18.6.14

Lacão e os quadros de Miró

12 de fevereiro - O Parlamento português viveu recentemente um momento histórico. Não foi um grande discurso ou um debate fabuloso, muito menos um protesto imaginativo nas galerias. Nada disso, desta vez o momento histórico teve lugar numa Comissão e deu-se numa interpelação do senhor Jorge Lacão à ministra da Justiça. E o que fez Lacão? Lembrou-se de uma pergunta inquietante, fez uma exposição notável, representou os seus eleitores brilhantemente? Não, Lacão falou, falou, falou e... falou. Mais precisamente falou durante cinquenta e nove (59) minutos. Acontece que o monólogo passava por ser uma pergunta à ministra, que ali estava para responder às perguntas dos deputados. Ou seja, quando teve a oportunidade de fazer perguntas a Paula Teixeira da Cruz, o deputado Jorge Lacão decidiu ler um papel durante 59 minutos. Mais precisamente, em vez de fazer uma pergunta ou um conjunto de perguntas, resolveu ouvir-se a si próprio durante uma hora - perdão, uma hora menos um minuto -, com o objectivo claro de não fazer nenhuma pergunta, muito menos de obter respostas. Os deputados de vários partidos e a ministra assistiram a tudo isto de boca aberta, protestaram e Lacão acabou por abandonar a sala depois de uma segunda investida, agora com uns modestos 15 minutos. Lacão abandonou a sala em protesto porque não o deixaram falar, depois de ter falado 59 + 15 minutos. Os deputados do PS saíram atrelados a ele, talvez para o continuarem a ouvir nos corredores ou no jardim. Caros eleitores, já sabem, se virem Jorge Lacão um dia na rua, mudem de passeio imediatamente ou finjam que estão a correr para o autocarro. Já viram se ele vos pergunta pelas horas ou como é que se vai para a Bemposta? Lá se vai uma hora do vosso dia… 16 de fevereiro - Nesta discussão sobre as obras de Miró parte-se logo de um equívoco: a de que não existe custo se ficarmos com os quadros, pois eles já são nossos. Não é verdade. Há um custo de cerca de 35 milhões de euros. Se os quadros não forem vendidos, será o Orçamento de Estado a ter de meter esses 35 milhões no imenso buraco do BPN – uma realidade que a senhora Inês de Medeiros insiste em negar com a sua imensa arrogância e ignorância. É uma gota de água nesse imenso buraco? É. Mas não deixam de ser mais 35 milhões suportados pelos contribuintes. Estando este ponto assente, importa saber se comprar uma colecção de quadros de Miró tem prioridade sobre outros gastos do Estado, se tem prioridade sobre outros gastos da Cultura e se tem prioridade sobre a aquisição de outras obras e colecções para os museus nacionais. Qualquer pessoa sensata só pode responder negativamente a qualquer destas perguntas. Nenhum governante com os pés assentes na terra preferiria aplicar 35 milhões em pinturas de Miró quando isso implica retirar 35 milhões a outros destinos. E nenhum titular da Cultura com um mínimo de sensibilidade decidiria gastar 35 milhões nestas pinturas e não noutras inúmeras obras e colecções realmente relevantes para o património e memória nacionais. Aquela colecção de Miró nunca seria a primeira escolha. É esta realidade que devia entrar pelos olhos dentro. O resto é poeira para os olhos. Uma das ilusões que também regressou com este debate é a de que este “investimento” geraria muitas receitas futuras. É preciso ter uma enorme lata. Olhe-se para a Colecção Berardo que continua sem cobrar bilhete aos que a visitam. Olhe-se para o destino de Foz Côa. Olhe-se para os números dos museus nacionais onde existem colecções mais relevantes e muito mais interessantes. Só o voluntarismo cínico e demagógico dos que gostam de chamar aos outros “estúpidos institucionais” é que pode propagar esta ilusão. Uma ilusão, como sempre, paga com o dinheiro dos outros. Se acham mesmo que o investimento é bom, dirijam-se a um banco, arranjem os 35 milhões, exponham depois os quadros num museu cobrando bilhete e fiquem ricos. Ou, o que é mais provável, fiquem endividados para sempre. Mas não queiram sobrecarregar ainda mais os contribuintes portugueses. Nova Aliança, 23 / fevereiro / 2014

Fotografias e os crentes

12 de janeiro - 1. Fotografias: haverá alguém que não goste de olhar para elas? Em tempos arcaicos, talvez. Há quem diga que o maior tesouro que trouxe da casa dos pais eram as fotos de família. Álbuns e álbuns com fotos em preto e branco, algumas coloridas (manualmente, claro) e impressas em cartão grosso. Todas elas insubstituíveis. Estranho tempo, esse, em que os retratos valiam tanto como ouro. Ou até mais que ouro. Hoje vivemos o supremo paradoxo: nunca se tiraram tantas fotos mas nunca elas tiveram tão pouco valor. O jornal "Guardian" avisa que 2014 será o ano em que o mundo vai bater recordes no número de fotos tiradas: qualquer coisa como 3 biliões. Esse excesso não pode ser coisa boa: a facilidade com que hoje se tiram fotos é diretamente proporcional à facilidade com que nos esquecemos delas. Uma amiga, aliás, contava-me há tempos uma história instrutiva: em três anos de maternidade, ela acumulara mais de mil fotos do primeiro filho. Até descobrir que não tinha nenhuma para mostrar em papel ou em moldura -permaneciam todas na memória do computador, ou na máquina, ou no telemóvel. À espera de melhores dias. Três biliões de fotos para 2014, diz o "Guardian". E, no fim de contas, é como se o mundo não tirasse uma única foto que realmente importe. 2. Só existem dois tipos de pessoas que se preocupam genuinamente com Deus: os crentes e os ateus. Os primeiros por razões óbvias. E os segundos por razões ainda mais óbvias: a não crença, sobretudo quando levada a excessos de negação, converte-se sempre numa forma de crença e até de afirmação. O escritor Kingsley Amis é um bom exemplo. Um dia perguntaram-lhe por que motivo ele não acreditava em Deus. Amis corrigiu a pergunta e ripostou: "Não é bem não acreditar; é mais detestá-lo". Haverá forma mais sofisticada de fé na transcendência? Não admira por isso que já existam igrejas ateias nos quatro cantos do mundo ocidental. Leio que a moda começou em Londres, com a Assembleia de Domingo. A autora do artigo publicado no site Salon, Katie Engelhart, foi assistir a uma "celebração". E encontrou um mimetismo perfeito das celebrações religiosas tradicionais, com um "pastor", um "sermão", momentos de "oração" -no fundo, a busca de um sentido de "comunhão" para o rebanho ateu. A coisa fez sucesso em Londres, espalhou-se pelo Reino Unido, emigrou para os Estados Unidos (e para a Austrália) e, palavra de honra, até já teve a sua primeira "reforma protestante": em Nova Iorque, dissidentes da Assembleia de Domingo resolveram fundar a sua própria "igreja" por entenderem que a original não era suficientemente ateia. Imagino que, no futuro, outras "igrejas" se seguirão, dispostas a espalhar a "palavra" (mas qual "palavra"?) em adoração ao "não-deus". O fenómeno é interessante e só confirma o que os clássicos da ciência política sempre escreveram sobre o assunto: a negação da religião estabelecida não liberta os homens da sua condição de "animais religiosos". Que o diga o filósofo Raymond Aron, por exemplo, para quem o nazismo e o comunismo não eram mais do que "religiões seculares", dispostas a oferecer aos seus "fiéis" o Reino da Raça (ou do Proletariado) em substituição do Reino dos Céus. As igrejas ateias, pelo menos, sempre me parecem mais inofensivas e até divertem na sua óbvia palhaçada. Nova Aliança, 23 / janeiro / 2014

Diogo Mainardi Na 'Folha de São Paulo'

Aproveitem o conselho. Se quiserem ler um cronista de muita qualidade, procurem Diogo Mainardi no Google. Com sorte, surgirão os textos que escreveu na revista Veja. Há tempos atrás assustou-nos a todos: desapareceu das páginas da "Veja" e eu estranhei porque todas as semanas, a coluna dele era lida e relida com prazer e proveito. Tentei saber: que sucedera? A resposta veio agora, em forma de livro. Intitula-se "A Queda - As memórias de um pai em 424 passos" (Record, 150 p.). Abençoado desaparecimento. É o melhor livro de Mainardi até hoje. Superficialmente, a obra pode ser resumida como o retrato que Mainardi dedica ao filho, Tito, que nasceu com paralisia cerebral em 2000. Esse grosseiro erro médico atingiu a mobilidade de Tito de forma profunda e irreversível. As caminhadas do filho - passo a passo, queda a queda, ascensão a ascensão - ganham uma ressonância quase homérica aos olhos do pai. E aqui reside a essência de um livro superiormente escrito e pensado: "A Queda" é uma obra sobre o pai, não propriamente sobre o filho. E as verdadeiras quedas e ascensões não são as físicas de Tito; são as existenciais de Diogo. É o próprio quem o confessa em tom apropriadamente anti-confessional (e anti-sentimental): antes de Tito nascer, o projecto de vida de Mainardi era não deixar a ninguém o legado da sua passagem. "Pulando de romance em romance", em Veneza - haverá melhor projeto? Por incrível que pareça, há: encontrar algo, ou alguém, que é mais importante do que nós. Algo, ou alguém, que nos descentre de nossas "veleidades" (palavra de Mainardi), concedendo um sentido de vida que é maior do que a nossa vida. Esse alguém é Tito. A infância de Tito. As quedas de Tito. Os passos de Tito. E, a propósito de Tito, Mainardi vai congregando todas as artes disponíveis para o explicar e celebrar: a arquitectura de Veneza; as palavras de Ruskin sobre a "Serenissima"; a pintura de Rembrandt. E, claro, o cinema de Abbot e Costello. Tito é a sua teoria, a sua ideologia, a sua religião. A sua vida. E a grande arte só tem préstimo quando a tomamos por empréstimo. Para que ela possa reflectir, no duplo sentido da palavra, os contornos da nossa existência. Os nossos livros, os nossos filmes, os nossos quadros - tudo isso só tem interesse porque em cada obra encontramo-nos a nós. Com Tito, Mainardi aprendeu o que poucos, raríssimos, são capazes de aprender: que "saber cair" é mais importante do que "saber caminhar". Qualquer um caminha. Difícil é saber cair. Difícil é receber cada queda com gratidão, muita gratidão. Porque só é possível caminhar direito quando o medo da queda nos abandona passo a passo. E até ao dia em que paramos de os contar. Nova Aliança, 17 / dezembro / 2013

Os contratos dos colégios privados

7 de novembro - A TVI voltou a mostrar-nos como funcionam as relações do Estado com os colégios privados com contratos de associação e que se batem por uma suposta "liberdade de escolha". Desta vez não se ficou pelo grupo GPS , que permitia que alguns dissessem que se tratava apenas de um caso de polícia. Mostrou como estamos perante um fenómeno generalizado. O padrão é simples de resumir. Num determinado concelho há escolas públicas suficientes. Algumas em excelentes condições, com obras muito recentes e com um óptimo quadro docente. Outras, pelo contrário, há decadas à espera de investimento. Escolas que chegam e, em alguns casos, até sobram para o número de alunos na região. Mas, no mesmo raio de influência, autoriza-se incompreensivelmente a construção de escolas privadas que, à partida, sabem com toda a certeza que contarão com apoio público - caso contrário nunca se lançariam no negócio. Esses colégios têm direito a subsídio público para receberem alunos, ao mesmo tempo que as escolas públicas veem o número de turmas reduzido muito abaixo da sua capacidade. Um apoio público de milhões permite que os ditos colégios ofereçam o que está interdito às escolas públicas: transporte para todos, por exemplo. E assim se duplicam custos e se garante o subsídio público a atividades privadas que não cumprem nenhuma função que o Estado não tivesse já condições para garantir. E se deixam as escolas do Estado a morrer por falta de alunos ou de recursos. À frente das empresas financiadas encontramos ex-ministros, ex-responsáveis pelas mesmas entidades que autorizam as escolas e determinaram o número de turmas permitidas no público, até autarcas no ativo que presidem às mesmas câmaras que financiam os seus próprios colégios. Encontramos a mesmíssima promiscuidade entre o público e o privado que determinou quase todos os crimes económicos deste país: do BPN às PPP, dos Swap às privatizações ruinosas, da administração privada de hospitais públicos às concessões rodoviárias. Não são casos de polícia. Não são a exceção que confirma a regra. São o retrato da elite política e económica nacional. São, com raras excepções, a sua forma de fazer as coisas Ou seja, a criação de um Estado paralelo, dirigido por empresas que o Estado financia para nos prestarem os mesmos serviços que ele hoje garante. Não é menos Estado. É mais Estado para as clientelas e menos Estado para os cidadãos. Garantirá esta solução mais qualidade de ensino? Apenas aquela que a seleção social garante e que os colégios praticam. Garantirá mais equidade e justiça social? Pelo contrário, cria um ensino a duas velocidades. Reduzirá os custos? Se cumprirem as mesmas obrigações do Estado, não..iDo que falta falar é do que esta lógica, no ensino, na saúde e em todas as funções do Estado, tem feito à nossa economia. Os últimos governantes não se limitam a querer que o Estado abandone as suas funções sociais para que, sem qualquer proteção garantida pelo conjunto da comunidade, esse mercado fique livre para o negócio. Isso foi o que durante anos defenderam para a saúde, para a educação e, talvez mais importante do que tudo, para o sistema de pensões. Agora querem mais. Querem que o Estado mantenha essas funções como mero pagador. Querem um mercado supostamente livre, mas que usa os impostos dos cidadãos para se financiar. Na realidade, é disto mesmo que a elite económica portuguesa vive desde quase sempre. Primeiro do ouro do Brasil e do comércio colonial. Depois do condicionalismo industrial. Por fim, dos fundos europeus e da privatização de monopólios protegidos e com o fundamental do investimento já feito. E agora, quer viver do financiamento público para desempenhar as funções hoje garantidas pelo Estado. A única coisa que não querem é um Estado Social forte, que qualifique e dê direitos a trabalhadores indisponíveis para viverem com salários de terceiro mundo, para, neste grau de exigência, competirem onde o mercado e a concorrência realmente existem. As boas agendas recheadas de contactos de ministros e os conselhos de administração recheados de ex-ministros continuam a ser um investimento mais proveitoso e seguro. É para manter esta forma de fazer negócios no país, passando para uma nova fase da rapina, e não para modernizar a economia e os serviços públicos, que se pede um consenso nacional em torno duma suposta reforma do Estado. Na realidade, a novidade que nos oferecem é antiga de séculos: continuar a proteger e a financiar uma das mais medíocres e protegidas elites económicas da Europa - que é constituída, há mais de cem anos, por mais ou menos as mesmas famílias. Nova Aliança, 14 / novembro / 2013

Os cortes

Em 2011, José Sócrates avançou com o corte de 3,5% a 10% nos salários dos funcionários públicos acima de 1500 euros brutos. Muito a custo, o Tribunal Constitucional aprovou a medida. Avisando que apenas o fazia por duas razões: porque era transitória (na verdade é "transitória" desde então) e porque, sendo o valor mínimo de 1500 euros, isso era aceitável. Porque os cortes estavam "dentro dos limites do sacrifício que a transitoriedade e os montantes da redução ainda salvaguardam". Em 2012, o TC voltou a recordar que a medida era transitória. No mesmo ano, o TC chumbou a suspensão dos dois subsídios. Mas numa solução um pouco estranha, a inconstitucionalidade determinada pelo TC não teve efeitos práticos. Em 2013, o TC volta a aceitar a medida transitória dos cortes acima de 1500 euros, mas desta vez com um aviso ainda mais claro: "o decurso do tempo implica um acréscimo de exigência ao legislador no sentido de encontrar alternativas que evitem que, com o prolongamento, se torne claramente excessivo para quem o suporta", acrescentando que "o tratamento diferenciado dos trabalhadores do sector público não pode continuar a justificar-se pelo carácter mais eficaz das medidas de redução salarial". Em tribunal-constitucionalês isto quer dizer: a medida era transitória e o facto de ser fácil ir sacar dinheiro aos salários dos funcionários públicos não os pode transformar em mealheiro do governo. Para deixar tudo ainda mais claro, o TC chumbou de novo a suspensão dos subsídios mas desta vez obrigou o Estado a devolver o que, como os juízes já tinham dito, nem poderia ter sido retirado no ano anterior. No Orçamento de Estado para 2014, aquilo para o qual o TC pedia que fossem encontradas alternativas é repetido. Mas em muito pior. Em vez do limite inferior de 1500 euros, ele passa para 600 euros. Em vez do corte máximo de 10%, ele passa para 12%. Sendo muito menos progressivo do que os cortes anteriores, o valor máximo começa logo nos 2000 euros brutos, que passam de um corte de 3,5% para um corte 12%. O que afetava menos de metade dos funcionários públicos passa afetar 90%. Não é preciso ser bruxo para desconfiar que, depois de tudo o que disse e de todos os avisos que deixou, muito dificilmente os juízes do Constitucional deixarão passar esta medida. Ela é, mais ainda do já fora a repetição da suspensão dos dois subsídios, uma inacreditável provocação ao Tribunal Constitucional. E é evidente que os juízes terão toda a razão em impedir estes cortes. A ver se nos entendemos: os funcionários públicos, que sofreram o mesmo agravamento fiscal sentido por nós todos, passaram a descontar mais para a ADSE (única medida com a qual concordo, por ser voluntária), sofreram o anterior corte até 10% e já tiveram a perda de dois subsídios em 2012. Com esta medida, o seu salário é ainda mais maltratado. Pegando num exemplo que nem é dos piores, um funcionário público que recebesse 1600 euros limpos em 2010 vai receber 1350 euros limpos em 2014, isto já com um dos subsídios diluídos no salário. Perde 4500 euros por ano. É um ¼ do seu salário líquido. Não há, que eu saiba, nada de parecido em trabalhadores que façam parte do quadro de empresas e com salários semelhantes. E sabemos como estes também não têm sido poupados à rapina. Apesar do governo estar apostado em provar o contrário, os funcionários públicos são pessoas, não são sacos de pancada. Mas ainda que se discordasse das decisões do Tribunal Constitucional, elas têm sido claras nesta matéria. E com um tribunal não se fazem negociações. Não se vai esticando a corda até ela rebentar. Cumprem-se as decisões e as recomendações e respeita-se a sua autoridade. Discorda-se, critica-se, barafusta-se. Mas cumpre-se. Partindo do princípio que há uma coerência na interpretação que os juízes do TC fazem da Constituição da República (e só a sua interpretação é vinculativa), esta proposta vai ser chumbada. Partindo do princípio que o governo não pensa que os juízes mudarão de opinião por cansaço, o governo sabe que ela será chumbada. Ou então, o que é mais grave, acredita que a pressão política interna (que o governo tem exercido) e externa (que o governo tem permitido) fará os juízes desistir das suas funções: que são apenas e só fazer cumprir uma Constituição que resulta da vontade dos que foram eleitos pelo povo, que a escreveram e alteraram sete vezes. E nem os nossos parceiros internacionais, nem qualquer memorando com eles assinado se sobrepõem à lei fundamental do País. Nem aqui, nem em qualquer Estado de Direito. A minha tese é outra: o governo não anda distraído nem é teimoso. Não se incomoda muito com a forte possibilidade desta e doutras medidas serem chumbadas. Quer, aliás, alimentar o mais que puder o conflito institucional com o Tribunal Constitucional. Para recentrar o debate na Constituição da República, e não no seu falhanço em todas as metas que se propôs cumprir (foi perturbante ver a ministra das Finanças falar dos sinais de retoma enquanto a desgraça dos números da dívida, do défice e do desemprego passavam em rodapé na televisão). Para encontrar nas "forças do bloqueio" - a Constituição e o Tribunal Constitucional - os bodes expiatórios da tragédia para onde nos está a levar. Para provar que é a nossa Constituição e não numa receita absurda, inviável e fanática que nos afunda cada vez mais nesta crise. E que é ela que impede a purificação do Estado e da economia. Não faltam jovens e velhos comentadores a fazerem coro com o governo neste discurso vigoroso contra as forças "reacionárias" que impedem o nosso progresso. A retórica revolucionária começa sempre por atacar as instituições que travam a queda de um regime decadente. Neste caso, são instituições passadistas, como o Tribunal Constitucional, que continuam a suportar os focos antirevolucionários. Mas graças ao empenho desta vanguarda esclarecida que ilumina os nossos espíritos arcaicos, é sobre as ruínas desta democracia feita de direitos adquiridos que nascerá um homem novo. Livre do Estado e das dependências que ele alimenta. Só falta a tomada do Palácio de Inverno. É uma questão de tempo. Porque, como todas as ideologias totalitárias, o "liberalismo científico" sabe que nada pode travar a marcha da história. Que inevitavelmente esmagará as forças da reação. A começar, claro, pelos esclerosados juízes do Tribunal Constitucional. Sobre o resto da orgia de aumentos de impostos e cortes em salários e reformas, que não são, segundo as palavras do vice-primeiro-ministro, um novo pacote de austeridade, escreverei na edição impressa do Expresso e, talvez, ainda aqui. Nova Aliança, 17 / novembro / 2013

Os festejos das eleições

29 de Setembro – Os palermas que, numa noite de chuva, decidiram sair à rua e gastar uns bons litros de gasolina para dar umas apitadelas e vitoriar os vencedores autárquicos estarão no seu perfeito juízo? Existirá alguém que ainda tenha o desplante de atirar foguetes num ambiente de cortar à faca? Algum candidato consegue afirmar que venceu, sem engolir em seco perante os louváveis níveis de abstenção, perante os votos em branco e perante os recados fabulosos que os eleitores mais criativos foram deixando nos boletins nulos? A resposta a estas perguntas é “sim”. O que não falta por aí é gente assim. Registe-se o seguinte: há mais de 180.000 votos em branco (3.84%) e 140.000 votos nulos (2,94%). Em ambos os casos, são mais do dobro dos verificados nas eleições de 2009 (85.000 e 62.000, respectivamente, para o mesmo universo). Serão várias as causas destes números, que devem merecer reflexão. Os números são ainda mais avassaladores para as Assembleias Municipais (203.000 votos brancos e 145.000 nulos). Quer isto dizer que trezentas mil pessoas se deram ao trabalho, num dia chuvoso, de se deslocar aos locais de voto para não escolherem qualquer das listas candidatas. Infelizmente para todos nós, voltámos à realidade. Agora os tapetes de relva vão degradar-se e aqueles arbustos acabadinhos de plantar vão perder a sua graça. Agora as listas brancas pintadas no alcatrão vão apagar-se. Os buracos vão voltar aos mesmos sítios onde estiveram durante anos, o lixo vai acumular-se nos mesmos sítios, as árvores vão continuar a ser estupidamente arrancadas, algumas casas verão os seus acessos deteriorados embora paguem o mesmo IMI que as moradias chiques nos centros das cidades. Agora vamos ter uma pequena pausa nos boletins, revistas, espectáculos e demais ‘instalações' de múltiplos e avençados criadores que nos garantem que o município é uma festa. Agora vai ser assim até que daqui a três anos e meio a girândola comece a girar de novo e eles de novo comecem a prometer o impossível, quando não o indesejável, e, no caso dos que correm para a reeleição, a fazer com desmesura aquilo que sempre deviam ter feito com contenção. Agora vamos continuar a assistir à evolução dos autarcas: houve o tempo do saneamento, das ligações básicas e reais com os investidores imobiliários, depois o tempo dos estádios, pavilhões e piscinas. Hoje eles centram o seu discurso na ‘área social’. Urbanismo, lei das rendas, crescimento urbano são esquecidos. Infelizmente esta estratégia mediática não se mostra desacertada pois a falta de escrutínio a muitos dos programas ditos sociais é um dos sinais mais evidentes de como esta área rende muitas e boas notícias e melhor que tudo gera poucas perguntas. Os nossos partidos políticos continuam hábeis na arte de serem autistas face à realidade. O facto de os representantes poderem prosseguir as suas empreitadas em total desprezo pelos sinais óbvios que o eleitorado envia consegue ser mais preocupante e revoltante do que conhecer as fraquezas da democracia em si mesma. Politicamente, Portugal é um doente terminal a delirar e a pedir para ir dançar à chuva outra vez. Basta passar em vista as promessas que encheram as nossas ruas nas últimas semanas e que nos fizeram rir, já em meio de desespero e ao som de uma implícita marcha fúnebre. Os candidatos aos cargos locais, de mão estendida para Lisboa, parecem filhos do pai pobre a fazerem a lista de prendas de Natal às escondidas. Sonham com um dia que há-de vir. O dia em que poderão comprar tudo. Não os acordem repentinamente. Podem ficar traumatizados. Nova Aliança, 3 / outubro / 2013

Ilídio Matos e Alice Munro

A Espuma dos Dias 4 de outubro – Os verdadeiros leitores dificilmente esquecerão alguns nomes. Nem necessitam de ser autores, à volta da ‘produção’ de um livro surgem nomes incontornáveis. Nomes que nunca desaparecerão. Conhecemos os seus nomes: editores que arriscaram a vida e os cabedais, grandes revisores e leitores, excelentes livreiros, notáveis capistas – e agentes literários que, por trabalharem na ‘sombra’, quase ninguém conhece. Ilídio Matos, que nos deixa aos 84 anos, foi, durante anos, esse agente literário. Primeiro, em part-time atrevido; depois, ocupação principal, representando autores que iam de Agatha Christie a Hemingway, de Caldwell a Patricia Higshmith. Nas feiras internacionais de direitos (Frankfurt, Londres, etc.) ele foi, durante anos, o agente português – um George Smiley da nossa pequena edição: discreto (sabia guardar segredos), divertido, cauteloso, prudente, generoso e possuído pela loucura dos livros. Depois dos oitenta, Ilídio Matos continuou a trabalhar; era o seu único vício, além do anonimato. Ele merece as homenagens que lhe são devidas. 10 de outubro - Alice Munro acaba de ganhar o Nobel da Literatura 2013 e é talvez a melhor contista da actualidade. Editada em Portugal pela Relógio d’Água, estreou-se em 1968, mas só foi revelada por cá em 2008. Após as antologias Fugas (de 2004), O Amor de uma Boa Mulher (1998) e A Vista de Castle Rock (2006), edita-se O Progresso do Amor, de 1986. São onze contos sobre as ilusões e desilusões amorosas de homens e mulheres comuns, habitantes sobretudo do Ontário rural, espaço natal e de eleição da autora canadiana. Na maioria dos enredos, trata-se, como refere uma personagem no seu caso individual, de «erros de fuga», confundíveis com erros passionais. Brechas nas ações e cenários quotidianos das personagens que abrem caminho a ligeiríssimos movimentos das placas subterrâneas que sustentam as vidas, por sua vez fonte de intensos, mas subtis, choques à superfície. A grande ficcionista Joyce Carol Oates diz que Munro «escreve contos com a densidade — moral, emocional, por vezes histórica — dos romances de outros autores». A própria esclareceu que os desenvolve como se sentisse «a tensão numa corda, ciente apenas de aonde ela está atada». O que mais espanta é a exímia conjugação de contenção de meios e riqueza densa do mundo interno de cada personagem, explorado sempre na terceira pessoa do singular («Ela, que sempre tivera um ar pálido, sedoso e dócil, mas difícil de seguir, como uma marca de água»; Edgar está sentado «como um adorno polido, quase sempre imóvel»). Munro não é dada a grandes experimentalismos técnicos e não hesita sequer em abusar das metáforas ou da adjetivação. Nela, tudo surge com uma espontaneidade e um talento desarmantes. Notável na elasticidade das frases e dos diálogos, desenvolve estruturas pragmáticas a partir de uma luminosa atenção aos detalhes. Nada é estático, ainda que a evolução das personagens (a vida «a recuar como uma fotografia rasgada e enrolada sobre si, mostrando o que sempre tivera por trás») surja com a densidade de uma espessa camada de neve. No brilhante «Ataques», que só por si vale o livro, o homicídio-suicídio de um casal serve, afinal, para explorar a enigmática personalidade de uma sua vizinha. Indiretamente, Munro descreve a forma direta e dramática como as vidas de gente comum se encontram ligadas, pelo banal e pelo extraordinário. Nos contos de Munro, os catalisadores da acção podem ser movimentos de fuga a um matrimónio, a um passado, aos laços familiares ou às limitações provocadas pela doença ou pelo envelhecimento (como em «Fugas»). Por vezes, resultam de impulsos de identificação, concretização ou repulsa de fantasias (todas elas femininas, em O Amor de Uma Boa Mulher). Mas o que marca a originalidade destas histórias é a extrema atenção dada a pequenos pormenores (lembranças, palavras ou factos) que desencadeiam e iluminam a compreensão do universo de cada personagem. Tal como diz Robin, a protagonista de «Truques» (Fugas), «basta movermo-nos um centímetro para aqui ou para ali e estamos perdidos». A intuição de Alice Munro permite-lhe determinar e descrever esses epicentros de crise. No brilhante «Podre de Rica» (O Amor de Uma Boa Mulher), a personagem Karin descreve-se como «algo de imenso, de tremeluzente e autónomo, com picos de dor em certos sítios, e no restante uma extensa e monótona planície». São assim as personagens de Munro: imensamente iguais a nós e dramaticamente diferentes. Nova Aliança, 17 / outubro / 2013

Os tesourinhos deprimentes e os piropos

8 de Setembro - Talvez por terem menos dinheiro para gastar nas eleições, a ingenuidade dos cartazes tem animado esta campanha autárquica. Eis um bom exemplo de como a crise aguçou o engenho. Acontece isto quando a tecnologia facilita a feitura da propaganda. Alguns resultados têm sido iguais aos da velhota espanhola de Borja que "restaurou" uma pintura de Cristo: artisticamente, um desastre, mas todos falaram disso... Como a propaganda eleitoral é exatamente para que se fale, vivemos talvez um grande momento. Em Torre de Moncorvo, Carla Neves, candidata a uma das freguesias, abrilhantou um dos cartazes com uma foto - vestido rosa quase quase a cair e cabelo armado - parecendo de baile de debutante de há cinquenta anos atrás. Ela própria admitiu no Facebook que a foto era "horrível", mas, graças a ela, passou a ser "a pessoa mais amada do meu querido Portugal." Exagero, talvez, mas que o eco (ou pelo menos a photoshop da candidata) chegou longe, chegou. A conclusão essencial a tirar é que a crise descentralizou as campanhas eleitorais e que os candidatos locais podem ver nisso uma janela (ou cartaz) de oportunidades. Há quem apelide os cartazes de "tesourinhos deprimentes". Mas estes podem ser a devolução aos candidatos da sua condição de nos convencerem. Por mais toscos que sejam os de hoje, são mais democráticos do que as resmas mandadas pela sede do partido, com fotos perfeitas e palavras de ordem não discutidas. 10 de Setembro - A grande vantagem do mês de agosto é que , como quase toda a gente está de férias, qualquer assunto maluco pode virar capa de jornal. Este ano surgiu o convite para a promoção de legislação contra o piropo. Certamente com pouco que fazer e na falta de livros e jornais, duas senhoras mostraram-se seriamente preocupadas com os criminosos que elogiam a anatomia feminina na via pública. Garantem que os elogios são "machistas" e ofensivos para a mulher e, naturalmente, exigem medidas adequadas. Claro que, para consumo exterior ao movimento, "piropo" diz-se "assédio verbal" e "proibir" diz-se "abrir o debate". E que se estranha a exclusão, no debate entretanto aberto, do assédio verbal entre homossexuais. E que se duvida da pertinência em discutir semelhante irrelevância. E que toda a gente já dedicou ao problema a galhofa que o problema merece. E que… Falta é constatar o óbvio: na falta de assunto, qualquer assunto é assunto. Depois da legalização do aborto (aprovado), pela institucionalização do casamento gay (aprovada), pela adopção de crianças por casais do mesmo sexo (em vias de facto), pela abolição das touradas (uma palermice regional), pela legalização das drogas leves (ninguém liga) e pela perseguição dos transgénicos (idem), hoje "debate-se" o piropo como amanhã talvez se "debata" a erradicação do pião a pretexto dos perigos do metal. Não sendo uma tragédia humanitária, dá pena. E dá vontade de rir. 14 de Setembro – Em grande plano, o rival eleitoral de Angela Merkel, Peer Steinbrück, apareceu na capa de uma revista com o dedo médio estendido, fazendo o célebre gesto obsceno. Como alguém já referiu, o escândalo é bom para lembrar uma das poucas superioridades lusitanas. Vejam a fotografia e observem o alemão: estende o médio, numa mão onde os outros dedos se limitam a encolher... Nem precisa de ser alemão, quase todo o mundo faz o gesto da mesma forma mole. A peineta espanhola, o doigt d"honneur francês, o rude finger inglês são todos como o agora famigerado Stinkfinger do político alemão: preguiçoso. A linguagem gestual devia ser mais respeitada. É ou não verdade que foi a mão e a forma dos dedos humanos que nos permitiram evoluir. Mas uma coisa é certa, só os portugueses fazem aquele gesto de forma impecável. Há agora a mania de, ao falar, fazer aspas com os dedos, como que pedindo desculpa: "Não é bem isso que queremos dizer..." Ora, quando se estende o dedo médio a alguém, aquilo que queremos dizer é mesmo aquilo, mostrar um sexo masculino. Sendo sempre mal-criado, ao menos que o digamos de forma clara - e isso só os portugueses fazem. O nosso dedo médio estendido é como o dos outros, universal. Mas só os portugueses dão um toque de classe, erguem as falanges dos dedos indicador e anelar, enroladas com as falanginhas e as falangetas, fazendo duas rodas onde se apoia, como o cano de um canhão, o dedo médio. O simbolismo da artilharia fica claro, a solidariedade dos dedos é notável. E querem os alemães dar-nos lições de organização e qualidade... Nova Aliança, 17 / setembro / 2013

O 'palhaço' e as medidas a tomar

16 de julho – Os tempos andam mesmo estranhos. Então não é que uns palhaços do Ministério Público resolveram arquivar a queixa-crime de um palhaço que mora em Belém, por se ter sentido ofendido por um palhaço que escreve nos jornais lhe ter imputado essa nobre profissão!... Os palhaços do Ministério Público arquivaram rapidamente o processo contra o palhaço jornalista, fundamentando a decisão no princípio da “liberdade de expressão”, que “é válida não apenas para juízos de valor favoráveis, inofensivos ou indiferentes, mas também para os que ferem, chocam ou incomodam”. Por isso, chamar “palhaço” ao Presidente da República Portuguesa, ou a qualquer outro titular de um órgão de soberania, ou mesmo a qualquer cidadão português, passa a ser, a partir de agora, um direito fundamental de todos os portugueses, que a Constituição protege e o Ministério Público tutela. Aplicando-se o mesmo critério a outros adjectivos que “ferem, chocam ou incomodam”, o nosso direito fundamental à liberdade de expressão ficará consideravelmente ampliado. É só começar… 20 de julho - O governo português continua teimosamente a insistir em políticas recessivas de austeridade, rejeitando as políticas de crescimento económico que lhe têm sido aconselhadas pela oposição, por eminentes economistas portugueses e estrangeiros, pelas centrais sindicais, por ilustres membros da prelatura lusitana da Igreja Católica, sobretudo pelo seu Bispo Castrense D. Januário Torgal Ferreira, por Tozé Seguro, pelo Presidente da República actual e pelos Presidentes da República pretéritos Mário Soares e Jorge Sampaio, e pelo Doutor Artur Baptista da Silva, conselheiro não ratificado da ONU e verdadeiro herói de Nicolau Santos, o homem do laço.. Tamanha cegueira só pode encontrar justificação na falta de cultura dos membros do governo e numa imensa falta de imaginação para criarem as políticas de crescimento económico de que todos falam. Ou, então, num profundo masoquismo político, que se satisfaz em maltratar o povo e em perder votos e eleições, coisa incomum na política, a merecer estudo psicanalítico. Para suprir essa lacuna governamental e pôr o país no caminho que ele merece, deixamos aqui algumas sugestões de políticas económicas para o crescimento. Embora estas ideias sejam nossas, apostamos que encontraremos a sua grande maioria nas propostas que o Partido Socialista levou para o acordo de salvação nacional. Assim: 1ª Fabricar notas de banco em quantidade suficiente para acabar com a crise e com a pobreza (ideia roubada ao senhor Soares). 2ª Obrigar os bancos a concederem crédito ao consumo e às empresas a custo zero ou próximo disso. Os bancos iriam buscar aos seus lucros perdulários o dinheiro que «perderiam» nestas operações. A dinamização da economia interna com estas medidas seria espectacular e geraria riqueza e prosperidade para todos (ideia roubada do senhor Louçã). 3ª Duplicar o número de funcionários públicos, acabando assim com o problema do desemprego e com a instabilidade na administração pública (ideia roubada ao senhor Arménio Carlos). 4ª Retomar um amplo programa de obras públicas, desde logo o TGV e o novo aeroporto de Lisboa, mas também novas auto-estradas, pontes, hospitais, escolas e outros, através de vantajosas parcerias público-privadas, que gerariam emprego, dinamizariam o mercado interno, criariam riqueza para todos e, mais importante de tudo, não teriam qualquer encargo sobre os contribuintes portugueses (ideia roubada ao senhor Sócrates). 5ª Criar um grande banco público de fomento da economia e das empresas, que emprestaria dinheiro a quem dele precisasse para desenvolver negócios de sucesso garantido (ideia roubada ao senhor Seguro). 6ª Pregar o calote aos alemães e demais credores do tesouro público (ideia roubada do senhor Sócrates). 7ª Obrigar os empresários portugueses a duplicarem os postos de trabalho nas suas empresas, a reajustarem anualmente os salários em 10%, a aplicarem um salário mínimo com o valor praticado na Suécia e a não despedirem trabalhadores nos próximos cinco anos (ideias roubadas ao senhor Jerónimo de Sousa). 8ª Solicitar aos nossos amigos europeus que nos paguem a dívida (ideia roubada ao senhor Seguro que, como devem imaginar, tem muitos amigos por essa Europa fora). 9ª Criar o «Dia Nacional do Empresário», prometer a redução dos impostos num prazo máximo de cinquenta anos, criar condições atractivas para o investimento estrangeiro, como o «Prémio do Investidor Camone do Ano» (pago em títulos da dívida pública), e garantir aos investidores que «Portugal é um país amigo» (ideias roubadas ao senhor Portas). É fácil e não custa nada, como se vê. Só falta começar. Nova Aliança, 25 / julho / 2013

A greve dos professores

A conceção1 da prova é a culpada pelos maus resultados, diz Lurdes Figueiral, presidente da Associação de Professores de Matemática. Aparentemente, para um professor de matemática, é possível calcular, a olho nu e com elevado grau de confiança, a existência de diferenças significativas entre duas médias, uma de 47%, outra de 49%. Eu sei que é um preciosismo matemático – algo que não se deve esperar obrigatoriamente de um professor de matemática – mas, é 47% diferente de 49% com provas diferentes e diferentes alunos? De acordo com Lurdes Figueiral, em declarações à TSF (sem link), houve uma preponderância de exercícios de cálculo na prova de matemática, algo que, pelo exagero, prejudicou os resultados. É um problema neste país: cálculos a mais. Este excesso, tão prejudicial para aferir a realidade (quer das contas públicas do país, quer das aprendizagens dos alunos), estraga a possibilidade de conclusões peremptórias através da ferramentas bem mais relevantes que o cálculo: o desejo, a paixão e a certeza conceptual da bondade em tudo o que é justamente belo. Numa coisa Lurdes Figueiral tem razão: as provas aos alunos não são boas para aferir as aprendizagens dos alunos; porém, são excelentes para aferir professores, motivo pelo qual não faltarão movimentos exigindo a sua abolição. Nova Aliança, 7 / julho / 2013

20.6.13

A 'impressão' moderna e a chegada do verão

27 de maio – A história veio nos jornais e é daquelas que oferecem um final feliz. Uma criança foi salva com a construção de um pequeno tubo saído de uma impressora 3D.Um dia farão uma impressora de gente, com alma e muitas dúvidas existenciais. Metade da alma e o dobro das dúvidas. "Serei um original ou uma cópia?", perguntar-se-ão de tempos a tempos, os homens de boa vontade. E o que é que isso interessa? O que importa é ser, existir. Tudo começa como uma brincadeira. Imprimir a ex-mulher para matar saudades. A si próprio para faltar ao emprego. Enquanto um vai trabalhar, o outro fica em casa a ver a bola. Só pode dar mau resultado. A 'sósia' da ex-mulher não será assim tão diferente da original, o mesmo corpo e metade da alma. E a genuína vai sentir ciúmes da cópia, e reclamar direitos de autor. Isso vai custar uma fortuna. E o outro que era eu, igualmente preguiçoso, ou mais ainda porque tem apenas metade da alma, também vai querer seguir os jogos do Sporting e matar saudades da ex-mulher, apesar de nunca ter sido sua. Que complicada será a vida. Estamos melhor assim. Não matamos saudades, mas matamos. Matamos se quisermos, através de uma impressora. O futuro já lá vai, no parágrafo anterior, agora falamos do presente. Não é ficção científica, é a realidade científica e tecnológica, que nos atropela e nos invade de espanto. Nos Estados Unidos, algures no Texas, houve uns neo-cowboys que conseguiram fabricar uma arma, um revólver com ar de Tupperware , que dispara balas de verdade. À medida que as bisnagas se vão parecendo cada vez mais com pistolas, as pistolas parecem-se com bisnagas. Eu vi-a numa reportagem da BBC, está disponível na internet. É o passo mais concreto em direção ao abismo da impressionante tecnologia das impressoras 3D. Claro que a culpa nunca é da tecnologia mas da forma como esta é usada. Para estas impressoras, em concreto, têm sido encontradas as mais louváveis utilidades, em áreas como a medicina dentária. Maquinaria de ponta, altamente evoluída, em prol da saúde e bem-estar. Mas daqui a meia dúzia de anos será comum ter uma impressora 3D em casa. A sua democratização avança a largos passos. Nos Estados Unidos, já se vendem impressoras 3D para uso doméstico com preços a partir de 1500 dólares. Quase todas usam como material uma liga de plástico (também há com outros materias, como chocolate), que é fundida a alta temperatura. A impressora recebe os dados sobre a formatação do objeto através de um programa: os ficheiros podem ser descarregados na internet ou desenhados pelos próprios. Também já há programas que permitem cópias através de fotografias. Caminha-se assim para a pirataria de objetos em larga escala. Já não é apenas a contrafação das fábricas chinesas. Brevemente, poderemos ter clones de objetos feitos em casa. Mas também poderemos fabricar peças absolutamente originais. O homem fabrica-se a si próprio e a preços competitivos. Até faz impressão. 1 de junho – Há que tempos que te não via. Estás mais gordo. Emagreceste quantos quilos? Passaste os cem. Toma cuidado? Tu vais comer isso? Deixei de comer hidratos de carbono. Proteínas só até às seis da tarde. Nem pão, nem batata, nem arroz. Nem massa. Não comas isso, tem um índice elevado de glicemia. Só consigo beber café sem açúcar. Vou entrar no ginásio. Que dieta andas a fazer? Isso, torradas com manteiga. Potássio, não. Cenoura ralada crua e brócolos cozidos sem sal. O melão, quando está maduro, apresenta uma alta concentração de açúcar. Não devias comer isso. Estás mais magra. Votos de um bom fim de semana, sem carnes vermelhas. Abstinência de ameixas. Personal trainer. Onde é que eu vou buscar serotonina? Levo uma vida saudável. Ouvi dizer que ela comeu duzentas calorias a mais. Bem-vindos ao verão. Nova Aliança, 13 / junho / 2013

A lamechice dos exames

8 de maio – Nas críticas aos exames que agora começam encontramos uma sociedade cujas famílias já acham que é obrigação do Estado transportar-lhes os filhos para tudo o que tenha a ver com a escola – se não fosse a crise ainda teríamos o direito ao transporte escolar para a festa de aniversário! – ou que se chocam muito porque se pede aos seus filhos que assinem um papel onde declaram que não têm consigo telemóveis nem qualquer outro equipamento de comunicação. “Porque acontecerão numa sala com meninos que nunca viram”. “Porque terão de ir a uma escola que não é a sua”. “Porque lhes pedem que declarem que não têm consigo telemóvel”. “Porque os professores encarregados de os vigiar não serão os seus”. "Porque estarão nervosos"... Estes são alguns dos argumentos usados para criticar os exames do ensino básico. A estes argumentos há sempre quem recorde o facto de no Estado Novo se terem realizado exames neste nível de ensino, o que à partida condena aos infernos os ditos exames. O resultado destas teses sobre os exames em particular e a avaliação em geral acabou na tragédia conhecida: temos um ensino caro mas com resultados medíocres. Pior, sob as roupagens do "não podemos deixar pessoas para trás" ou " a escola não pode discriminar os mais desfavorecidos" passou a esperar-se menos dos alunos. Como é óbvio, foram os filhos dos mais pobres e dos menos escolarizados as principais vítimas desta armadilha pois a classe média, onde sobressaem os defensores de sistemas muito alternativos de avaliação, é a primeira a colocar os seus filhos em escolas onde a avaliação é rigorosa. Contudo, os exames não são importantes apenas no que concerne à avaliação em si mesma mas também como factor de responsabilização. Nas críticas aos exames que agora começam encontramos uma sociedade cujas famílias já acham que é obrigação do Estado transportar-lhes os filhos para tudo o que tenha a ver com a escola - se não fosse a crise ainda teríamos o direito ao transporte escolar para a festa de aniversário! - ou que se chocam muito porque se pede aos seus filhos que assinem um papel onde declaram que não têm consigo telemóveis nem qualquer outro equipamento de comunicação. Por isso o que se contesta nestes exames nem é tanto o fenómeno da avaliação que passada a fase do folclore pedagógico, se tem como indispensável, mas que nos detalhes da sua organização - declaração sobre a posse de telemóvel; ida a outra escola... se trate as crianças como pessoas e não como bebés. Na TSF um dos pais reclamava porque "aqueles professores que estão a supervisionar o exame não conhecem os alunos". Fiquei chocado. Então não conhecem os alunos? Nada? Nem um bocadinho de intimidade...nem um bocadinho de cumplicidade? Não percebo... quem é que se lembra destas coisas? Um exame a sério...que ideia tão bizarra. Muitas crianças diziam que não estavam nada preocupados porque lhes foi transmitido pelos pais que "era tudo uma palhaçada que não servia para nada". Mas serve! Serve para perceber que com educadores deste calibre não há método que aguente. Esta infantilização das crianças e dos jovens gerou uns perturbantes bebés adultos que aos 18 anos ainda vão à consulta de pediatria, pois a idade pediátrica estende-se agora até aos 18 anos, onde entre imagens de ursinhos e cegonhas recordarão as ressacas dos festivais de Verão ou as histórias macabras sobre as crescentes agressões nas escolas, como a sucedida recentemente na EB 2/3 Ruy Luís Gomes, no Laranjeiro, em Almada, em que uma aluna foi violada por cinco colegas. Ou que, numa versão mais crescida, continuam a beber e a divertir-se enquanto um seu colega foi assassinado. Se Marlon Correia tivesse morrido, não na sequência de um assalto, mas sim numa fuga à polícia os seus colegas estariam muito provavelmente hoje de luto e vivendo uma forte indignação. Assim foi apenas um azar e a festa com muita cerveja vai prosseguiu. Nova Aliança, 16 / maio / 2013

14.5.13

Dia da Mãe

1 de maio – No próximo domingo é o Dia da Mãe. Não é fácil sê-lo. Vejo em casa, sei do que estou a falar. Numa corrida sem linha de chegada, acordo com a Mãe acordando com o grito do João, no outro quarto: "Mãe! Acordei!". E eis que está dada a largada. O dia começou. Ainda cambaleando de sono, a Mãe levanta-se e vai acolhê-lo. Logo depois, é a vez da Sofia, que, mais independente, corre para a sala. Minutos depois, estão os dois no sofá a tomar o pequeno-almoço. A Mãe, já desperta, apressa o passo para esticar ao máximo o seu tempo com os filhos. Na mesa da sala, ela toma o café e passa os olhos no jornal. Enquanto ouve o João falar até perder o fôlego sobre as histórias que inventa, escolhe a heroína para a brincadeira da noite e precisa correr ainda mais para se arranjar e chegar ao trabalho a horas. Enquanto troca de roupa, as crianças entram no quarto e pulam na cama. Falam sem parar. Por vezes, o João entusiasma-se. Aí, ela fica nervosa, pede para que parem. Nem sempre é atendida, até que, desolada, olha na minha direção como que implorando para que eu faça algo. Qualquer coisa, diga-se. Desde que os faça voltar a pôr os pés no chão. Se não faço, o seu olhar fuzila-me. Às vezes faço. E às vezes não faço, deixo-os pular. Afinal quando vão poder fazer isso de novo? Com um suspiro, ela deve pensar algo como: "Essas crianças!". Mas é isso mesmo. Somos todos meninos. Uns mais velhos, outros nem tanto. No meio da confusão, ela consegue, nunca sei como, arrumar-se de forma impecável. O que sei é que ela já está pronta, que o João logo estará pronto com a mochila às costas e que a Sofia está lá no quarto dela revirando as gavetas em busca da combinação de cores que julga a ideal para o seu dia. "Sofia querida, essa não combina!". Das gavetas, tira uns jeans pretos e procura no fundo uns ténis da mesma cor. O embate é longo, e lá está a Mãe usando toda a sua psicologia e retórica em busca de um acordo satisfatório para ambas. Geralmente, sou eu quem leva o João à escola. No entanto, sei que, se pudesse, a Mãe o faria com o prazer genuíno. Quando isso não acontece, temos uma espécie de pausa, quando ela está no trabalho e os pequenos na escola. No início da noite, com todos de volta ao lar, vejo-a ainda encontrar forças para abraçá-los à porta de entrada, contar uma história da carochinha enquanto os alimenta, conversar com o João sobre faraós, folhear a enciclopédia de dinossauros, dar vida à heroína combinada durante a manhã, brincar com algum jogo, vestir os pijamas, escovar os dentes, contar mais uma história até que os coloca para, enfim, dormir. Vejo-a então deixar o quarto dos garotos com os olhos semi-cerrados, esforçando-se para se acostumar à luz da sala. No sofá, senta-se ao meu lado. Está cansada, mas tranquila. Os seus meninos dormem como anjinhos no quarto do fundo. Dificilmente haverá alguém no mundo mais feliz do que ela naquele momento. Nova Aliança, 2 / maio / 2013

19.4.13

O monarca

8 de abril – Há para aí uns bastardos na comunicação social que não têm vergonha na cara e continuam a fazer fretes aos amigos e conhecidos. Vão longe os tempos em que o jornalista procurava a independência e a isenção. Hoje, está instalado o compadrio. Querem um bom exemplo? Mário Soares. Alguém que ficará na história pelo papel que teve depois do 25 de abril está a ter um ‘ocaso’ verdadeiramente lamentável. De forma pouco séria, Soares nunca viu nenhuma virtude em nenhum governo que não fosse do seu partido. Muito recentemente, Soares não se distinguiu dos demais capangas socráticos na defesa do chefe. Ante as trapalhadas e mentiras de Eng., o ex-Presidente usou a cassete dos Lellos e Santos Silvas desta vidinha. O alegado "pai da democracia" transformou-se em pai do PS. A alegada dignidade do ‘senador’ revelou a dentola dos jotinhas. Porquê? Para Soares, a democracia é o PS e o PS é a democracia; nesta quase ‘monarquia republicana’ chamada III República. Aliás, naquela cabeça, o regime é o ele mesmo, o regime é o próprio Soares, D. Soares I. Esta presunção de superioridade dinástica subiu de tom após a subida ao poder do actual governo. Para Soares, todos os problemas começaram agora. Numa linguagem arruaceira, Soares tem sugerido um incremento da violência social. Qual miguelista invertido, Soares anda a sonhar há meses com várias Marias da Fonte. E, neste fim-de-semana, passou dos limites quando disse o seguinte sobre Cavaco: "por muito menos do que isto foi D. Carlos morto". Independentemente dos diversos disparates protagonizados pelo Presidente da República, isto é linguagem de taberna, obviamente vergonhosa para um ex-Presidente de uma democracia. Mas, claro, D. Soares I não se sente numa democracia onde ninguém está acima de crítica. D. Soares I julga que está no seu reino, a monarquia republicana onde todos lhe devem respeitinho. Mas o pior é o silêncio dos média e é aqui que os jornalistas bastardos entram. Ao contrário de outros, Soares pode dizer o que quiser. Pode ter atitudes machistas perante eurodeputadas, pode gozar com os contribuintes quando o seu carro é multado, pode refazer à vontade a sua biografia , pode ser um mero apparatchik do PS, pode até acenar com violência política, pode tudo isto porque passa sempre entre os intervalos da chuva. Ele é o Rei, e o Rei, como se sabe, nunca se molha mesmo quando vai nu. Enquanto esteve no poder, D. Soares nunca se molhou porque recebeu sempre um tratamento principesco nas redacções ( leiam a biografia da autoria de Joaquim Vieira ). Agora, depois da reforma, é tratado como um ser inimputável. Ou seja, Mário Soares passou as últimas décadas numa redoma situada acima do bem e do mal. Só falta mesmo a água de malvas. 11 de abril – O tempo que a comunicação social poupa com Soares gasta com os cenários de papel das remodelações. Aí há sempre algo para dizer. Confiram, por favor. Se o novo ministro é do partido, dizer que é um boy, se o novo ministro não é do partido, dizer que não tem experiência política. Se o novo ministro é um académico, dizer que é um teórico, se o novo ministro é um homem de acção, dizer que não tem qualificações para o cargo. Se o novo ministro vai trabalhar fora da sua área, dizer que é um erro de casting, se o novo ministro vai trabalhar na sua área, referir que tem conflito de interesses. Se o novo ministro é jovem, dizer que não tem experiência, se o novo ministro é velho, dizer que não há renovação da classe política. Se o novo ministro nunca trabalhou fora de Portugal, dizer que não tem experiência internacional, se o novo ministro trabalhou fora de Portugal, dizer que é um estrangeirado que não compreende o país. Se o novo ministro vem do próprio governo, dizer que não há renovação do governo, se o novo ministro vem de fora do governo, dizer que levará demasiado tempo a estudar os dossiers. Se o ministro não é substituído, dizer que é uma vergonha para Portugal, se o ministro é substituído, dizer que é a prova que o governo é incapaz de governar e tem de se demitir todo. Se o ministro tem demasiadas pastas a cargo, dizer que não dá conta do recado, se o ministro vir parte das responsabilidades atribuídas a outro, dizer que o estão a esvaziar e que é incompetente 13 de abril - O ministro Nuno Crato foi exemplar no caso Miguel Relvas. E o primeiro-ministro também, reconheça-se, pelo menos a acreditar que disse sempre ao ministro da Educação, como o próprio garantiu, para se investigar o caso até às últimas consequências: "Cumpra a lei", foi a citação de Crato na SIC/Notícias. Se tivesse sido assim no caso da licenciatura de Sócrates - e é preciso terem muita lata para as viúvas, os órfãos e amigos próximos do ex-primeiro-ministro - se atreverem a falar de ética a propósito de Relvas - outros galos cantariam hoje muito mais baixinho. O senhor Mariano Gago terá aprendido alguma coisa? Nova Aliança, 18 / abril / 2013

16.4.13

Grandes leituras

Já lá vai o tempo em que, de quinze em quinze dias, reservava um fim-de-semana para os livros policiais. Ponto prévio: se não gosta de literatura policial, ou se pura e simplesmente nunca leu literatura policial, pode continuar a ler este texto. De tempos a tempos, volto ao meu autor preferido: Rex Stout. Os seus livros valem pela literatura e não pelas histórias neles narradas. Experimente levar alguns livros consigo e verá como encontrou o melhor meio de aplacar mais de um mês de insónias com a figura, as investigações, os tiques, as obsessões e as vitórias fulgurantes de Nero Wolfe. Li-os praticamente todos há alguns anos, mas perdi uns e emprestei outros, deixei alguns em lugares que já não existem. Não comecei com ‘Picada Mortal’ mas com ‘A Caixa Vermelha’ e os mais lidos, até hoje, foram ‘A Montanha Negra’ e ‘Terror a Prestações’. Nero Wolfe pesa cerca de 150 quilos, nunca sai de casa em investigação, vive numa casa na Rua 35, NY; o seu tempo divide-se entre as refeições e a cozinha, a leitura e as orquídeas; o resto do tempo é dedicado ao trabalho de detective e ao consumo de cerveja. Sair de casa, praticamente nunca – e para trabalhar, impossível. Das 9 às 11 e das 16 às 18, orquídeas. As histórias são narradas por Archie Goodwin, o seu secretário particular e detective-adjunto. O que acontece em ‘A Montanha Negra’ e em ‘Terror a Prestações’ é que Nero Wolfe sai de casa. Não é a única vez, há excepções garantidas, desde ‘Caçada a Mr. X’ a ‘Gambito’. Mas em ‘A Montanha Negra’, Wolfe vai até à sua natal Montenegro, na então Jugoslávia, para perseguir os assassinos do seu amigo Marko Vukcic; e em ‘Terror a Prestações’ é obrigado a sair de casa para perseguir e eliminar o seu inimigo fatal, ‘X’, aliás Arnold Zack, o génio do mal que lhe telefonara em três livros anteriores e que em ‘Caçada a Mr. X’ lhe mandara destruir as estufas de orquídeas. É sacrilégio, para qualquer leitor de Stout (que não se dedicou apenas a Nero Wolfe), catalogar os seus hábitos e peculiaridades –desde a sua aversão à "histeria feminina" (‘alguma’ misoginia, decerto), à incompreensível obsessão por ovas de sável, da relação com o sargento Cramer à paixão pela cerveja, da sua cultura enciclopédica à paixão pelo amarelo. Isto porque é inadmissível que não sejam conhecidos. Archie Goodwin (há um certo número de traduções daninhas em que eles se tratam por ‘tu’; nunca podia ter acontecido) , o seu narrador natural do Ohio, merece também cuidado, não só pela sua relação com a milionária Lily Rowan ou pela paixão pelo basebol, mas também por ser um janota americano dos anos cinquenta que assiste com paciência e arrogância o génio de Wolfe – é o próprio Wolfe que se assume como o mais talentoso de todos os detectives privados do universo (com a excepção de um, francês, que nomeia ou a quem recorre ocasionalmente). Nas páginas dos livros de Rex Stout encontramos os momentos mais significativos da história recente dos Estados Unidos, o que faz deles não só uma leitura apaixonante literariamente, mas também histórica e sociologicamente. Neste caso, estamos perante os problemas da segregação racial, os preconceitos mais profundos e dificeis de erradicar. Como sempre, as opiniões de Nero Wolfe são interessantes, afinal estamos perante um leitor infatigável e uma pessoa superiormente culta. Uma palavra final relativamente à edição portuguesa. Os livros do Rex Stout costumam estar miseravelmente traduzidos, os livros costumam estar cheios de gralhas tipográficas e a composição parece ter sido feita no intervalo do almoço e não no período normal de trabalho de um profissional. Neste caso e com o tempo, as coisas melhoraram qualquer coisa. Rex Stout merece-o. Ele não é apenas mais um autor de policiais de cordel: é um grande escritor, que merece a melhor tradução para que não se percam os seus imensos recursos literários. Não se incomodem por mim. Tenho noitadas para alguns meses. Experimentem. Nova Aliança, 31 / outubro / 2012

Os filhos do zip-zip, Óscar Lopes e Natália Correia

25 de março - Os Filhos do Zip-Zip’ (Esfera dos Livros), de Helena Matos, chegou às livrarias. Num país sem memória, ou que a despreza e frequentemente adultera, Helena Matos evoca, através de recortes de jornais, fotografias e publicidade da época, a transição portuguesa para os nossos anos setenta. Há gente que se lembra de como o ‘Zip-Zip’ marcou a sua vida – e gente que não se recorda do programa de televisão de Raúl Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz. Mas o país está lá, no fundo das recordações: guerra colonial, futebol, Vilar de Mouros (com Elton John em 1971), cigarros Kart, a fabulosa Dyane 6, Tulicreme, drogas, Procol Harum, J. Pimenta, ‘Simplesmente Maria’ e os bonecos do ‘Riso Amarelo’. Para alguns, esta evocação é pura nostalgia; na verdade, é o ‘Portugal futuro’ que já ali aparece desenhado. Nem de propósito, atravessamos uma época especial: os filhos do Zip-Zip estão a abandonar o poder. Façam contas. 29 de março - Depois de, em 2011, ter publicado as cartas trocadas entre António José Saraiva e Luísa Dacosta, a Gradiva lançará muito em breve um volume reunindo a correspondência pessoal entre Saraiva e Teresa Rita Lopes. Boa ideia. O que tem isto a ver com Óscar Lopes? Praticamente tudo. Num mundo dominado pelo interesse no espetáculo, com a sua velocidade e indigência, o nome de Óscar Lopes está naturalmente confinado ao círculo da gente com memória, apesar de ter marcado várias gerações com os seus livros. Lopes (leia-se o magnífico e comovente poema de Vasco Graça Moura sobre “um senhor de Matosinhos”) foi um sábio. O seu trabalho circulava entre a literatura, a estética e a linguística, mas convocava toda a sua experiência de contacto com outros saberes (até a matemática); isso fez dele um dos nossos grandes professores, ocupação hoje caída em descrédito. A monumental História da Literatura Portuguesa, que escreveu com António José Saraiva, foi uma das peças da sua grande intuição e do seu edifício harmonioso – e toda a sua obra é um combate pela cultura (veja-se este título, A Busca de Sentido), contra a ignorância, a leviandade e a falta de inteligência. É bastante. 31 de março - Passaram vinte anos sobre a morte de Natália Correia. Não vale a pena praticar o exercício do anacronismo – por exemplo, pensar no que hoje diria Natália sobre o nosso país. A autora de ‘Não Percas a Rosa’ disse-o em vida, na época, e com aquela veemência que nunca conseguiu fixá-la a uma redoma ideológica, de janelas fechadas para o exterior. Pessoas como ela fazem falta porque nunca podem ser substituídas; nem a sua poesia, nem os seus textos de intervenção mais imediata, nem o seu sarcasmo, nem a sua tentação de desancar a pátria e, sobretudo, os hierofantes empalhados da pequena moral. Por muito que se procure “uma forma de ser Natália Correia” é impossível encontrá-la porque ela foi tão plural e desconcertante que encaderná-la num catálogo é uma tarefa inútil. Os tempos não vão para pessoas assim. Para homenageá-la, vamos aos seus livros. É o que resta, no fim de contas. Nova Aliança, 4 / abril / 2013

Os 'nossos' banqueiros

4 de março – Por que razão temos uma boca e dois ouvidos? Provavelmente para ouvirmos mais e falarmos menos. De forma cada vez mais frequente, verifico a pertinência deste ‘conselho’. Vejamos três casos recentes. "Se não sabem o que fazer, ponham metade dos desempregados a abrir buracos e a outra metade a tapá-los. O que interessa é que estejam ocupados". É esta a proposta de João Salgueiro - banqueiro e ex-ministro, responsável também pela situação a que chegámos - para "oferecer às pessoas uma oportunidade de trabalhar, em vez de ficarem a vegetar, marginalizadas". Pode ser na construção civil ou nas matas, tanto faz. O importante é que ‘não chateiem’ ( aspas minhas ). Repare-se que o senhor não propõe trabalho desqualificado para garantir emprego para todos. Que não defendeu trabalho inútil para criar emprego pago que faça a economia andar. O objetivo é só este: ocupar as pessoas, como se de adolescentes rebeldes e em risco se tratassem. Entretanto, Filipe Pinhal, antigo presidente do BCP, saído da instituição bancária por causa de alguns escândalos relacionados com off-shores e manipulação de ações em bolsa, que recebe uma pensão de 70 mil euros de um banco em estado de coma, anunciou que vai criar o Movimento de Reformados Indignados. Será, pelo menos nos montantes da sua reforma, um movimento de peso. Mas o facto de fazer este anúncio diz qualquer coisa: que o senhor está completamente a leste do que a esmagadora maioria dos reformados (da banca e não só) pensará sobre ele e a sua reforma. Se juntarmos a estes dois as conhecidas e repetidas declarações de Fernando Ulrich (a quem alguns chamam ‘ultrarico’ e que queria os desempregados a trabalhar à borla para o seu banco), são três bons retratos de um certo grupo social: essa nova classe de gestores financeiros, que sugam os bancos que por sua vez sugam os clientes e os cofres dos Estados. Trata-se de gente que enriqueceu com as propostas do dinheiro fácil e criadores de um capitalismo não produtivo e economicamente inviável. No seu mundo virtual, deixaram de ser capazes de distinguir o certo do errado, o razoável do impensável. Nada os liga à sociedade. Quando comparados com os velhos capitalistas industriais (ou até com os banqueiros propriamente ditos), estes gestores são uma subespécie sem consciência política, social e moral de qualquer espécie. Nem empresários, nem assalariados, nem capatazes. São uma coisa híbrida que cresceu na lama da economia. Ao contrário do velho capitalista industrial, o grande gestor das instituições financeiras não segue uma ética política social própria. Não pode sequer defender a sua conduta usando o argumento da criação de riqueza ou de emprego. Nem sequer foi, em geral, criador das instituições que dirige. Não tem obra e não produz. Está apenas de passagem. É, resumindo, de todos os pontos de vista, um parasita. Os limites aos bónus dos gestores da banca, definidos pela União Europeia, são o primeiro sinal de uma revolta cívica contra esta nova espécie de marginal económico. E que terminará com uma pergunta que até já nos Estados Unidos se faz (e no passado se fez muitas vezes): pode toda a economia ficar refém de uma minúscula elite financeira, que põe em perigo os Estados, as economias e até a sobrevivência do próprio capitalismo? A resposta parece muito simples: não é possível permitir que um grupo que claramente, pelo excesso de poder que conquistou, já perdeu a noção da realidade, sugue todos os recursos, públicos e privados. E que se for necessário o Estado deve optar por uma posição de força. Que pode ir de uma regulação mais musculada até à nacionalização efetiva da banca intervencionada (não nacionalizando apenas os prejuízos), passando sempre por esta ideia: nos tempos que vivemos, os Estados não podem deixar de controlar a atividade financeira. Não é ideologia. É uma questão de sobrevivência. As crises fazem quase sempre estalar o verniz em que a vida em sociedade se sustenta. Com a banca completamente dependente do controlo político que mantém sobre os governos e as instituições públicas (numa verdadeira economia de mercado, grande parte dos bancos europeus já teriam falido), os homens que realmente governam o mundo e o País passaram a ter rosto e voz. Pelos seus atos recentes, percebíamos que estávamos perante sociopatas. As suas palavras tresloucadas e tontas apenas o confirmam. Nova Aliança, 20 / março / 2013

Tolerância religiosa

26 de fevereiro - Um pedaço de papiro levou uma estudiosa americana a dizer que Jesus foi casado. O papiro, provavelmente do século 4 d.C., seria parte de um evangelho apócrifo e prova substancial de que Jesus não teve vida celibatária. Verdade? Mentira? Acompanhei as notícias com curiosidade mediana. Mas o que mais me espantou nessa história sobre a alegada mulher de Jesus foi a tranquilidade com que o Ocidente lidou com o assunto. Ao contrário do que por vezes sucede, não vi mortos nem vi feridos. Não vi embaixadas atacadas e destruídas. Os cristãos não vieram para a rua pedir a morte da professora Karen King pelas suas "blasfémias" contra Jesus. A universidade de Harvard não precisou de reforço policial para evitar um massacre. A descoberta foi apresentada em Roma, discutida entre os eruditos e posteriormente desacreditada. Ou não. Terá isso algum interesse? Talvez não. É até provável que amanhã surja um novo pedaço de papiro com uma nova mulher no enquadramento. Ninguém mata ou morre por causa disso. Se, por mera hipótese, houvesse uma descoberta semelhante e igualmente polémica sobre a vida do Profeta Maomé, não é preciso descrever o cortejo de sangue que viria a seguir. Um cortejo que, admito, já foi nosso e bem nosso: há 500 anos atrás, o lugar da professora Karen King não seria na universidade de Harvard. Seria na fogueira da Inquisição. Mas passaram 500 anos. O Cristianismo teve a sua Reforma e Contra-Reforma; confrontou-se com o Iluminismo e o Contra-Iluminismo. Depois de todas as guerras religiosas que devastaram a Europa moderna em nome da fé verdadeira, entendeu-se que a "fé verdadeira" é um assunto dos crentes, não do Estado. A liberdade de culto passou a ser uma liberdade inegociável na maioria das sociedades ocidentais - a promessa de que ninguém seria perseguido por professar determinado credo. Mas a liberdade de pensamento e expressão também --a promessa de que ninguém seria perseguido por criticar ou ridicularizar a fé de terceiros. Infelizmente, esta conquista secular foi esquecida pela justiça brasileira, que determinou que o Google retirasse do Youtube-Brasil o filme "A inocência dos muçulmanos", a pedido da União Nacional Islâmica. Porque o filme ofende os muçulmanos e alimentou atos de violência extrema em todo o Médio Oriente? Acredito que sim. Como acredito que milhares de outros filmes, ou livros, ou quadros, ou peças de teatro, ou anedotas de café, ou meros comportamentos quotidianos ofendam muitos muçulmanos. A questão, porém, não é essa. A questão está em saber como é possível que um tribunal de um estado laico possa exercer censura em nome de uma religião particular. O filósofo francês Pascal Bruckner ajuda a entender o gesto. Sobretudo com o seu "A Tirania da Penitência - Ensaio sobre o masoquismo ocidental" (Difel). O título e o subtítulo dizem tudo: o Ocidente vive hoje uma orgia de masoquismo que o faz ter repulsa de si próprio, dos seus valores fundamentais, das suas liberdades inegociáveis. E como explicar essa quebra de confiança, esse torpor niilista e relativista? Pelo passado. Pela forma neurótica como o Ocidente retrata o seu passado. Quem somos nós para afirmar a importância dos valores ocidentais quando o Ocidente produziu incontáveis crimes - o genocídio de populações indígenas no Novo Mundo; o tráfico de escravos; o comunismo e o nazismo; o Gulag e o Holocausto? Curiosamente, o Ocidente que gosta de se autoflagelar pelos crimes do passado é também o mesmo que se esquece da sua própria capacidade para os superar e reprimir. Como afirma Pascal Bruckner, a Inquisição existiu; mas ela está diretamente ligada ao Iluminismo. A escravatura existiu; mas ela está diretamente ligada aos movimentos abolicionistas. O comunismo e o nazismo existiram; mas ambos estão diretamente ligados ao triunfo das democracias liberais no século 20. A singularidade do Ocidente não está na criação de monstros --todas as civilizações o fizeram e fazem. A singularidade está na forma como foi capaz de gerar as armas, teóricas ou bélicas, para enfrentar e derrotar esses monstros. Essa capacidade deveria ser causa de orgulho e confiança --e um imperativo suplementar para que o Ocidente defendesse os valores positivos em que acredita: a separação de poderes; a liberdade de pensamento e expressão; a tolerância perante diferentes concepções religiosas ou de vida; e etc. etc. Fatalmente, não há orgulho nem confiança. Apenas uma vontade psicótica de alimentar um certo nojo-de-nós-próprios, ou seja, uma náusea profunda pelos direitos fundamentais que foram conquistados depois de sangue, suor e lágrimas, como dizia Churchill num discurso célebre. A pergunta, formulada por Pascal Bruckner, é inevitável: como podemos ser respeitados pelos outros se já não somos capazes de nos respeitarmos a nós próprios? Esta será a pergunta que irá definir o futuro de uma civilização. Nova Aliança, 6 / março / 2013

Os animais perigosos, Funcionários e funcionários

2 de fevereiro - Mandam as regras que um animal doméstico que se demonstre perigoso ao ponto de pôr em risco a vida humana tem de ser abatido. Ora recentemente, um cão de uma raça perigosa matou uma criança de 18 meses. Por isso, foi decidido o seu abate. Acontece que 11 mil pessoas assinaram uma petição para impedir uma decisão de evidente bom senso. Dizem os subscritores desta petição: "um cão que nunca fez mal durante oito anos e atacou é porque teve algum motivo". Vamos ver se nos entendemos: Os motivos para um animal matar uma criança são irrelevantes, porque as crianças não podem correr risco de vida, sejam lá qual forem os motivos. A decisão de abater um cão não é uma forma de fazer justiça, mas de segurança. Escrever que "a criança e o cão são os dois inocentes desta história" é pornográfico. Crianças e cães, para os humanos, não estão no mesmo nível. Nenhum animal é abatido por ser "culpado" de nada. Até porque tal conceito é inaplicável a não humanos. Um animal doméstico, se se revelar perigoso para os humanos, não pode conviver com eles. É apenas disto que se trata e não de qualquer ato de justiça. Os donos e pais foram negligentes? Isso sim, resolve-se na justiça. O abate do cão é outra coisa: um cão que mata uma criança com quem convive deixou de ser um animal doméstico. Porque o que o torna doméstico é ser controlável por humanos. Como não pode ser devolvido à vida selvagem é abatido. Não por justiça, mas por segurança. Diz a petição: "Se não se abatem pessoas por cometerem erros, por roubarem, por matarem...então também não o façam com os animais!" A comparação é de tal forma grotesca que chega a ser desumana. Resumo assim: a vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre. 8 de fevereiro - O senhor José trabalha há 35 anos na mesma repartição. Funcionário exemplar, uma gripe atirou-o para a cama pela primeira vez na vida. O chefe exigiu-lhe o atestado de doença, prova de como não estava a aldrabar o Estado. De nada lhe valeu a honestidade que sempre provou ao longo dos anos. Ou apresentava o papel ou era castigado no seu vencimento. A senhora Glória é deputada.Há dias foi apanhada a conduzir alcoolizada, com uma taxa bem superior ao permitido por lei. Nos dias seguintes não pôs os pés no trabalho, a Assembleia da República. Atribuiu as faltas a uma doença. O Parlamento já veio dizer que dispensa o seu atestado, visto o regime de faltas ao plenário definir que "a palavra do deputado faz fé, não carecendo por isso de comprovativos adicionais." Um exemplo de como a expressão ‘ou há democracia ou comem todos’ está longe de fazer qualquer sentido. Couto dos Santos, presidente do Conselho de Administração da Assembleia, diz não ser necessário obrigar os parlamentares a apresentar atestado, porque ( não se riam muito, por favor… )"um deputado é responsável pelos seus atos" – não o somos todos? – e, agora vêm as gargalhadas sonoras, é preciso ter "confiança em quem elegemos". 12 de fevereiro - Lembram-se de quando a democracia iluminava Portugal e um funcionário público podia ser saneado por violar os limites admissíveis da opinião? Vá lá, não se mostrem esquecidos. Não foi há muito tempo. Em 2007, por exemplo, um professor viu-se afastado do cargo na Direção Regional de Educação do Norte (DREN) apenas porque partilhara com um colega uma anedota sobre a licenciatura do Enormíssimo Chefe, ironicamente conhecido por "engenheiro" José Sócrates. A diretora da instituição, pessoa de’ respeito’ e pouco apreciadora de comédia e insubordinação, abriu um processo disciplinar ao indivíduo, e o indivíduo, Fernando Charrua de sua graça (que saiu cara), acabou na rua. Agora, um tribunal atribuiu ao prof. Charrua razão e uma indemnização de 12 mil euros, a pagar pelo Estado e não, curiosamente, pela então diretora, uma zelosa criatura chamada Margarida Moreira. O próprio prof. Charrua considera absurdo os cidadãos patrocinarem, cito, "os desmandos e ilicitudes dos agentes políticos" enquanto estes permanecem impunes. Infelizmente, o princípio não se aplica só a pequenas compensações face à prepotência exibida por uma serviçal. Também o poder a sério é causador de inúmeros desmandos e ilicitudes sem que os seus custos sejam imputados aos responsáveis diretos. Por regra, a fatura termina sempre nos nossos bolsos, é imensamente superior a uma dúzia de milhares de euros e, sob diversas perspectivas, justifica o momento que atravessamos. Na medida em que os que arruinaram isto e os que apanham com as consequências da ruína não coincidem, o "caso" Charrua e as suas derivações constituem um rigoroso símbolo da austeridade vigente. Felizmente os tempos são outros e nem tudo é mau. Segundo especialistas vários, o Governo actual é "neoliberal", reaccionário, inconstitucional, fascista e o que calhar, mas pelo menos os professores andam por aí a aliviar-se de ofensas ao primeiro-ministro sem que ninguém seja por isso demitido. E quem diz a docência, diz o povo em geral, hoje livre de insultar os senhores que mandam e, se assim lhe aprouver, de suspirar pelo curioso conceito de liberdade dos senhores que antes mandavam. Nova Aliança, 21 / fevereiro / 2013

Balanço de 2012, Votos para 2013

2 de janeiro - As coisas não mudam. No final do ano é costume formularmos votos de Bom Ano Novo. É normal que as pessoas desejem umas às outras o melhor para as suas vidas no ano que vai entrar, que tudo aconteça de acordo com as melhores expetativas, que os seus desejos se realizem e não faltam os votos de saúde, de muitas alegrias e felicidades. Todos sabemos como são especialmente importantes as palavras de alento e de esperança de mudança para as pessoas apanhadas pela famigerada ‘crise’, muitas delas sem disporem de qualquer rendimento, que procuram trabalho mas não encontram resposta positiva, e que se confrontam diariamente com dificuldades financeiras para resolver necessidades tão essenciais como a habitação ou a escola dos filhos. O agravamento dos sacrifícios em 2013 vai especialmente pesar sobre todos aqueles que estão no desemprego e que vivem com carências económicas significativas. Perante isto, o que desejar para 2013? Que o país cresça em consciência social e que, como tal, governo, políticos, empresas e cidadãos ganhem maior sensibilidade social, sejam mais responsáveis e estejam mais disponíveis para contribuir para o reforço da solidariedade social, seja no plano político, seja no plano institucional e individual. Esta esperança funda-se na observação do ano de 2012 que não deve deixar ninguém indiferente perante o sofrimento de muitos portugueses. Justamente num momento em que a taxa de desemprego atinge níveis muito graves e em que a pobreza está a crescer a partir de níveis já de si elevados esperava-se do Estado Social uma maior capacidade na protecção das pessoas e famílias atingidas por estas chagas sociais. O Estado Social falhou quando era mais necessário, para quem dele necessita. A situação é de grande emergência financeira, mas passou a ser também de grande emergência social. Desejo, pois, o maior cuidado nos cortes anunciados de 4,4 mil milhões de euros na despesa pública, que sejam procuradas e encontradas alternativas que não afectem os níveis de rendimento já de si muito baixos e precários da maioria da população e que não reduzam os níveis de protecção social já de si fragilizados. 7 de janeiro - Escolho o povo português como figura de 2012. Na verdade, quem mais poderia ser? Em 2012, a sociedade civil explodiu no espaço público e soube usar a exposição mediática. Agiu fora dos partidos, que os cidadãos sentem actuar de acordo com interesses próprios, não os seus. Em 15 de Setembro, os manifestantes renegaram o enquadramento partidário, mas não originaram movimentos sociais. O grito extinguiu-se. Mais importantes foram erupções perenes de sociedade civil. Perante um sistema irreformável, os cidadãos defendem-se no espaço público, em novas formas de acção e com novos protagonistas. Destaco Paulo Morais. É uma voz activa, sólida, factual, avessa à demagogia. Expõe processos legais e ilegais de corrupção, promiscuidades de deputados e interesses económicos. Desmonta o sistema. A TV deu espaço a outras vozes, como Tiago Caiado Guerreiro, Carlos Moreno, Domingos Azevedo e Medina Carreira. O êxito do programa em que participa deve-se precisamente à denúncia do sistema. Como neste nada muda, havia tendência à repetição, pelo que o programa acrescentou convidados anti-sistémicos, para enriquecer o debate e quebrar a monotonia. Aqueles protagonistas e outras manifestações da sociedade civil, como os estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos ou o blogue Má Despesa Pública, abrem janelas que abalam a novilíngua de políticos e seus agentes nos media. Estes, todavia, ainda dominam, pois os canais de TV também pertencem ao sistema: apenas deixam entrar um pouco de ar fresco contra a demagogia, a retórica oca e deslocada da realidade de que muitos portugueses, na rua, nos espaços de liberdade na Internet e um pouco nos media tradicionais, revelam estar saturados. Nova Aliança, 10 / janeiro / 2013