14.5.13

Dia da Mãe

1 de maio – No próximo domingo é o Dia da Mãe. Não é fácil sê-lo. Vejo em casa, sei do que estou a falar. Numa corrida sem linha de chegada, acordo com a Mãe acordando com o grito do João, no outro quarto: "Mãe! Acordei!". E eis que está dada a largada. O dia começou. Ainda cambaleando de sono, a Mãe levanta-se e vai acolhê-lo. Logo depois, é a vez da Sofia, que, mais independente, corre para a sala. Minutos depois, estão os dois no sofá a tomar o pequeno-almoço. A Mãe, já desperta, apressa o passo para esticar ao máximo o seu tempo com os filhos. Na mesa da sala, ela toma o café e passa os olhos no jornal. Enquanto ouve o João falar até perder o fôlego sobre as histórias que inventa, escolhe a heroína para a brincadeira da noite e precisa correr ainda mais para se arranjar e chegar ao trabalho a horas. Enquanto troca de roupa, as crianças entram no quarto e pulam na cama. Falam sem parar. Por vezes, o João entusiasma-se. Aí, ela fica nervosa, pede para que parem. Nem sempre é atendida, até que, desolada, olha na minha direção como que implorando para que eu faça algo. Qualquer coisa, diga-se. Desde que os faça voltar a pôr os pés no chão. Se não faço, o seu olhar fuzila-me. Às vezes faço. E às vezes não faço, deixo-os pular. Afinal quando vão poder fazer isso de novo? Com um suspiro, ela deve pensar algo como: "Essas crianças!". Mas é isso mesmo. Somos todos meninos. Uns mais velhos, outros nem tanto. No meio da confusão, ela consegue, nunca sei como, arrumar-se de forma impecável. O que sei é que ela já está pronta, que o João logo estará pronto com a mochila às costas e que a Sofia está lá no quarto dela revirando as gavetas em busca da combinação de cores que julga a ideal para o seu dia. "Sofia querida, essa não combina!". Das gavetas, tira uns jeans pretos e procura no fundo uns ténis da mesma cor. O embate é longo, e lá está a Mãe usando toda a sua psicologia e retórica em busca de um acordo satisfatório para ambas. Geralmente, sou eu quem leva o João à escola. No entanto, sei que, se pudesse, a Mãe o faria com o prazer genuíno. Quando isso não acontece, temos uma espécie de pausa, quando ela está no trabalho e os pequenos na escola. No início da noite, com todos de volta ao lar, vejo-a ainda encontrar forças para abraçá-los à porta de entrada, contar uma história da carochinha enquanto os alimenta, conversar com o João sobre faraós, folhear a enciclopédia de dinossauros, dar vida à heroína combinada durante a manhã, brincar com algum jogo, vestir os pijamas, escovar os dentes, contar mais uma história até que os coloca para, enfim, dormir. Vejo-a então deixar o quarto dos garotos com os olhos semi-cerrados, esforçando-se para se acostumar à luz da sala. No sofá, senta-se ao meu lado. Está cansada, mas tranquila. Os seus meninos dormem como anjinhos no quarto do fundo. Dificilmente haverá alguém no mundo mais feliz do que ela naquele momento. Nova Aliança, 2 / maio / 2013

19.4.13

O monarca

8 de abril – Há para aí uns bastardos na comunicação social que não têm vergonha na cara e continuam a fazer fretes aos amigos e conhecidos. Vão longe os tempos em que o jornalista procurava a independência e a isenção. Hoje, está instalado o compadrio. Querem um bom exemplo? Mário Soares. Alguém que ficará na história pelo papel que teve depois do 25 de abril está a ter um ‘ocaso’ verdadeiramente lamentável. De forma pouco séria, Soares nunca viu nenhuma virtude em nenhum governo que não fosse do seu partido. Muito recentemente, Soares não se distinguiu dos demais capangas socráticos na defesa do chefe. Ante as trapalhadas e mentiras de Eng., o ex-Presidente usou a cassete dos Lellos e Santos Silvas desta vidinha. O alegado "pai da democracia" transformou-se em pai do PS. A alegada dignidade do ‘senador’ revelou a dentola dos jotinhas. Porquê? Para Soares, a democracia é o PS e o PS é a democracia; nesta quase ‘monarquia republicana’ chamada III República. Aliás, naquela cabeça, o regime é o ele mesmo, o regime é o próprio Soares, D. Soares I. Esta presunção de superioridade dinástica subiu de tom após a subida ao poder do actual governo. Para Soares, todos os problemas começaram agora. Numa linguagem arruaceira, Soares tem sugerido um incremento da violência social. Qual miguelista invertido, Soares anda a sonhar há meses com várias Marias da Fonte. E, neste fim-de-semana, passou dos limites quando disse o seguinte sobre Cavaco: "por muito menos do que isto foi D. Carlos morto". Independentemente dos diversos disparates protagonizados pelo Presidente da República, isto é linguagem de taberna, obviamente vergonhosa para um ex-Presidente de uma democracia. Mas, claro, D. Soares I não se sente numa democracia onde ninguém está acima de crítica. D. Soares I julga que está no seu reino, a monarquia republicana onde todos lhe devem respeitinho. Mas o pior é o silêncio dos média e é aqui que os jornalistas bastardos entram. Ao contrário de outros, Soares pode dizer o que quiser. Pode ter atitudes machistas perante eurodeputadas, pode gozar com os contribuintes quando o seu carro é multado, pode refazer à vontade a sua biografia , pode ser um mero apparatchik do PS, pode até acenar com violência política, pode tudo isto porque passa sempre entre os intervalos da chuva. Ele é o Rei, e o Rei, como se sabe, nunca se molha mesmo quando vai nu. Enquanto esteve no poder, D. Soares nunca se molhou porque recebeu sempre um tratamento principesco nas redacções ( leiam a biografia da autoria de Joaquim Vieira ). Agora, depois da reforma, é tratado como um ser inimputável. Ou seja, Mário Soares passou as últimas décadas numa redoma situada acima do bem e do mal. Só falta mesmo a água de malvas. 11 de abril – O tempo que a comunicação social poupa com Soares gasta com os cenários de papel das remodelações. Aí há sempre algo para dizer. Confiram, por favor. Se o novo ministro é do partido, dizer que é um boy, se o novo ministro não é do partido, dizer que não tem experiência política. Se o novo ministro é um académico, dizer que é um teórico, se o novo ministro é um homem de acção, dizer que não tem qualificações para o cargo. Se o novo ministro vai trabalhar fora da sua área, dizer que é um erro de casting, se o novo ministro vai trabalhar na sua área, referir que tem conflito de interesses. Se o novo ministro é jovem, dizer que não tem experiência, se o novo ministro é velho, dizer que não há renovação da classe política. Se o novo ministro nunca trabalhou fora de Portugal, dizer que não tem experiência internacional, se o novo ministro trabalhou fora de Portugal, dizer que é um estrangeirado que não compreende o país. Se o novo ministro vem do próprio governo, dizer que não há renovação do governo, se o novo ministro vem de fora do governo, dizer que levará demasiado tempo a estudar os dossiers. Se o ministro não é substituído, dizer que é uma vergonha para Portugal, se o ministro é substituído, dizer que é a prova que o governo é incapaz de governar e tem de se demitir todo. Se o ministro tem demasiadas pastas a cargo, dizer que não dá conta do recado, se o ministro vir parte das responsabilidades atribuídas a outro, dizer que o estão a esvaziar e que é incompetente 13 de abril - O ministro Nuno Crato foi exemplar no caso Miguel Relvas. E o primeiro-ministro também, reconheça-se, pelo menos a acreditar que disse sempre ao ministro da Educação, como o próprio garantiu, para se investigar o caso até às últimas consequências: "Cumpra a lei", foi a citação de Crato na SIC/Notícias. Se tivesse sido assim no caso da licenciatura de Sócrates - e é preciso terem muita lata para as viúvas, os órfãos e amigos próximos do ex-primeiro-ministro - se atreverem a falar de ética a propósito de Relvas - outros galos cantariam hoje muito mais baixinho. O senhor Mariano Gago terá aprendido alguma coisa? Nova Aliança, 18 / abril / 2013

16.4.13

Grandes leituras

Já lá vai o tempo em que, de quinze em quinze dias, reservava um fim-de-semana para os livros policiais. Ponto prévio: se não gosta de literatura policial, ou se pura e simplesmente nunca leu literatura policial, pode continuar a ler este texto. De tempos a tempos, volto ao meu autor preferido: Rex Stout. Os seus livros valem pela literatura e não pelas histórias neles narradas. Experimente levar alguns livros consigo e verá como encontrou o melhor meio de aplacar mais de um mês de insónias com a figura, as investigações, os tiques, as obsessões e as vitórias fulgurantes de Nero Wolfe. Li-os praticamente todos há alguns anos, mas perdi uns e emprestei outros, deixei alguns em lugares que já não existem. Não comecei com ‘Picada Mortal’ mas com ‘A Caixa Vermelha’ e os mais lidos, até hoje, foram ‘A Montanha Negra’ e ‘Terror a Prestações’. Nero Wolfe pesa cerca de 150 quilos, nunca sai de casa em investigação, vive numa casa na Rua 35, NY; o seu tempo divide-se entre as refeições e a cozinha, a leitura e as orquídeas; o resto do tempo é dedicado ao trabalho de detective e ao consumo de cerveja. Sair de casa, praticamente nunca – e para trabalhar, impossível. Das 9 às 11 e das 16 às 18, orquídeas. As histórias são narradas por Archie Goodwin, o seu secretário particular e detective-adjunto. O que acontece em ‘A Montanha Negra’ e em ‘Terror a Prestações’ é que Nero Wolfe sai de casa. Não é a única vez, há excepções garantidas, desde ‘Caçada a Mr. X’ a ‘Gambito’. Mas em ‘A Montanha Negra’, Wolfe vai até à sua natal Montenegro, na então Jugoslávia, para perseguir os assassinos do seu amigo Marko Vukcic; e em ‘Terror a Prestações’ é obrigado a sair de casa para perseguir e eliminar o seu inimigo fatal, ‘X’, aliás Arnold Zack, o génio do mal que lhe telefonara em três livros anteriores e que em ‘Caçada a Mr. X’ lhe mandara destruir as estufas de orquídeas. É sacrilégio, para qualquer leitor de Stout (que não se dedicou apenas a Nero Wolfe), catalogar os seus hábitos e peculiaridades –desde a sua aversão à "histeria feminina" (‘alguma’ misoginia, decerto), à incompreensível obsessão por ovas de sável, da relação com o sargento Cramer à paixão pela cerveja, da sua cultura enciclopédica à paixão pelo amarelo. Isto porque é inadmissível que não sejam conhecidos. Archie Goodwin (há um certo número de traduções daninhas em que eles se tratam por ‘tu’; nunca podia ter acontecido) , o seu narrador natural do Ohio, merece também cuidado, não só pela sua relação com a milionária Lily Rowan ou pela paixão pelo basebol, mas também por ser um janota americano dos anos cinquenta que assiste com paciência e arrogância o génio de Wolfe – é o próprio Wolfe que se assume como o mais talentoso de todos os detectives privados do universo (com a excepção de um, francês, que nomeia ou a quem recorre ocasionalmente). Nas páginas dos livros de Rex Stout encontramos os momentos mais significativos da história recente dos Estados Unidos, o que faz deles não só uma leitura apaixonante literariamente, mas também histórica e sociologicamente. Neste caso, estamos perante os problemas da segregação racial, os preconceitos mais profundos e dificeis de erradicar. Como sempre, as opiniões de Nero Wolfe são interessantes, afinal estamos perante um leitor infatigável e uma pessoa superiormente culta. Uma palavra final relativamente à edição portuguesa. Os livros do Rex Stout costumam estar miseravelmente traduzidos, os livros costumam estar cheios de gralhas tipográficas e a composição parece ter sido feita no intervalo do almoço e não no período normal de trabalho de um profissional. Neste caso e com o tempo, as coisas melhoraram qualquer coisa. Rex Stout merece-o. Ele não é apenas mais um autor de policiais de cordel: é um grande escritor, que merece a melhor tradução para que não se percam os seus imensos recursos literários. Não se incomodem por mim. Tenho noitadas para alguns meses. Experimentem. Nova Aliança, 31 / outubro / 2012

Os filhos do zip-zip, Óscar Lopes e Natália Correia

25 de março - Os Filhos do Zip-Zip’ (Esfera dos Livros), de Helena Matos, chegou às livrarias. Num país sem memória, ou que a despreza e frequentemente adultera, Helena Matos evoca, através de recortes de jornais, fotografias e publicidade da época, a transição portuguesa para os nossos anos setenta. Há gente que se lembra de como o ‘Zip-Zip’ marcou a sua vida – e gente que não se recorda do programa de televisão de Raúl Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz. Mas o país está lá, no fundo das recordações: guerra colonial, futebol, Vilar de Mouros (com Elton John em 1971), cigarros Kart, a fabulosa Dyane 6, Tulicreme, drogas, Procol Harum, J. Pimenta, ‘Simplesmente Maria’ e os bonecos do ‘Riso Amarelo’. Para alguns, esta evocação é pura nostalgia; na verdade, é o ‘Portugal futuro’ que já ali aparece desenhado. Nem de propósito, atravessamos uma época especial: os filhos do Zip-Zip estão a abandonar o poder. Façam contas. 29 de março - Depois de, em 2011, ter publicado as cartas trocadas entre António José Saraiva e Luísa Dacosta, a Gradiva lançará muito em breve um volume reunindo a correspondência pessoal entre Saraiva e Teresa Rita Lopes. Boa ideia. O que tem isto a ver com Óscar Lopes? Praticamente tudo. Num mundo dominado pelo interesse no espetáculo, com a sua velocidade e indigência, o nome de Óscar Lopes está naturalmente confinado ao círculo da gente com memória, apesar de ter marcado várias gerações com os seus livros. Lopes (leia-se o magnífico e comovente poema de Vasco Graça Moura sobre “um senhor de Matosinhos”) foi um sábio. O seu trabalho circulava entre a literatura, a estética e a linguística, mas convocava toda a sua experiência de contacto com outros saberes (até a matemática); isso fez dele um dos nossos grandes professores, ocupação hoje caída em descrédito. A monumental História da Literatura Portuguesa, que escreveu com António José Saraiva, foi uma das peças da sua grande intuição e do seu edifício harmonioso – e toda a sua obra é um combate pela cultura (veja-se este título, A Busca de Sentido), contra a ignorância, a leviandade e a falta de inteligência. É bastante. 31 de março - Passaram vinte anos sobre a morte de Natália Correia. Não vale a pena praticar o exercício do anacronismo – por exemplo, pensar no que hoje diria Natália sobre o nosso país. A autora de ‘Não Percas a Rosa’ disse-o em vida, na época, e com aquela veemência que nunca conseguiu fixá-la a uma redoma ideológica, de janelas fechadas para o exterior. Pessoas como ela fazem falta porque nunca podem ser substituídas; nem a sua poesia, nem os seus textos de intervenção mais imediata, nem o seu sarcasmo, nem a sua tentação de desancar a pátria e, sobretudo, os hierofantes empalhados da pequena moral. Por muito que se procure “uma forma de ser Natália Correia” é impossível encontrá-la porque ela foi tão plural e desconcertante que encaderná-la num catálogo é uma tarefa inútil. Os tempos não vão para pessoas assim. Para homenageá-la, vamos aos seus livros. É o que resta, no fim de contas. Nova Aliança, 4 / abril / 2013

Os 'nossos' banqueiros

4 de março – Por que razão temos uma boca e dois ouvidos? Provavelmente para ouvirmos mais e falarmos menos. De forma cada vez mais frequente, verifico a pertinência deste ‘conselho’. Vejamos três casos recentes. "Se não sabem o que fazer, ponham metade dos desempregados a abrir buracos e a outra metade a tapá-los. O que interessa é que estejam ocupados". É esta a proposta de João Salgueiro - banqueiro e ex-ministro, responsável também pela situação a que chegámos - para "oferecer às pessoas uma oportunidade de trabalhar, em vez de ficarem a vegetar, marginalizadas". Pode ser na construção civil ou nas matas, tanto faz. O importante é que ‘não chateiem’ ( aspas minhas ). Repare-se que o senhor não propõe trabalho desqualificado para garantir emprego para todos. Que não defendeu trabalho inútil para criar emprego pago que faça a economia andar. O objetivo é só este: ocupar as pessoas, como se de adolescentes rebeldes e em risco se tratassem. Entretanto, Filipe Pinhal, antigo presidente do BCP, saído da instituição bancária por causa de alguns escândalos relacionados com off-shores e manipulação de ações em bolsa, que recebe uma pensão de 70 mil euros de um banco em estado de coma, anunciou que vai criar o Movimento de Reformados Indignados. Será, pelo menos nos montantes da sua reforma, um movimento de peso. Mas o facto de fazer este anúncio diz qualquer coisa: que o senhor está completamente a leste do que a esmagadora maioria dos reformados (da banca e não só) pensará sobre ele e a sua reforma. Se juntarmos a estes dois as conhecidas e repetidas declarações de Fernando Ulrich (a quem alguns chamam ‘ultrarico’ e que queria os desempregados a trabalhar à borla para o seu banco), são três bons retratos de um certo grupo social: essa nova classe de gestores financeiros, que sugam os bancos que por sua vez sugam os clientes e os cofres dos Estados. Trata-se de gente que enriqueceu com as propostas do dinheiro fácil e criadores de um capitalismo não produtivo e economicamente inviável. No seu mundo virtual, deixaram de ser capazes de distinguir o certo do errado, o razoável do impensável. Nada os liga à sociedade. Quando comparados com os velhos capitalistas industriais (ou até com os banqueiros propriamente ditos), estes gestores são uma subespécie sem consciência política, social e moral de qualquer espécie. Nem empresários, nem assalariados, nem capatazes. São uma coisa híbrida que cresceu na lama da economia. Ao contrário do velho capitalista industrial, o grande gestor das instituições financeiras não segue uma ética política social própria. Não pode sequer defender a sua conduta usando o argumento da criação de riqueza ou de emprego. Nem sequer foi, em geral, criador das instituições que dirige. Não tem obra e não produz. Está apenas de passagem. É, resumindo, de todos os pontos de vista, um parasita. Os limites aos bónus dos gestores da banca, definidos pela União Europeia, são o primeiro sinal de uma revolta cívica contra esta nova espécie de marginal económico. E que terminará com uma pergunta que até já nos Estados Unidos se faz (e no passado se fez muitas vezes): pode toda a economia ficar refém de uma minúscula elite financeira, que põe em perigo os Estados, as economias e até a sobrevivência do próprio capitalismo? A resposta parece muito simples: não é possível permitir que um grupo que claramente, pelo excesso de poder que conquistou, já perdeu a noção da realidade, sugue todos os recursos, públicos e privados. E que se for necessário o Estado deve optar por uma posição de força. Que pode ir de uma regulação mais musculada até à nacionalização efetiva da banca intervencionada (não nacionalizando apenas os prejuízos), passando sempre por esta ideia: nos tempos que vivemos, os Estados não podem deixar de controlar a atividade financeira. Não é ideologia. É uma questão de sobrevivência. As crises fazem quase sempre estalar o verniz em que a vida em sociedade se sustenta. Com a banca completamente dependente do controlo político que mantém sobre os governos e as instituições públicas (numa verdadeira economia de mercado, grande parte dos bancos europeus já teriam falido), os homens que realmente governam o mundo e o País passaram a ter rosto e voz. Pelos seus atos recentes, percebíamos que estávamos perante sociopatas. As suas palavras tresloucadas e tontas apenas o confirmam. Nova Aliança, 20 / março / 2013

Tolerância religiosa

26 de fevereiro - Um pedaço de papiro levou uma estudiosa americana a dizer que Jesus foi casado. O papiro, provavelmente do século 4 d.C., seria parte de um evangelho apócrifo e prova substancial de que Jesus não teve vida celibatária. Verdade? Mentira? Acompanhei as notícias com curiosidade mediana. Mas o que mais me espantou nessa história sobre a alegada mulher de Jesus foi a tranquilidade com que o Ocidente lidou com o assunto. Ao contrário do que por vezes sucede, não vi mortos nem vi feridos. Não vi embaixadas atacadas e destruídas. Os cristãos não vieram para a rua pedir a morte da professora Karen King pelas suas "blasfémias" contra Jesus. A universidade de Harvard não precisou de reforço policial para evitar um massacre. A descoberta foi apresentada em Roma, discutida entre os eruditos e posteriormente desacreditada. Ou não. Terá isso algum interesse? Talvez não. É até provável que amanhã surja um novo pedaço de papiro com uma nova mulher no enquadramento. Ninguém mata ou morre por causa disso. Se, por mera hipótese, houvesse uma descoberta semelhante e igualmente polémica sobre a vida do Profeta Maomé, não é preciso descrever o cortejo de sangue que viria a seguir. Um cortejo que, admito, já foi nosso e bem nosso: há 500 anos atrás, o lugar da professora Karen King não seria na universidade de Harvard. Seria na fogueira da Inquisição. Mas passaram 500 anos. O Cristianismo teve a sua Reforma e Contra-Reforma; confrontou-se com o Iluminismo e o Contra-Iluminismo. Depois de todas as guerras religiosas que devastaram a Europa moderna em nome da fé verdadeira, entendeu-se que a "fé verdadeira" é um assunto dos crentes, não do Estado. A liberdade de culto passou a ser uma liberdade inegociável na maioria das sociedades ocidentais - a promessa de que ninguém seria perseguido por professar determinado credo. Mas a liberdade de pensamento e expressão também --a promessa de que ninguém seria perseguido por criticar ou ridicularizar a fé de terceiros. Infelizmente, esta conquista secular foi esquecida pela justiça brasileira, que determinou que o Google retirasse do Youtube-Brasil o filme "A inocência dos muçulmanos", a pedido da União Nacional Islâmica. Porque o filme ofende os muçulmanos e alimentou atos de violência extrema em todo o Médio Oriente? Acredito que sim. Como acredito que milhares de outros filmes, ou livros, ou quadros, ou peças de teatro, ou anedotas de café, ou meros comportamentos quotidianos ofendam muitos muçulmanos. A questão, porém, não é essa. A questão está em saber como é possível que um tribunal de um estado laico possa exercer censura em nome de uma religião particular. O filósofo francês Pascal Bruckner ajuda a entender o gesto. Sobretudo com o seu "A Tirania da Penitência - Ensaio sobre o masoquismo ocidental" (Difel). O título e o subtítulo dizem tudo: o Ocidente vive hoje uma orgia de masoquismo que o faz ter repulsa de si próprio, dos seus valores fundamentais, das suas liberdades inegociáveis. E como explicar essa quebra de confiança, esse torpor niilista e relativista? Pelo passado. Pela forma neurótica como o Ocidente retrata o seu passado. Quem somos nós para afirmar a importância dos valores ocidentais quando o Ocidente produziu incontáveis crimes - o genocídio de populações indígenas no Novo Mundo; o tráfico de escravos; o comunismo e o nazismo; o Gulag e o Holocausto? Curiosamente, o Ocidente que gosta de se autoflagelar pelos crimes do passado é também o mesmo que se esquece da sua própria capacidade para os superar e reprimir. Como afirma Pascal Bruckner, a Inquisição existiu; mas ela está diretamente ligada ao Iluminismo. A escravatura existiu; mas ela está diretamente ligada aos movimentos abolicionistas. O comunismo e o nazismo existiram; mas ambos estão diretamente ligados ao triunfo das democracias liberais no século 20. A singularidade do Ocidente não está na criação de monstros --todas as civilizações o fizeram e fazem. A singularidade está na forma como foi capaz de gerar as armas, teóricas ou bélicas, para enfrentar e derrotar esses monstros. Essa capacidade deveria ser causa de orgulho e confiança --e um imperativo suplementar para que o Ocidente defendesse os valores positivos em que acredita: a separação de poderes; a liberdade de pensamento e expressão; a tolerância perante diferentes concepções religiosas ou de vida; e etc. etc. Fatalmente, não há orgulho nem confiança. Apenas uma vontade psicótica de alimentar um certo nojo-de-nós-próprios, ou seja, uma náusea profunda pelos direitos fundamentais que foram conquistados depois de sangue, suor e lágrimas, como dizia Churchill num discurso célebre. A pergunta, formulada por Pascal Bruckner, é inevitável: como podemos ser respeitados pelos outros se já não somos capazes de nos respeitarmos a nós próprios? Esta será a pergunta que irá definir o futuro de uma civilização. Nova Aliança, 6 / março / 2013

Os animais perigosos, Funcionários e funcionários

2 de fevereiro - Mandam as regras que um animal doméstico que se demonstre perigoso ao ponto de pôr em risco a vida humana tem de ser abatido. Ora recentemente, um cão de uma raça perigosa matou uma criança de 18 meses. Por isso, foi decidido o seu abate. Acontece que 11 mil pessoas assinaram uma petição para impedir uma decisão de evidente bom senso. Dizem os subscritores desta petição: "um cão que nunca fez mal durante oito anos e atacou é porque teve algum motivo". Vamos ver se nos entendemos: Os motivos para um animal matar uma criança são irrelevantes, porque as crianças não podem correr risco de vida, sejam lá qual forem os motivos. A decisão de abater um cão não é uma forma de fazer justiça, mas de segurança. Escrever que "a criança e o cão são os dois inocentes desta história" é pornográfico. Crianças e cães, para os humanos, não estão no mesmo nível. Nenhum animal é abatido por ser "culpado" de nada. Até porque tal conceito é inaplicável a não humanos. Um animal doméstico, se se revelar perigoso para os humanos, não pode conviver com eles. É apenas disto que se trata e não de qualquer ato de justiça. Os donos e pais foram negligentes? Isso sim, resolve-se na justiça. O abate do cão é outra coisa: um cão que mata uma criança com quem convive deixou de ser um animal doméstico. Porque o que o torna doméstico é ser controlável por humanos. Como não pode ser devolvido à vida selvagem é abatido. Não por justiça, mas por segurança. Diz a petição: "Se não se abatem pessoas por cometerem erros, por roubarem, por matarem...então também não o façam com os animais!" A comparação é de tal forma grotesca que chega a ser desumana. Resumo assim: a vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre. 8 de fevereiro - O senhor José trabalha há 35 anos na mesma repartição. Funcionário exemplar, uma gripe atirou-o para a cama pela primeira vez na vida. O chefe exigiu-lhe o atestado de doença, prova de como não estava a aldrabar o Estado. De nada lhe valeu a honestidade que sempre provou ao longo dos anos. Ou apresentava o papel ou era castigado no seu vencimento. A senhora Glória é deputada.Há dias foi apanhada a conduzir alcoolizada, com uma taxa bem superior ao permitido por lei. Nos dias seguintes não pôs os pés no trabalho, a Assembleia da República. Atribuiu as faltas a uma doença. O Parlamento já veio dizer que dispensa o seu atestado, visto o regime de faltas ao plenário definir que "a palavra do deputado faz fé, não carecendo por isso de comprovativos adicionais." Um exemplo de como a expressão ‘ou há democracia ou comem todos’ está longe de fazer qualquer sentido. Couto dos Santos, presidente do Conselho de Administração da Assembleia, diz não ser necessário obrigar os parlamentares a apresentar atestado, porque ( não se riam muito, por favor… )"um deputado é responsável pelos seus atos" – não o somos todos? – e, agora vêm as gargalhadas sonoras, é preciso ter "confiança em quem elegemos". 12 de fevereiro - Lembram-se de quando a democracia iluminava Portugal e um funcionário público podia ser saneado por violar os limites admissíveis da opinião? Vá lá, não se mostrem esquecidos. Não foi há muito tempo. Em 2007, por exemplo, um professor viu-se afastado do cargo na Direção Regional de Educação do Norte (DREN) apenas porque partilhara com um colega uma anedota sobre a licenciatura do Enormíssimo Chefe, ironicamente conhecido por "engenheiro" José Sócrates. A diretora da instituição, pessoa de’ respeito’ e pouco apreciadora de comédia e insubordinação, abriu um processo disciplinar ao indivíduo, e o indivíduo, Fernando Charrua de sua graça (que saiu cara), acabou na rua. Agora, um tribunal atribuiu ao prof. Charrua razão e uma indemnização de 12 mil euros, a pagar pelo Estado e não, curiosamente, pela então diretora, uma zelosa criatura chamada Margarida Moreira. O próprio prof. Charrua considera absurdo os cidadãos patrocinarem, cito, "os desmandos e ilicitudes dos agentes políticos" enquanto estes permanecem impunes. Infelizmente, o princípio não se aplica só a pequenas compensações face à prepotência exibida por uma serviçal. Também o poder a sério é causador de inúmeros desmandos e ilicitudes sem que os seus custos sejam imputados aos responsáveis diretos. Por regra, a fatura termina sempre nos nossos bolsos, é imensamente superior a uma dúzia de milhares de euros e, sob diversas perspectivas, justifica o momento que atravessamos. Na medida em que os que arruinaram isto e os que apanham com as consequências da ruína não coincidem, o "caso" Charrua e as suas derivações constituem um rigoroso símbolo da austeridade vigente. Felizmente os tempos são outros e nem tudo é mau. Segundo especialistas vários, o Governo actual é "neoliberal", reaccionário, inconstitucional, fascista e o que calhar, mas pelo menos os professores andam por aí a aliviar-se de ofensas ao primeiro-ministro sem que ninguém seja por isso demitido. E quem diz a docência, diz o povo em geral, hoje livre de insultar os senhores que mandam e, se assim lhe aprouver, de suspirar pelo curioso conceito de liberdade dos senhores que antes mandavam. Nova Aliança, 21 / fevereiro / 2013

Balanço de 2012, Votos para 2013

2 de janeiro - As coisas não mudam. No final do ano é costume formularmos votos de Bom Ano Novo. É normal que as pessoas desejem umas às outras o melhor para as suas vidas no ano que vai entrar, que tudo aconteça de acordo com as melhores expetativas, que os seus desejos se realizem e não faltam os votos de saúde, de muitas alegrias e felicidades. Todos sabemos como são especialmente importantes as palavras de alento e de esperança de mudança para as pessoas apanhadas pela famigerada ‘crise’, muitas delas sem disporem de qualquer rendimento, que procuram trabalho mas não encontram resposta positiva, e que se confrontam diariamente com dificuldades financeiras para resolver necessidades tão essenciais como a habitação ou a escola dos filhos. O agravamento dos sacrifícios em 2013 vai especialmente pesar sobre todos aqueles que estão no desemprego e que vivem com carências económicas significativas. Perante isto, o que desejar para 2013? Que o país cresça em consciência social e que, como tal, governo, políticos, empresas e cidadãos ganhem maior sensibilidade social, sejam mais responsáveis e estejam mais disponíveis para contribuir para o reforço da solidariedade social, seja no plano político, seja no plano institucional e individual. Esta esperança funda-se na observação do ano de 2012 que não deve deixar ninguém indiferente perante o sofrimento de muitos portugueses. Justamente num momento em que a taxa de desemprego atinge níveis muito graves e em que a pobreza está a crescer a partir de níveis já de si elevados esperava-se do Estado Social uma maior capacidade na protecção das pessoas e famílias atingidas por estas chagas sociais. O Estado Social falhou quando era mais necessário, para quem dele necessita. A situação é de grande emergência financeira, mas passou a ser também de grande emergência social. Desejo, pois, o maior cuidado nos cortes anunciados de 4,4 mil milhões de euros na despesa pública, que sejam procuradas e encontradas alternativas que não afectem os níveis de rendimento já de si muito baixos e precários da maioria da população e que não reduzam os níveis de protecção social já de si fragilizados. 7 de janeiro - Escolho o povo português como figura de 2012. Na verdade, quem mais poderia ser? Em 2012, a sociedade civil explodiu no espaço público e soube usar a exposição mediática. Agiu fora dos partidos, que os cidadãos sentem actuar de acordo com interesses próprios, não os seus. Em 15 de Setembro, os manifestantes renegaram o enquadramento partidário, mas não originaram movimentos sociais. O grito extinguiu-se. Mais importantes foram erupções perenes de sociedade civil. Perante um sistema irreformável, os cidadãos defendem-se no espaço público, em novas formas de acção e com novos protagonistas. Destaco Paulo Morais. É uma voz activa, sólida, factual, avessa à demagogia. Expõe processos legais e ilegais de corrupção, promiscuidades de deputados e interesses económicos. Desmonta o sistema. A TV deu espaço a outras vozes, como Tiago Caiado Guerreiro, Carlos Moreno, Domingos Azevedo e Medina Carreira. O êxito do programa em que participa deve-se precisamente à denúncia do sistema. Como neste nada muda, havia tendência à repetição, pelo que o programa acrescentou convidados anti-sistémicos, para enriquecer o debate e quebrar a monotonia. Aqueles protagonistas e outras manifestações da sociedade civil, como os estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos ou o blogue Má Despesa Pública, abrem janelas que abalam a novilíngua de políticos e seus agentes nos media. Estes, todavia, ainda dominam, pois os canais de TV também pertencem ao sistema: apenas deixam entrar um pouco de ar fresco contra a demagogia, a retórica oca e deslocada da realidade de que muitos portugueses, na rua, nos espaços de liberdade na Internet e um pouco nos media tradicionais, revelam estar saturados. Nova Aliança, 10 / janeiro / 2013

27.11.12

A diretora da escola, o latim e o Inatel

27 de outubro - Numa escola, uma criança não pode ser castigada por um erro que se sabe que ela não cometeu. Há pais que não pagam o almoço escolar do filho, mas não prescindem das cervejas que custam o mesmo? Sim, está bem... O almoço nas escolas devia ser grátis? Sim, claro, e fechar os olhos às notícias também... A diretora da escola, como mostrou o cameraman, pinta as unhas? Pois, e as jornalistas vão para as reportagens de camisa coçada... Uma deputada da oposição interpelou o ministro pela desgraça da fome? Claro, e deve ter deixado de falar aos colegas que andam de Audi A5 público... Fim do recreio. Voltemos ao tutano: uma criança de cinco anos foi separada dos colegas e levada para uma sala onde não lhe deram almoço, deram-lhe outra coisa, porque os pais não pagaram a alimentação dela. E se calhar lá em casa o televisor é de plasma... Parou! Já disse que acabou o recreio. Estou-me nas tintas para os pais, para a diretora, para o raio que os parta. Aqui é a criança que conta, só ela. E neste caso, ela não foi bem tratada. Tantas causas, tão pouca compaixão. 2 de novembro – Parece que o Latim volta a ser popular nas escolas e universidades da Alemanha. Este tipo de escolha pressupõe uma atitude completamente diferente, não apenas face à escola mas também face à vida. Por cá, acredita-se que escolhendo o que dizem ser mais fácil se conseguem os mesmos resultados. E assim não só o latim acabou como na escolha das línguas vivas vigora a idiotice: em muitas escolas reina agora a convicção que o espanhol é mais fácil que o francês e que o alemão e então toca a escolher espanhol. O nosso futuro vai ser lindo. 6 de novembro. Apesar de tudo, ainda há boas notícias. Quando falamos todos os dias em precariedade no trabalho, é bom verificar que há áreas onde ela não existe. Nestes três últimos anos entraram no Inatel mais de 300 pessoas, principalmente vindas das hostes socialistas do distrito de Setúbal para ocupar todos os cargos de relevo (e muitos foram criados para lhes dar o que não tinham, visibilidade). Alguns passaram para o quadro com apenas um ano de contrato. O artista cantor polivalente Carlos Mendes veio como Director da Director Cultural mas passados meses, como não se adaptou, passou também a assessor, mantendo o ordenado e outras regalias sem exercer qualquer actividade. Vai à Fundação em média uma vez por semana”. As antigas delegações que passaram a agências, além de terem cada uma um diretor passaram a ter uma coordenação regional de delegados. Além dos 21 diretores, há mais 5 delegados regionais e ainda um coordenador nacional das agências, Rui Máximo. O Ciclo de conferências em parceria com a Fundação Mário Soaras, realizado nas diferentes capitais de distrito, nada tinha a ver com a missão e áreas de actuação da INATEL. Não foi mais que uma acção promocional do Presidente Vítor Ramalho ( com a ajuda do seu padrinho de longa data Mário Soares ) que custaram à casa 70 000,0€ mais as respectivas custas de alojamento, restauração e transportes de alguns colaboradores próximos do presidente, da própria administração e de alguns dos seus convidados. O presidente Vítor Ramalho ofereceu 25 quartos na Unidade Hoteleira de Santa Maria da Feira à CGTP-IN para os participantes na marcha contra o desemprego que teve lugar no dia 8 de Outubro, não vá dar-se o caso dos pobres senhores, depois de marcharem contra o governo, não terem um sitio digno para pernoitarem. Como podemos verificar, só temos razões para sorrir. O futuro não falhará. Nova Aliança, 14 / novembro / 2012

30.10.12

O serviço público de televisão e os automóveis da Assembleia da República

9 de outubro - Alguém sabe o que é o serviço público de televisão? Duvido. E, como tem sido dito, antes de decidir o que fazer à RTP, é preciso definir o conceito de "serviço público". Aliás, talvez devêssemos começar pelo conceito de "conceito" mas também não precisamos de complicar. Até agora o serviço público é como a pornografia: ninguém sabe muito bem como definir, mas todos acham que saberão apontá-lo quando o virem. Não sendo tão divertido como distinguir pornografia de pseudopornografia, talvez se chegue rapidamente a uma conclusão. Das várias opiniões que tenho lido, posso adiantar que serviço público é algo que: a) nunca foi prestado em Portugal, mas não pode ser prestado por estrangeiros; b) só pode ser prestado pela estação que foi criada para isso, mas que em 55 anos nunca o prestou; c) o dinheiro dos contribuintes que é usado para uma entidade pública não o prestar, não pode ser usado para uma entidade privada não o prestar; d) se for mesmo, mesmo bem feito, cura a psoríase. Mais: a programação de serviço público tem de ser composta por bons programas. Por exemplo, deve passar bom teatro nacional. E bom cinema nacional. Bons documentários. Boas séries. Boas telenovelas. Bons concursos de boa cultura geral. Tem de passar jogos de futebol da selecção, do campeonato nacional e do Real Madrid. Um bom programa de desporto. E fazer a cobertura de bons eventos desportivos. Um bom programa infantil. E um bom programa infanto-juvenil. Bons programas de humor com boas piadas. Um bom talk-show com bons convidados. Um bom magazinediário com boas dicas sobre boa moda, boa saúde, bom lifestyle, apresentado com boa boa-disposição. Um bom programa de investigação jornalística. Um bom programa de debate político. Um bom programa de divulgação de música portuguesa. Um bom programa de divulgação de literatura portuguesa. Um bom programa de divulgação das artes plásticas portuguesas. Um bom programa de divulgação da arte de rua portuguesa. Um bom programa sobre a cultura popular e o folclore. Um bom programa sobre os Descobrimentos, claro. Um bom programa sobre as comunidades estrangeiras em Portugal. E um bom programa sobre comunidades portuguesas no estrangeiro. Um bom apontamento diário sobre meteorologia. Um bom programa sobre a boa programação de serviço público que se faz. Obviamente, para conseguir isto, não se pode privatizar a RTP. Tem é de se nacionalizar a SIC e a TVI. É a única forma de arranjar espaço em antena suficiente para estes programas. 13 de outubro –Desculpem lá mas não podemos continuar a assumir que têm sempre que ser os outros a estar sujeitos a todos os sacrifícios, desde que connosco tudo fique “mais ou menos” na mesma. Se continuamos a acreditar que vivemos numa Democracia, então aquela que deve ser a sua ‘casa’ ou seja a AR -e não só… – tem que ser rigorosa, transparente e exemplar. É imoral que em Outubro de 2012, seja via aluguer de longa duração, seja como possa ser, que estejamos a suportar com os nossos impostos só para o PS, um Audi A5 e três Passat novos. Por certo 4 VW Pólo , 4 Smart ou 4 Renault Clio ( por muito que isso desagrade a Francisco Assis ) seriam mais que suficientes embora, face ao salario que auferem, talvez devessem usar o automóvel próprio. O salário de um deputado, fora benesses, excede em muitas vezes o que qualquer trabalhador normal neste país, mais ou menos habilitado, aufere. E não tem ainda automóveis e refeições e tanto mais, a tao pouco ou nulo custo ao próprio! A exceção seria o senhor Paulo Campos ( o tal das PPP ) que, apesar de ter rendimentos mensais de sete mil euros, apenas sobrevive com a ajuda dos pais. Está na hora de todos os deputados aceitarem a diminuição dos seus salários e mordomias em 50%. E, mesmo assim, viveriam bem acima do comum dos cidadãos Os tempos são de cortes e de sacrifícios para todos. Mesmo todos!! Nova Aliança, 18 / outubro / 2012

16.10.12

A intolerância religiosa

A coisa começa a ser frequente. Desta vez, foi um filme amador sobre a vida do profeta Maomé que incendiou o sempre ‘pacífico’ mundo árabe. O embaixador americano na Líbia foi morto. Embaixadas americanas no Oriente Médio foram atacadas. E as instalações da ‘Kentucky Fried Chicken’ tiveram a sua dose de violência e destruição. Ouvi muita gente e a opinião é unânime: o filme é nojento, ofensivo, ignorante; mas nada disso justifica a violência que ele provocou. É indiferente saber se o filme é bom ou mau, nojento ou refinado, ofensivo ou altamente elogioso para o islão. Não é função de nenhum chefe político tecer comentários sobre a qualidade do que se diz, faz ou pensa em países ocidentais, onde a liberdade de expressão é um valor sacramental. E a liberdade de expressão comporta tudo: o repelente, o ofensivo, o ignorante, o sacrílego. Se existem fanáticos que não gostam desse modo de vida, o problema não é do Ocidente. O problema é dos fanáticos. Claro que, para além da violência superficial que se espalhou pelo Médio Oriente, existem questões mais perversas: e se os atos dos fanáticos não estiverem apenas relacionados com o filme? E se o ódio ao Ocidente for a verdadeira gasolina que faz arder esses atos? E se a Primavera Árabe, afinal, foi apenas uma forma de trocar velhos tiranos por novos? Os meios de comunicação ocidentais, que defendem romanticamente a Primavera Árabe, consideram que só podem florescer aí democracias civilizadas, respeitadoras dos direitos humanos e onde a liberdade individual não tem preço. Eis a suprema falácia do pensamento progressista, que o filósofo John Gray, em artigo recente para a BBC, destruiu sem piedade: o facto de derrubarmos um ditador não significa necessariamente que as alternativas serão melhores. E porquê? Isaiah Berlin (1909 - 1997). já tinha avisado que os valores mais importantes em política não podem ser confundidos uns com os outros: liberdade é liberdade, não é igualdade; igualdade é igualdade, não é liberdade; democracia é democracia, não é justiça. Por outras palavras: o voto da maioria pode ser uma condição para a existência de regimes livres. Mas pode também ser o contrário: uma forma de liquidar a liberdade individual. Basta que a maioria, por exemplo, opte por um regime baseado na sharia islâmica, e não pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. E essa perversão nem sequer é uma exclusividade do islão. Será preciso recordar que Hitler é o exemplo mais eloquente de alguém que usou a democracia para liquidar a democracia? Hoje, no mundo islâmico, sabemos que ditaduras criminosas foram derrubadas. Mas também sabemos que islamitas tomaram o poder no Egipto ou na Tunísia. E que várias facções, com vários graus de radicalismo fundamentalista, lutam pelo poder dentro de cada um desses países. O que não sabemos nem escutamos são vozes liberais dentro do Egipto ou da Tunísia defendendo regimes democráticos respeitadores dos direitos humanos e da liberdade individual. Na década de 1960, perguntaram ao primeiro ministro chinês Zhou Enlai o que ele pensava sobre a Revolução Francesa de 1789. Resposta: "Ainda é muito cedo para dizer". Também aqui podemos dizer o mesmo. Nova Aliança, 4 / outubro / 2012

1.10.12

A 'nossa' responsabilidade

Os tempos não correm fáceis. Entre comunicações ao país, idas aos concertos e jogos de futebol, os portugueses sentem-se roubados e explorados. De uma forma geral, as crises que destroem os países começam nas finanças (com a bancarrota), continuam na economia (com recessão e desemprego), atingem a política (com os governos em desagregação) e finalmente chegam às ruas (com a sociedade em revolta). Facilmente sentimos que as duas primeiras fases – o naufrágio financeiro e económico – já foram cumpridas. Portugal vive agora a terceira. Perante isto, Passos não consegue explicar por que motivo o governo ‘carrega’ como nunca na mais pura extorsão fiscal, sem que existam progressos visíveis no tão prometido emagrecimento do Estado. Passos não explica, no fundo, por que motivo continuam a ser os funcionários públicos os mais prejudicados (para além dos dois subsídios, houve antes disso uma ‘subtração’ de uma percentagem do vencimento levada a cabo pelo Pinto de Sousa, lembram-se? ) e esquece as fundações e as famosas PPP. Estará o país a entrar na sua quarta fase? Pelo menos, saiu à rua sob o simpático slogan ‘Que se lixe a troika – Queremos a nossa vida de volta!’. Fez bem: gritar alivia e, além disso, o que está a suceder é imperdoável. Mas convinha esclarecer dois pontos sobre o slogan. Para começar, a ‘troika’ não aterrou em Lisboa por sua vontade e num dia qualquer. Foi um governo PS quem a chamou, depois de ter falido o país. Sem o dinheiro da ‘troika’, esse mesmo povo não teria um cêntimo no bolso. Restava-lhe a saída do euro, a adopção de uma nova moeda – e de uma nova vida. Que vida? Não, com certeza, a vida de fantasia que o euro permitiu – a governos, empresas, famílias, etc. Chegados a este ponto, para quem nos podemos voltar? Para o Presidente da República, responderão alguns. Será? Não foi esse mesmo Presidente da República que, com a história da boa e da má moeda, colocou no poder o Pinto de Sousa? E, mesmo que o fizesse, o que viria aí? Novas eleições para levar ao poder quem enfiou o país no buraco e não tem uma única ideia válida para tirá-lo de lá? Um governo de ‘salvação nacional’, tipo bacalhau com todos, onde os partidos da esquerda e da direita darão as mãos em cânticos patrióticos? Tudo o que o Presidente tinha a dizer, já o disse Ferreira Leite: as últimas medidas anunciadas por Passos são um desastre para a economia. Arranjem outras. Ponto final. Se Passos tiver juízo e quiser salvar a cabeça, agirá em conformidade. Repito o que tenho dito aqui algumas vezes. Somos nós os culpados da situação. Quem é que dá sempre um ‘jeitinho’? Que outros povos valorizam os espertos e não os sábios ou os justos ? Conhecem outro povo que aplaude o vencedor do Big Brother, mas não sabe o nome dum escritor? Que respeito merece um povo que reelege uma Fátima Felgueiras, um Isaltino Morais, um Valentim Loureiro e outros? Qual o povo que admira o pobre que fica rico da noite para o dia? Conhecem outro que ria quando consegue sacar a Tv Cabo do vizinho? O que esperar de um povo que não sabe o que é pontualidade? Quem atira o lixo para a rua e depois reclama pela sujeira? O que esperar de um povo que não valoriza a leitura? Quem finge dormir quando um idoso ou um deficiente entra no autocarro Pensem nisso, o problema não são os políticos, são os Portugueses! Os políticos não se elegeram, fomos nós que os elegemos. Nova Aliança, 20 / Setembro / 2012

16.9.12

Os desvios da Parque Escolar e os enfermeiros a 3,96 euros `a hora

26 de junho - A “festa” da Parque Escolar continua. Depois de o Tribunal de Contas ter arrasado o modelo de gestão da empresa, é agora notícia que foram pagas obras que não se realizaram. E que se gastou mais de 2 milhões de euros num só sistema de ar condicionado, geralmente utilizado em hotéis de cinco estrelas. Está tudo nos relatórios sobre as escolas D. João de Castro e Passos Manuel. Com a chegada destes novos factos, é importante recuperar alguns dos já conhecidos e esclarecer algumas mentes mais ‘céticas’. Facto 1: a empresa endividou-se para além dos limites. Apesar do PEC 2010-2013, foi fixado à Parque Escolar um limite máximo de endividamento para 2010 de 542 milhões de euros. No entanto, o endividamento bancário da empresa no final de 2010 foi de 665,9 milhões de euros, mais 23% do que o limite fixado. Facto 2: houve desvios orçamentais. O programa foi apresentado, em 2007, para requalificar 332 escolas secundárias (2,83 milhões de euros por escola). Com o Plano de Negócios 2008, o objectivo mudou: requalificar 166 escolas (8 milhões de euros por escola). Cerca de 3 meses depois, após a Iniciativa Investimento e Emprego (IIE), o objectivo voltou a mudar: requalificar 205 escolas (11,95 milhões de euros por escola). Em 2010, o número de escolas a requalificar mantinha-se, mas o custo por escola aumentou para 15,45 milhões de euros. O desvio deste valor é de 445% face à apresentação do programa em 2007, de 93% face ao Plano de Negócios 2008, e de 29% face ao estimado após o IIE. Facto 3: os custos aumentaram em 2010. Em 2009 (ano eleitoral), previa-se que a 3ª fase do programa de requalificação fosse a mais barata. Fazia sentido, pois havia experiência acumulada e o país vivia num difícil contexto económico. No entanto, em 2010 (ano pós-eleitoral), a 3ª fase aumenta surpreendentemente os seus custos: no custo médio por escola (de 11,5 para 17,1 milhões de euros) e no custo médio por aluno (9592 para 13 834 euros). Tornou-se a fase mais cara. Facto 4: não se fixaram tectos máximos. A Parque Escolar previu todo o seu programa de requalificação sem fixar tectos máximos de investimento. A opção resultou num descontrolo dos custos, particularmente visível pela variação do investimento por aluno entre escolas. Por exemplo, a Escola D. João de Castro custou, por aluno, 3 vezes mais do que o valor médio. Facto 5: houve luxos. O aumento sucessivo dos custos do programa de requalificação explica-se, em parte, pelos materiais e pelas soluções técnicas utilizadas. Houve madeiras e pedras nobres, iluminação decorativa, e candeeiros Siza Vieira. A ordem para acabar com os luxos veio tarde, a 3 dias das eleições legislativas de 2011, para ser cumprida por quem viesse a seguir. Ora, negou-se a má gestão do programa de requalificação de escolas e negou-se a existência de luxos. Só não se lidou com os factos. Para o partido que governava na altura, ter candeeiros Siza Vieira não é um luxo, é querer o melhor para os alunos. Por isso, para eles, não houve desvios. Gastou-se apenas o necessário, e quem afirmar o contrário é inimigo da escola pública. Fica assim claro, para quem tivesse dúvidas, qual a razão para termos chegado ao estado a que chegámos. 5 de julho – O Diário de Notícias revela que os enfermeiros contratados para os centros de saúde de Lisboa e Vale do Tejo irão ganhar 3,96 euros à hora, isto é, 555 euros por mês (250 a 300 líquidos). São, diz uma das empresas contratantes, as novas regras de pagamento aos "colaboradores" do SNS: a qualidade não conta, é escolhido quem cobrar menos. Quando chegou ao Governo, Paulo Macedo trazia a incumbência de "poupar na saúde" e, para isso, terá adoptado como estratégia o abandalhamento do SNS, empurrando quem não for totalmente indigente para as clínicas privadas de bancos e seguradoras. Ficam os pobres, e na saúde dos pobres pode poupar-se à vontade. Pelo menos assim parecem pensar os "boys" de algumas ARS e administrações hospitalares. E, se em Lisboa poupam prescindindo da qualidade da enfermagem, no Hospital Central Tondela-Viseu poupam, no copo de leite e nas bolachas de água e sal com que, durante a noite, se estabilizavam antes os níveis de glicémia dos diabéticos, deixando estes 12 horas sem comer e em risco de morte por hipoglicemia. Parece que, em outros hospitais públicos, a lei, em relação aos doentes oncológicos, é agora a de "poupar nos medicamentos caros e deixar morrer". Porque, infelizmente, é preciso poupar em algum lado o que não se poupa nas PPPs, nas rendas pagas às grandes empresas do sector energético e na Parque Escolar. in Nova Aliança, 5 / 7 / 2012

Reformas e reformas

9 de junho – Quando um diário como o Correio da Manhã publica trabalhos sobre reformas logo surgem os queixumes e as palmas do costume. ‘Uma vergonha’,. dizem alguns. ‘É preciso dizer algumas verdades’, acrescentam logo outros. Desta vez, o texto apontava as reformas de vários atores de teatro, cinema e televisão. Montantes astronómicos, claro, na casa dos 300, 400, 500 euros. Os mais previdentes, autênticos milionários, conseguiram ir mais acima, até aos 1700 euros mensais. Os menos previdentes, uns tontos, nem reforma têm. Já perceberam que é tudo uma questão de previdência. O que nos leva ao outro caso, o do banqueiro Jardim Gonçalves que, coitado, nem o banco nem os tribunais deixam descansado. Jardim, nascido como o seu homónimo foi, ao que parece, previdentíssimo. Antigo fundador e delfim do banco, assegurou uma reforma fantástica, acrescida de várias regalias em montantes não negligenciáveis, reforma essa que passará inteira para a mulher caso morra. Tem direito ainda a quatro seguranças privados porque foi decidido, em reunião administrativa, que a sua integridade física corria riscos. Isto tudo porque trabalhou imenso e, obviamente, merece. Entrou para os quadros do banco em 1985, como diretor, e ali se manteve presidente até 2005. Por estas duas singelas décadas garantiu uma pensão mensal de (dizem do banco) 167.650,73 euros mais um contrato de seguro e encargos diversos no valor de 730 mil euros por ano. Isso porque não trabalha. Porque se voltasse ao banco, nem que fosse para matar moscas e limpar o pó da secretária, ganharia 650 mil euros anuais, que é o que ganha hoje, garantem de lá, o administrador mais bem pago. Mas voltemos ao exemplo anterior. Vejamos, por exemplo, o caso de Lia Gama, actriz que todos conhecem de inúmeros filmes e peças de teatro. Estreia profissional em 1963, uma carreira a caminho de completar 50 anos. Quanto tem de reforma? 330 euros mensais. O mesmo que Sinde Filipe. Um pouco abaixo de Margarida Carpinteiro, com 370. Ou Irene Cruz, 400. Simone de Oliveira conseguiu 560, Rui de Carvalho 1029. Consoante os descontos. Os milhares de aplausos que tiveram ao longo da vida deixaram-lhes isto. Mas querem saber? Estão tão protegidos quanto uma abelha na chuva mas não se queixam. Dizem que o que é preciso é ter saúde. Sorrisos do destino ou nós por cá todos bem. Mas Jardim queixa-se. Foi apenas ator e dramaturgo, não aplaudido, de uma única peça com um título de três letras, e mesmo assim queixa-se. Diz ele em sua defesa, por via do seu advogado e por escrito, que a culpa é de ter entrado "no circo mediático o inenarrável Berardo" e protesta contra a intenção do banco lhe cancelar as regalias extraordinárias ( seguranças, motoristas, cinco automóveis com gasolina talvez de 98 octanas, despesas com avião particular ), argumentando, lê-se no CM, com o facto de "o banco ter pago, ao longo de 13 anos [tais quantias], sem dúvidas ou hesitações quanto à validade". Fantástico argumento, sem dúvida. O que dirá então um qualquer funcionário público ao Estado, que lhe pagou o subsídio de Natal e de férias todos os anos, sem "dúvidas ou hesitações quanto à validade" e agora lhos tira a pretexto da crise? Dirá que antigamente é que era bom? Recordará as armas e o povo dos idos de 75? Ou ficará a olhar o fio do horizonte, a pensar se lá fora também será assim? A moral desta história, se existe alguma, é que mais vale ( pelo menos em euros ) ser ator de uma má peça que ninguém vê mas que todos pagam, do que subir aos palcos toda a vida. Mesmo assim, os artistas, os verdadeiros, são mais felizes. É deles que nos recordaremos, mesmo sem dinheiro algum. in Nova Aliança, 20 / 6 / 2012

Isaltino (outra vez) e as exceções

12 de maio – A propósito do caso Isaltino, reparem bem como se passam as coisas neste país ao nível da justiça: "O requerimento deu entrada no Tribunal da Relação, que deverá pronunciar-se sobre a sua admissibilidade" - até aqui tudo bem - "sendo que a lei estabelece um conjunto de apertados requisitos para que o tribunal aceite" - mau - "Em caso de indeferimento na Relação" - a coisa acaba, certo? Errado. Isso é que era bom - "o arguido terá a possibilidade de recorrer dessa decisão para o Constitucional." - mas quantas vezes se pode recorrer para o Constitucional? - "Em caso contrário" - a coisa acaba? Acaba, não acaba? - "a admissibilidade do recurso será ainda objecto de uma nova avaliação no TC" - n-n-nova avaliação?! Mas acabou de sair de lá!! - "que não fica vinculado pela eventual admissão do recurso pela Relação" - claro que não. Isso seria demasiado fácil - "Uma vez no Palácio Ratton, o apelo pode ser objecto de decisão sumária do juiz relator, se - há sempre um "se" - "a questão a decidir já tiver sido objeto de anterior decisão do TC, ou se" - estão a brincar, certo? - "for julgada manifestamente infundada" - manifestamente infundada. De certeza que a coisa acaba aqui. Não. Esperem. Em que país julgam que estão? - "Dessa decisão sumária o interessado pode também reclamar para a conferência de juízes" - e para o júri dos "Ídolos", imagino. "No caso de ser admitido o recurso, Isaltino terá um prazo de 30 dias para apresentar alegações" - sim, porque, afinal, ainda só teve meia dúzia de anos para se explicar - "Em apoio das mesmas, poderá apresentar pareceres encomendados a especialistas em Direito Constitucional. O processo vai depois ao Ministério Público junto do TC, que tem mais dez dias" - Ah, ah. Ah, ah, ah-ah-ah - "para se pronunciar, após os quais os juízes dispõem de cinco dias" - aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhh - "para apreciação, a seguir aos quais" - isto acaba, não é? Acaba. Ou bem que o prendem ou bem que o soltam - "é MARCADO O JULGAMENTO". Eutanásia, por favor. Onde é que eu assino? 16 de maio – O leitor já percebeu por aquilo que vai vendo e ouvindo que Portugal é um país muito especial. Podemos até chamar-lhe o País das Excepções. Afinal, o pagamento da crise não é igual para todos. Já todos o sabemos e não é uma surpresa. Os cortes são só para alguns. Os senhores que comem caviar, que se banham em perfumes, que se passeiam de Bentley e jogam golfe não podem ser prejudicados nas suas vidinhas. Era descaramento a mais do Governo tratar todos de forma igual. Rapazes bens cheirosos, charmosos e de porte elegante merecem o estatuto de excepção. É justo. Os que vieram ao mundo para sofrer e suportar os sacrifícios é que devem pagar a crise. Pensar de outra forma é revelador de inveja, sentimento mais mesquinho do indivíduo. E se refilarem, porrada neles. Com o fim do colonialismo, em que tínhamos brancos e negros, agora temos brancos de primeira, segunda e terceira categorias. É a estratificação social mais adequada e proporcional à importância do custo e do cheiro do perfume de cada um. É assim que está o País, cheio de gente que luta sem esperança. Tiram-lhes tudo sem sequer pedir licença. E todos consentem no silêncio do sofrimento. Para além do estatuto de excepção, o Governo criou uma espécie de apartheid social. Obrigar os homens do caviar a conviver, no mesmo espaço social, com gente que nada tem, mal nutrida e que não é solidária com o estatuto de excepção é de uma violência sem limites e piedade. Só a razão pública pode potenciar a criação de sociedades menos injustas. Governar é fazer escolhas. As escolhas foram feitas e a lista dos privilegiados, que gozam deste estatuto de excepção, tem crescido. No Orçamento para a Assembleia da República, aprovado por todos os partidos, os deputados e os funcionários da AR mantêm os subsídios de férias e de Natal em 2012; à semelhança do que se passa na TAP Portugal, para a SATA, para a CGD e para o Banco de Portugal. Reparem bem: este ano, o Governo autorizou vinte e três empresas e institutos públicos a terem regras mais abertas e flexíveis no que toca às reduções salariais, quer dos trabalhadores, quer dos gestores. Os principais beneficiários das excepções são os administradores de empresas públicas, que levaram muitas delas à ruína financeira. A lista está a crescer não na medida das necessidades, mas da ganância: CTT, NAV, ANA, Parque Expo, Instituto Nacional de Estatística e Infarmed… Haja decoro! Nenhuma razão pública justifica esta afronta de excepção na não partilha dos sacrifícios. É muito injusta a sociedade que estamos a criar. in Nova Aliança, 6 / 6 / 2012

Mário Soares, Miguel Portas e Marinho Pinto

25 de abril – Há muito tempo que me habituei a declarações sem sentido de Mário Soares. Hoje aconteceu mais uma. Recordo ao leitor que são os nossos impostos que lhe pagam carro, motorista e, aparentemente, multas de trânsito. Pelo seu passado, tem responsabilidades institucionais e o dever de as cumprir. A sua "solidariedade" com os militares de Abril é das atitudes mais vergonhosas da sua longa carreira, e é sobretudo uma hipocrisia do tamanho do défice português. Esse senhor esqueceu-se de certeza que trouxe o FMI para Portugal num dos seus governos. Esqueceu-se também de ter pago os subsídios de Natal aos funcionários públicos em certificados de aforro. Nessa altura, onde é que estava Abril? Mais recentemente, não se cansou de louvar o visionário Sócrates e a sua política desastrosa que nos levou à falência e nos colocou de mão estendida diante da troika. E agora é este senhor que nos vem dar lições de democracia? Por favor, haja alguém que o ajude a passar os seus dias com dignidade. 26 de abril – Não conheci pessoalmente Miguel Portas. Só sabia que era filho de e irmão de. Dizem-me que foi também um político cordato. É bom saber que tinha família notável e que a convicção não obriga à antipatia. Na hora dos obituários – generosos e abundantes, como é costume entre nós - cai bem que se diga bem. Contudo, não havia muitas informações. Os jornais, pelo menos, não as deram. Sabemos que passou pelo PCP e fundou o Bloco de Esquerda. Mas isso não é necessariamente um grande feito. Muitos devem ter feito o mesmo caminho entre as duas forças. De repente, dei-me conta de um vídeo: "Não consigo compreender como um eurodeputado no dia em que viaja pode receber 300 euros em ajudas de custo, mais o subsídio de distância e mais um subsídio de tempo...", protestava o eurodeputado Miguel Portas, de forma educada (mas não foi só isso que anotei), no Parlamento Europeu, em fevereiro de 2010, já em tempo de crise, onde se acabava de votar um aumento para eles próprios, os eurodeputados. "Temos a obrigação de dar o exemplo e hoje demos um mau exemplo", concluiu ele. Discurso bonito mas isolado. Pelo menos, não me recordo de mais nenhum eurodeputado português com o mesmo tipo de discurso. Ontem, escrevia um correspondente em Bruxelas: "Ele foi o mais ativo na luta contra os privilégios desmesurados dos seus colegas deputados." E alinhava vários exemplos. Ontem, foi pelo texto desse jornalista de um jornal estrangeiro, El Mundo, que eu confirmei a dimensão pública de Miguel Portas. E tive pena que em Portugal o não tivessem escrito. 28 de abril – Gostaria o leitor que alguém lhe chamasse escaravelho do diabo ou mosca morta? Conheço pelo menos uma pessoa que não se importaria. O seu nome? Marinho Pinto, o representante máximo dos advogados. Tenho a certeza que o bastonário não processará quem o considere um mero inseto ou uma venenosa carraça, sobretudo depois de o termos visto a insultar a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, no programa ‘Conversas Improváveis’ da SIC Notícias. Como se diz em linguagem jurídica, o momento televisivo deve criar jurisprudência. Se Marinho resolve chamar "barata tonta" a uma senhora, concorde-se ou não com as suas políticas sobre a Justiça, todos temos o direito de chamar sapo ao sr. bastonário. Ou pior. O que quererá ele? Audiência? Deveria concorrer à próxima edição da Casa dos segredos. 2 de maio -Ontem aconteceu qualquer coisa ‘nova’ no País. Nas ruas, as centrais sindicais assinalaram o 1º de Maio com ainda menos gente do que o habitual. No Pingo Doce, foi ignorado o Dia do Trabalhador e as lojas abriram com uma promoção que atraiu milhares. Nas ruas, protestou-se com pouco eco contra o Governo, no ‘hiper’ as pessoas acotovelaram-se contra a crise. Com confusão, pancada, protestos, caos. Atenção ao que se passou. Entre o protesto e a barriguinha, desmobilizou-se a luta cívica e venceu a fúria do açambarcamento. Qualquer fósforo mal usado pode mesmo incendiar o nosso pequeno retângulo. in Nova Aliança, 10 / 5 / 2012

A grande 'festa' da Parque Escolar

15 de abril - O texto de hoje é uma festa. Por três minutos, convido os leitores a esquecer a crise, a troika, os aumentos da gasolina, as contas do supermercado. Provavelmente, quando chegar ao fim, não vai sentir vontade de rir mas… é a vida e a vida é uma festa. A senhora Maria de Lurdes Rodrigues, antiga ministra de José Sócrates, defendeu no Parlamento, com o mesmo humor de qualquer humorista, que o programa Parque Escolar foi "um êxito", não "houve derrapagens", enfim, "foi uma festa para o País". Chamada a explicar no Parlamento as trapalhadas da Parque Escolar, Maria de Lurdes Rodrigues resumiu-as numa frase: "A Parque Escolar foi uma grande festa para o País." ( Como o leitor já reparou, abre-se aqui um parêntesis para ‘ler’ o que vai na imaginação da personagem. Ora, para ela, a cena deve ter-se passado da seguinte forma: Os professores celebravam. As crianças riam. Populares davam vivas aos governantes. As janelas abriram-se para mostrar colchas e rendas vistosas. Agrupamentos de escolas e EB 2/3 abraçavam-se e entoavam cânticos de louvor ao alegado engenheiro Sócrates. Eu própria saí à rua e fiquei tão feliza fim por me juntar à alegria que tomara conta de Portugal inteiro. Fico assim sempre que um desígnio público –lembram-se dos estádios do Euro? - desata a espatifar o dinheiro dos meus impostos e enviar 180 milhões para destino desconhecido. É uma vergonha como se pode dizer mal de tudo isso… Cambada de ingratos e de antipatriotas… Veja-se, por exemplo, as verbas que, a troco de uns candeeiros, desaguaram no arquitecto Siza Vieira. Como a minha ex-colega Isabel Canavilhas bem registou, os candeeiros de autor justificam-se porque Siza Vieira é "um grande artista" e o ambiente nas escolas não pode ser "nivelado por baixo". Esta linha de pensamento obriga-me a aconselhar a decoração das novas salas de aula com originais de Degas e Vermeer, artistas ligeiramente maiores do que Siza Vieira e, sem dúvida, dignos da apreciação dos nossos corpos docente e discente. E digo mais, ensino propriamente dito pode rastejar à vontade, convivemos bem com os currículos anedóticos, a erosão dos padrões de exigência, a indisciplina e a pura violência frequentes nos liceus, até aceitamos bem o baixíssimo nível dos senhores que coloca a tutelar o sector. A única coisa que não posso tolerar é uma escola feia, e quem sugerir ser absurdo gastar fortunas (e desviar fortunas) para embelezar uma inutilidade (e animar clientelas) escandaliza as pessoas de bem. Vamos mas é a aceitar os candeeiros de Siza Vieira e o resto e, em troca, a dispensar as audições parlamentares, que invariavelmente servem para nada ). Neste ponto, faço questão a fazer notar ao leitor que os parêntesis fecharam, o que significa que agora sou eu que falo e não alguém que delira. A verdade é que uma auditoria à empresa Parque Escolar se revela arrasadora. A crueza dos números do Tribunal de Contas aponta para um agravamento de 337% no custo previsto das obras, ou seja, de 940 milhões em 2007, chegou-se aos 3168 milhões em 2010. Valores que não convencem a dita senhora. Ainda imbuída do mesmo tom festivo, expressa um conceito inovador: "Deixámos uma dívida boa." Não sei se conseguem alcançar a subtileza da expressão… “Dívida boa!!!!!!!!!!!!!” Já durante a audição a Isabel Alçada, ex-governante que justifica a utilização de mármores e madeiras nobres, a mesma Gabriela Canavilhas defendeu a existência de candeeiros de Siza Vieira nas escolas por se tratar de "um grande artista", acusando a maioria parlamentar de querer "nivelar por baixo". Miseráveis? Nunca! A ideia é gastar à tripa-forra e quem vier a seguir que pague a conta. Foi por esta linha de raciocínio que agora estamos a penar, e ainda a procissão vai no adro. Que grande festa. in Nova Aliança, 26 / 4 / 2012

Millôr Fernandes

30 de Março – Millôr Fernandes era um dos maiores cronistas de língua portuguesa. A sua morte recente deve levar-nos a ler os textos que deixou. Como este, chamado ‘Notas de Um Ignorante’ que aqui deixo transcrito com todo o respeito pelo autor. “ Entre as coisas que me surpreendem e humilham, figura esta, fundamental, que é a cultura de meus amigos e conhecidos. Não só a cultura no sentido clássico, mas também o conhecimento imediato das coisas e fatos que lhe estão sob os olhos no dia-a-dia da existência. Quem está a meu lado sempre leu mais livros do que eu, conhece mais política do que eu, já esteve em mais países do que eu, já teve mais casos sentimentais do que eu, estudou mais do que eu, praticou e pratica mais esportes. Paro e me pergunto que fiz dos meus anos de vida. Já fui atropelado e sofri alguns acidentes, como explosão, queda e afogamento. Mas entre os acidentados não estou na primeira fila. Tenho vários amigos que já caíram de avião, outros de cavalo, alguns sofreram pavorosos desastres de automóveis, um esteve preso num armário enquanto uma casa (não a dele, é claro!) se incendiava, outro ajudou a salvar o navio Madalena em meio a tremendas ondas que ameaçavam arrebentar sua lancha a todo momento. Que fiz eu de minha vida? Em matéria de cultura encontro imediatamente quinhentas pessoas, só entre as que eu conheço, que sabem mais línguas do que eu, leram mais, falam melhor e mais logicamente, conhecem mais de teatro e citam com precisão escolas filosóficas, afirmando que tal pensamento pertence a esta e contradiz aquela. Que fiz eu? De esportes ignoro tudo, não sei sequer contar os pontos de vôlei, só assisti até hoje a uma partida de pólo, nunca joguei futebol e quando vou ver esses jogos desse esporte, só consigo reconhecer os jogadores mais famosos. Esqueço o nome de todos, e no domingo seguinte já não sei mais o escore da partida a que assisto neste. Nado mal, corro pedras, jamais consegui me levantar num esqui aquático, não guio lancha, joguei golfe uma vez, tênis seis meses, não entendo de velejar (o que já me causou uma grande humilhação diante de esportivíssimas americanas de quinze anos que me conduziram num passeio lá na terra delas), e, em matéria de mares, nunca lhes sei os ventos e fico parvo com o senso de direção de muitos e muitos de meus amigos que jamais supus tomassem nada de brisa e tufões. Guio, mas o motor de meu carro é para mim um mistério indevassável. Sei apenas abrir o capô e contemplar a máquina, atitude metafísica que até hoje não pôs carro algum em marcha. Seria eu então um homem dedicado á cultura propriamente dita, aos livros, ao estudo, ao amor da leitura e do pensamento? Não, pois meu pensamento é confuso e minha leitura parca. Conheço homens, dos que não vivem de escrever, que pensam muito melhor do que eu e leram muito mais, sem contar os especialistas, que conhecem livro pelo cheiro. Entre os que viajam também não sou dos que tenham viajado mais. Com o agravante de que nunca sei bem onde estou, não conheço a distância que vai de Roma a Paris, nem sei se Marselha está ao Sul ou ao Norte da Itália. Fico boquiaberto quando vejo amigos meus apontarem estátuas e falarem sobre os personagens que elas representam com uma facilidade com que falariam de si próprios. Mesmo o conhecimento de nomes, pessoas e fatos adquiridos em viagens eu o esqueço em três semanas. Mas não adianta o leitor querer me consolar, dizendo que talvez eu seja um bonvivã, porque nunca o fui dos maiores, tendo minha vida sido conduzida sempre numa certa disciplina, necessária a quem veio de muito longe. Donde o amigo poderá concluir então que eu sou um trabalhador infatigável, um esforçado, um detonado. E isso também não é verdade porque, com raras exceções, nunca trabalhei demasiadamente e cada vez procuro trabalhar menos, numa conquista ao mesmo tempo prática e filosófica. Bebo? Bebo mal e ocasionalmente. Não sei quando a bebida é boa ou falsificada. Não sei o nome dos vinhos mais triviais e sempre me esqueço qual é o restaurante em que eles fazem um prato que certa vez eu adorei. Por mais jantares a que tenha ido e por melhores alguns lugares que tenha freqüentado, devo sempre esperar que alguém se sirva na minha frente para não pegar o talher errado e o copo idem. Além do que não como muito, nem tenho nenhuma particular predileção por comer. Gosto então da vida calma, sou um praticante da meditação e do ioga? Nunca dos que mais o são. Por outro lado a extrema agitação também não me é familiar. Que fiz da minha vida? Quando há um acidente de rua, vem-me o pavor de tomar partido, pois nunca tenho realmente a convicção do lado certo. Se fala o mais poderoso eu sou inclinado a ficar de seu lado por uma tendência a defender os que hoje são mais comumente acusados de todos os males, vítimas do tempo. Se fala o mais humilde sinto-me inclinado a defendê-lo por um ancestralismo que me faz seu irmão, por idéias arraigadas que fazem com que todo homem queira lutar instintivamente pelo mais fraco. Por quê? Não sei. Sou bom de guardar nomes, caras, datas? Já disse que não. Sempre esqueço o nome dos conhecidos e troco o dos amigos mais íntimos num fenômeno parifásico que só a loucura mesma explicaria ou então a bobeira nata que Deus me deu. E política meu conhecimento chega ao máximo de saber que o Sr. Plínio Salgado pertence ao PRP, o Brigadeiro à UDN e Jango ao PTB e creio que há alguns outros partidos também. Mas mesmo essas convicções não são inabaláveis e, se alguém me pegar desprevenido e fizer dessas letras e nomes outras combinações, lá vou eu a aceitá-las, embrulhado e tonto, até que outro interlocutor crie para mim novas combinações e novas confusões. Mas peguem um puro e simples crime e eu nunca sei quem matou a empregada e em meu peito jamais se chegou a criar uma suspeita sólida a respeito do poeta de Minas. Isso, aliás é o máximo a que vou – sei que houve um crime em Minas Gerais, alguém matou alguém. O morto não está na lista de minhas lembranças, não sei de quem se trata. Sei que o indiciado assassino é um poeta, vi sua cara barbada e meio calva em muitos jornais e revistas. Mas meus conhecidos sabem de tudo. As mulheres de meus conhecidos então nem se fala. Que fiz eu de minha vida? – me pergunto de novo, honestamente, com a surpresa e a amargura com que o Senhor perguntava: “Caim, que fizeste de teu irmão?” Pois boêmio não sou, embora tenha gasto milhares de noites solto pelas ruas. Mas os boêmios me consideram um arrivista da boemia assim como os homens cultos me consideram um marginal da cultura. E os esportistas a mesma coisa com relação aos parcos esportes que pratico. Todos com carradas de razão. E nem a maior parte do meu tempo foi gasta em conquistas amorosas, pois nesse terreno o Porfírio Rubirosa, se me conhecesse, me olharia com o mesmo desprezo com que me olham conhecidos galãs nacionais. Dessa mente confusa, dessa existência confusa, dessas mal-traçadas-linhas de viver creio que só resta mesmo uma conclusão a que durante anos e anos me recusei por orgulho e vergonha – sou, por natureza e formação, um humorista.” in Nova Aliança, 12 / 4 / 2012

Política inglesa vs Política portuguesa

24 de março – Lê-se num jornal diário :”O chefe do Governo britânico está sob pressão, na sequência do escândalo de corrupção que envolveu o co-tesoureiro do Partido Conservador e o levou à demissão. (…) O Partido Trabalhista britânico exigiu a abertura de um inquérito independente para investigar a venda de favores feita em nome do primeiro-ministro David Cameron, embora este tenha negado a existência de financiamentos paralelos no seu Partido e anunciado a abertura de um inquérito interno. "Todas as doações ao Partido Conservador têm de cumprir os requisitos da lei eleitoral", garantiu David Cameron. O governante está sob pressão, após a demissão do co-tesoureiro do Partido Conservador Peter Cruddas, na sequência de ter sido filmado pelo "Sunday Times" a oferecer favores do Governo, mediante avultadas doações. "250 mil libras dá acesso à 'Primeira Liga', que inclui um jantar com o primeiro-ministro, David Cameron, e a oportunidade de poder influenciar a política do Governo", disse Peter Cruddas aos jornalistas do "Sunday Times", que fingiam ser potenciais investidores de um fundo sediado no Liechtenstein. Cruddas acreditava que o facto de as doações serem oriundas do Liechenstein levava a que passassem despercebidas à luz da lei eleitoral britânica. "Se não estiverem satisfeitos com alguma coisa, vamos ouvi-los e faremos chegar as vossas questões à comissão política da porta nº 10 de Downing Street", explicava ainda aos jornalistas disfarçados de investidores. O escândalo levou à demissão do co-tesoureiro do Partido Conservador inglês, que veio pedir desculpa em público pelo sucedido, lamentando "qualquer impressão de impropriedade." "Que fique claro que nenhum donativo pode influenciar a política ou dar acesso indevido a políticos", disse Peter Cruddas, contrariando aquilo que tinha dito no vídeo. Em Portugal, pelo que conhecemos da recente experiência portuguesa isto devia passar-se assim: a) O video não devia ser visto porque era ilegal b) O título teria vários alegados c) Várias vozes estariam a bradar contra os péssimos jornais e os péssimos jornalistas que divulgavam o video d) O conteúdo do video sera considerado matéria privada e o video não seria aceite em inquérito algum e) Ninguém se demitiria e não só passava por mártir do neoliberalismo e da direita trauliteira como ainda exigia aos seus colegas de partido que defendessem a sua honra f) Provavelmente teríamos altas figuras deste país a mandar destrur o video, a tentar cortá-lo em fatias com uma tesoura ou a dizer que ele dava vontade rir. 27 de março – Este país é de modas. E quem está na moda hoje é… António Costa. Político profissional há mais de 20 anos, várias funções ocupadas, de deputado a autarca passando por ministro sem que, em nenhuma delas, se lhe reconheça qualquer obra minimamente relevante. Mas reúne outros requisitos e qualidades de monta para aqueles que julgam que escolhem: é de cor, tem um discurso redondo, é filho e irmão de jornalistas. Quanto baste para ser o melhor candidato de sempre a qualquer coisa de topo, seja a presidência da República ( já imaginaram a suprema felicidade de também termos um Obama? ) ou a “insegura” liderança do PS. Assim de repente, lembro-me da ocasião em que estalou a ‘bomba’ Casa Pia e o cavalheiro foi ‘alegadamente’ apanhado nas escutas a fazer tráfico de influências junto de tudo o que era juiz e ministro da justiça, secretários de estado….para libertar o seu camarada de partido. Com candidatos a cargos de topo desta envergadura, é fácil vaticinar a trajetória de Portugal : 1º Continuação de um estado enorme, altamente corrupto onde os governantes negoceiam contratos ruinosos para o estado e altamente lucrativos e sem risco para certas empresas , para onde saltam como administradores e outros cargos após alguns anos (poucos) de nojo. 2º Continuação do estimulo á pobreza, colocando entraves ao investimento, à iniciativa e ao trabalho bem como incentivando e subsidiando empresas falidas ou inviáveis. 3º Continuação duma carga de impostos de tal maneira elevados que impedem a produção e a viabilidade de muitas iniciativas. 4º Continuação de subsídios diversos, mantendo a ociosidade de uma mole imensa de potenciais votantes nesses candidatos. 5º Continuação da produção de leis que protejem essencialmentes estas “elites” governantes que, ao contrário da restante população que empobrece, enriquece com rendas vitalicias pagas pelo estado e lugares em empresas que previamente beneficiaram ou empresas públicas ou universidades ‘manhosas’, etc. 6º A justiça continuará igual, incapaz de castigar um corrupto, um grande ladrão ou um grande vigarista. in Nova Aliança, 30 / 3 / 2012

Os 'dinossauros' autárquicos e a nossa justiça

3 de Março - Nas próximas eleições autárquicas, alguns dos chamados ‘dinossauros’ do poder autárquico irão tentar ser reeleitos, apesar de a lei de limitação de mandatos o proibir expressamente. Já não no seu concelho, mas emigrando para o município vizinho. Nascerá agora a figura do presidente de câmara emigrante, ainda por cima emigrante ilegal. A lei de limitação de mandatos é clara, determinando que "o presidente de câmara municipal só pode ser eleito para três mandatos consecutivos". E "não pode assumir aquelas funções durante o quadriénio imediatamente subsequente ao último mandato consecutivo permitido". Mas, sem surpresa, os partidos vêm agora reinterpretar a lei no sentido contrário ao do seu espírito. Como o líder distrital do PS de Bragança, que disse que "um presidente não se pode recandidatar caso tenha concluído três mandatos com o mesmo colégio eleitoral. Mas se houver mudança de colégio eleitoral, o PS entende que essa pessoa pode candidatar-se". Mais uma vez, sobrepõe-se a lógica dos aparelhos partidários. Como irão findar o seu terceiro mandato cerca de cento e setenta presidentes de câmara que passarão à situação de desempregados políticos, os partidos tentam encontrar uma solução para estes seus caciques. Colocá-los em lugares de topo da administração pública provocaria enorme contestação, como aliás se verificou com a nomeação de Manuel Frexes para a presidência da Águas de Portugal. A lei de limitação de mandatos foi pensada para impedir ligações perigosas e continuadas a alguns poderes económicos num dado concelho. Mas se for em dois concelhos, parece já não haver problema. Com este estratagema, vão espalhar o mal pelas aldeias, a bem dos caciques locais. 6 de Março - Quem roube um polvo num supermercado, uma galinha ou uns pacotes de leite, pode ser julgado, condenado e preso. Já aos que estão envolvidos em fraude fiscal, crime económico ou corrupção, nada acontece. Alguns são até eleitos deputados e uns quantos condecorados no 10 de Junho. Como diz a ministra da Justiça, "há uma justiça para pobres e outra para os ricos". E estes passam completamente impunes pelo sistema judicial português. De facto, é mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha do que um rico entrar numa cadeia portuguesa. Ciente disto, a ministra resolveu dar um sinal de que iria haver mais igualdade na justiça, vindo anunciar que os pequenos furtos iriam ser menos perseguidos pelos tribunais. Deixarão de ser crime público e passarão a ser investigados apenas se houver acusação particular da parte dos lesados. Um sinal perigoso, em minha opinião. A ministra deveria promover uma moralização, lutando para que os grandes burlões fossem perseguidos, acusados, julgados e presos. Mas fez exactamente o contrário. Em vez de democratizar a justiça, propõe-se é generalizar a injustiça e até a roubalheira. As consequências desta medida serão tremendas. A impunidade anunciada irá provocar o aumento da pequena criminalidade. E o comerciante de rua estará em muitos maus lençóis. Enquanto as grandes superfícies poderão contratar seguranças, promover a acusação dos assaltantes e acompanhar os processos com os seus advogados, não será assim com o pequeno comércio. Sem apoio jurídico, sem meios, sem capacidade de promover a referida acusação particular, o comércio de proximidade estará à mercê do saque. Alguns comerciantes irão ficar mais pobres do que os vadios que os assaltam. in Nova Aliança, 16 / 3 / 2012