segunda mais grave da função pública ): compulsivamente mandado para a reforma. Qual foi o castigo: uma reformazita de mais de três mil euros, nada má para dez anos de serviço…
Duas semanas depois de estar em casa a gozar os rendimentos, este funcionário, prematuramente aposentado mas ainda cheio de força para trabalhar, foi convidado para uma nova função: administrador de uma empresa municipal. O leitor estará confuso e perguntará: de qual câmara? Ora, da mesma, evidentemente. E lá ficou o nosso jovem aposentado a acumular a reforma antecipada de seiscentos e tal contos mensais com mais alguns centos do novo cargo na administração. Digam lá se não existem mesmo momentos felizes…
( Entrementes, continuam a tentar convencer-nos que o país está numa situação difícil, que os funcionários públicos são uns malandros e os únicos culpados da crise e até o governador do Banco de Portugal aproveitou a “crise” para renovar a luxuosa frota automóvel da instituição. Fim do entrementes. )
Esta história não terminou aqui e acabou por ir parar ao tribunal. Existiam alguns pontos obscuros que deviam ser esclarecidos. Então um funcionário tão cumpridor dá repentinamente cinco faltas injustificadas, sofre um processo disciplinar, não esboça qualquer contestação, há uma decisão rapidíssima de passagem à reforma, logo a seguir o convite do mesmo patrão que o “castigara” para um cargo de responsabilidade. Quantas coincidências por aqui vão…
Em tribunal, constatou-se a falta de vergonha. Tudo tinha sido bem pensado e mais ou menos combinado e o juiz condenou o homem por abuso de poder. A pena foi só uma multa de 4650 euros, uma verba que um dos seus dois vencimentos pode pagar. Na sala de tribunal, o juiz afirmou que aquele era um procedimento relativamente vulgar na autarquia e eram conhecidos diversos casos semelhantes de “passagens compulsivas à reforma” por faltas injustificadas… É um “esquema” típico da malandrice portuguesa e pomo-nos apensar com os nossos botões quantos funcionários naquela câmara municipal, ou noutras, estão hoje tranquilamente a gozar as suas reformas devido a um qualquer “castigo” por não terem cumprido alguns deveres profissionais. Alguém desdenha um castigo destes?
A parte boa desta história é que, por vezes, a administração pública deste país é rápida: em pouco mais de um mês instaurou-se um processo disciplinar, houve a respectiva instrução e deu-se o veredicto. Coisa rara e eficiente… Para além disto, a justiça funcionou neste caso às mil maravilhas e muito rapidamente: o funcionário foi rapidamente “punido” com a tal reforma e, descoberto o truque, voltou a ser “punido” com uma elevada multa de 4650 euros. Digam lá agora se o crime compensa… ah, um último pormenor, o caso passou-se na Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.
Nova Aliança, 3 / Março / 2006
22.2.06
Bill Gates e Medrões: semelhanças e diferenças
Escrever quinzenalmente tem a vantagem de deixar assentar a poeira dos dias e de se obter um distanciamento que pode ser benéfico ou não. Falemos de Gates, Bill Gates. Ele ficará ligado inconscientemente à aldeia de Medrões, concelho de Santa Marta de Penaguião, distrito de Vila Real. Já lá vamos…
A imagem televisiva, convenhamos, tinha o seu quê de esquisito. Ao centro, metade do Governo, acotovelando-se em pé, diante de uma mesa exígua, fazia em simultâneo uma vénia de 90 graus e sorria para a plateia, enquanto assinava protocolos com a Microsoft. A seu lado, mas ainda assim a uma razoável distância, num canto do palco, o primeiro-ministro sorria também, sentado ao pé do Bill e feliz por poder um dia contar aos netos que tinha estado numa ocasião ao lado do "homem mais rico do mundo". Quem olhasse de repente julgaria que a vénia dos ministros lhes era dirigida a eles, e que tudo aquilo não passava do ritual de vassalagem a um imperador visitante. Tratava-se, contudo e apenas, de um empresário, por maior que fosse a felicidade que ele vinha trazer – leia-se, vender os seus produtos - ao País e que o sorriso estampado na cara dos ministros, durante aquela cerimónia, garantia ser a rodos. Se existirem, como se espera e deseja, mais investimentos parecidos, o protocolo de Estado vai ter de ser revisto, de modo a graduar as ordens de mérito e as consequentes honrarias e salamaleques, consoante o volume de empregos e exportações prometido.
O que choca no meio deste turbilhão é a falta de vergonha nesta obsessão pela propaganda. Existe realmente um departamento de publicidade a funcionar: uma empresa que vai construir, um grupo que pensa fazer, uma multinacional que pensa fixar-se, pessoas que “querem fazer coisas”, acordos de princípio, intenções, ideias que ainda não são projectos, projectos que ainda não são programas, propósitos, promessas de investimento. O famoso “choque tecnológico” tem energia, ciência, computadores, imobiliário, vacinas, móveis. Como não se sabe quanto investimento vem e quanto o governo oferece, será possível assistirmos a duas ou três inaugurações para cada projecto. O que a propaganda não aceita são interpelações em público ao senhor Sócrates como a que foi feita pelo primeiro responsável do dito “choque” a propósito do programa MIT.
Entretanto, coincidindo com a presença de senhor Gates, um canal de televisão decidiu fazer uma breve reportagem em Medrões. Visitaram a escola primária que recebe duas a três dezenas de crianças da localidade e de localidades vizinhas. Trata-se de uma escola tipicamente rural e sem muros. Uma senhora informa que a escola já tem banda larga. Todavia, os alunos têm de se deslocar a pé, alguns a dois ou três quilómetros, porque não existe transporte público, nem mesmo municipal. No Inverno, por aquelas bandas, o frio é mesmo… frio! Como a escola não serve refeições, as crianças têm de ir a casa almoçar e voltar para as aulas da tarde. Quatro percursos, dez quilómetros por dia. O abastecimento de água faz-se a partir de um poço, pelo que os alunos levam de casa umas garrafas de água.
O Presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião, de forma arrogante ( terá aprendido com quem? ), não via riscos nenhuns na ausência de vedação e, quanto à água, nunca tinha havido problema e se esse era motivo de reivindicação, ele “ia trazer água da companhia”. Garantiu ainda que não haveria transportes camarários, pois a lei “só obriga a assegurar transportes em distâncias superiores a três quilómetros”. Sobre a possibilidade de organização de uma cantina ou sala de refeições, garantiu, incomodado, que “havia planos”. Este senhor, feliz por estar a falar para a televisão pela primeira vez, não escondeu a sua satisfação por ter banda larga.
Enquanto não fecha ( porque neste país as escolas se vêm transformando em unidades lucrativas de produção) a escola de Medrões não justifica o estado em que se encontra. E ela é o exemplo perfeito desta propaganda actual que nos mostra a volúpia e o exibicionismo, que prefere o vistoso e o investimento no que parece moderno. Que orgulho tem o país nas suas escolas aquecidas no Inverno, nos seus transportes escolares, na água potável nas escolas, nas cantinas para estudantes?
As lantejoulas e o pechisbeque encandeiam o país. Bastaria apenas que cada um cumprisse o seu dever.
Nova Aliança, 17 / 02 / 2006
A imagem televisiva, convenhamos, tinha o seu quê de esquisito. Ao centro, metade do Governo, acotovelando-se em pé, diante de uma mesa exígua, fazia em simultâneo uma vénia de 90 graus e sorria para a plateia, enquanto assinava protocolos com a Microsoft. A seu lado, mas ainda assim a uma razoável distância, num canto do palco, o primeiro-ministro sorria também, sentado ao pé do Bill e feliz por poder um dia contar aos netos que tinha estado numa ocasião ao lado do "homem mais rico do mundo". Quem olhasse de repente julgaria que a vénia dos ministros lhes era dirigida a eles, e que tudo aquilo não passava do ritual de vassalagem a um imperador visitante. Tratava-se, contudo e apenas, de um empresário, por maior que fosse a felicidade que ele vinha trazer – leia-se, vender os seus produtos - ao País e que o sorriso estampado na cara dos ministros, durante aquela cerimónia, garantia ser a rodos. Se existirem, como se espera e deseja, mais investimentos parecidos, o protocolo de Estado vai ter de ser revisto, de modo a graduar as ordens de mérito e as consequentes honrarias e salamaleques, consoante o volume de empregos e exportações prometido.
O que choca no meio deste turbilhão é a falta de vergonha nesta obsessão pela propaganda. Existe realmente um departamento de publicidade a funcionar: uma empresa que vai construir, um grupo que pensa fazer, uma multinacional que pensa fixar-se, pessoas que “querem fazer coisas”, acordos de princípio, intenções, ideias que ainda não são projectos, projectos que ainda não são programas, propósitos, promessas de investimento. O famoso “choque tecnológico” tem energia, ciência, computadores, imobiliário, vacinas, móveis. Como não se sabe quanto investimento vem e quanto o governo oferece, será possível assistirmos a duas ou três inaugurações para cada projecto. O que a propaganda não aceita são interpelações em público ao senhor Sócrates como a que foi feita pelo primeiro responsável do dito “choque” a propósito do programa MIT.
Entretanto, coincidindo com a presença de senhor Gates, um canal de televisão decidiu fazer uma breve reportagem em Medrões. Visitaram a escola primária que recebe duas a três dezenas de crianças da localidade e de localidades vizinhas. Trata-se de uma escola tipicamente rural e sem muros. Uma senhora informa que a escola já tem banda larga. Todavia, os alunos têm de se deslocar a pé, alguns a dois ou três quilómetros, porque não existe transporte público, nem mesmo municipal. No Inverno, por aquelas bandas, o frio é mesmo… frio! Como a escola não serve refeições, as crianças têm de ir a casa almoçar e voltar para as aulas da tarde. Quatro percursos, dez quilómetros por dia. O abastecimento de água faz-se a partir de um poço, pelo que os alunos levam de casa umas garrafas de água.
O Presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião, de forma arrogante ( terá aprendido com quem? ), não via riscos nenhuns na ausência de vedação e, quanto à água, nunca tinha havido problema e se esse era motivo de reivindicação, ele “ia trazer água da companhia”. Garantiu ainda que não haveria transportes camarários, pois a lei “só obriga a assegurar transportes em distâncias superiores a três quilómetros”. Sobre a possibilidade de organização de uma cantina ou sala de refeições, garantiu, incomodado, que “havia planos”. Este senhor, feliz por estar a falar para a televisão pela primeira vez, não escondeu a sua satisfação por ter banda larga.
Enquanto não fecha ( porque neste país as escolas se vêm transformando em unidades lucrativas de produção) a escola de Medrões não justifica o estado em que se encontra. E ela é o exemplo perfeito desta propaganda actual que nos mostra a volúpia e o exibicionismo, que prefere o vistoso e o investimento no que parece moderno. Que orgulho tem o país nas suas escolas aquecidas no Inverno, nos seus transportes escolares, na água potável nas escolas, nas cantinas para estudantes?
As lantejoulas e o pechisbeque encandeiam o país. Bastaria apenas que cada um cumprisse o seu dever.
Nova Aliança, 17 / 02 / 2006
8.2.06
A Gripe das Aves
Num relatório divulgado recentemente sobre os riscos à escala global, visando os anos de 2005 e 2006, o Fórum Económico Mundial recomenda uma compreensão mais sofisticada do problema. Assim, terrorismo e pandemias são os riscos que lideram uma lista de 25 identificados no relatório.
O risco que mais problemas colocará é a mudança climática, enquanto se salienta que os destaques de 2005 como o terrorismo, subida do preço do petróleo, crises orçamentais, pandemia de gripe, doenças como sida / HIV, tuberculose e malária e crises humanitárias, resultantes da vulnerabilidade de muitas partes do mundo a desastres naturais continuarão a verificar-se em 2006. A crescer de importância estão riscos como a mudança climática, a litigação contra empresas, a contrafacção e as expectativas sobre os campos magnéticos. No que diz respeito a este último risco, precisa-se que se se provasse que estes campos tinham efeitos perniciosos para a saúde , mesmo com baixos níveis de exposição, isto poderia ter um “impacto imenso, tanto em termos económicos como sociais”, dada a difusão crescente de aparelhos electrónicos.
Deveremos levar ainda em linha de conta outros riscos como o impacto do comportamento do sol na meteorologia espacial, ou a perda de biodiversidade, “invisíveis e desconhecidos para o grande público”. Os autores do relatório seleccionam quatro cenários de risco: aumentos do preço do barril de petróleo para um nível entre os 80 e os 100 dólares, pandemia de gripe aviária, terrorismo e mudança climática.
Centremos a nossa atenção na gripe das aves. Alguma coisa que tomou o avião na Ásia, fez escala na Médio Oriente e mudou-se de armas e bagagens para o Leste da Europa. Em breve estará nas nossas casas. Deveremos ficar assustados? A resposta é afirmativa. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 7 milhões de pessoas podem morrer em atroz agonia. As Nações Unidas falam em 150 milhões. Michael Osterholm, epidemiologista americano, fala em 360 milhões.
A ideia de uma pandemia trágica dá que pensar. Primeiro, que o vírus responsável pela morte das aves se propaga para a espécie humana. E, além disso, que a espécie humana é capaz de se contaminar, como aconteceu em 1918 com a famosa gripe espanhola. Cenário improvável. Até ao momento, morreram 60 pessoas em 117 casos de gripe do frango conhecidos. Repito: 60. Na Ásia, onde as populações rurais praticamente vivem no meio das aves e os cuidados de saúde não são os melhores, explica dessa maneira a mortandade - uma mortandade residual, é certo - e, tendo em conta a expressão demográfica da zona, absolutamente ridícula. E entre nós?
Bom, por cá, existe e persiste o nosso hábito mediático que todos os anos inventa uma nova catástrofe para liquidar a Humanidade. Há uns anos, a doença das vacas loucas, pronta para arruinar milhares de vidas, praticamente arruinou os criadores de gado da Europa. Os preços bateram mínimos históricos. Muita gente se converteu ao vegetarianismo. Afinal, a loucura das vacas foi como veio.
A verdade, a cruel verdade, é que nunca se esteve tão bem como agora. Vivemos mais e melhor. A medicina alcançou progressos que seriam impensáveis para os nossos antepassados. Claro que existem situações de miséria, sobretudo em África, onde a fome persiste. Mas até em África o mundo avança: de acordo com as Nações Unidas, a percentagem de povos do Terceiro Mundo que passam fome desceu de 35% em 1970 para 18% nos dias de hoje. Apesar da explosão demográfica.
Sobram as guerras, claro. Mas se pensa que o mundo está menos pacífico, está enganado. A percepção dos conflitos através da comunicação social não significa que os conflitos aumentaram. Pelo contrário: o mundo está mais pacífico e a guerra --a guerra entre Estados e a guerra dentro dos Estados-- foi gradualmente diminuindo nas últimas décadas. Segundo o historiador britânico Niall Ferguson, só nos últimos três anos terminaram 11 conflitos maiores: de Angola ao Ruanda, do Sri Lanka à Indonésia. E nunca, como hoje, existiram tantas democracias na face da Terra.
Não admira que a Humanidade esteja perdida de tédio, criando, recriando e até filmando a sua própria aniquilação física. O clima. As vacas loucas. A gripe do frango. Tudo serve para aliviar o sentimento de culpa que sentimos no meio de tanto conforto.
São horas de jantar e uma voz informa-me que o frango já está assado. Até já. E se o vírus do bicho bater entretanto, por favor, digam que eu estou ocupado.
Nova Aliança, 3 / Fevereiro / 2006
O risco que mais problemas colocará é a mudança climática, enquanto se salienta que os destaques de 2005 como o terrorismo, subida do preço do petróleo, crises orçamentais, pandemia de gripe, doenças como sida / HIV, tuberculose e malária e crises humanitárias, resultantes da vulnerabilidade de muitas partes do mundo a desastres naturais continuarão a verificar-se em 2006. A crescer de importância estão riscos como a mudança climática, a litigação contra empresas, a contrafacção e as expectativas sobre os campos magnéticos. No que diz respeito a este último risco, precisa-se que se se provasse que estes campos tinham efeitos perniciosos para a saúde , mesmo com baixos níveis de exposição, isto poderia ter um “impacto imenso, tanto em termos económicos como sociais”, dada a difusão crescente de aparelhos electrónicos.
Deveremos levar ainda em linha de conta outros riscos como o impacto do comportamento do sol na meteorologia espacial, ou a perda de biodiversidade, “invisíveis e desconhecidos para o grande público”. Os autores do relatório seleccionam quatro cenários de risco: aumentos do preço do barril de petróleo para um nível entre os 80 e os 100 dólares, pandemia de gripe aviária, terrorismo e mudança climática.
Centremos a nossa atenção na gripe das aves. Alguma coisa que tomou o avião na Ásia, fez escala na Médio Oriente e mudou-se de armas e bagagens para o Leste da Europa. Em breve estará nas nossas casas. Deveremos ficar assustados? A resposta é afirmativa. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 7 milhões de pessoas podem morrer em atroz agonia. As Nações Unidas falam em 150 milhões. Michael Osterholm, epidemiologista americano, fala em 360 milhões.
A ideia de uma pandemia trágica dá que pensar. Primeiro, que o vírus responsável pela morte das aves se propaga para a espécie humana. E, além disso, que a espécie humana é capaz de se contaminar, como aconteceu em 1918 com a famosa gripe espanhola. Cenário improvável. Até ao momento, morreram 60 pessoas em 117 casos de gripe do frango conhecidos. Repito: 60. Na Ásia, onde as populações rurais praticamente vivem no meio das aves e os cuidados de saúde não são os melhores, explica dessa maneira a mortandade - uma mortandade residual, é certo - e, tendo em conta a expressão demográfica da zona, absolutamente ridícula. E entre nós?
Bom, por cá, existe e persiste o nosso hábito mediático que todos os anos inventa uma nova catástrofe para liquidar a Humanidade. Há uns anos, a doença das vacas loucas, pronta para arruinar milhares de vidas, praticamente arruinou os criadores de gado da Europa. Os preços bateram mínimos históricos. Muita gente se converteu ao vegetarianismo. Afinal, a loucura das vacas foi como veio.
A verdade, a cruel verdade, é que nunca se esteve tão bem como agora. Vivemos mais e melhor. A medicina alcançou progressos que seriam impensáveis para os nossos antepassados. Claro que existem situações de miséria, sobretudo em África, onde a fome persiste. Mas até em África o mundo avança: de acordo com as Nações Unidas, a percentagem de povos do Terceiro Mundo que passam fome desceu de 35% em 1970 para 18% nos dias de hoje. Apesar da explosão demográfica.
Sobram as guerras, claro. Mas se pensa que o mundo está menos pacífico, está enganado. A percepção dos conflitos através da comunicação social não significa que os conflitos aumentaram. Pelo contrário: o mundo está mais pacífico e a guerra --a guerra entre Estados e a guerra dentro dos Estados-- foi gradualmente diminuindo nas últimas décadas. Segundo o historiador britânico Niall Ferguson, só nos últimos três anos terminaram 11 conflitos maiores: de Angola ao Ruanda, do Sri Lanka à Indonésia. E nunca, como hoje, existiram tantas democracias na face da Terra.
Não admira que a Humanidade esteja perdida de tédio, criando, recriando e até filmando a sua própria aniquilação física. O clima. As vacas loucas. A gripe do frango. Tudo serve para aliviar o sentimento de culpa que sentimos no meio de tanto conforto.
São horas de jantar e uma voz informa-me que o frango já está assado. Até já. E se o vírus do bicho bater entretanto, por favor, digam que eu estou ocupado.
Nova Aliança, 3 / Fevereiro / 2006
25.1.06
O Mundo da Informação
1. Nunca como hoje circulou no mundo inteiro tanta informação. Serge Proulx, sociólogo e especialista em ciências da comunicação que esteve recentemente em Lisboa para proferir uma conferência sobre a Cibernética, considera ser necessário refundar a educação para enfrentar a overdose de informação. Existirá uma relação directa e automática entre sobrecarga de informação e crescimento de comunicação? Proulx tem dúvidas e evoca o fundador da cibernética, o matemático Norbert Wiener, que aplicou às sociedades um dos princípios da termodinâmica e acreditava que a circulação da informação era a única hipótese de a humanidade sobreviver ao caos. Wiener opõe informação e entropia, pela aproximação ao segundo princípio da termodinâmica: a informação é o que dá forma à organização do real e a entropia é a desorganização. Proulx explica numa das suas obras que a cibernética colocava as máquinas e os seres humanos num plano de igualdade, uma vez que ambos gerem a informação que existe no meio ambiente. Foi quando desenhou um sistema de defesa anti-aérea que disparava antecipando o ponto para onde o alvo iria escapar que Wiener começou a desenvolver o seu conceito de máquina inteligente. Essa máquina era uma máquina retroactiva, ou seja, que tinha um mecanismo de feedback. Proulx, num livro do qual é co-autor com Philippe Breton ( A Explosão da Comunicação, Bizâncio, 1989 ) explica como a crença na informação é, para Wiener, uma resposta à violência da II Guerra Mundial e ao totalitarismo, mas também uma reacção à investigação científica dominada pelos militares, como aconteceu durante o conflito de 39-45 e nos anos da guerra fria. A Internet ajuda-nos a perceber que o problema da comunicação é omnipresente. Hoje em dia, tudo é comunicação. Depois da máquina energética e da máquina mecânica, este é o tempo da máquina informacional. Sinal dos tempos.
2. Uma leitura atenta dos jornais é uma óptima lição para nos actualizarmos sobre um discurso rico em lugares-comuns de mau gosto, em chavões falsamente tecnocráticos e em tiques ideológicos baratos. Políticos, economistas, jornalistas têm-se especializado numa “gíria” de pendor “novo-rico”. Aí vão alguns exemplos: “priorizar”, “calendarizar”, “implementar”, “derrapagem”, “tabu”, “incontornáveis”, “elencar”. “Enumerar” e “enunciar” são hoje expressões quase jurássicas que um candidato a político definitivamente não usa. “Atempadamente” é um vocábulo da moda, por oposição a “oportunamente”, “no prazo”, “a seu tempo”, “a tempo”, “em tempo” ou “em tempo útil” infelizmente esquecidas.
É impressionante a contribuição dada à língua portuguesa por todo o tipo de criaturas com acesso aos meios de comunicação social. Quando existe um microfone por perto, já sabemos de antemão estar a chegar uma catrefada
( vocábulo giro que se deve poder utilizar aqui ) de “prontos” e outras palavras inventadas para compensar o desconhecimento. “Descontinuar” é uma palavra que está na moda por oposição a “interromper” caído no esquecimento. Alguém dizia que quando um político substitui a palavra “subsídio” por “subvenção”, apenas pretende inovar no plano vocabular o que não sabe mudar na política. Obviamente não se coloca em causa o número de leituras em francês, nem sequer o profundo conhecimento que os portugueses têm da palavra “subsídio”. Trata-se apenas de um desejo de “dar ares”. Ensina-se na escola que o discurso técnico é usado em certas profissões e em certos meios para transmitir certos conceitos ou noções. Facilmente se conclui ser necessária a sua utilização e quem o conhece não deve ser impedido de o usar. O problema reside no facto de alguns utilizarem palavras sem saber bem o que significam e apenas nos quererem impressionar com a sua utilização. Ao fim de tantos anos a utilizar expressões em inglês, os nossos economistas continuam a mostrar-se incapazes de as traduzir para português. Até porque não estando a falar uns para os outros mas para todos nós, através dos media, exigir-se-ia um maior esforço no sentido de uma maior precisão dos termos aplicados. Politiquês, economês e jornalês? Talvez, mas na dose certa. Aquilo que em culinária se apelida de de q.b.
Nova Aliança, 20 / Janeiro / 2006
2. Uma leitura atenta dos jornais é uma óptima lição para nos actualizarmos sobre um discurso rico em lugares-comuns de mau gosto, em chavões falsamente tecnocráticos e em tiques ideológicos baratos. Políticos, economistas, jornalistas têm-se especializado numa “gíria” de pendor “novo-rico”. Aí vão alguns exemplos: “priorizar”, “calendarizar”, “implementar”, “derrapagem”, “tabu”, “incontornáveis”, “elencar”. “Enumerar” e “enunciar” são hoje expressões quase jurássicas que um candidato a político definitivamente não usa. “Atempadamente” é um vocábulo da moda, por oposição a “oportunamente”, “no prazo”, “a seu tempo”, “a tempo”, “em tempo” ou “em tempo útil” infelizmente esquecidas.
É impressionante a contribuição dada à língua portuguesa por todo o tipo de criaturas com acesso aos meios de comunicação social. Quando existe um microfone por perto, já sabemos de antemão estar a chegar uma catrefada
( vocábulo giro que se deve poder utilizar aqui ) de “prontos” e outras palavras inventadas para compensar o desconhecimento. “Descontinuar” é uma palavra que está na moda por oposição a “interromper” caído no esquecimento. Alguém dizia que quando um político substitui a palavra “subsídio” por “subvenção”, apenas pretende inovar no plano vocabular o que não sabe mudar na política. Obviamente não se coloca em causa o número de leituras em francês, nem sequer o profundo conhecimento que os portugueses têm da palavra “subsídio”. Trata-se apenas de um desejo de “dar ares”. Ensina-se na escola que o discurso técnico é usado em certas profissões e em certos meios para transmitir certos conceitos ou noções. Facilmente se conclui ser necessária a sua utilização e quem o conhece não deve ser impedido de o usar. O problema reside no facto de alguns utilizarem palavras sem saber bem o que significam e apenas nos quererem impressionar com a sua utilização. Ao fim de tantos anos a utilizar expressões em inglês, os nossos economistas continuam a mostrar-se incapazes de as traduzir para português. Até porque não estando a falar uns para os outros mas para todos nós, através dos media, exigir-se-ia um maior esforço no sentido de uma maior precisão dos termos aplicados. Politiquês, economês e jornalês? Talvez, mas na dose certa. Aquilo que em culinária se apelida de de q.b.
Nova Aliança, 20 / Janeiro / 2006
Os Inquéritos em Portugal
Qual a finalidade dos inquéritos em Portugal? Esta é realmente uma boa pergunta mas duvido que existam duas respostas verdadeiras. Levi, dois anos, morreu em Maio de 2005 por negligência da mãe na sequência de uma decisão do Tribunal de Menores que decretava a entrega “gradual” da criança ao pai; Vanessa, cinco anos, morreu no mesmo mês, queimada viva pelo pai e pela avó, enquanto a mãe se queixava de burocracia em burocracia; Daniel, seis anos, surdo mudo e com diversas outras deficiências, morreu em Setembro, espancado até à morte pelo padrasto, depois de ter passado por três hospitais de Lisboa, sem que alguém denunciasse a situação; Joana, dez anos, morreu em Setembro de 2004, assassinada pela mãe e pelo tio; Catarina, dois anos e meio, morreu em Outubro de 2003, devido a torturas praticadas por uma tia e pelo pai, ao qual fora devolvida pela Comissão de Protecção de Menores…
Os exemplos podiam continuar até ao final deste texto e no momento em que escrevo se sabe ainda se Fátima Letícia, a bebé que encontrou em coma depois de ter sido barbaramente agredida pelos pais, sobreviverá. Certo, certo é que ficará com lesões neurológicas irreversíveis. No meio de tudo isto existem os tais inquéritos dos inquéritos dos inquéritos… Como compreender então a frase de Armando Leandro, presidente da chamada Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco segundo a qual “ a comissão agiu bem ao fazer tudo para que o bebé se mantivesse no seu seio natural de vida”. Eis o primeiro “azar” de Fátima Letícia: manter-se no seu “meio natural de vida”… Ele próprio explicava que “desta vez, o sistema até funcionou, porque houve uma avó que tentou estar sempre presente e se preocupou, tendo denunciado tudo o que se passou”. Foi o segundo “azar” da criança, o sistema ter funcionado.
Vejamos o funcionamento do sistema: entre 4 de Novembro e 9 de Dezembro, a bebé esteve internada três vezes no Hospital de S. Teotónio em Viseu, a 12 de Novembro, na segunda hospitalização, o Hospital detecta “sinais evidentes de negligência grave” e alerta a Comissão de Protecção de Menores; a 9 de Dezembro, já em coma, a bebé é de novo levada ao hospital. Ao mesmo tempo, as técnicas da Comissão organizaram reuniões para “reconciliar a família” ( a avó com o pai, já com um registo criminal por abuso de menores que ninguém averiguou, e a mãe, com um ligeiro atraso mental ), tendo inclusivamente feito uma visita, sem encontrar nada digno de registo, nem sequer marcas de abusos continuados no corpo da criança ( incluindo penetração sexual com objectos ) desde os primeiros dias de vida.
Estes “azares” e estes “sistemas”, a repetição destes “inquéritos” e destes “jogos de palavras” conduzem-nos a conceitos como “negligência” e “indiferença” pelos direitos dos outros seres humanos. Mais do que isso, são formas de cumplicidade nos atentados a esses mesmos direitos. E quem “julga” essas “cumplicidades”? Ao Levi, à Vanessa, ao Daniel, à Joana, à Catarina e à Fátima Letícia não deram oportunidade de passar o Natal junto da família. E a Bíblia lembra-nos que ter um filho é, antes de tudo, assumir uma responsabilidade e um compromisso de amor absoluto. Não se trata de um acto mecânico, consequência do trabalho conjunto de espermatozóides e óvulos. Nem se trata de um puzzle em que todas as peças supostamente encaixam umas nas outras. Todavia, analisando o comportamento de várias instituições do Estado, as crianças aparecem como seres destituídos de quaisquer direitos autónomos. Se aquilo que define a nossa civilização são os valores, onde estarão eles neste caso? Não deverá o Estado assegurar a segurança dos cidadãos? Haverá alguma justificação que sirva verdadeiramente para ilibar o Estado das suas responsabilidades?
O nosso presente está cheio de informação. Na “aldeia global”, os acontecimentos pululam. Ora, considerando acontecimento como uma ocorrência desprovida de responsabilização, lamenta-se que ninguém se tenha responsabilizado pela protecção destas crianças. A Fátima Letícia nem sequer valeu o significado do nome duplo que mistura a Fé portuguesa com a realeza espanhola…
Nova Aliança, 6 / Janeiro / 2006
Os exemplos podiam continuar até ao final deste texto e no momento em que escrevo se sabe ainda se Fátima Letícia, a bebé que encontrou em coma depois de ter sido barbaramente agredida pelos pais, sobreviverá. Certo, certo é que ficará com lesões neurológicas irreversíveis. No meio de tudo isto existem os tais inquéritos dos inquéritos dos inquéritos… Como compreender então a frase de Armando Leandro, presidente da chamada Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco segundo a qual “ a comissão agiu bem ao fazer tudo para que o bebé se mantivesse no seu seio natural de vida”. Eis o primeiro “azar” de Fátima Letícia: manter-se no seu “meio natural de vida”… Ele próprio explicava que “desta vez, o sistema até funcionou, porque houve uma avó que tentou estar sempre presente e se preocupou, tendo denunciado tudo o que se passou”. Foi o segundo “azar” da criança, o sistema ter funcionado.
Vejamos o funcionamento do sistema: entre 4 de Novembro e 9 de Dezembro, a bebé esteve internada três vezes no Hospital de S. Teotónio em Viseu, a 12 de Novembro, na segunda hospitalização, o Hospital detecta “sinais evidentes de negligência grave” e alerta a Comissão de Protecção de Menores; a 9 de Dezembro, já em coma, a bebé é de novo levada ao hospital. Ao mesmo tempo, as técnicas da Comissão organizaram reuniões para “reconciliar a família” ( a avó com o pai, já com um registo criminal por abuso de menores que ninguém averiguou, e a mãe, com um ligeiro atraso mental ), tendo inclusivamente feito uma visita, sem encontrar nada digno de registo, nem sequer marcas de abusos continuados no corpo da criança ( incluindo penetração sexual com objectos ) desde os primeiros dias de vida.
Estes “azares” e estes “sistemas”, a repetição destes “inquéritos” e destes “jogos de palavras” conduzem-nos a conceitos como “negligência” e “indiferença” pelos direitos dos outros seres humanos. Mais do que isso, são formas de cumplicidade nos atentados a esses mesmos direitos. E quem “julga” essas “cumplicidades”? Ao Levi, à Vanessa, ao Daniel, à Joana, à Catarina e à Fátima Letícia não deram oportunidade de passar o Natal junto da família. E a Bíblia lembra-nos que ter um filho é, antes de tudo, assumir uma responsabilidade e um compromisso de amor absoluto. Não se trata de um acto mecânico, consequência do trabalho conjunto de espermatozóides e óvulos. Nem se trata de um puzzle em que todas as peças supostamente encaixam umas nas outras. Todavia, analisando o comportamento de várias instituições do Estado, as crianças aparecem como seres destituídos de quaisquer direitos autónomos. Se aquilo que define a nossa civilização são os valores, onde estarão eles neste caso? Não deverá o Estado assegurar a segurança dos cidadãos? Haverá alguma justificação que sirva verdadeiramente para ilibar o Estado das suas responsabilidades?
O nosso presente está cheio de informação. Na “aldeia global”, os acontecimentos pululam. Ora, considerando acontecimento como uma ocorrência desprovida de responsabilização, lamenta-se que ninguém se tenha responsabilizado pela protecção destas crianças. A Fátima Letícia nem sequer valeu o significado do nome duplo que mistura a Fé portuguesa com a realeza espanhola…
Nova Aliança, 6 / Janeiro / 2006
3.1.06
As presidenciais, a literatura e as frases feitas
1. Medeiros Ferreira teve esse dom analítico e premonitório de ter percebido os sinais da candidatura de Mário Soares à Presidência da República muito antes do comum dos mortais. Isso aconteceu ao reler Os Poemas da Minha Vida seleccionados pelo fundador do PS para o jornal Público. Na sua opinião, todas as peças se encaixam: os traços fundamentais da personalidade, o seu posicionamento perante a vida, as suas amizades e as coisas da política, o seu universo de gostos pessoais.
Atento, Ferreira interpretou o “Basta!” de política, proferido solenemente por Soares no aniversário dos 80 anos, como um gesto de delicadeza circunstancial e gestão de expectativas para com as centenas de participantes no lauto jantar. Nem o próprio Manuel Alegre, companheiro de tantas jornadas há mais de 40 anos e poeta incluído na referida selecção de poemas, conseguiu interpretar em tempo útil tais palavras.
E teria sido tão, tão fácil. Bastaria recordar os nossos poetas Luís de Camões
( “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades” ), Bulhão Pato ( “Ó crenças infantis, talvez agora, volteis a mim, ardentes como outrora: Diz-se que um velho volta a ser criança!...” ), Fernando Pessoa ( “O poeta é um fingidor” ), Álvaro de Campos ( “Serei velho quando o for. Mais nada” ), Armindo Rodrigues ( “Ser livre é querer ir, e ter um rumo, e ir sem medo, mesmo que sejam vãos os passos” ). Ironicamente, até se poderia ler o próprio Manuel Alegra ( “Conspiradores do impossível: onde estais? Dai-me de novo a rosa iniciática. O sonho que passou não volta mais.” ).
Foi precisamente à porta de Fernando Pessoa que Mário Soares foi bater para desligar o candidato Cavaco Silva da sua aura de “homem-providência das finanças”. Para tal, invocou o poema “Liberdade”. Esqueceu apenas um detalhe que deveria ser lembrado por Cavaco: é que o dito poema começa com “Ai que prazer / não cumprir um dever / ter um livro para ler / e não o fazer / Ler é maçada / Estudar é nada”. E a segunda estrofe vem já a caminho: “Livros são papéis pintados com tinta / Estudar é uma coisa que está indistinta / a distinção entre o nada e o coisa nenhuma / Quanto melhor é quando há mais bruma / Esperar por D. Sebastião / Quer venha ou não!”.
2. Continuando a vaguear no reino das palavras, deixemos a linguagem poética e passemos para um discurso mais utilitário, mais próximo da realidade. Antigamente, as fábulas inundavam os livros da instrução primária. O texto “As Vozes dos Animais” dizia assim: “Palram pega e papagaio / e cacareja a galinha / os ternos pombos arrulham / geme a rola inocentinha”. Obviamente, nenhum Medeiros Ferreira pode adivinhar que existe aqui alguma insinuação aos sinais evidentes que nos são dados pelos nossos candidatos.
Nesses tempos, falavam os animais e calavam-se as pessoas. Hoje em dia, a palavra anda à solta e difícil é encontrar alguém que se mantenha calado. Provavelmente, foi por se reconhecer que as palavras relaxam que os seres humanos inventaram as palavras cruzadas. Trata-se de uma actividade completamente inútil – raramente se consegue puxar tanto pela cabeça em função de algo tão desnecessário – mas óptima para os tempos livres. Existem por aí certas frases, perfeitamente vulgares e pronunciadas sem premeditação que ficaram cravadas na memória de todos sem que mesmo o seu desprevenido autor saiba porquê. Não são grandes frases, mas tiveram alguma sorte e passaram à posteridade. Eis alguns exemplos: “é só fumaça” ( Pinheiro de Azevedo ); “olhe que não, olhe que não!” ( Álvaro Cunhal ); “Deixem-me trabalhar!” ( Cavaco Silva ); “É só fazer as contas...” ( António Guterres ); “Prognósticos só no fim do jogo” ( João Pinto ); “Vamos fazer coisas bonitas”
( Artur Jorge ).
Como a vida é injusta! Tantos intelectuais que procuram afanosamente o reconhecimento e de repente surge um político qualquer a proferir inadvertidamente uma frase que acaba por ficar para a história. Existe algo de espantoso na frase “O meu reino por um cavalo”? E na resposta “Ninguém!”, célebre no Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett? E em “Também tu,
Brutus?”? Que tem de tão especial “Penso, logo existo”?
Enfim. Tratou-se de um simples exercício que serve para nos pôr a pensar em coisas que não dão que pensar, o que não significa que deixemos de pensar nelas. Boas Festas e um Santo Natal!!
Nova Aliança, 23 / 12 / 2005
Atento, Ferreira interpretou o “Basta!” de política, proferido solenemente por Soares no aniversário dos 80 anos, como um gesto de delicadeza circunstancial e gestão de expectativas para com as centenas de participantes no lauto jantar. Nem o próprio Manuel Alegre, companheiro de tantas jornadas há mais de 40 anos e poeta incluído na referida selecção de poemas, conseguiu interpretar em tempo útil tais palavras.
E teria sido tão, tão fácil. Bastaria recordar os nossos poetas Luís de Camões
( “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades” ), Bulhão Pato ( “Ó crenças infantis, talvez agora, volteis a mim, ardentes como outrora: Diz-se que um velho volta a ser criança!...” ), Fernando Pessoa ( “O poeta é um fingidor” ), Álvaro de Campos ( “Serei velho quando o for. Mais nada” ), Armindo Rodrigues ( “Ser livre é querer ir, e ter um rumo, e ir sem medo, mesmo que sejam vãos os passos” ). Ironicamente, até se poderia ler o próprio Manuel Alegra ( “Conspiradores do impossível: onde estais? Dai-me de novo a rosa iniciática. O sonho que passou não volta mais.” ).
Foi precisamente à porta de Fernando Pessoa que Mário Soares foi bater para desligar o candidato Cavaco Silva da sua aura de “homem-providência das finanças”. Para tal, invocou o poema “Liberdade”. Esqueceu apenas um detalhe que deveria ser lembrado por Cavaco: é que o dito poema começa com “Ai que prazer / não cumprir um dever / ter um livro para ler / e não o fazer / Ler é maçada / Estudar é nada”. E a segunda estrofe vem já a caminho: “Livros são papéis pintados com tinta / Estudar é uma coisa que está indistinta / a distinção entre o nada e o coisa nenhuma / Quanto melhor é quando há mais bruma / Esperar por D. Sebastião / Quer venha ou não!”.
2. Continuando a vaguear no reino das palavras, deixemos a linguagem poética e passemos para um discurso mais utilitário, mais próximo da realidade. Antigamente, as fábulas inundavam os livros da instrução primária. O texto “As Vozes dos Animais” dizia assim: “Palram pega e papagaio / e cacareja a galinha / os ternos pombos arrulham / geme a rola inocentinha”. Obviamente, nenhum Medeiros Ferreira pode adivinhar que existe aqui alguma insinuação aos sinais evidentes que nos são dados pelos nossos candidatos.
Nesses tempos, falavam os animais e calavam-se as pessoas. Hoje em dia, a palavra anda à solta e difícil é encontrar alguém que se mantenha calado. Provavelmente, foi por se reconhecer que as palavras relaxam que os seres humanos inventaram as palavras cruzadas. Trata-se de uma actividade completamente inútil – raramente se consegue puxar tanto pela cabeça em função de algo tão desnecessário – mas óptima para os tempos livres. Existem por aí certas frases, perfeitamente vulgares e pronunciadas sem premeditação que ficaram cravadas na memória de todos sem que mesmo o seu desprevenido autor saiba porquê. Não são grandes frases, mas tiveram alguma sorte e passaram à posteridade. Eis alguns exemplos: “é só fumaça” ( Pinheiro de Azevedo ); “olhe que não, olhe que não!” ( Álvaro Cunhal ); “Deixem-me trabalhar!” ( Cavaco Silva ); “É só fazer as contas...” ( António Guterres ); “Prognósticos só no fim do jogo” ( João Pinto ); “Vamos fazer coisas bonitas”
( Artur Jorge ).
Como a vida é injusta! Tantos intelectuais que procuram afanosamente o reconhecimento e de repente surge um político qualquer a proferir inadvertidamente uma frase que acaba por ficar para a história. Existe algo de espantoso na frase “O meu reino por um cavalo”? E na resposta “Ninguém!”, célebre no Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett? E em “Também tu,
Brutus?”? Que tem de tão especial “Penso, logo existo”?
Enfim. Tratou-se de um simples exercício que serve para nos pôr a pensar em coisas que não dão que pensar, o que não significa que deixemos de pensar nelas. Boas Festas e um Santo Natal!!
Nova Aliança, 23 / 12 / 2005
14.12.05
Os acidentes de trânsito e as mentiras dos políticos
1. Como muitos portugueses, não pude deixar de registar as imagens ( repetidas à exaustão pelos nossos jornais televisivos ) do jovem de 21 anos que entrou no tribunal como potencial recluso e acabou por sair como um herói, devidamente aclamado pelos colegas, familiares e amigos. Conte-se a história de forma breve: ele conduzia sem carta porque chumbou uma vez no exame de código e desistiu; todavia, nunca desistiu de conduzir, primeiro motos e depois carros; foi multado dezenas de vezes que, agora em tribunal, somaram trinta e cinco condenações nesta primeira leva e três anos de prisão, com pena suspensa por decisão do juiz. Como existem mais condenações em lista de espera, talvez o encaminhem mesmo para trás das grades. Talvez…
Este jovem feriu ou matou alguém? Não. Provocou alguns estragos materiais? Não. Constitui uma ameaça maior que muitos condutores devidamente encartados? Provavelmente não. A questão não é todavia esta. A estrada não é propriamente o cenário de um jogo de velocidade que podemos instalar nos nossos computadores ou jogar no ecrã de televisão. Estando em causa vidas humanas, deve evitar-se o autodidactismo sob pena de vivermos todos no reino do absurdo.
A verdade é simples: este jovem transgrediu a lei. E se é verdade que existem alguns habilidosos desencartados, todos sabemos que também existem os aventureiros perigosos que colocam em perigo a sua vida e a dos outros. Segundo números de 2004, 72 vítimas mortais e 266 feridos em acidentes de viação conduziam sem carta. Juntamente com os que conduziam com ela suspensa ou caducada, perfaziam 1523.
Como conseguiu este jovem conduzir durante tanto tempo sem carta, com autuações múltiplas, sem que houvesse alguém que o conseguisse deter? De frente para os holofotes, ele próprio confessou que sempre conseguiu escapar ao controlo policial e, por isso, foi somando condenações. No meio da euforia dos que o esperavam e aplaudiam, premiando a nossa irresponsabilidade, o jovem saiu do tribunal sem ter sido condenado sequer a uma pena efectiva de carácter social, cumprindo, por exemplo, algum tipo de trabalho comunitário como ajudar num centro de solidariedade ou numa biblioteca, ou obrigá-lo mesmo a tirar a carta sob vigilância. A mensagem que daqui sai e é transmitida para a sociedade não pode ser mais errada. Significa que vivemos à mercê da sorte. A nossa sobrevivência depende da sorte e da audácia com que desafiamos o destino. E se todos nós temos o nosso destino, o nosso fado, temos também, pelos vistos, a nossa irresponsabilidade total. E também a desafiamos, e também a repetimos, e também a lamentamos. Muitas vezes em vão, quase sempre tarde de mais.
2. A mentira instalou-se na nossa vida política. O secretário-geral de um partido político chama mentiroso a um colega de partido e candidato à Presidência da República. O candidato responde na mesma onda e chama mentiroso ao primeiro-ministro de Portugal. Outro candidato a Belém, Francisco Louçã, também ele deputado, diz que um secretário de Estado mentiu aos portugueses e foi realmente destituído de um cargo autárquico que ocupava por excesso de faltas, o referido secretário de Estado nega tal acusação e chama mentiroso ao tal candidato. Em que ficamos? Muito claramente e sem nenhuma dúvida tiramos a seguinte conclusão: duas criaturas que ocupam altas funções de Estado e que deveriam constituir um verdadeiro exemplo aos olhos dos portugueses são mentirosos. Continuará a existir esperança no ser humano? A propósito disto convirá recordar uma história antiga passada na barra de um tribunal entre um jovem acusado de um crime e uma juíza impaciente por mudar o mundo e arrastar-nos a todos consigo: a juíza perguntou ao rapaz se ele achava bem o que tinha feito e ele respondeu que sim; depois, se estava arrependido do que fizera e ele disse que não; de seguida, se ele voltaria a fazer o mesmo e ele garantiu que sim; finalmente, se ele não achava estranho dar tantas respostas conformadas, ao que ele respondeu que não. Confortemo-nos, pois…
Nova Aliança, 9 / Novembro / 2005
Este jovem feriu ou matou alguém? Não. Provocou alguns estragos materiais? Não. Constitui uma ameaça maior que muitos condutores devidamente encartados? Provavelmente não. A questão não é todavia esta. A estrada não é propriamente o cenário de um jogo de velocidade que podemos instalar nos nossos computadores ou jogar no ecrã de televisão. Estando em causa vidas humanas, deve evitar-se o autodidactismo sob pena de vivermos todos no reino do absurdo.
A verdade é simples: este jovem transgrediu a lei. E se é verdade que existem alguns habilidosos desencartados, todos sabemos que também existem os aventureiros perigosos que colocam em perigo a sua vida e a dos outros. Segundo números de 2004, 72 vítimas mortais e 266 feridos em acidentes de viação conduziam sem carta. Juntamente com os que conduziam com ela suspensa ou caducada, perfaziam 1523.
Como conseguiu este jovem conduzir durante tanto tempo sem carta, com autuações múltiplas, sem que houvesse alguém que o conseguisse deter? De frente para os holofotes, ele próprio confessou que sempre conseguiu escapar ao controlo policial e, por isso, foi somando condenações. No meio da euforia dos que o esperavam e aplaudiam, premiando a nossa irresponsabilidade, o jovem saiu do tribunal sem ter sido condenado sequer a uma pena efectiva de carácter social, cumprindo, por exemplo, algum tipo de trabalho comunitário como ajudar num centro de solidariedade ou numa biblioteca, ou obrigá-lo mesmo a tirar a carta sob vigilância. A mensagem que daqui sai e é transmitida para a sociedade não pode ser mais errada. Significa que vivemos à mercê da sorte. A nossa sobrevivência depende da sorte e da audácia com que desafiamos o destino. E se todos nós temos o nosso destino, o nosso fado, temos também, pelos vistos, a nossa irresponsabilidade total. E também a desafiamos, e também a repetimos, e também a lamentamos. Muitas vezes em vão, quase sempre tarde de mais.
2. A mentira instalou-se na nossa vida política. O secretário-geral de um partido político chama mentiroso a um colega de partido e candidato à Presidência da República. O candidato responde na mesma onda e chama mentiroso ao primeiro-ministro de Portugal. Outro candidato a Belém, Francisco Louçã, também ele deputado, diz que um secretário de Estado mentiu aos portugueses e foi realmente destituído de um cargo autárquico que ocupava por excesso de faltas, o referido secretário de Estado nega tal acusação e chama mentiroso ao tal candidato. Em que ficamos? Muito claramente e sem nenhuma dúvida tiramos a seguinte conclusão: duas criaturas que ocupam altas funções de Estado e que deveriam constituir um verdadeiro exemplo aos olhos dos portugueses são mentirosos. Continuará a existir esperança no ser humano? A propósito disto convirá recordar uma história antiga passada na barra de um tribunal entre um jovem acusado de um crime e uma juíza impaciente por mudar o mundo e arrastar-nos a todos consigo: a juíza perguntou ao rapaz se ele achava bem o que tinha feito e ele respondeu que sim; depois, se estava arrependido do que fizera e ele disse que não; de seguida, se ele voltaria a fazer o mesmo e ele garantiu que sim; finalmente, se ele não achava estranho dar tantas respostas conformadas, ao que ele respondeu que não. Confortemo-nos, pois…
Nova Aliança, 9 / Novembro / 2005
28.11.05
Os números das guerras e o Direito nos Estados Unidos
1. Ao longo dos tempos, o senso comum diz-nos que temos vindo a piorar em diferentes domínios. Expressões como “no meu tempo” ou “antigamente” surgem normalmente associadas a épocas de sonho, ao mesmo tempo que pretendem ser o contraponto com tudo aquilo que o presente transporta consigo. Assim, “antes” tudo era melhor: mais respeito, menos inflação, mais tempo, menos criminalidade, melhor qualidade de vida, menor descontentamento. Se este fenómeno se generaliza em termos pessoais, mais se verifica ao nível da ideia que temos do mundo. Um inquérito virtual à população portuguesa e / ou europeia reforçaria a visão altamente negativa, concluindo que a fome, a guerra e a violência aumentaram relativamente ao passado. Como se costuma dizer, o mundo está perigoso, bem mais perigoso.
Ora o relatório Guerra e Paz no Século XXI do Human Security Center da Universidade British Columbia, em Vancôver, no Canadá, revela precisamente o contrário. Resultado de três anos de estudos, o relatório dá-nos conta que, desde o início da década de 90, se verifica uma redução drástica do número de guerras, de genocídios e de violações aos direitos humanos. O número de conflitos armados desceu, desde 1992, 40 por cento e o número de massacres e de genocídios diminuiu 80 por cento depois do fim da guerra fria. É verdade que pelo meio houve a Bósnia e o Ruanda mas os números são claros. Desde 1988, terminaram cerca de uma centena de conflitos e está a diminuir o número de violações graves dos direitos humanos e o número de refugiados. Os golpes de estado passaram de 25 em 1963 para 10 em 2004, todos eles fracassados. Em 1950, uma guerra causava, em média, cerca de 38 mil mortos; em 2002, causou uma média de 600, uma vez que raramente os exércitos pesados se opõem no campo de batalha.
Qual a explicação de tudo isto? Os factores decisivos terão sido o fim das guerras coloniais, o final da guerra fria, a democratização crescente do planeta e a intensa actividade diplomática. Estará então o mundo bem mais perigoso? Se sim por razão sentimos que esses dados contrariam a nossa visão empírica? Será tudo explicado pelo facto de não se noticiarem o final das guerras e de os media reforçarem os episódios sangrentos?
Algumas respostas talvez sejam as seguintes: 90 por cento dos mortos são civis inocentes; o recurso às armas químicas, biológicas e nucleares torna-se perigosamente real; o inimigo ataca como, quando e onde quer, deixou de ter um rosto, um tempo e um espaço previsíveis; existe uma ameaça permanente e um sentimento de instabilidade e de insegurança. Todos sentimos a necessidade de combater tal ameaça mas já temos muitas dificuldades em definir com clareza o fenómeno terrorista.. Repare-se que depois de Nova Iorque, Bali, Moscovo, Riade, Casablanca, Istambul, Madrid, Cairo, Londres e Israel, as Nações Unidas têm sido incapazes de chegar a uma definição evidente sobre o fenómeno terrorista. Desta forma, o assassínio de civis inocentes é considerado acto de resistência e, calcule-se, de legítima defesa. A diplomacia prefere seguir a avestruz para contentar aqueles Estados que continuam a apoiar o terrorismo.
Em França, os manuais escolares ( por exemplo, Élèves sous influence, B. Lefebvre e E. Bonnivard, ed. Audibert ) apresentam o terrorismo como uma forma extrema de antiamericanismo, “arma dos fracos que, na impossibilidade de atacar frontalmente uma grande potência, procuram instabilizá-la…”. Se não existir um debate profundo, a vários níveis, sobre o fenómeno do terrorismo, o seu combate perderá eficácia e apenas servirá para uma total perversão de análises, de valores e de prioridades. A quem servirá tudo isto? A nós não, obviamente.
2. Entrevistado pelo jornalista Adelino Gomes para a revista Pública ( 13 / 11 / 2005 ), Rodrigues Maximiano, magistrado jubilado e antigo inspector-geral da Administração Interna, solicitado a comparar o processo da Enrom, nos Estados Unidos, com o que se passa em Portugal em matéria de crime económico, quase nos tira do sério quando diz: “Os EUA não são exemplo para ninguém: não respeitam os direitos humanos; não dão direitos de defesa; a investigação criminal é feita pela polícia (veja-se aquele processo de O. J. Simpson — era todo policializado, nem sequer há garantias nas cadeias); não sei como obtêm a prova; legitimam a tortura. [...] Chegam a gente poderosa mas numa justiça espectáculo, negociada. E nem sequer sei se essa gente poderosa que é presa tem o direito de se defender como aqui. Aqui pode-se num processo interpor 400 ou 500 recursos.” Em que mundo viverá a criatura?
Nova Aliança, 25 / 11 / 2005
Ora o relatório Guerra e Paz no Século XXI do Human Security Center da Universidade British Columbia, em Vancôver, no Canadá, revela precisamente o contrário. Resultado de três anos de estudos, o relatório dá-nos conta que, desde o início da década de 90, se verifica uma redução drástica do número de guerras, de genocídios e de violações aos direitos humanos. O número de conflitos armados desceu, desde 1992, 40 por cento e o número de massacres e de genocídios diminuiu 80 por cento depois do fim da guerra fria. É verdade que pelo meio houve a Bósnia e o Ruanda mas os números são claros. Desde 1988, terminaram cerca de uma centena de conflitos e está a diminuir o número de violações graves dos direitos humanos e o número de refugiados. Os golpes de estado passaram de 25 em 1963 para 10 em 2004, todos eles fracassados. Em 1950, uma guerra causava, em média, cerca de 38 mil mortos; em 2002, causou uma média de 600, uma vez que raramente os exércitos pesados se opõem no campo de batalha.
Qual a explicação de tudo isto? Os factores decisivos terão sido o fim das guerras coloniais, o final da guerra fria, a democratização crescente do planeta e a intensa actividade diplomática. Estará então o mundo bem mais perigoso? Se sim por razão sentimos que esses dados contrariam a nossa visão empírica? Será tudo explicado pelo facto de não se noticiarem o final das guerras e de os media reforçarem os episódios sangrentos?
Algumas respostas talvez sejam as seguintes: 90 por cento dos mortos são civis inocentes; o recurso às armas químicas, biológicas e nucleares torna-se perigosamente real; o inimigo ataca como, quando e onde quer, deixou de ter um rosto, um tempo e um espaço previsíveis; existe uma ameaça permanente e um sentimento de instabilidade e de insegurança. Todos sentimos a necessidade de combater tal ameaça mas já temos muitas dificuldades em definir com clareza o fenómeno terrorista.. Repare-se que depois de Nova Iorque, Bali, Moscovo, Riade, Casablanca, Istambul, Madrid, Cairo, Londres e Israel, as Nações Unidas têm sido incapazes de chegar a uma definição evidente sobre o fenómeno terrorista. Desta forma, o assassínio de civis inocentes é considerado acto de resistência e, calcule-se, de legítima defesa. A diplomacia prefere seguir a avestruz para contentar aqueles Estados que continuam a apoiar o terrorismo.
Em França, os manuais escolares ( por exemplo, Élèves sous influence, B. Lefebvre e E. Bonnivard, ed. Audibert ) apresentam o terrorismo como uma forma extrema de antiamericanismo, “arma dos fracos que, na impossibilidade de atacar frontalmente uma grande potência, procuram instabilizá-la…”. Se não existir um debate profundo, a vários níveis, sobre o fenómeno do terrorismo, o seu combate perderá eficácia e apenas servirá para uma total perversão de análises, de valores e de prioridades. A quem servirá tudo isto? A nós não, obviamente.
2. Entrevistado pelo jornalista Adelino Gomes para a revista Pública ( 13 / 11 / 2005 ), Rodrigues Maximiano, magistrado jubilado e antigo inspector-geral da Administração Interna, solicitado a comparar o processo da Enrom, nos Estados Unidos, com o que se passa em Portugal em matéria de crime económico, quase nos tira do sério quando diz: “Os EUA não são exemplo para ninguém: não respeitam os direitos humanos; não dão direitos de defesa; a investigação criminal é feita pela polícia (veja-se aquele processo de O. J. Simpson — era todo policializado, nem sequer há garantias nas cadeias); não sei como obtêm a prova; legitimam a tortura. [...] Chegam a gente poderosa mas numa justiça espectáculo, negociada. E nem sequer sei se essa gente poderosa que é presa tem o direito de se defender como aqui. Aqui pode-se num processo interpor 400 ou 500 recursos.” Em que mundo viverá a criatura?
Nova Aliança, 25 / 11 / 2005
14.11.05
Wikipedia, Camionistas e Propostas Eleitorais
1. Quando queremos consultar uma enciclopédia, não podemos ignorar a Wikipedia. ( www.wikipedia.org ). Trata-se de uma enciclopédia on-line feita à custa do trabalho de milhares de colaboradores anónimos e onde toda a gente pode alterar, corrigir, acrescentar ou apagar as entradas feitas pelos outros.
Nascido em 2001, o projecto cresceu até atingir quase dois milhões de artigos escritos em duzentas línguas, tudo – repita-se – fruto do trabalho gratuito de imensos colaboradores. O seu autor chama-se Jimmy Wales, um ex-yuppie americano de 38 anos. Ele foi também o seu primeiro financiador e permanece o seu máximo dirigente, continuando a deter a última palavra sobre os critérios da obra, que não possui fins lucrativos e vive à base de donativos. Idealista, Wales acredita que a sua enciclopédia pode atingir a perfeição se existir um grande número de pessoas interessadas e que do confronto dos vários autores nascerá a excelência, de acordo com os princípios de selecção natural. Dessa forma, as entradas erradas serão corrigidas, as superficialidades darão lugar à profundidade, a mediocridade será substituído pelo brilhantismo e os debates serão consensuais. A verdade é que, de uma forma geral, a maior parte dos artigos da Wikipedia tem uma qualidade muito apreciável e a maior parte das entradas revela uma preocupação de rigor e isenção, até nos temas mais sensíveis.
Os críticos lembram a não existência de garantia de fiabilidade do projecto, a impossibilidade de responsabilização dos autores, a disparidade de critérios, mas, mesmo assim, este é um modelo que tem imensas potencialidades. Antes de mais, arrasta consigo o conceito de trabalho cooperativo, o debate permanente e a abertura á participação de todos. Todavia, não estamos perante um modelo anticapitalista e globalista que muitos imaginam. Wales é conservador e economicamente situa-se claramente no campo liberal. Na origem da Wikipedia, está viva a doutrina populista e antielitista. Na verdade, há um mundo objectivo e pessoas que o estudam e que adquirem mais conhecimentos sobre determinadas áreas do conhecimento do que outras. A competição aberta permite alcançar o melhor resultado na economia, mas em ciência as coisas não se passam bem assim.
Há, com toda a certeza, muitas tarefas estimulantes e úteis que poderão ser levadas a cabo colectivamente com este tipo de ferramentas, mas daí a pensar ser o mercado a melhor escola possível para os nossos filhos e que a “selecção natural da informação” vai permitir encontrar os factos mais relevantes para lhes transmitir, vai uma distância considerável.
Sem qualquer dúvida, a Wikipedia é um excelente site para procurar pistas mas não deixe de as confirmar nas verdadeiras obras de referência, escritas pelos especialistas em quem podemos confiar.
2. Em Espanha começou, há dias, uma greve de camionistas. Os piquetes de greve – leia-se, comités de caciques que obrigam os outros trabalhadores a aderir às suas posições – exercem também o seu controlo sobre os camionistas portugueses. Camiões com matrícula portuguesa têm sido apedrejados, os pneus cortados e os motoristas ameaçados. Até hoje não se ouviu nenhuma tomada de posição sobre estes factos, chamando-os declaradamente xenófobos. Que têm feito as autoridades portuguesas para defender os interesses do país? Quem vai pagar os prejuízos pelo atraso das mercadorias? E pelos danos nos camiões? Quem dirá aos piquetes espanhóis que não podem patrulhar as fronteiras portuguesas e mandar para trás quem lhes apetece?
3. A revista Sábado, no número anterior às eleições autárquicas, publicou um trabalho interessante. Convidou um grupo de políticos de diferentes quadrantes a adivinhar a origem partidária de propostas constantes de programas eleitorais não identificados. Os resultados do “jogo” foram interessantes: Francisco Louçã, por exemplo, confundiu uma proposta de Fátima Felgueiras com uma do Bloco de Esquerda; o presidente do CDS trocou a autoria dos programas do PS e do PSD e uma proposta da CDU foi peremptoriamente qualificada por Maria de Belém como “impossível de ser de um partido de esquerda”. A Sábado conclui e bem que “se para políticos experientes é difícil detectar diferenças entre os programas eleitorais dos diversos partidos, imagine-se para o comum dos eleitores”. É verdade.
Nova Aliança, 11 / Novembro / 2005
Nascido em 2001, o projecto cresceu até atingir quase dois milhões de artigos escritos em duzentas línguas, tudo – repita-se – fruto do trabalho gratuito de imensos colaboradores. O seu autor chama-se Jimmy Wales, um ex-yuppie americano de 38 anos. Ele foi também o seu primeiro financiador e permanece o seu máximo dirigente, continuando a deter a última palavra sobre os critérios da obra, que não possui fins lucrativos e vive à base de donativos. Idealista, Wales acredita que a sua enciclopédia pode atingir a perfeição se existir um grande número de pessoas interessadas e que do confronto dos vários autores nascerá a excelência, de acordo com os princípios de selecção natural. Dessa forma, as entradas erradas serão corrigidas, as superficialidades darão lugar à profundidade, a mediocridade será substituído pelo brilhantismo e os debates serão consensuais. A verdade é que, de uma forma geral, a maior parte dos artigos da Wikipedia tem uma qualidade muito apreciável e a maior parte das entradas revela uma preocupação de rigor e isenção, até nos temas mais sensíveis.
Os críticos lembram a não existência de garantia de fiabilidade do projecto, a impossibilidade de responsabilização dos autores, a disparidade de critérios, mas, mesmo assim, este é um modelo que tem imensas potencialidades. Antes de mais, arrasta consigo o conceito de trabalho cooperativo, o debate permanente e a abertura á participação de todos. Todavia, não estamos perante um modelo anticapitalista e globalista que muitos imaginam. Wales é conservador e economicamente situa-se claramente no campo liberal. Na origem da Wikipedia, está viva a doutrina populista e antielitista. Na verdade, há um mundo objectivo e pessoas que o estudam e que adquirem mais conhecimentos sobre determinadas áreas do conhecimento do que outras. A competição aberta permite alcançar o melhor resultado na economia, mas em ciência as coisas não se passam bem assim.
Há, com toda a certeza, muitas tarefas estimulantes e úteis que poderão ser levadas a cabo colectivamente com este tipo de ferramentas, mas daí a pensar ser o mercado a melhor escola possível para os nossos filhos e que a “selecção natural da informação” vai permitir encontrar os factos mais relevantes para lhes transmitir, vai uma distância considerável.
Sem qualquer dúvida, a Wikipedia é um excelente site para procurar pistas mas não deixe de as confirmar nas verdadeiras obras de referência, escritas pelos especialistas em quem podemos confiar.
2. Em Espanha começou, há dias, uma greve de camionistas. Os piquetes de greve – leia-se, comités de caciques que obrigam os outros trabalhadores a aderir às suas posições – exercem também o seu controlo sobre os camionistas portugueses. Camiões com matrícula portuguesa têm sido apedrejados, os pneus cortados e os motoristas ameaçados. Até hoje não se ouviu nenhuma tomada de posição sobre estes factos, chamando-os declaradamente xenófobos. Que têm feito as autoridades portuguesas para defender os interesses do país? Quem vai pagar os prejuízos pelo atraso das mercadorias? E pelos danos nos camiões? Quem dirá aos piquetes espanhóis que não podem patrulhar as fronteiras portuguesas e mandar para trás quem lhes apetece?
3. A revista Sábado, no número anterior às eleições autárquicas, publicou um trabalho interessante. Convidou um grupo de políticos de diferentes quadrantes a adivinhar a origem partidária de propostas constantes de programas eleitorais não identificados. Os resultados do “jogo” foram interessantes: Francisco Louçã, por exemplo, confundiu uma proposta de Fátima Felgueiras com uma do Bloco de Esquerda; o presidente do CDS trocou a autoria dos programas do PS e do PSD e uma proposta da CDU foi peremptoriamente qualificada por Maria de Belém como “impossível de ser de um partido de esquerda”. A Sábado conclui e bem que “se para políticos experientes é difícil detectar diferenças entre os programas eleitorais dos diversos partidos, imagine-se para o comum dos eleitores”. É verdade.
Nova Aliança, 11 / Novembro / 2005
O Nobel da Literatura
O Prémio Nobel da Literatura foi, este ano, atribuído ao dramaturgo inglês Harold Pinter. Ele é o décimo cidadão de Sua Magestade a receber tal galardão e o segundo em cinco anos a ser distinguido com o maior prémio do mundo das letras, no valor de 1,1 milhões de euros.
A Academia justificou a escolha pelo facto de Pinter ser "o principal representante da dramaturgia britânica da segunda metade do século XX" e de ter recriado o teatro como forma de arte. Um autor que fez uma síntese inovadora das principais correntes do teatro - clássico e contemporâneo -, criando "uma atmosfera e ambiência específicas" que o próprio baptizou com um adjectivo adaptado do seu nome "pintaresco". Nas suas obras típica - e para citar mais uma vez a Academia - "encontramos pessoas que se defendem de intrusões estranhas ou das suas próprias pulsões, refugiando-se numa existência reduzida e controlada".
Sobre a sua obra, o autor diz: "Não consigo resumir nenhuma das minhas peças. Não consigo descrever nenhuma. O que sei dizer: foi assim que se passou, foi isto o que disseram, isto o que fizeram."
Esta "auto-apreciação" encaixa no que sobre ele disse João Barrento, o catedrático que assinou, em 1964, uma tese precisamente sobre o teatro de Harold Pinter "É alguém atento ao quotidiano do nosso tempo, que ia beber informação aos autocarros de Londres. A sua obra é um espelho de uma situação que não é necessariamente simples, ainda que os problemas de que fala possam ser os vividos por qualquer um de nós." Um teatro onde o não dito é mais importante do que o que se diz.
Este ano o nome de Harold Pinter constava da longa "lista" dos candidatos ao Nobel, que incluía ainda os escritores norte-americanos Philip Roth e Joyce Carol Oates, o poeta sueco Thomas Transtromer, o checo Milan Kundera ou o poeta sul-coreano Ko Un. Embora o favoritismo recaísse sobre o turco Orhan Pamuk ou o poeta sírio Adonis ( cujo nome verdadeiro é Ali Ahmad Said ), não se pode dizer que o anúncio do nome de Pinter como vencedor deste ano tivesse causado tanta surpresa como a que provocou Elfriede Jelinek, a escritora austríaca que ganhou o Nobel em 2004.
Curiosamente, durante mais de vinte anos, Harold Pinter julgou ser de origem portuguesa. Filho de judeus, Pinter atribuiu a origem do seu apelido a Portugal, uma variação de Pinto ou Pinta. O primeiro pseudónimo que usou foi Harold da Pinta, porque achava que, como Espinosa, descendia de portugueses. O aprofundar da pesquisa sobre Portugal levou-o a dedicar algumas páginas da sua dramaturgia ao galo de Barcelos. O equívoco só seria desfeito pela escritora Antónia Fraser, com quem viria a casar, que descobriu que Pinter, afinal, descende de polacos.
No passado mês de Março, Pinter anunciara a intenção de abandonar a escrita para teatro, três anos depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro no esófago. Foi um período em que ficou conhecido, sobretudo, pelas suas posições políticas. Crítico acérrimo da Administração Bush e de Tony Blair, manifestou-se contra a intervenção no Iraque. Uma oposição que deixou registada em poema. Agora, diz que quer dedicar-se apenas à poesia. Ao saber que tinha vencido o Nobel da Literatura declarou "Estou estupefacto. (...) tenho de parar de me sentir assim quando chegar a Estocolmo."
Numa rápida análise da sua obra, notamos que as suas peças de cultivam uma fascinante noção de economia. Como em Old Times (1971), jogo de memórias e confrontos que nos deixa muito poucas certezas mas que capta com inteligência uma inegável nebulosidade nos nossos afectos e lembranças. Podemos considerar o dramaturgo inglês como um realista preocupado com que o domínio da linguagem ultrapasse o simples naturalismo, através de uma extrema atenção aos ritmos, repetições, pausas, saltos lógicos, banalidades. Martin Esslin, num estudo clássico, escreveu que se em teatro o diálogo é acção, então nas peças pinterianas as situações concretas com pessoas concretas existem acima de tudo através dos diálogos lacónicos mas extremamente precisos. Com um ouvido excepcional, Pinter usa diálogos oblíquos como imagem de personagens e situações oblíquas, sobre as quais sabemos pouco. Dessa forma, pausas e silêncios são essenciais. Esslin explica que Pinter joga com o que já sabemos para que os silêncios sejam produtivos, e joga com o que não sabemos para que as ambiguidades se confundam com a situação. O próprio dramaturgo confirma isso mesmo: "As minhas personagens dizem-me alguma coisa, mas não muito, sobre a sua experiência, as suas aspirações, as suas motivações, a sua história. Entre a minha escassez de dados biográficos sobre elas e a ambiguidade do que elas dizem está um território que não só vale a pena explorar mas que é obrigatório que exploremos". É que nós somos muitas vezes esquivos e evasivos, "mas é desses atributos que nasce uma linguagem".
Por tudo isto, o Nobel atribuído a Harold Pinter foi uma excelente escolha e premeia com justiça aquele que é considerado o maior dramaturgo vivo.
Nova Aliança, 11 / Novembro / 2005
A Academia justificou a escolha pelo facto de Pinter ser "o principal representante da dramaturgia britânica da segunda metade do século XX" e de ter recriado o teatro como forma de arte. Um autor que fez uma síntese inovadora das principais correntes do teatro - clássico e contemporâneo -, criando "uma atmosfera e ambiência específicas" que o próprio baptizou com um adjectivo adaptado do seu nome "pintaresco". Nas suas obras típica - e para citar mais uma vez a Academia - "encontramos pessoas que se defendem de intrusões estranhas ou das suas próprias pulsões, refugiando-se numa existência reduzida e controlada".
Sobre a sua obra, o autor diz: "Não consigo resumir nenhuma das minhas peças. Não consigo descrever nenhuma. O que sei dizer: foi assim que se passou, foi isto o que disseram, isto o que fizeram."
Esta "auto-apreciação" encaixa no que sobre ele disse João Barrento, o catedrático que assinou, em 1964, uma tese precisamente sobre o teatro de Harold Pinter "É alguém atento ao quotidiano do nosso tempo, que ia beber informação aos autocarros de Londres. A sua obra é um espelho de uma situação que não é necessariamente simples, ainda que os problemas de que fala possam ser os vividos por qualquer um de nós." Um teatro onde o não dito é mais importante do que o que se diz.
Este ano o nome de Harold Pinter constava da longa "lista" dos candidatos ao Nobel, que incluía ainda os escritores norte-americanos Philip Roth e Joyce Carol Oates, o poeta sueco Thomas Transtromer, o checo Milan Kundera ou o poeta sul-coreano Ko Un. Embora o favoritismo recaísse sobre o turco Orhan Pamuk ou o poeta sírio Adonis ( cujo nome verdadeiro é Ali Ahmad Said ), não se pode dizer que o anúncio do nome de Pinter como vencedor deste ano tivesse causado tanta surpresa como a que provocou Elfriede Jelinek, a escritora austríaca que ganhou o Nobel em 2004.
Curiosamente, durante mais de vinte anos, Harold Pinter julgou ser de origem portuguesa. Filho de judeus, Pinter atribuiu a origem do seu apelido a Portugal, uma variação de Pinto ou Pinta. O primeiro pseudónimo que usou foi Harold da Pinta, porque achava que, como Espinosa, descendia de portugueses. O aprofundar da pesquisa sobre Portugal levou-o a dedicar algumas páginas da sua dramaturgia ao galo de Barcelos. O equívoco só seria desfeito pela escritora Antónia Fraser, com quem viria a casar, que descobriu que Pinter, afinal, descende de polacos.
No passado mês de Março, Pinter anunciara a intenção de abandonar a escrita para teatro, três anos depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro no esófago. Foi um período em que ficou conhecido, sobretudo, pelas suas posições políticas. Crítico acérrimo da Administração Bush e de Tony Blair, manifestou-se contra a intervenção no Iraque. Uma oposição que deixou registada em poema. Agora, diz que quer dedicar-se apenas à poesia. Ao saber que tinha vencido o Nobel da Literatura declarou "Estou estupefacto. (...) tenho de parar de me sentir assim quando chegar a Estocolmo."
Numa rápida análise da sua obra, notamos que as suas peças de cultivam uma fascinante noção de economia. Como em Old Times (1971), jogo de memórias e confrontos que nos deixa muito poucas certezas mas que capta com inteligência uma inegável nebulosidade nos nossos afectos e lembranças. Podemos considerar o dramaturgo inglês como um realista preocupado com que o domínio da linguagem ultrapasse o simples naturalismo, através de uma extrema atenção aos ritmos, repetições, pausas, saltos lógicos, banalidades. Martin Esslin, num estudo clássico, escreveu que se em teatro o diálogo é acção, então nas peças pinterianas as situações concretas com pessoas concretas existem acima de tudo através dos diálogos lacónicos mas extremamente precisos. Com um ouvido excepcional, Pinter usa diálogos oblíquos como imagem de personagens e situações oblíquas, sobre as quais sabemos pouco. Dessa forma, pausas e silêncios são essenciais. Esslin explica que Pinter joga com o que já sabemos para que os silêncios sejam produtivos, e joga com o que não sabemos para que as ambiguidades se confundam com a situação. O próprio dramaturgo confirma isso mesmo: "As minhas personagens dizem-me alguma coisa, mas não muito, sobre a sua experiência, as suas aspirações, as suas motivações, a sua história. Entre a minha escassez de dados biográficos sobre elas e a ambiguidade do que elas dizem está um território que não só vale a pena explorar mas que é obrigatório que exploremos". É que nós somos muitas vezes esquivos e evasivos, "mas é desses atributos que nasce uma linguagem".
Por tudo isto, o Nobel atribuído a Harold Pinter foi uma excelente escolha e premeia com justiça aquele que é considerado o maior dramaturgo vivo.
Nova Aliança, 11 / Novembro / 2005
3.11.05
O Nobel da Economia 2005 e a Liberdade
1. A atribuição do Nobel da Economia ao americano Thomas Shelling e ao israelo--americano Robert Aumann, especialistas no campo da “teoria dos jogos”, é, no mínimo, curiosa. No fundo, tal distinção reflecte a evolução da economia enquanto ciência do comportamento.
No comunicado da Academia de Ciências sueca lia-se: “Porque é que alguns grupos de indivíduos, organizações ou países conseguem promover a cooperação e outros sofrem com conflitos? [Aumann e Shelling] estabeleceram a ‘teoria dos jogos’ como técnica dominante para responder a esta questão milenar”. Vejamos três exemplos práticos da aplicação desta teoria:
a) Se dois países tiverem um conflito territorial, cada um pode optar por mobilizar o seu exército. Partamos do princípio que ambos o fazem, a probabilidade de guerra será então muito elevada; se nenhum deles o fizer, a probabilidade de se poder negociar um acordo é maior. A questão reside no facto de cada país não saber as intenções do outro. É, pois, possível manter um equilíbrio se existirem “ameaças credíveis” de ambos os lados, de tal forma que “a retaliação é suficientemente provável” e com danos superiores aos benefícios de um ataque vitorioso.
b) As taxas de juro são fixadas pelos bancos centrais dos países que têm, por isso, algum controle sobre a inflação. Eles podem ser tentados a usar essa mesma inflação para “enganar” os agentes económicos, levando-os a pensar que o aumento dos preços significa um aumento da procura, e assim a produzir mais. O que a ‘teoria dos jogos’ aqui nos diz é que, em certas circunstâncias, é do interesse dos decisores políticos delegar as suas responsabilidades em decisores independentes – mesmo que um político procure agir sempre de acordo com o interesse público, a transferência da responsabilidade para um banco central europeu evita a geração de conflitos entre governos e agentes económicos.
c) Um jogador americano de hóquei no gelo sofreu, em 1969, graves lesões cerebrais quando foi atingido na cabeça, por não usar um capacete. Como na altura não era obrigatório, os jogadores resistiam a usá-los. Tal razão residia no facto de muitos jogadores, embora conscientes do risco, não quererem ser apelidados de ‘medrosos’. A ‘teoria dos jogos’ explicava que a expectativa de uma lesão era demasiado baixa para contrabalançar a perda de respeito dos outros jogadores. Shelling teorizava que, se uma maioria de jogadores passasse a usar capacete, o problema desapareceria.
Para percebermos estas aplicações, devemos entender a palavra ‘jogos’ como interacção humana. Ao contrário da maioria das modalidades desportivas, que são jogos de “soma zero” ( existe um vencedor e um perdedor ), em quase todas as interacções humanas há uma mistura de interesse comuns e conflitos. O matemático americano John Nash, também ele galardoado com o Nobel em 1984 e imortalizado no filme Uma Mente Brilhante, contribuiu para este campo com diversas teorias sobre “jogadores” que podem atingir situações de equilíbrio, em que todos saem beneficiados.
Embora nunca tenham trabalhado juntos, a Academia sueca considera complementares os seus trabalhos e em declarações à imprensa, Aumann – que vive em Jerusalém - tem esperança de que a sua ‘teoria’ seja parte da solução no conflito israelo-palestiniano.
No fundo, a atribuição deste ano mostra-nos a Economia por um lado menos mecanicista e mais humano.
2. Perante alguém que, assumidamente, violou a lei de um país estrangeiro como fez aquele jovem há uns tempos atrás no Dubai, o Governo decidiu enviar um peso-pesado da diplomacia que rapidamente “manobrou os seus cordelinhos”, o libertou e o trouxe de regresso a Portugal. O piloto Luís Santos, inocente até prova em contrário, permanece preso na Venezuela sem qualquer tipo de ajuda das autoridades portuguesas ( segundo as suas palavras ) e viu até hoje o julgamento ser adiado por vinte cinco vezes. Que diferença existirá entre os dois? Quando sair da prisão, o piloto deve seguir a carreira artística e voar para o Dubai, caso pense dedicar-se, de novo ou pela primeira vez, ao tráfico de droga. Aí é tudo mais claro. Pelo menos não se faz de conta que o poder judicial funciona independentemente do político. Bons contactos no meio artístico transformam rapidamente a prisão numa causa mediática. A liberdade não demorará...
( Nova Aliança, 28 / 10 / 2005 )
No comunicado da Academia de Ciências sueca lia-se: “Porque é que alguns grupos de indivíduos, organizações ou países conseguem promover a cooperação e outros sofrem com conflitos? [Aumann e Shelling] estabeleceram a ‘teoria dos jogos’ como técnica dominante para responder a esta questão milenar”. Vejamos três exemplos práticos da aplicação desta teoria:
a) Se dois países tiverem um conflito territorial, cada um pode optar por mobilizar o seu exército. Partamos do princípio que ambos o fazem, a probabilidade de guerra será então muito elevada; se nenhum deles o fizer, a probabilidade de se poder negociar um acordo é maior. A questão reside no facto de cada país não saber as intenções do outro. É, pois, possível manter um equilíbrio se existirem “ameaças credíveis” de ambos os lados, de tal forma que “a retaliação é suficientemente provável” e com danos superiores aos benefícios de um ataque vitorioso.
b) As taxas de juro são fixadas pelos bancos centrais dos países que têm, por isso, algum controle sobre a inflação. Eles podem ser tentados a usar essa mesma inflação para “enganar” os agentes económicos, levando-os a pensar que o aumento dos preços significa um aumento da procura, e assim a produzir mais. O que a ‘teoria dos jogos’ aqui nos diz é que, em certas circunstâncias, é do interesse dos decisores políticos delegar as suas responsabilidades em decisores independentes – mesmo que um político procure agir sempre de acordo com o interesse público, a transferência da responsabilidade para um banco central europeu evita a geração de conflitos entre governos e agentes económicos.
c) Um jogador americano de hóquei no gelo sofreu, em 1969, graves lesões cerebrais quando foi atingido na cabeça, por não usar um capacete. Como na altura não era obrigatório, os jogadores resistiam a usá-los. Tal razão residia no facto de muitos jogadores, embora conscientes do risco, não quererem ser apelidados de ‘medrosos’. A ‘teoria dos jogos’ explicava que a expectativa de uma lesão era demasiado baixa para contrabalançar a perda de respeito dos outros jogadores. Shelling teorizava que, se uma maioria de jogadores passasse a usar capacete, o problema desapareceria.
Para percebermos estas aplicações, devemos entender a palavra ‘jogos’ como interacção humana. Ao contrário da maioria das modalidades desportivas, que são jogos de “soma zero” ( existe um vencedor e um perdedor ), em quase todas as interacções humanas há uma mistura de interesse comuns e conflitos. O matemático americano John Nash, também ele galardoado com o Nobel em 1984 e imortalizado no filme Uma Mente Brilhante, contribuiu para este campo com diversas teorias sobre “jogadores” que podem atingir situações de equilíbrio, em que todos saem beneficiados.
Embora nunca tenham trabalhado juntos, a Academia sueca considera complementares os seus trabalhos e em declarações à imprensa, Aumann – que vive em Jerusalém - tem esperança de que a sua ‘teoria’ seja parte da solução no conflito israelo-palestiniano.
No fundo, a atribuição deste ano mostra-nos a Economia por um lado menos mecanicista e mais humano.
2. Perante alguém que, assumidamente, violou a lei de um país estrangeiro como fez aquele jovem há uns tempos atrás no Dubai, o Governo decidiu enviar um peso-pesado da diplomacia que rapidamente “manobrou os seus cordelinhos”, o libertou e o trouxe de regresso a Portugal. O piloto Luís Santos, inocente até prova em contrário, permanece preso na Venezuela sem qualquer tipo de ajuda das autoridades portuguesas ( segundo as suas palavras ) e viu até hoje o julgamento ser adiado por vinte cinco vezes. Que diferença existirá entre os dois? Quando sair da prisão, o piloto deve seguir a carreira artística e voar para o Dubai, caso pense dedicar-se, de novo ou pela primeira vez, ao tráfico de droga. Aí é tudo mais claro. Pelo menos não se faz de conta que o poder judicial funciona independentemente do político. Bons contactos no meio artístico transformam rapidamente a prisão numa causa mediática. A liberdade não demorará...
( Nova Aliança, 28 / 10 / 2005 )
11.10.05
Silêncios
Para além de perigoso, o mundo está barulhento. A recente campanha autárquica é um bom exemplo. Uma personagem de Shakespeare em Tanto Barulho por Nada diz que o silêncio é a única forma de realmente exprimir a felicidade pois pequena seria ela ( a nossa felicidade ) se a pudéssemos descrever em palavras. Já George Steiner, ao falar do holocausto, diz que o silêncio é antes a única forma de exprimir o que é tão terrível que não é susceptível de ser revelado através das palavras. Embora distantes e quase opostas, estas duas leituras partilham uma evidência: o silêncio é o único recurso que temos quando as palavras já não chegam.
Vários sentidos podem ser associados ao silêncio: ele pode ser um instrumento de resistência e uma forma de cumplicidade; pode exprimir um estado de alma e esconder um segredo; pode ser um instrumento de reflexão e uma forma de acção. A conclusão é simples: o silêncio é a única linguagem pessoal, quer apenas a nós pertence. Todavia, tal não significa que seja um instrumento para um refúgio em nós próprios. Ele é também um meio de comunicarmos algo aos outros. O Alberto Caeiro de Fernando Pessoa diz que o silêncio deve ser antes utilizado para procurar sentir sem pensar pois pensar é não compreender um mundo que apenas foi feito para sentir.
Existirá hoje mais ou menos silêncio? Está banalizada a sensação de indiferença ou de intolerância. Cruzamo-nos na estrada com carros que têm o volume do som no máximo, os donos dos cachorros são incapazes de mandar calar os animais que ladram a toda a hora, os nossos vizinhos oferecem-nos concertos musicais sem o desejarmos, as próprias igrejas ( associadas tantas vezes ao silêncio ) introduziram em fundo a música sacra e cada vez mais as palmas. Deste modo, o silêncio não tem vida própria. Uma análise rápida ao nosso tipo de vida moderna, feita de constantes mutações e vivida a um ritmo alucinante, procurando experimentar tudo no mais breve espaço de tempo, tem o reverso da medalha no “outro Lado”, os dolorosos fins, a insatisfação permanente e uma incerteza eterna. Recentemente, o “homem do piano” assumiu uma postura silenciosa e ao nosso lado existem cada vez mais pessoas que abandonam tudo por uma vida meditativa e isolada. A vida em silêncio parece ser a única alternativa a uma vida sem silêncio.
O famoso maestro italiano Claudio Abbado realça a importância do silêncio no contexto de uma música: para ele, o silêncio não serve apenas para assinalar o fim de um frase musical e o início de outra, ao contrário, é parte da música alterando a nossa percepção do que estava antes e condicionando o que vem a seguir. Não se passará a mesma coisa com a vida? Eis um exemplo: no cinema, tempo narrativo e tempo real raramente coincidem; se os anos passam em breves segundos, basta um silêncio para provocar uma eternidade. Este momento é suficiente para criar uma série de perturbações: o espectador tem dúvidas e torna-se ansioso; numa expressão, antecipa o desconhecido. Na literatura o silêncio é representado pela pontuação. Através desta, reforçamos a importância do que queremos ou não transmitir. Voltando à música, ficou famosa uma composição denominada 4´33`` da autoria de John Cage e que é apenas silêncio. O seu objectivo não é a imposição do silêncio mas provar que o silêncio não existe e que há sempre alguns sons que escutamos. Contudo, estes sons têm tanto de real como de imaginário.
O silêncio é associado a uma personalidade inteligente ( “saber estar calado” )? Engano, pode estar calado porque não tem nada para dizer. Eça dizia que existiam muitos génios que passavam a vida em silêncio: ”Toda a gente diz que é um génio”. ”Mas já ouviste ou leste alguma coisa dele?”. “Não, mas toda a gente sabe que é um génio. É um génio tão grande e tão insatisfeito que prefere não escrever nada”.
Que opção tomar? Optar pelo silêncio ou adoptar o ruído? Provavelmente, colarmo-nos às duas: apreciar em silêncio tudo o que é merecido e expressarmo-nos em situações onde não devemos, de forma alguma, ficar calados. Um momento para viver em silêncio e outro para trocar umas palavras. A fronteira? Um silêncio...
( Nova Aliança, 14/10/2005 )
Vários sentidos podem ser associados ao silêncio: ele pode ser um instrumento de resistência e uma forma de cumplicidade; pode exprimir um estado de alma e esconder um segredo; pode ser um instrumento de reflexão e uma forma de acção. A conclusão é simples: o silêncio é a única linguagem pessoal, quer apenas a nós pertence. Todavia, tal não significa que seja um instrumento para um refúgio em nós próprios. Ele é também um meio de comunicarmos algo aos outros. O Alberto Caeiro de Fernando Pessoa diz que o silêncio deve ser antes utilizado para procurar sentir sem pensar pois pensar é não compreender um mundo que apenas foi feito para sentir.
Existirá hoje mais ou menos silêncio? Está banalizada a sensação de indiferença ou de intolerância. Cruzamo-nos na estrada com carros que têm o volume do som no máximo, os donos dos cachorros são incapazes de mandar calar os animais que ladram a toda a hora, os nossos vizinhos oferecem-nos concertos musicais sem o desejarmos, as próprias igrejas ( associadas tantas vezes ao silêncio ) introduziram em fundo a música sacra e cada vez mais as palmas. Deste modo, o silêncio não tem vida própria. Uma análise rápida ao nosso tipo de vida moderna, feita de constantes mutações e vivida a um ritmo alucinante, procurando experimentar tudo no mais breve espaço de tempo, tem o reverso da medalha no “outro Lado”, os dolorosos fins, a insatisfação permanente e uma incerteza eterna. Recentemente, o “homem do piano” assumiu uma postura silenciosa e ao nosso lado existem cada vez mais pessoas que abandonam tudo por uma vida meditativa e isolada. A vida em silêncio parece ser a única alternativa a uma vida sem silêncio.
O famoso maestro italiano Claudio Abbado realça a importância do silêncio no contexto de uma música: para ele, o silêncio não serve apenas para assinalar o fim de um frase musical e o início de outra, ao contrário, é parte da música alterando a nossa percepção do que estava antes e condicionando o que vem a seguir. Não se passará a mesma coisa com a vida? Eis um exemplo: no cinema, tempo narrativo e tempo real raramente coincidem; se os anos passam em breves segundos, basta um silêncio para provocar uma eternidade. Este momento é suficiente para criar uma série de perturbações: o espectador tem dúvidas e torna-se ansioso; numa expressão, antecipa o desconhecido. Na literatura o silêncio é representado pela pontuação. Através desta, reforçamos a importância do que queremos ou não transmitir. Voltando à música, ficou famosa uma composição denominada 4´33`` da autoria de John Cage e que é apenas silêncio. O seu objectivo não é a imposição do silêncio mas provar que o silêncio não existe e que há sempre alguns sons que escutamos. Contudo, estes sons têm tanto de real como de imaginário.
O silêncio é associado a uma personalidade inteligente ( “saber estar calado” )? Engano, pode estar calado porque não tem nada para dizer. Eça dizia que existiam muitos génios que passavam a vida em silêncio: ”Toda a gente diz que é um génio”. ”Mas já ouviste ou leste alguma coisa dele?”. “Não, mas toda a gente sabe que é um génio. É um génio tão grande e tão insatisfeito que prefere não escrever nada”.
Que opção tomar? Optar pelo silêncio ou adoptar o ruído? Provavelmente, colarmo-nos às duas: apreciar em silêncio tudo o que é merecido e expressarmo-nos em situações onde não devemos, de forma alguma, ficar calados. Um momento para viver em silêncio e outro para trocar umas palavras. A fronteira? Um silêncio...
( Nova Aliança, 14/10/2005 )
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