2.7.08

Amy Winehouse, Mário Lino, o Latim e os Exames

31 de Maio – A desequilibrada.
Mas será que sabem quem é Amy Winehouse? A rapariga tem problemas com a droga e o excesso de alcool. Foi presa por diversas vezes, a última há cerca de 2 semanas por causa de drogas. Já se tentou matar. O marido, que está actualmente preso, chega-lhe com frequência e, ao que parece, também já a tentou despachar. O calibre é tal que os pais já por diversas ocasiões pediram (rádios, tvs) que ninguém comprasse os discos da filha. Uma das músicas mais conhecidas de Amy fala da tal "rehab" de que precisa com urgência, mas que se recusa fazer. Aparece nos concertos invariavelmente pedrada e/ou bêbeda (ontem, postei o vídeo de um concerto em que ela snifa coca em pleno palco), chega atrasada ou, simplesmente, cancela concerto atrás de concerto. Mesmo em cerimóminas de entregas de prémios aparece imprópria para (do) consumo (ver últimos Grammys, acho). Amy é, ainda assim, um fenómeno que vende discos como poucos e que no ano passado ganhou tudo o que havia para ganhar. A rapariga é, obviamente, desequilibrada, como foi Kurt Cobain e Jim Morrison na música ou Maradona no desporto. A genialidade desta gente tem o seu preço. É por isso que não compreendo quem tenha ficado admirado com a forma como Amy se apresentou hoje em Lisboa. Porventura pensaram que ela viria sóbria e na posse de todas as suas faculdades? Amy foi igual a si própria e se assim continuar está visto como é que a história vai acabar.

2 de Junho – O “eterno” Lino.
O eng. Lino é um caso. Não é possível antipatizar completamente com o homem, muito menos tomá-lo absolutamente a sério. Já se percebeu que tem poder embora não se perceba exactamente porquê. Por muito menos, outros foram afastados na maior discrição. Pelo contrário, Mário Lino, o homem que veio das águas para o betão, não só fica como "doutrina". Lurdes Rodrigues, por exemplo, nunca mais foi avistada. Desapareceu em combate. Lino, não. É braço direito e esquerdo do seu primeiro-ministro, um anacoreta em forma de pontes e de acordos com camionistas. E "doutrina", dizia eu. «O País tem plena consciência das dificuldades resultantes da situação herdada do Governo anterior, assim como do aumento do preço do petróleo», eis como Lino sintetiza o seu "pensamento" numa entrevista. Três anos depois de ser membro do governo, Lino fala como se não fosse nada com ele. Tudo subsiste à conta dos parcos meses de Santana e das circunstâncias "externas". Afinal, Lino tem estado apenas a fazer figura de corpo presente. Nem sequer temos a certeza se ele tem tido "consciência" do que é que o tem ocupado nos últimos três anos. O país, assegura, tem. Oxalá tenha.

6 de Junho – Gastar o Latim.
Em apenas dois anos a frequência das aulas de Latim diminuiu 80%. Este ano há apenas 300 alunos a fazer exame da disciplina, o que é bem pouco. A tendência portuguesa é contrária à dos outros países europeus e americanos, onde os estudos clássicos não baixaram a frequência. Não nos podemos queixar. O secretário de Estado Valter Lemos, uma luminária, diz que os alunos não têm interesse no Latim e que “as políticas educativas” não são culpadas. Está errado, como é seu costume. Basta ver a forma como “as políticas educativas” tratam as Humanidades e como o linguajar dos seus queridos técnicos têm assassinado o Português. A “sociedade” não preza o Latim como não preza o património nem o passado, e está no seu direito. Mas fica mais pobre.

17 de Junho – Os Exames.
Os exames nacionais finais do ensino básico e secundário começam na próxima terça-feira, com as provas de Português, e são protegidos por 7.000 militares da GNR.
Com a época, logo aparecem os comentadores e os tratadistas, os pedagogos, psicólogos e metodólogos, e todos os muito bem pensantes a alertar para os traumatismos e o horrendo stress que os exames provocam nas tenras mentes de quem se sujeita a tais absurdas provas.
A situação é relatada em artigo de Mário Cordeiro, professor de Pediatria, no DN do passado domingo, na Notícias Magazine.
“Exames, exames…é o stress total. Filhos angustiados, pais em pânico, horários em desordem, quartos a parecerem cenários de pós-guerra, discussões a estalarem por tudo e por nada. É assim a vida de muitas casas onde há jovens a aproximar-se da receada hora dos exames…”
Enfim, é gentinha desta que a nossa educação está a criar: florzinhas de estufa, que se enervam e estiolam a qualquer aragem…Sugiro que os ponham sempre numa redoma: na escola, no trabalho, na vida. E tenham-lhes um psicólogo sempre à mão, preferentemente com os mesmos problemas. Consolar-se-ão uns aos outros!...
Cá por mim, começo agora a ficar traumatizado por não ter ficado traumatizado com os exames que fiz!...
Até porque arranjar um qualquer traumatismo psicológico é mesmo a única forma que me resta de não ficar fora do sistema…

Nova Aliança, 27 / Junho / 2008

A noiva devolvida e o Europeu de futebol

26 de Maio – “Longa cobardia”
Ferreira Fernandes no Diário de Notícias: “Antigamente - um pouco depois dos tempos em que ele, de moca e de osso atravessado no nariz, a arrastava pelo cabelo até à caverna - o lençol nupcial era exposto no bairro. Se havia sangue, a noiva era virgem e o casamento podia seguir em frente. Antigamente..., iludo- -me eu, como se as coisas não pudessem voltar para trás. Em Lille (Norte de França), um tribunal anulou um casamento porque a noiva - muçulmana como o noivo - mentiu sobre a sua virgindade. Na madrugada do casamento, o noivo, engenheiro, levou a noiva a casa dos pais dela porque lhe faltava uma peça (assunto privado). E um tribunal, no ano de 2008!, deu-lhe razão (assunto público). Deixo para os advogados e juízes o valor jurídico do ela ter mentido, como se a lealdade pudesse existir entre desiguais (o engenheiro não teve de jurar a sua virgindade, nem tinha como a provar). A nossa cobardia está a atirar estas novas europeias para o passado. Assim, o passado virá ter com todos nós, não tarda."

28 de Maio – Talvez resquícios.
Uma destas noites ouvi parte de uma interessante conversa entre Constança Cunha e Sá e Silva Lopes, na TVI. Silva Lopes é uma daquelas figuras que apetece ouvir, mesmo quando se discorda: exibe liberdade, sinceridade e autoridade. Estas coisas, quando são verdadeiras, percebem-se até pela linguagem corporal. Silva Lopes estava descontraído e gesticulava livremente conferindo ao seu discurso uma autenticidade que os «certinhos» do costume não conseguem imitar – porque são falsos.
A conversa ia longa. Eis senão quando o professor deixou cair um comentário lateral que me deixou a pensar: para salientar o espírito algo volúvel dos portugueses utilizou o velho exemplo dos sinais de luzes que os condutores utilizam para avisar os outros da presença de forças policiais na estrada. Esse hábito português tem sido muitas vezes referido como sintoma de atraso civilizacional. Permitam-me discordar. Nesta crítica detecto um resquício invisível da herança cultural salazarista. A ideia de que o Estado através dos seus inúmeros agentes deve estar em cada esquina a vigiar-nos, pronto para mais uma multa, é tão absurda como culturalmente obsoleta. Em Espanha, por exemplo, a localização de todos os radares de controlo de velocidade está disponível em diferentes sites. Não é função do Estado garantir a nossa segurança na estrada pela via da repressão. É mais eficaz para garantir o cumprimento das velocidades autorizadas, numa auto-estrada, um carro caracterizado da BT do que um anónimo. Esse carro anónimo é uma expressão de visão repressiva do Estado e própria de sociedades que prezam mais a força do que a liberdade e a responsabilidade. E o tal sinal de luzes é mais eficaz no aconselhamento à moderação do que uma brigada escondida num arbusto. Evita a multa e obriga a travar. É isso que se espera do nosso Estado: mais do que existir para punir, deve estar presente antes do arbusto e enviar todos os sinais de luzes.



30 de Maio – Vem aí o cansaço.
A vida cansa. O Verão está quase aí e a selecção Scolari prepara-se para mais um mês de paciência moída, esperas a jogadores, desvario de jornalistas em reportagem, peregrinações de autocarro e outras deambulações pelo lado mais negro da alma humana.
Avanço pelo cinismo dentro, claro, admitindo que talvez, reafirmo, talvez, passe este mês colado ao ecrã, de jogo em jogo, adequando horário laboral às melhores partidas e aos jogos da selecção. Eu sei que assim será, mas bem que me poderiam poupar os preliminares. Vamos falar claro: não quero telejornais infindáveis sobre a dieta dos jogadores, os treinos dos jogadores, as mulheres dos jogadores, a ausência de vida sexual dos jogadores, as fãs dos jogadores, os velhos da aldeia que vêem a banda passar sem que a banda se digne a parar por eles (mas um microfone, esse, pára por qualquer coisa); aceito um pouco de comentário do Luís Freitas Lobo ou do António Tadeia, mas por favor não convidem o Oliveira do alho no balneário ou o Artur "olho negro" Jorge para dissertar sobre o trabalho do seleccionador ou as vicissitudes do apoio de um país à selecção; transmitam na televisão as grandes partidas de campeonatos de outros tempos, mas evitem os vislumbres dos toques do Ronaldo (apesar de andarem pelo You Tube umas imagens fantásticas de Ronaldinho e outros jogadores da selecção brasileira a curtirem com a bola num treino); podem mostrar entrevistas do Eusébio a falar do Mundial de 66, mas recusem o facilitismo da conversa com o emplastro sobre as decisões tácticas do seleccionador nacional.
Eu sei que posso escolher: mudar de canal, desligar o televisor, sentar-me a ler um livro - ou até voltar a ligar o aparelho e aproveitar para ver na Eurosport as retransmissões de partidas clássicas de antigos campeonatos. Mas, por defeito cultural ( a minha portugalidade ), queixo-me. Um mês de paz e sossego (relativos), de comemorações na rua, alegria para esquecer o cansaço da vida, uma dieta contida de transmissões sem gordura, sem refegos e enchidos para dar cabo do colesterol e da paciência.
A maior conquista de Scolari? Pôr um país inteiro um mês de quarentena. Portugal prepara-se para se exilar de si próprio.

Nova Aliança, 13 / Junho / 2008

O Estado da Nação, o Dicionário de Calão e Francisco Lucas Pires

2 de Maio – O estado da nação
Uma amiga regressa a Portugal e procura casa em Lisboa. Pede-me que a acompanhe a uma agência. Uma vez lá, diz ao que vai. Entre a Estrela e Entrecampos, está aberta a sugestões. Prefere construção dos anos 1950, não menos de 90 metros quadrados, não mais de 120, dispensa garagem, se possível duas casas de banho, ou espaço para construir a segunda. A brincar, vai dizendo que «Se puder ser num prédio do Cassiano Branco, tanto melhor», e o rapaz que nos atende, fato antracite Armani, gravata fúcsia de seda e a cabeça armada em gel, olhos no monitor, «Desse empreitreiro não temos nada». OK. Vejo desfilar somas vertiginosas. Barato significa 400 mil euros por um T3 de 1942 a precisar de obras. Um T2 de 1954, com 75 metros quadrados, a 360 mil euros, é dado como pechincha. Às tantas abstraio-me do diálogo para acompanhar num slide show algumas ofertas disponíveis. Estarei a ver bem? No centro de Lisboa, várias casas a rondar o milhão de euros. Não, não são palacetes na Lapa, nem moradias de 600 metros quadrados de área coberta no Restelo ou na Gago Coutinho, nem penthouses de 300 metros quadrados (e vista de rio) no Parque das Nações, nem apartamentos hi tech (e vista de lixo) nos novos condomínios de Alcântara. São casas vulgares, de 8 e 9 divisões, em bairros prosaicos e construção ainda mais prosaica. E, claro, meia dúzia de exemplos acima do milhão. Nisto tudo, uma coisa me intriga. Quem cobre estes lances? A banca não empresta tais somas. E os milionários não andam por aí aos pontapés. Se calhar sou eu que estou fora da realidade.
3 de Maio – Ir ao Bolso
Vejamos a situação: o sujeito A, preenchendo todas as condições, pede a aposentação. Como os serviços centrais da Segurança Social estão com um atraso de oito meses, é dada ordem ao sujeito A para continuar a trabalhar. Oito meses depois, ele é finalmente aposentado. Fim de história? Longe disso, ao sujeito A é pedido que devolva a diferença de vencimento entre o que ganhou realmente e o que teria direito oito meses antes, altura em que reunia todas as condições para se aposentar. Isto é Portugal em 2008.
12 de Maio – Porreiro, pá
Lê-se no Público: "O site do Instituto da Droga e da Toxicodependência IDT destinado a crianças e jovens a partir dos 11 anos contém um "Dicionário de Calão" que as associações de pais temem poder incentivar o consumo (...) No dicionário do site infanto-juvenil www.tu-alinhas.pt pode aprender-se que "betinho", “cocó” ou “careta” é “aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante”."
14 de Maio – Nojo
De novo no Público: “O primeiro-ministro, José Sócrates, o ministro da Economia e Inovação, Manuel Pinho, e vários membros do gabinete do chefe do Governo violaram a proibição de fumar no voo fretado da TAP que ligou Portugal e Venezuela e que chegou às cinco horas da manhã de ontem a Caracas (hora de Lisboa, 23h30 na capital venezuelana). O assunto foi muito comentado durante o voo por membros da comitiva empresarial que acompanha Sócrates e causou incómodo a algum pessoal de bordo.” De acordo com António Monteiro, porta-voz da companhia, “o cliente que freta um avião pode ter regras diferentes das da companhia”, pelo que pedir autorização para fumar é um serviço especial “tão normal como pedir para se servir outra refeição, distribuir determinados jornais ou ver certos filmes”. O que nos leva à seguinte questão: Ler jornais mata?
16 de Maio – Francisco Lucas Pires, sempre actual.
«A verdadeira tolerância, no entanto, é a que assenta na fortaleza das próprias convicções e os católicos não têm que ter uma atitude política passiva, clandestina, dividida, pessimista e subalterna. Não têm que deixar “laicizar” a mais importante parte do seu campo de consciência e acção – aquele que tem a ver com a “substância” e as “expressões” mais elevadas do seu ser social. A geral fraqueza da sociedade civil portuguesa não ajuda. Contribui mesmo para a perda das últimas certezas dessa sociedade. A concepção dominante da História é ainda demasiado imediatista e é nesse contexto que se explica o activismo, dirigismo e crescimento do Estado como único arrimo para a erosão da consciência política colectiva. Mas há que reagir e os católicos, com a Igreja, podem bem ser a parte mais sólida dessa recuperação da sociedade civil. Até como via para reabilitar a política e evitar que esta continue a ser um puro jogo de superfície, onde a própria renovação “ética” acabe por se transformar numa nova demagogia. Talvez a renovação “moral”, a partir da sociedade real e dos seus valores profundos, entranhadamente cristãos, seja afinal mais simples e mais eficaz do que a renovação “ética”, a partir, outra vez, dos modelos da Revolução, do Estado e dos seus partidos.»

Nova Aliança, 30 / Maio / 2008

14.5.08

Os lucros dos lares de idosos e a insegurança nas esquadras

22 de Abril – Solidariedade ou lucro?
Foi hoje notícia que “há lares de idosos sem fins lucrativos que arranjam vagas em troca de donativos”.
Estes lares de idosos fazem parte da rede de instituições de solidariedade social, incluindo as misericórdias, através da qual o Estado concretiza as suas políticas de acção social. Estamos perante instituições sem fins lucrativos com quem o Estado faz contratos, mediante um preço, com vista a assegurar o acolhimento e a prestação de serviços aos beneficiários que a elas recorrem.
É importante recordar que estas instituições sendo financiadas pelo Estado, ou melhor com os impostos cobrados aos contribuintes, devem cumprir com a legislação e as regras contratuais estabelecidas. A razão da sua existência é a satisfação de necessidades das pessoas carenciadas que a elas recorrem porque não auferem rendimentos que lhes permitam pagar serviços de assistência privados.
Não sei se são muitas as situações de instituições que exigem entregas adicionais – “direitos de entrada” – aos idosos carenciados e às suas famílias e não sei se a grande maioria ou uma minoria destas instituições utiliza ou não utiliza essas práticas. Agora o que sabemos é que é assumido pelas entidades da segurança social e por altos representantes das instituições de solidariedade social que a realidade existe. A segurança social queixa-se que tem dificuldade em actuar, sabendo que tal prática pode constituir crime de burla. As instituições de solidariedade social salientam que “muitas instituições estão a lutar pela sua sobrevivência” porque a comparticipação do Estado por idoso – fixada, segundo a notícia, em 330 € mensais – não chega para financiar metade do custo que em média um lar tem por cada pessoa internada.
Estamos assim perante situações ilegais, irregulares, imorais, em suma inadmissíveis, em que as instituições de solidariedade social fazem condicionar a atribuição de uma vaga em troca da entrega de uma entrada em dinheiro (segundo a mesma notícia o direito de entrada do caso apresentado ascendia a 15.000 €) ou até de uma herança futura como também consta.
O mais grave de tudo isto é que, no meio desta “selva”, são os idosos carenciados as vítimas destas práticas. São justamente estas pessoas que não tendo rendimentos necessitam do apoio do Estado e que não podendo fazer “donativos” porque os seus rendimentos não permitem ficam fora do sistema. Isto é, não têm acesso ao apoio do Estado.
É a total perversão do sistema, com o consentimento, pelos vistos, de uns e de outros. Uns por umas razões, outros por outras. No meio estão idosos indefesos e vulneráveis. Uma grande injustiça! Será que alguém está interessado em apurar responsabilidades? Em pôr cobro a este estado de coisas? Se as regras de financiamento e de funcionamento estão erradas, pois então que se alterem!

24 de Abril – O Estado? Sim!
“… o presidente da junta de freguesia da Ericeira contou que, após vários anos a aproveitar os óleos usados, a Direcção-Geral de Finanças do Ministério da Economia e a Direcção-Geral de Alfândegas informaram-no de que necessitava de legalizar a produção de biodiesel. «Fiz todos os esforços para me legalizar e, depois de preencher uma série de requisitos, fiquei espantado ao deparar que a quota está esgotada no país», disse Joaquim Casado.
Depois disso, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) multou a junta de freguesia em sete mil euros por lesar o Estado, ao «deixar de comprar combustíveis fósseis», porque ao não os comprar, o Estado «não arrecada a percentagem de 50 por cento»”.

28 de Abril – (In)Segurança.
Um rapaz de 20 anos foi ontem à esquadra de polícia de Moscavide queixar-se de uma agressão de que fora vítima. No momento em que formalizava a queixa, os agressores (um grupo de brasileiros) entraram na esquadra e deram-lhe um enxerto de porrada. O queixoso foi dali para o hospital. Na esquadra havia um único polícia. Isto é um domingo à tarde em Moscavide. Depois das tentativas iniciais de desvalorizar a invasão da esquadra da PSP de Moscavide não terem caído muito bem, o Ministro da Administração Interna vem agora considerar “desaconselhável” haver apenas um agente nas esquadras.
Caso não seja suficiente para acalmar a opinião pública, sugiro, em alternativa, duas medidas adicionais:
1- Um documentário de Diana Andringa que demonstre conclusivamente que a invasão da esquadra da PSP de Moscavide nunca aconteceu.
2- Para as esquadras localizadas em lugares mais pacíficos, penso que bastará um “Securitas” sentado a uma secretária a limar a unha. Este será um tremendo elemento dissuasor, para mais se for apoiado por um daqueles tradicionais sistemas electrónicos: uma câmara de vigilância e um alarme ligado à central, que quando activado soará em simultâneo... na esquadra da polícia, para um eficaz e pronto socorro.

Nova Aliança, 16 / Maio / 2008

Um bom exemplo, a escola de labregos e Musil

14 de Abril – Generosidade
Uma turma de uma secundária de Reguengos de Monsaraz, deixou de lado a possibilidade de recolher fundos destinados à viagem de finalistas, para ajudar a pagar o custo elevado da reparação do carro de um professor, acidentado durante uma actividade organizada pela escola.
Na falta de veículos que transportassem os alunos, um dos docentes emprestou a sua viatura que acabou acidentada, sendo vultosos os prejuízos.
Os alunos organizaram um jantar de recolha de fundos para reparação da viatura. E admitem abdicar da sua viagem de finalistas, canalizando o que juntarem para aquela necessidade.
Importa sublinhar estes exemplos. Dos professores generosos que empenham na educação tempo e meios para além do que é a sua obrigação. E de alunos que cultivam a solidariedade como valor. E a sobrepõem a apelos a que é natural não resistir naquela idade, como é o caso da almejada viagem de finalistas.
Aí está uma escola - Escola Secundária Conde de Monsaraz – que parece ser, acima de tudo, um centro de formação de bons cidadãos.

20 de Abril – Repetência ou Passagem?
A Ministra da Educação diz que "chumbar os alunos é a maneira mais fácil de resolver o problema...". E eu pergunto: para quê, então, complicar?
Mas a Ministra continua a falar: "...O que significa é que a repetência devia constituir um espaço de trabalho efectivo para que eles recuperassem. O problema é que esses alunos nunca recuperam".
E eu pergunto, mais uma vez: então, para evitar a repetência, dá-se aos alunos a passagem, como forma de recuperação?

21 de Abril – Labrego, sê-lo ou não.
Os conflitos entre alunos e professores na escola estão longe de terminar. Muito longe mesmo. Uma menina teria apelidado a professora de ‘labrega’ e a visada ameaçou ir para tribunal. A mãe julga exagerada essa reacção e esclarece: “Para mim, ‘labrega’ é uma pessoa do Norte”.
Quem sou eu para negar o monopólio dessa condição a ‘Norte’ (conceito vago que, a crer no futebol, consistirá numa espécie de mapa entre a Póvoa de Varzim e Aveiro) mas uma rápida consulta do dicionário desmentiria tal definição. Ora, embora a senhora nunca o venha a perceber, foi ela a autora da ofensa mais rude – quero dizer com isto que a afronta da mãe explica a da sua filha e explica muitas coisas na sociedade portuguesa.

23 de Abril – Um muito bom livro.


Esta é, desde já, uma das edições mais importantes entre todas as que ocorrerão em Portugal no decurso deste ano. Chama-se O Homem sem qualidades e é da autoria de Robert Musil. Os dois volumes que a Dom Quixote acaba de fazer chegar às livrarias constituem, no nosso país, a primeira versão completa, traduzida directamente do alemão, do incompleto romance musiliano. João Barrento, o responsável pela presente versão de Der Mann ohne Eigenschaften, referiu ter andado três anos à volta do texto, o que até nem é muito, sobretudo se tivermos em conta que, para o autor, o romance ocupou bem mais de dez; começou a ser publicado em 1930 e representou um projecto em trabalho permanente até à morte de Musil, em 1942.
A importância de O Homem sem Qualidades para uma modernidade literária marcada pelo questionamento e mesmo pela sabotagem da organização que poderíamos chamar clássica da linguagem não parece tão visível como no caso de outros romances (como Ulysses, por exemplo), mas a verdade é que o início se constitui desde logo como o oposto do que tradicionalmente seria o começo de uma narrativa, precisamente por anunciar que nada acontece. Ao mesmo tempo, a descrição parcelar das condições atmosféricas, no aparente intuito de localizar a acção no tempo, indicia a impossibilidade de apreender a totalidade, o que é uma das características mais assinaláveis da modernidade.
Não surpreende, portanto, que o romance questione o modelo oitocentista da narrativa, não só porque se baseia, em grande medida, em diálogos reflexivos e em digressões que servem fundamentalmente para prolongar o que é ensaiado nas falas das personagens, mas também porque a ironia se constitui como o próprio modelo estrutural do livro. Esta questão pode ser mais facilmente compreendida se recorrermos a uma cena em que Ulrich, o protagonista, é obrigado a interromper uma série de importantes reflexões por ter chegado ao seu local de destino. O que Musil sugere aí é que o lugar do pensamento no nosso tempo não é mais do que o percurso entre dois espaços, ou seja, o que sobra da acção. Assim, a ironia vira se contra a obra que a funda e impede que esta se tome demasiado a sério, abrindo espaço para a contingência, para a possibilidade, em suma, para o acaso.


Nova Aliança, 2 / Maio / 2008

21.4.08

Masculino ou Feminino? , a Madeira e a Islândia

3 de Abril – Género masculino ou feminino? –

Thomas Beatie tem uma história que, até certo ponto, não é original: Thomas nasceu com sexo feminino e não gostou.
Vai daí, fez o que vários outros, em circunstâncias igualmente complicadas, também fizeram: "mudou" de sexo. Um necessário implante, algumas aconselháveis remoções e, a toques de testosterona, lá trilhou os caminhos da sua transformação: voz mais grave, formas físicas masculinas e espuma de barbear no seu wc.
Até aqui, tudo bem.
Acontece, porém, que ( segundo a imprensa ) Thomas Beatie está grávido.
Através de um processo de inseminação, o referido senhor conseguiu realizar um presumível sonho seu: ter um filho.
Mas há-de ter conseguido mais.
É previsível que a parte mais recente da sua história seja narrada com recurso exaustivo a termos como "preconceito" e "discriminação fundada em motivos religiosos". É conhecida a fórmula, não entrarei por aqui.
Entro, sim, por uma certeza de que não se livrará: com a realização do seu presumível sonho, Thomas Beatie deita por terra os efeitos de anos e anos de transformação. Doravante, Beatie dificilmente conseguirá destacar a condição de transexual em detrimento do estatuto de mulher mascarada.
Se tudo lhe correr regularmente, em Julho de 2008 Thomas Beatie será mãe. E se dúvidas restarem acerca do seu género, elas acabarão aqui.
4 de Abril – Dezasseis anos são uma eternidade -
Os socialistas madeirenses estão zangados com Jaime Gama e têm razão para isso, porque um partido não é, propriamente, um fórum de debate para filósofos ( muito menos o PS, apesar de o seu líder se chamar Sócrates ), mas um corredor que dá ou devia dar acesso ao poder. Os socialistas madeirenses lembram que Jaime Gama chamou Bokassa (o ditador africano) a Alberto João Jardim há dezasseis anos, e que agora lhe elogia a obra e o trajecto; ora, dezasseis anos são uma eternidade que pode ter mudado quer Jardim quer Jaime Gama. Pelo que conheço de Jardim, não parece que se tivesse alterado muito do perfil e da substância da sua figura política; já de Jaime Gama não sei, mas tenho as minhas impressões sobre o PS – e uma delas é a de que o presidente do Parlamento ( e segunda figura do Estado ) não costuma dar ponto sem nó, ou seja, nunca é inocente num deslize, se se trata de um deslize. Jaime Gama a elogiar Jardim significa que ignora o partido – e que Jardim deve ser reanalisado. E que quis dizer aquilo que disse.




9 de Abril – Afinal não é a Finlândia –

Parece que a Islândia, esse país cinzento e frio, ganhou o primeiro lugar no ranking dos países onde as pessoas são mais felizes e é o lugar do mundo onde se pode dizer que se vive melhor. De acordo com um artigo publicado na revista do El Pais de 6 de Abril, os habitantes desse paraíso sabem educar crianças saudáveis e felizes, vivem descontraídos porque os seus problemas têm respostas adequadas, são práticos e sem preconceitos e têm uma noção de sociedade solidária, multicultural, que só tem paralelo nas aldeias dos países africanos. Alguns dados estatísticos são bem expressivos: índice de natalidade mais elevado da Europa e idade jovem das mães, apesar da elevada taxa de trabalho feminino, 6º rendimento per capita do mundo; maior número de pessoas que compram livros, elevada expectativa de vida, incrível crescimento das exportações, cultura sistemática de protecção do ambiente.
Não sei se a explicação para este fenómeno está na importância das mulheres nessa sociedade – a Islândia foi o primeiro país há vinte e oito anos a eleger uma mulher para Presidente, mas para já podemos acreditar nos motivos que o antigo presidente da Câmara de Reikiavik adianta para terem educação gratuita de alta qualidade, serviços públicos de saúde tão competitivos que a clínica privada só se ocupa dos serviço estéticos de luxo, captarem cérebros e fixarem empresas, entre outros sucessos retumbantes. Diz o ex presidente da Câmara, médico e político ( a participação política e cívica é geral ) que essa prosperidade é explicada “porque os Governos adoptam políticas progressistas e sensatas e a matéria prima humana da ilha é forte, pragmática e imaginativa. Há uma relação íntima entre a saúde do país e a qualidade das decisões políticas que se tomam (…) para a saúde de um pais, mais importante que não fumar são os fenómenos sociais em que fazemos ‘finca pé’ – igualdade, paz, democracia, água limpa, educação, energia renovável e direitos da mulher.”
Parece simples, não é? Se não fosse tão frio, apetecia dar lá um saltinho só para ver de perto…



Nova Aliança, 17 / Abril / 2008

14.4.08

António Barreto e o caso do telemóvel

O que será preciso acrescentar quando alguém já disse o que deve ser dito? Com a devida vénia, eis o modo como António Barreto “vê” a questão resultante do caso do telemóvel na escola do Porto, publicado no Público de 30 de Março. O título é, sugestivamente, A Balbúrdia na Escola.

“AS CENAS DE PANCADARIA NA ESCOLA têm comovido a opinião. A última em data, com especial relevo, ocorreu numa escola do Porto e foi devidamente filmada por um colega. Em poucas horas, o “clip” correu mundo através do YouTube. A partir daí, choveram as análises e os comentários. Toda a gente procura responsáveis, culpados e causas. Os arguidos são tantos quanto se possa imaginar: os jovens, os professores, os pais, o ministério e os políticos. E a sociedade em geral, evidentemente. As causas são também as mais diversas: a democracia, os costumes contemporâneos, a cultura jovem, o dinheiro, a televisão, a publicidade, a Internet, a permissividade, a falta de valores, os “bairros”, o “rap”, os imigrantes, a droga e o sexo. Para a oposição, a culpa é do governo. Para o governo, a culpa é do governo anterior. O trivial.
Deve haver um pouco disso tudo. O que torna as coisas mais complicadas. Sobretudo quando se pretende tomar medidas ou conter a vaga crescente de violência e balbúrdia. Se as causas são múltiplas, por onde começar? Mais repressão? Mais diálogo? Mais disciplina? Mais co-gestão? Há aqui matéria para a criação de várias comissões, a elaboração de um livro branco, a aprovação de novas leis e a realização de inúmeros estudos. Até às eleições, haverá alguns debates parlamentares sobre o tema. Não tenho a certeza, nem sequer a esperança, que o problema se resolva a breve prazo.
DE QUALQUER MANEIRA, a ocasião era calhada para voltar a ver a obra-prima do esforço legislativo nacional, o famoso “Estatuto do aluno”. A sua última versão entrou em vigor em finais de Janeiro, sendo uma correcção de outro diploma, da mesma natureza, de 2002. Trata-se de uma espécie de carta constitucional de direitos e deveres, a que não falta um regulamento disciplinar. Não se pode dizer que fecha a abóbada do edifício legal educativo, porque simplesmente tal edifício não existe. É mais um produto da enxurrada permanente de leis, normas e regras que se abate sobre as escolas e a sociedade. É um dos mais monstruosos documentos jamais produzidos pela Administração Pública portuguesa. Mal escrito, por vezes incompreensível, repete-se na afirmação de virtudes. Faz afirmações absolutamente disparatadas, como, por exemplo, quando considera que “a assiduidade (...) implica uma atitude de empenho intelectual e comportamental adequada...”! Cria deveres inéditos aos alunos, tais como o de se “empenhar na sua formação integral”; o de “guardar lealdade para com todos os membros da comunidade educativa”; ou o de “contribuir para a harmonia da convivência escolar”. E também os obriga a conhecer e cumprir este “estatuto do aluno”, naquele que deve ser o pior castigo de todos! Quanto aos direitos dos alunos, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar, incluindo os de participar na elaboração de regulamentos e na gestão e administração da escola, assim como de serem informados sobre os critérios da avaliação, os objectivos dos programas, dos cursos e das disciplinas, o modo de organização do plano de estudos, a matrícula, o abono de família e tudo o que seja possível inventar, incluindo as normas de segurança dos equipamentos e os planos de emergência!
TRATA-SE DE UM ESTATUTO burocrático, processual e confuso. O regime de faltas, que decreta, é infernal. Ninguém, normalmente constituído, o pode perceber ou aplicar. Os alunos que ultrapassem o número de faltas permitido podem recuperar tudo com uma prova. As faltas justificadas podem passar a injustificadas e vice-versa. As decisões sobre as faltas dos alunos e o seu comportamento sobem e descem do professor ao director de turma, deste ao conselho de turma, destes à direcção da escola e eventualmente ao conselho pedagógico. As decisões disciplinares são longas, morosas e processualmente complicadas, podendo sempre ser alteradas pelos sistemas de recurso ou de vaivém entre instâncias escolares. Concebem-se duas espécies de medidas disciplinares, as “correctivas” e as “sancionatórias”. Por vezes, as diferenças são imperceptíveis. Mas a sua aplicação, em respeito pelas normas processuais, torna inútil qualquer esforço. As medidas disciplinares são quase todas precedidas ou acompanhadas de processos complicados, verdadeiros dissuasores de todo o esforço disciplinar. As medidas disciplinares dependem de várias instâncias, do professor aos órgãos da turma, destes aos vários órgãos da escola e desta às direcções regionais. Os procedimentos disciplinares são relativos ao que tradicionalmente se designa por mau comportamento, perturbação de aula, agressão, roubo ou destruição de material, isto é, o dia-a-dia na escola. Mas a sua sanção é de tal modo complexa que deixará simplesmente de haver disciplina ou sanção.
O ESTATUTO cria um regime disciplinar em tudo semelhante ao que vigora, por exemplo, para a Administração Pública ou para as relações entre Administração e cidadãos. Pior ainda, é criado um regime disciplinar e sancionatório decalcado sobre os sistemas e os processos judiciais. Os autores deste estatuto revelam uma total e absoluta ignorância do que se passa nas escolas, do que são as escolas. Oscilando entre a burocracia, a teoria integradora das ciências de educação, a ideia de que existe uma democracia na sala de aula e a convicção de que a disciplina é um mal, os legisladores do ministério da educação (deste ministério e dos anteriores) produziram uma monstruosidade: senil na concepção burocrática, administrativa e judicial; adolescente na ideologia; infantil na ambição. O estatuto não é a causa dos males educativos, até porque nem sequer está em vigor na maior parte das escolas. Também não é por causa do estatuto que há, ou não há, pancadaria nas escolas. O estatuto é a consequência de uma longa caminhada e será, de futuro, o responsável imediato pela impossibilidade de administrar a disciplina nas escolas. O estatuto não retira a autoridade na escola (aos professores, aos directores, aos conselhos escolares). Não! Apenas confirma o facto de já não a terem e de assim perderem as veleidades de voltar a ter. O processo educativo, essencialmente humano e pessoal, é transformado num processo “científico”, “técnico”, desumanizado, burocrático e administrativo que dissolve a autoridade e esbate as responsabilidades. Se for lido com atenção, este estatuto revela que a sua principal inspiração é a desconfiança dos professores. Quem fez este estatuto tinha uma única ideia na cabeça: é preciso defender os alunos dos professores que os podem agredir e oprimir. Mesmo que nada resolva, a sua revogação é um gesto de saúde mental pública.”

Nova Aliança, 3 / Abril / 2008

2.4.08

Bento XVI e a Educação

Detenhamo-nos um pouco nas palavras do Santo Padre, pronunciadas recentemente:

«Chegamos assim, queridos amigos de Roma, talvez ao ponto mais delicado da obra educativa: encontrar um justo equilíbrio entre a liberdade e a disciplina. Sem regras de comportamento e de vida, feitas valer dia após dia também nas pequenas coisas, não se forma o carácter e não se está preparado para enfrentar as provas que não faltarão no futuro. Mas a relação educativa é antes de tudo o encontro de duas liberdades e a educação com sucesso é formação para o recto uso da liberdade. Mas à medida que a criança cresce, torna-se um adolescente e depois um jovem; portanto devemos aceitar o risco da liberdade, permanecendo sempre atentos a ajudá-lo a corrigir ideias e opções erradas. O que nunca devemos fazer é favorecê-lo nos erros, fingir que não os vemos, ou pior partilhá-los, como se fossem as novas fronteiras do progresso humano. Portanto, a educação nunca pode prescindir daquela respeitabilidade que torna credível a prática da autoridade. De facto, ela é fruto de experiência e competência, mas adquire-se sobretudo com a coerência da própria vida e com o comprometimento pessoal, expressão do amor verdadeiro. Portanto, o educador é uma testemunha da verdade e do bem: sem dúvida, também ele é frágil e pode falhar, mas procurará sempre de novo pôr-se em sintonia com a sua missão. Caríssimos irmãos de Roma, destas simples considerações sobressai como é decisivo na educação o sentido de responsabilidade: responsabilidade do educador, certamente, mas também, e na medida em que cresce com a idade, responsabilidade do filho, do aluno, do jovem que entra no mundo do trabalho. É responsável quem sabe responder a si mesmo e aos outros. Além disso, quem crê procura responder a Deus que o amou primeiro. A responsabilidade é em primeiro lugar pessoal, mas existe também uma responsabilidade que partilhamos juntos, como cidadãos de uma mesma cidade e de uma nação, como membros da família humana e, se somos crentes, como filhos de um único Deus e membros da Igreja. De facto as ideias, os estilos de vida, as leis, as orientações gerais da sociedade em que vivemos, e a imagem que ela dá de si mesma através dos meios de comunicação, exercem uma grande influência sobre a formação das novas gerações, para o bem mas muitas vezes também para o mal. Contudo a sociedade não é uma abstracção; no final somos nós próprios, todos juntos, com as orientações, as regras e os representantes que elegemos, mesmo sendo diversos os papéis e as responsabilidades de cada um. Portanto, há necessidade da contribuição de cada um de nós, de cada pessoa, família ou grupo social, para que a sociedade, começando pela nossa cidade de Roma, se torne um ambiente mais favorável à educação. Por fim, gostaria de vos propor um pensamento que desenvolvi na recente Carta Encíclica Spe salvi sobre a esperança cristã: a alma da educação, como de toda a vida, só pode ser uma esperança certa. Hoje a nossa esperança está insidiada de muitas partes e corremos o risco de nos tornarmos, também nós, como os antigos pagãos, homens "sem esperança e sem Deus neste mundo" como escrevia o apóstolo Paulo aos cristãos de Éfeso (Ef 2, 12). Precisamente daqui nasce a dificuldade talvez mais profunda para uma verdadeira obra educativa: na raiz da crise da educação está de facto uma crise de confiança na vida.»

Da Carta do Papa Bento XVI à diocese e cidade de Roma sobre a tarefa urgente da educação, Vaticano, 21 de Janeiro de 2008

Nova Aliança, 20 / Março / 2008

O túnel do Rossio e a violência

15 de Fevereiro - É absolutamente normal que os cirurgiões de hospitais públicos portugueses tenham dois ordenados. Um para lá estarem fisicamente. Outro para trabalharem enquanto lá estão.

16 de Fevereiro - A Ginjinha esteve fechada por não ter casa de banho. A Ginjinha reabriu sem casa de banho. Hoje, estamos mais seguros exactamente em quê? Poderão ter a gentileza de listar os, certamente inúmeros, casos de  intoxicação alimentar na Ginjinha que foram notícia antes do estado ter decidido zelar pela nossa saúde?
17 de Fevereiro - Foi criada uma conta  para ajudar a família do sargento Luís Gomes, no balcão do Montepio de Torres Novas com o NIB: 003600699910007345677.
São necessários 30 mil euros para a indemnização do pai biológico da criança e as custas com a justiça e advogados ascendem a 40 mil.
18 de Fevereiro - «Vitalino Canas já veio exigir provas das afirmações do bastonário presidente da câmara de Lisboa. «São declarações que têm de ser bem sustentadas e demonstradas porque são acusações sérias», salientou o porta-voz do PS, afirmando que espera ver Marinho Pinto António Costa «a comprovar essas declarações. Entretanto, o Procurador-Geral, presidente da ERC Pinto Monteiro, Azeredo Lopes anunciou que determinou a abertura de um inquérito às declarações do bastonário presidente da Ordem dos Advogados Câmara Municipal de Lisboa, disse à Lusa fonte da Procuradoria ERC.»
19 de Fevereiro - Foi reaberta a estação central de Lisboa três anos e dez milhões de euros depois dos problemas no túnel do Rossio.
O Governo andou bem: mudou de empreiteiro e conseguiu poupar tempo e dinheiro.
Curioso foi o discurso do primeiro-ministro: disse Sócrates, com o arrebatamento que as inaugurações provocam aos governantes, que o “túnel do Rossio faz já parte da identidade não apenas de Lisboa mas de todos os portugueses“.
Quem se atreveria a negá-lo? O túnel do Rossio é um paradigma das questões nacionais tal como a Expo’98, os engarrafamentos no garrafão da ponte e as complicações nos acessos a Campolide - se o assunto é importante para Lisboa tem de ser fundamental para o País.
E todos nós, no Porto, em Braga, em Vila Real, em Aveiro, em Bragança e em Faro, esquecemos a crise e suspiramos de felicidade ao pensarmos que os comboios já circulam no túnel do Rossio.


20 de Fevereiro -Agora que o Tribunal de Contas chumbou, e muito bem, o empréstimo que permitiria a António Costa continuar a gerir a autarquia à larga, adiando as soluções para depois das próximas eleições, talvez valha a pena lembrar ao Sr. Presidente que tem muito por onde pegar, para começar a resolver os problemas da cidade. Tem por lá “a pesada estrutura da autarquia mais a E-nova, a Ambelis, a OML, a ATL, as SRU, a EGEAC, a Emarlis, a Gebalis, a Lispolis, a Casa da América Latina e sei lá que mais organismos que dão emprego a milhares de eleitores e respectivas famílias e a muitos quadros do(s) partidos(s).” E por isso pode começar a trabalhar e a “fazer o que é preciso - fechar grande parte destas estruturas devastadoras de recursos, diminuir o quadro de pessoal da câmara, cortar subsídios,dizer muitas vezes não”.  Por aqui se vê a fibra de um político. Temos homem na autarquia ou vamos apenas assistir à choraminguice do costume e à habitual distribuição de culpas?
24 de Fevereiro – Onda de violência. Um dias destes, um homem saiu de casa para ir beber a "bica" no café habitual. Saiu de lá cadáver, com um tiro disparado à queima-roupa. Uma mulher preparava-se para estacionar o carro, ir para casa, começar o fim de semana e acabou morta à tiro enquanto falava ao telemóvel com uma amiga. Um rapaz de vinte anos fechou a loja num centro comercial e, quando se dirigiu ao carro, foi surpreendido por um tiro na cabeça que o deixou em coma. Um filho matou os pais esmagando-lhes a cabeça, suicidando-se de seguida. A esta gente silenciada pela violência gratuita resta-lhe a infeliz consolação de não ter de ouvir a retórica política produzida nestes momentos, a velha retórica da "confiança". Eu sou desconfiado por natureza e prevejo um agravar da situação nos próximos tempos. Por isso, pelo sim, pelo não, há por aí alguém que me venda uma arma, de preferência com silenciador?

Nova Aliança, 6 / Março / 2008

3.3.08

A nova ponte, o Bastonário e os projectos ga Guarda e Covilhã

8 de Fevereiro - O LNEC recebe uma nova encomenda logo após o estudo do novo aeroporto. Esta possibilidade devia ter sido logo posta de parte antes do estudo sobre o novo aeroporto. Só assim a decisão do LNEC sobre o novo aeroporto teria sido totalmente livre. O LNEC andou a estudar o novo aeroporto sabendo que se a resposta fosse do agrado do ministro então poderia ter direito a novas encomendas. A questão é ainda mais grave se tivermos em conta que a necessidade de um estudo sobre a nova ponte foi criada pela conclusão a que chegou o estudo sobre o novo aeroporto. A decisão sobre a nova ponte também não será livre. Já se percebeu que poderão existir novas encomendas na calha. Se o LNEC der a resposta “errada”, perde as encomendas. Tem todos os incentivos para dar a resposta “certa”.
10 de Fevereiro - Marinho Pinto disse a verdade. O País que manda reagiu mal. Primeiro, acusaram-no de falta de fundamentação e clamaram por “provas”. Depois falaram de “populismo”, de querer aproveitar descontentamentos de toda a espécie. Logo insinuaram sinistras “ambições políticas”. Agora, nas ‘conversas de pé da orelha’, sugerem que o bastonário não está bom da cabeça.
No resto do Mundo atribui-se às crianças pequenas a faculdade de tudo dizerem sem estarem atadas a ajustes cirúrgicos entre a sinceridade e a moral social - por cá, nem isso concedemos e temos um ditado que ensina assim: “Dizer a verdade como os malucos.” Porque, durante séculos, fomos amestrados a mentir para podermos existir.
Perante a campanha de desacreditação que estamos e vamos continuar a assistir, o cidadão deve estar armado com uma simples evidência: Marinho Pinto disse a verdade.
12 de Fevereiro – No jornal Público: “Inspecção-Geral das Actividades em Saúde vai investigar incentivos à realização de transplantes”. Parece que os médicos precisam de incentivos para salvar vidas. A vida humana afinal tem um preço. E não é baixo. Esses incentivos estão a ser distribuidos de forma muito pouco igualitária. Ainda não se descobriu uma fórmula para nacionalizar as capacidades dos médicos.
13 de Fevereiro - Mário Crespo, no JN, desculpa Sócrates recorrendo aos padrões da época. Nos anos 80 toda a gente fazia aquilo. De facto, nos anos 80, tal como agora, a corrupção infiltrava todos os níveis do aparelho de Estado. Pelo menos Mário Crespo não procura negar os factos. Eu, pessoalmente, até aceito a desculpa. O que não estou a ver é porque razão é que desculpas semelhantes haveriam de deixar de ser válidas para o momento presente. O SNS desperdiça dinheiro? Não faz mal, esse é o padrão da nossa época. Há fuga ao fisco? Não faz mal, esse é o padrão da nossa época. Como é que um político que seguiu os piores padrões dos anos 80 pode convencer os seus concidadãos a mudar os padrões actuais?
14 de Fevereiro - As notícias sobre Sócrates produziram alguns resultados interessantes:
A RTP usou a expressão “A nova ofensiva do jornal Publico contra o PM (…)” para noticiar o caso. Proponho que o Público passe a referir-se às notícias da RTP como “Mais um frete da RTP ao governo …”. O primeiro-ministro classificou, com ar muito ofendido, as notícias do Público como “ataque pessoal e político”. Como se isso constituísse algum ilícito. Admito que lhe faça confusão ainda existirem órgãos de comunicação que publicam notícias desfavoráveis. É a vida. Ontem, Sócrates desmentiu a notícia do Público que dizia que ele tinha assinado projectos manuscritos por outras pessoas. De seguida, confirmou a notícia ao assumir não apenas a responsabilidade como também a autoria de todos os projectos. Repare-se: ele dia que todos os que assinou são da sua responsabilidade, não diz que foi ele que os fez. A diferença é importante... A notícia está confirmada a partir do momento em que Sócrates assume a autoria de projectos manuscritos por outros. Hoje negou ter auferido qualquer remuneração para além da que auferiu como deputado. Pretendeu dessa forma desmentir a notícia do Público. O Público, por seu lado, não afirmou que Sócrates recebeu qualquer remuneração para além da que auferiu como deputado. Limitou-se a afirmar que Sócrates desempenhou funções para além das de deputado.
Depois de ontem ter assumido a autoria de todos os projectos, hoje Sócrates alegou que a sua actividade a partir de 1989 foi residual.

Nova Aliança, 21 / Fevereiro / 2008

8.2.08

O "sucesso", a ASAE e as contas espanholas

20 de Janeiro - Ontem o senhor José Sócrates Pinto de Sousa andou a fazer aquilo que se chama a gestão das expectativas. A ideia é um bocado infantil, mas faz parte da cultura política portuguesa. Acredita-se que se o Primeiro-Ministro disser que a economia vai bem, então os agentes económicos investem e produzem e a economia ficará mesmo bem. A gestão das expectativas já em si mesmo uma ideia estúpida, mas é ainda mais estúpida quando praticada por um político que já mentiu várias vezes e cuja credibilidade é nula.

Imagine-se o capitão do Titanic a gerir expectativas:

-- Não, não era um iceberg, era apenas um pedaço de madeira.
-- As bombas vão tirar esta água toda.
-- Inclinar? Claro que não está a inclinar ...
-- Há botes para todos e ainda sobra.
-- A água está quentinha.

22 de Janeiro - É nestes artigos da lei que Francisco George se apoia para dizer que a legislação não oferece dúvidas. "As discotecas não são restaurantes, não lidam com alimentos, pelo que não estão sujeitos às mesmas restrições de espaço para fumadores", disse ao DN. Uma situação que deixa às discotecas margem de manobra para decidirem a extensão das suas áreas azuis. Acontece que o número 5 engloba não só as discotecas, como os órgãos de soberania, centros comerciais, feiras, aeroportos, estações ferroviárias, locais de trabalho, estabelecimentos de ensino (desde que tenham alunos com mais de 18 anos), lares e salas de espectáculo - que podem agora exigir tratamento igual.

24 de Janeiro – Notícia do Jornal de Notícias: "Dos 60 funcionários da Direcção Regional da Agricultura e Pescas do Norte que foram colocados no quadro de Mobilidade Especial e cuja providência cautelar foi deferida pelo Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto, quatro estão já a trabalhar em outros serviços do Ministério da Agricultura, sete estão em outros ministérios e dois aposentaram-se.
Em conferência de imprensa, o ministro Jaime Silva referiu que, dos 47 funcionários restantes abrangidos pela providência cautelar "11 apresentaram-se hoje" nos serviços e "o Ministério da Agricultura encontrará um local apropriado para serem instalados""
 Isto apesar do ministro ter afirmado que algumas das suas funções foram extintas. Assim vai a mobilidade deste Governo.
25 de Janeiro - O inspector-geral da ASAE, António Nunes, garante nunca ter defendido o encerramento de metade dos restaurantes portugueses, tendo sublinhando apenas a necessidade de modernização do sector. “O que quis dizer é 50 por cento da restauração precisava de modernizar-se, adaptar-se”, afirmou António Nunes, durante a audição na comissão parlamentar de Assuntos Económicos, agendada a pedido do CDS-PP. Há cerca de três semanas, em entrevista ao semanário “Sol”, o inspector-geral da Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica argumentava que metade dos restaurantes e cafés portugueses “estão condenados a fechar” devido ao incumprimento de regulamentos comunitários.
26 de Janeiro - O Governo espanhol decidiu devolver cinco mil milhões de euros aos contribuintes, “como forma de estimular a economia”.
Por cá, o Orçamento do Estado para 2008 vai levar-nos mais 2,3 mil milhões de euros a mais do que o OE de 2007, que nos levou mais 2,4 mil milhões do que o OE de 2006, que nos levou mais 2,7 mil milhões do que o OE de 2005. Naturalmente, como forma de estimular a despesa pública!...
Zapatero, embora socialista, há muito entendeu que a despesa pública, na actual situação das economias em que nos inserimos, não gera riqueza. Em Portugal, todos os bem pensantes ainda pensam que sim e apoiam a política fiscal do Governo. Com os resultados que estão à vista.

27 de Janeiro - Por falar em assuntos que aparentemente não interessam aos jornais ( por exemplo, o enriquecimento surpreendente de alguns políticos, incluindo autarcas, gestores, etc ), o economista Medina Carreira, entrevistado ontem por Mário Crespo, comentando as recentes declarações do Bastonário dos Advogados, lembrou o óbvio: «Indivíduos que chegam a Lisboa com uma mão atrás e outra à frente e são hoje detentores de grandes fortunas» (cito de cor). E «ninguém quer saber», acrescentou. De facto. É nestas alturas que tenho saudades do velho Indy ou Independente, como queiram. E já agora, tenho saudades de todos os que se insurgiram no passado com as injustiças de alguns governantes e de alguns regimes e que agora metem o rabinho entre as pernas, assobiam para o lado e vivem no paraíso. Coitados…

Nova Aliança, 7 / Fevereiro / 2008

Os santos nas escolas, Luís Pacheco e o novo aeroporto

1 de Janeiro – O fumo “bom” - O director da ASAE foi apanhado a fumar num espaço fechado, mas garante que não estava a violar a lei. Parece que dentro de um casino o fumo não prejudica a saúde…


6 de Janeiro – Nomes dos Santos nas escolas - Uma escola que se chame Escola Secundária Santo António passará a chamar-se Escola Secundária Fernando Martim de Bulhões. Uma que se chame Escola Secundária Santo Agostinho passará a chamar-se Escola Secundária Aurélio Agostinho ou Escola Secundária Agostinho de Hipona. A Escola Secundária Rainha Santa Isabel vai passar a chamar-se Escola Secundária Isabel de Aragão.

É possível que a Escola Secundária Padre António Vieira tenha que se chamar Escola Secundária Sr. António Vieira.

Uma hipotética Escola Secundária Nossa Senhora de Fátima terá que mudar de nome para Escola Secundária Fatima bint Muhammad.

7 de Janeiro – Os nossos bolsos - Não sei se ficou claro para todos: são 68 cêntimos por mês que o governo vai pagar aos reformados para não lhes entregar, em Janeiro, o aumento a que têm direito relativo a Dezembro. O secretário de Estado explicou na SIC essa sua tendência para a generosidade: «Não seria aceitável que os pensionistas recebessem um valor de pensão qualquer em Janeiro e no mês seguinte o valor do seu recibo de pensão era menor, diminuía.» Não seria nada aceitável. Está na cara. E quanto a juros, qual é o banco em que o governo tem conta?

9 de Janeiro – Ele dará o exemplo? - Em matéria de linguagem, o director da ASAE ensinou o caminho: “É o rumo desta sociedade e nós, se não quisermos viver nesta sociedade, temos a hipótese de emigrar.”

11 de Janeiro – O exame conterá matéria da TLEBS ? - Esta história, contada no Diário de Notícias, é exemplar: como é que uma emigrante cabo-verdiana, de 48 anos, que trabalha 16 horas por dia, que está em Portugal desde 2000, que vive com o marido e os três filhos, que tem casa própria, que paga contribuições, que tem vida feita aqui, tem o descaramento de pedir a nacionalidade, se não passa no exame de Língua Portuguesa? Ah, nação valente, imortal, quantas das tuas lágrimas são o orgulho de Portugal?

12 de Janeiro – Um escritor bem “português” - Há dois séculos que a literatura portuguesa anda a tentar inventar imagens fiéis da "nossa terra". Quando se fizer o balanço dessa velha mania, ver-se-á que alguns dos esforços mais memoráveis são de Luiz Pacheco. Por exemplo, Porto-Lisboa a pedir esmola. Eis o resumo (versão de Exercícios de Estilo, a melhor): no Porto, decidido a ir de comboio para Lisboa, o autor só tem dinheiro para o bilhete até Soure. Tenta, com uma mentira, comover o chefe da Estação de S. Bento: espera-o em Lisboa uma pessoa de família doente. O chefe de estação percebe a vigarice, mas decide empurrar para a frente: que compre bilhete para Soure, e, em lá chegando, fale com o chefe do comboio. Em Soure, o chefe do comboio barafusta imenso, mas (e é o que importa) não o põe fora na estação, passando a chatice ao revisor. Este, sem vontade de levantar o devido "auto", tem uma ideia para "legalizar" o viajante: e se ele pedisse esmola aos outros passageiros? O próprio revisor chama a atenção da carruagem (de terceira classe, apinhada de gente, cestos e garrafões), e exibe o desgraçado: sem bilhete, em chegando a Santa Apolónia, irá preso (mentira). Todos se condoem: coitadinho. As moedas aparecem, o bilhete e a multa são pagos. Pela cabeça do autor passa a ideia de recorrer novamente ao truque da próxima vez que viajar.
Aldrabice, aversão às responsabilidades, sentimentalismo: é um Portugal imaginado, mas a quem é que apetece dizer que não é verdadeiro?

13 de Janeiro - Aeroporto Mário Lino - A cara de pau de Mário Lino sentado ao lado de Sócrates quando este anunciava que o novo aeroporto ficará no suposto "deserto" e, paradoxalmente, tinha o topete de gabar o ministro que tinha feito da Ota um "compromisso pessoal", é bem reveladora da extrema elasticidade da espinha moral de quem nos governa. São capazes de admitir tudo e o seu contrário, reduzem a pó as suas promessas mais enfáticas com a maior facilidade, abandonam compromissos éticos em nome da "ética da responsabilidade" e mentem, mentem sempre, compulsivamente, quase por acto de fé.
Apesar de tudo, o dia de hoje é feliz - evitou-se um erro gigantesco e pouparam-se muitos milhões ao erário público (e privado, por consequência socialista). E muito se deve a Mário Lino: sem a sua actuação politicamente grotesca, talvez a Ota fosse para a frente. No mínimo, o futuro aeroporto de Alcochete merece ostentar o seu nome. E dou mais sugestões, mas para os serviços de apoio do novo aeroporto: restaurante 'Jamé', papelaria 'Compromisso pessoal', café 'O maior camelo do deserto'...

Nova Aliança, 24 / Janeiro / 2008

23.1.08

2007

Em 2007, entre outras coisas não gostei de tudo o que rodeou o caso Maddie McCann, desde os pais da criança até ao tratamento jornalístico do rapto; dos anarquistas destruindo um campo de milho transgénico; do seleccionador nacional de futebol agredindo um jogador adversário; de Márcia Rodrigues, jornalista da RTP, vestida de véu entrevistando o embaixador do Irão em Lisboa; do ministro da Ota, Mário Lino, declarando em francês que o aeroporto jamais! será construído no "deserto"; da ocultação da manifestação de 18 de Outubro, com 200 mil pessoas, nos principais noticiários; das manchetes atribuídas aos casos de crianças: Maddie, Joana, Esmeralda e Andreia Elisabete; de Augusto Santos Silva pelas leis que fez e as que adiou, pelas suas afirmações sobre o jornalismo de "sarjeta", pela sua concordância com a tentativa de calar os tempos de antena da oposição na RTP; do concurso Grandes Portugueses (RTP1): uma fraude eleitoral para escolher Salazar; do desastre que foi o regresso de Herman José aos programas de humor; de António Vitorino (RTP1), um vómito governamental com cobertura açucarada; de António Peres Metelo (TVI), um alquimista que consegue transformar todos os males da economia em grandíssimas vitórias governamentais; do programa Prós e Contras sempre com a agenda do governo, os ministros do governo, os "técnicos" do governo, as opiniões “pró” Governo; do fim de Por Outro Lado (RTP2): o melhor programa de entrevistas culturais da TV em anos; das declarações do vereador Pina da Costa em O Mirante sobre uma eventual construção de uma barragem em Almourol ou Constância.


Em 2007, entre outras coisas gostei de: Ricardo Araújo Pereira imitando Scolari, Marcelo Rebelo de Sousa e José Sócrates; dos apupos a José Sócrates na Covilhã, em Abrantes, em Setúbal (duas vezes), no espectáculo das Maravilhas no Estádio da Luz, no dia da assinatura do tratado da EU; de Sócrates entrando na Casa da Música pela porta das traseiras (foi o único dirigente europeu a fugir da entrada principal) e chegando atrasado ao 5 de Outubro - chegou quando já tocava o hino, para não poder ser apupado; do rei de Espanha chegando-se à frente para perguntar a Chávez: "Porque não te calas?"; do documentário sobre a Guerra Colonial na RTP de Joaquim Furtado: honra o jornalismo de investigação, serve a história e elucida os espectadores.



Entre outras, escolho como “Frase do Ano” esta afirmação categórica:

"Quero garantir aos portugueses que nem o governo nem alguma instituição deste país deixará que alguém seja sancionado por uso do direito à liberdade de expressão" (José Sócrates, 23 /5).
A frase foi proferida no mesmo ano em que: houve visitas policiais a sindicatos para ver no que iam dar manifestações contra o Governo; o gabinete do primeiro-ministro pressionou órgãos de informação a propósito de notícias sobre a sua licenciatura da Universidade Independente; funcionários públicos foram sancionados pelo uso da liberdade de expressão; a administração de uma instituição do país dependente do Governo, a RTP, levantou um processo para o despedimento de um jornalista, Rodrigues dos Santos, pelo uso da liberdade de expressão numa entrevista.

Entre outras, escolho como “Legislação do Ano” este “tesourinho” de 1948:

“Diário do Governo, I Série, nº 244
Decreto nº 31 709, de 19 de Outubro de 1948

Normas sobre o funcionamento do Serviço de Meteorologia
Artigo 2º
Funcionários do Serviço de Meteorologia Nacional, incluindo o Director, têm um chefe. As ordens que ele der executam-se integralmente, seja qual for a opinião sobre elas; e a atitude do funcionário deve ser tal que dê a impressão de concordar inteiramente com elas, sem mostrar, nem sequer dar a entender, que os pontos de vista do chefe não merecem a sua aprovação.
Publique-se e cumpra-se como nele se contém.
Paços do Governo da República, 19 de Outubro de 1948
António Óscar de Fragoso Carmona
António de Oliveira Salazar”


Nova Alçiança, 10 / Janeiro / 2008

6.1.08

O cozinheiro com HIV e a velha notícia

23 de Novembro - Um cozinheiro infectado com HIV, que trabalhava num dos hotéis do grupo Sana, foi despedido em 2003 por ser portador da doença e por quebra do “dever de lealdade” (o hotel considera que os trabalhadores são obrigados a comunicar as doenças que têm). Em Março de 2007, o Tribunal do Trabalho caucionou o despedimento. E em Maio, o Tribunal da Relação de Lisboa, num acórdão que o Público cita, afirma que a presença do cozinheiro, na cozinha do hotel, representaria «um perigo para a saúde pública, nomeadamente dos utentes do restaurante», porquanto, afirmam os desembargadores Filomena Carvalho, José Mateus Cardoso e José Ramalho Pinto, «ficou provado que A. é portador de HIV e que este vírus existe no sangue, saliva, suor e lágrimas, podendo ser transmitido no caso de haver derrame de alguns destes fluidos sobre alimentos servidos ou consumidos por quem tenha na boca uma ferida.» O acórdão colide com a razão científica. Há mesmo um parecer, do Centro de Direito Biomédico, que desmente categoricamente o propalado risco: «Não está provado que um empregado de uma cozinha possa, no exercício das suas funções e por causa delas, transmitir o vírus HIV.» E o coordenador nacional para a infecção HIV, Henrique Barros, eximindo-se a comentar a decisão judicial, declarou ao jornal que «do ponto de vista biológico, as conclusões tiradas [o risco de contaminação] nunca foram provadas nem a comunidade científica as considera plausíveis.» Pois. Mas à ciência o tribunal disse nada. Face ao juízo da Relação, o cozinheiro recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça. Infelizmente, estes casos são frequentes. É isto, o século XXI?

25 de Novembro - Há muito tempo que não lia nada que me desse maior esperança. Leio no Público o seguinte: “Sócrates acusa Governo de promover o "maior ataque fiscal à classe média"

O candidato a secretário-geral do PS José Sócrates acusa o Governo de promover o "maior ataque fiscal à classe média portuguesa" através da sua política económica e prometeu que vai combater as medidas anunciadas pelo ministro das Finanças.


Sócrates falava ontem num jantar com apoiantes que reuniu cerca de duas mil pessoas na Covilhã, cidade onde iniciou a sua carreira política.

Para José Sócrates, Bagão Félix "confirmou esta semana que a política económica dos últimos dois anos vai ser paga pelos suspeitos do costume: os trabalhadores por contra de outrem, a classe média portuguesa". "Este é o maior ataque fiscal à classe média portuguesa e o PS vai-se opor a estas medidas porque são injustas", realçou José Sócrates.

O candidato prometeu um Partido Socialista "que não seja apenas uma oposição, mas também uma solução alternativa para os problemas do país" e comentou que a possibilidade de cobrança de portagens nas auto-estradas sem custos para o utilizador (SCUT), como é o caso da A23, que serve a Covilhã, é um erro porque, neste caso, a A23 "não tem um verdadeiro perfil de auto-estrada" e que "não há alternativas" àquela via.

Sócrates rematou as críticas à coligação PSD-PP com o atraso na colocação de professores nas escolas, que considera ser "a maior prova de incompetência do actual governo, num sector absolutamente fundamental para o desenvolvimento do país". O socialista disse que o primeiro-ministro "precisa de dar uma explicação ao país sobre como tamanho escândalo acontece", porque a situação "é um grande desrespeito para com as famílias portuguesas", concluiu.”

“Desci à terra”, o jornal era de 18 de Setembro de 2004

Nova Aliança, 27 / Dezembro / 2007

5.1.08

A nova barragem

A putativa construção da nova barragem no Tejo, entre Constância e Almourol, merece aqui umas breves palavras. Breves porque a ser levada a cabo, ela merecerá rios e rios de tinta. Justificadamente.
Vejamos então como se passam as coisas. O município de Abrantes tem o coeficiente do IMI ( Imposto Municipal sobre Imóveis ) mais alto do país. Quer isto dizer que quando pagamos os nossos impostos que revertem para o município somos considerados cidadãos de primeira, os mais ricos do país, aqueles que podem pagar o que alguém impõe.
Ora, o que vemos à nossa volta? Como estará a ser administrado o nosso dinheiro?
Os serviços hospitalares na cidade estão como nós sabemos e a saga ainda não acabou. Levam-nos as valências, temos de suportar as despesas dos transportes para outros hospitais, as taxas moderadoras não param de subir, gastamos cada vez mais tempo em lista de espera.
A megalomania inicial propunha-se associar à imagem do Aquapólis a construção de um teleférico, certamente para os turistas virem verificar com os seus próprios olhos esse milagre económico. Depois a ideia abortou, certamente porque a cabine do dito teleférico poderia embater contra os edifícios de seis andares projectados fora do Plano Director Municipal para a Encosta Sul.
Surgiu então o açude, essa maravilha da tecnologia que faria sobressair o famoso mar de Abrantes. A cidade nunca mais seria a mesma: água pública amarela, espaços verdes abandonados, serviços de limpeza com lacunas mas sempre havia o mar. A compra de uma canoa seria tão vulgar como a compra de vestuário no Inverno. Contas furadas, parece que agora os canoístas preferem outros “mares”.
Anunciou-se também uma nova programação cultural para o Cine-Teatro São Pedro: como na batalha naval, água. O cinema está às moscas, as outras realizações são um fiasco, o público cansa-se de tentar conhecer os nomes anunciados nos cartazes. Chamariz e divulgação de projectos alternativos? Não brinquem. A Feira da Ladra está como todos nós sabemos mas não se esqueçam, temos um campo de basebol. Conseguimos assim ser visionários, talvez um dia, quem sabe, a modalidade seja mais popular.
Somos, por tudo isto, bons cidadãos, pagamos muitos impostos e por isso temos de merecer e agradecer o que fazem por nós. E a verdade é que eles se esforçam mesmo por nos dar novidades continuamente. E voltamos então ao açude.
A construção da barragem destruirá projectos inaugurados há menos de um ano e investimentos superiores a 20 milhões de contos. VINTE MILHÕES DE CONTOS. Estou curioso em saber a posição dos nossos presidentes das juntas de freguesia, sempre em dificuldades para melhorar a qualidade de vida nas nossas aldeias, perante este escândalo. Com a barragem, perderemos terrenos cultivados e casas de habitação, teremos ( eu, o leitor e os seus vizinhos somos ricos, não se esqueça ) de pagar as expropriações dos que ficarão sem casa e perderemos alguns equipamentos que já existiam antes.
Encarregue de transmitir as novidades, aparentemente antes do tempo, o que terá provocado algum “frisson” com o presidente, o vereador Pina da Costa evidencia que a dita construção significará uma efectiva “diminuição de custos para o município”. Parece que o açude tem elevados encargos de manutenção. Esta conclusão, logo após a inauguração da obra, é realmente formidável. Então não existiram estudos, senhor vereador? Então não fizeram contas, senhor vereador? Então avançaram de olhos fechados, senhor vereador? Ou partiram, senhor vereador, do pressuposto de que como somos um concelho rico e sem problemas, quem viesse atrás que fechasse a porta e apagasse a luz?
A autarquia propõe-se explicar aos munícipes as implicações que poderão surgir com a referida construção mas o vereador não deixa margens de manobra: “Tenho a certeza que eles irão entender o nosso ponto de vista”. Lamento desiludi-lo: não vou entendê-lo mas quero tirar-lhe um peso de cima. Peço-lhe que não pense por mim, não vale a pena até porque isso é feio.
“A construção do açude foi uma decisão oportuna num determinado tempo mas as coisas evoluem”. Tem toda a razão o vereador Pina da Costa. Com o dinheiro dos outros podemos fazer umas coisas engraçadas, podemo-nos cansar e comprar um brinquedo novo e assim sucessivamente até ao próximo capricho. O vereador Pina da Costa administrará da mesma maneira o seu dinheiro pessoal? Estou curioso.

Nova Aliança, 13 / Dezembro / 2007

10.12.07

A ASAE e a Ginjinha do Rosssio

Lembram-se da história do homem que mordeu o cão? Muito pouca gente se lembrará e estará agora a pensar: que diabo!! Não será o contrário? Então não terá sido o cão que mordeu o homem? Talvez tenham razão mas às vezes fazemos confusão…

O leitor ou conhece ou ouviu falar da “Ginjinha do Rossio”, em Lisboa. Sim, é essa mesmo. Esse estabelecimento de bebidas especializado na venda de uma das mais populares bebidas portuguesas, a ginjinha. Com o tempo, a “Ginjinha do Rossio” tornou-se uma referência para turistas que passam pela zona e para várias gerações de frequentadores despretensiosos que, por razões certamente inexplicáveis, continuam a passar pelo seu balcão e a pedir "uma com elas" ou "sem elas". Uma ginjinha, no fundo. O estabelecimento nunca envenenou ninguém, sendo certo que também não é um modelo de limpeza. Mas todos a conhecem. É a “Ginjinha do Rossio”.

De acordo com investigações recentes, a melhor ginja é a da zona de Óbidos e a “Ginjinha do Rossio” servia-a, claro. Seja como for, Óbidos por um lado, e a “Ginjinha do Rossio” por outro, enchem-se de turistas e de apreciadores que vão em busca dessa bebida simpática, comovente e em risco de vida.

Ora bem, a ASAE, Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, decidiu partir agora em busca da “Ginjinha do Rossio”, encerrando-lhe as portas. O argumento é a falta de higiene, tendo sido capturadas algumas garrafas da bebida. Não, não se pense que algum turista se queixou de ter sido atingido por uma ginja. A questão é outra e nada cómica.

Ao capturar as garrafas e ao encerrar o estabelecimento, a ASAE estava apenas a cumprir a sua função, que está distribuída pela segurança alimentar, pela segurança de produtos e instalações, pelas questões de propriedade intelectual e industrial e também - naturalmente - pelo turismo. Ou seja, a ASAE zela pelo cumprimento da lei. E zela de forma muito eficiente, apresentando-se ao serviço público de colete à prova de bala e de gorro de lã. Por aí já o leitor vê como é arriscado o seu trabalho e como é perigoso o mister de fiscal das actividades relacionadas com a segurança alimentar. Os seus agentes preparam-se para aquilo que não aconteceu ao inglês. O lema é: se não aconteceu podia muito bem ter acontecido.

Acontece que Portugal é, segundo a ASAE (e depois das suas investidas) "um dos países mais seguros no que diz respeito à higiene e qualidade dos alimentos". Isso é uma vantagem enorme. Pensem bem no que aconteceria caso não o fôssemos. Hoje já não há castanhas assadas embrulhadas nas Páginas Amarelas nem bolas-de-berlim nas praias. Os tremoços manuseados com aquelas medidas de madeira estão sob suspeita.

A “Ginjinha do Rossio” era um monumento nacional. Uma referência que todos procuravam para provar uma das melhores ginjinhas portuguesas. Aquele espaço “tresandava” a história e a convivialidade, a sorrisos largos e a um leve ondular de fígados conservados em ginja. Pois que se varresse o seu chão com mais frequência. Que se pusesse um médico à porta. Que se emprestasse um capacete a cada cliente.
O mal, porém, não é apenas o encerramento da “Ginjinha do Rossio”, esse parapeito da história da cidade e do país. O mal é a onda de lixívia sintética que vai passando por tudo quanto é "segurança alimentar" nas vetustas tascas onde vinhos fatais fizeram literatura e, certamente, doenças hepáticas. Essa onda que prega a normalização dos costumes alimentares acabará com a pequena alma dessas nobres instituições de pecado, como a “Ginjinha do Rossio”.

Portugal aplica estas leis melhor do que ninguém. A breve prazo, agentes policiais entrarão nas nossas casas apreendendo bacalhau com excesso de sal, os enchidos de Alpalhão, o medronho do Algarve e os bolos com excesso de açúcar. Seremos saudáveis, faremos jogging e usaremos Armani. Tudo o resto será encerrado. Um último conselho, não se esqueçam de apagar a luz à saída…

Nova Aliança, 29 / Novembro / 2007

19.11.07

A Ota, o Estatuto dos alunos e as 'vistas de olhos' nos relatórios

31 de Outubro - Segundo o estudo da CIP, Alcochete é uma localização mais competitiva do que a Ota, para o novo aeroporto de Lisboa.

Entre outras coisas e de acordo com aquilo que foi noticiado, o estudo conclui que "os custos mais baixos de Alcochete têm uma enorme vantagem competitiva que os decisores políticos não podem ignorar: por serem mais baixos, esses custos de construção e instalação do novo aeroporto de Lisboa permitirão taxas muito mais baratas e uma competitividade internacional de tal modo superior à da Ota que não poderá ser desaproveitada".

Os desertos também podem ser competitivos.....
2 de Novembro - Gosto da solução encontrada pela Ministra da Educação para o absentismo. Aluno que falta tem que fazer uma prova de recuperação e poderá ser obrigado a ficar mais tempo de castigo na escola. Isto se não faltar à prova de recuperação e ao castigo, claro. Parece que a pena para faltar à prova de recuperação e ao castigo é uma prova de recuperação e tempo de castigo na escola. Isto se não faltar à prova de recuperação e ao castigo, claro. Se faltar tem que fazer uma prova de recuperação e poderá ser obrigado a ficar mais tempo de castigo na escola. Se não faltar. Mas se faltar, castigo e prova de recuperação ...

3 de Novembro - Do Diário Digital: «Programa Risco Zero
MAI estuda sistema diferenciação entre bons e maus condutores
Risco Zero é o nome do programa, já entregue e a ser alvo de análise do Ministério da Administração Interna (MAI), que visa reduzir a sinistralidade rodoviária, através da atribuição aos condutores de um de três dísticos (verde, amarelo e vermelho), segundo o número de acidentes que já tenham provocado.»

Por exemplo escolas, hospitais, segurança social... passariam a ostentar «um de três dísticos (verde, amarelo e vermelho)» consoante cumprissem os seus objectivos. Podia assim aplicar-se esta sinalética na qualidade dos serviços…

5 de Novembro - Futuro anúncio do Ministério da Educação:
" És jovem? Queres farra? Não queres responsabilidades? Queres uma vida boa sem obrigação de cumprir horários?
Então este anúncio é para ti:
inscreve-te na escola mais próxima e junta-te à malta, vem fazer parte deste enorme grupo de borga que são as escolas e os alunos!!
Não hesites, tens um ESTATUTO."

Adendas ao Estatuto:
1. Os alunos deverão estar na aula de bonés, barretes ou gorros enfiados nas respectivas cabeças, se não, as ideias fogem-lhes e lá temos mais insucesso.

2. Os alunos poderão - melhor, deverão - durante as aulas, ouvir música nos respectivos mp-3, bem como escrever mensagens ou atender os seus telemóveis sempre que queiram. O contrário seria não entender a importância do «choque tecnológico».

3. Sempre que um aluno estiver a perturbar a aula, o professor terá de tomar uma atitude drástica, em vez de ignorar a situação, como tantos fazem: o professor deverá, pois, repreender-se a si mesmo, marcar-se falta de castigo e abandonar de imediato a sala.

4. De agora em diante, o castigo a ser aplicado aos alunos é, nos casos mais graves, três semanas de suspensão: porque quem se porta mal precisa de um tempo para descansar; quanto às faltas, como se sabe, justificadas ou não, deixarão de contar para a reprovação.

6 de Novembro - O Sr. Ministro Mário Lino "ainda não teve tempo de ler o estudo" da CIP sobre o novo aeroporto de Lisboa.
Mas já assegurou que lhe dará "uma vista de olhos".
Aliás, o Sr. Ministro recebe todos os dias muitos estudos.
Obviamente, não tem tempo para os ler.
Será que o Sr. Ministro também terá dado "uma vista de olhos" naqueles estudos irrefutáveis sobre a OTA?

7 de Novembro - O Ministro Mário Lino disse que iria dar uma vista de olhos no estudo da CIP sobre o aeroporto de Alcochete. Uma vista olhos deve ser uma boa meia hora a ler na diagonal. Como a CIP alega saber como se podem poupar 3 mil milhões de euros ao Estado, este dado permite-nos calcular qual deveria ser o salário justo de Mário Lino. Vamos partir do princípio de que o estudo da CIP tem 10% de probabilidades de estar correcto*. Trata-se de uma estimativa conservadora. Isto significa que podemos estimar que a leitura do relatório da CIP poderá representar uma poupança provável de 3 000 000 000 * 0.1 = 300 000 000. Como meia hora é tudo quanto Mário Lino consegue dispensar a este assunto, devemos concluir que ele tem coisas mais importantes para fazer. Coisas que poupariam ao Estado pelo menos cerca de 300 milhões de euros por cada meia hora de trabalho. O salário justo do ministro é portanto pelo menos 300 milhões de euros por cada meia hora de trabalho. O que dá 4 800 milhões de euros por dia e cerca de 96 mil milhões de euros por mês.

* isto é, Mário Lino tem boas razões para considerar que deve atribuir uma probabilidade de 10% à possibilidade de o estudo da CIP estar certo.

Nova Aliança, 15 / 11 / 2007

4.11.07

O filho pródigo, o "rigor" de Constâncio e o legado de Amália

17 de Outubro - Aparentemente sem surpresa, o país descobriu que o BCP violou regras bancárias e favoreceu accionistas, entre eles um filho de Jardim Gonçalves. Os casos conhecidos reportam a 2004. Como o Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras está em vigor desde 1993, os eventuais ilícitos caem sob a sua alçada. O que é que aconteceu? Quanto se sabe, o BCP perdoou uma dívida de doze milhões de euros a uma empresa de Filipe Vasconcelos Jardim Gonçalves, e outra dívida de quinze milhões de euros ao accionista Goes Ferreira, que se viu dispensado de pagar os juros do empréstimo contraído para comprar acções nos aumentos de capital de 2000 e 2001. Nos dois casos, o perdão da dívida foi avalizado por Filipe Pinhal, actual CEO, bem como por Alípio Dias, administrador apontado como hipotético sucessor de Jardim Gonçalves. Em todo o caso, o banco não teve a mesma benevolência com accionistas que empataram economias modestas ou contraíram pequenos empréstimos para (induzidos pelo banco) comprarem acções nos referidos aumentos de capital. É bem verdade que o respeito se mede em milhões. A ver vamos o que a CMVM e o Banco de Portugal dizem do tratamento desigual entre accionistas. Joe Berardo e Pedro Teixeira Duarte são dois dos que estão à espera para decidir se avançam com uma queixa. E o imbróglio não fica por aqui. Sabe-se que o BCP também perdoou quase por inteiro uma dívida de 40 milhões de euros de José Jorge Valério, um dos fundadores do banco. Pode ser que tudo isto tenha vindo à tona em consequência da guerra pelo controlo do BCP. Pode ser que seja só isso. E pode ser ainda que a procissão ainda vá no adro. Uma zanga entre banqueiros de Deus tem sempre este efeito letal.

18 de Outubro - Para além da habilidade administrativa, graças ao PS, cada assessor passará a receber, sensivelmente, mais 1400 Euros/mês do que no tempo de Carmona Rodrigues. Na prática, na actual gestão do PS na CML, cada assessor tem um valor mensal (mínimo) próximo dos 4 000 Euros.
Temos, de novo, o PS no seu melhor. Nas despesas não se toca. Só se aumenta. A proposta do PS teve a santa anuência do PCP, PSD e da Helena Roseta. O Zé votou contra.
Outro aspecto curioso é o número de assessores nos Gabinetes dos Vereadores do PS. Mantêm o número de assessores aprovado na Proposta mas estão a requisitar técnicos aos Serviços autárquicos, esvaziando os respectivos Serviços de pessoal qualificado. Oficialmente os técnicos continuam afectos aos Serviços mas, no dia a dia, estão nos Gabinetes dos senhores Vereadores.

19 de Outubro – Infelizmente o senhor Constâncio do Banco de Portugal não muda. Ontem declarou que não o preocupa a subida da despesa pública, apenas está preocupado com o défice. Outros tempos, outro governo, outras exigências, não é senhor governador? A subida sustentada da carga fiscal é um peso para as famílias e uma das razões que atrasará a retoma da economia. Longe vão os tempos em que o senhor Constâncio, cheio de rigor, ”anunciava” o défice que este governo herdaria. Hoje em dia já não “convém” voltar a medir com os mesmos critérios o défice real, sem estradas e hospitais de fora e, já agora, os salários dos funcionários, públicos e não só, sem as receitas extraordinárias como as que provém da concessão das barragens à EDP por mais vinte anos e por aí adiante.

22 de Outubro - O despacho do Primeiro-Ministro que considera a Fundação Amália Rodrigues "pessoa colectiva de utilidade pública" na condição de "comprovar a regular constituição dos orgãos sociais e a inexistência de dívidas fiscais à Segurança Social e de entregar a documentação legalmente exigível" revela uma filosofia aterradora na gestão dos prémios da coisa pública.
A partir de agora, o acesso às isenções fiscais que a utilidade pública confere não obriga a nada. Basta não cometer ilegalidades; pior, podem-se cometer ilegalidades, desde que estas sejam sanadas num prazo razoável.
Dificilmente poderia conceber uma instituição que merecesse menos este reconhecimento. Conhece-se a história da Fundação Amália Rodrigues. O advogado, nomeado por Amália executor testamentário, auto-proclama-se presidente vitalício da fundação logo após a morte da fadista e estabelece estatutariamente que lhe sucede o filho, à época estudante, também vitaliciamente.
A verdade é que a Casa do Artista nunca recebeu um cêntimo, não há obras de caridade apoiadas e o espólio de Amália Rodrigues está por clarificar. A única obra visível desta fundação é a abertura da Casa-Museu e, segundo notícia do Correio da Manhã, uma dívida de 2,3 milhões de euros ao fisco.
Se exceptuarmos o advogado e o seu filho, que podem ser considerados como público, dificilmente se poderão encontrar características de "utilidade pública" nesta trapalhada.
Não parece ser este o entendimento do primeiro-ministro, que premeia a coisa com honrarias e isenções fiscais. E a pressa é tão grande que nem pede à fundação que formalize a candidatura entregando a documentação e fazendo prova de não ter dívidas. Pelo contrário, concede-lhe os privilégios a crédito, tipo "isente-se agora e mostre depois que é merecedor". Aguardo o próximo episódio.

Nova Aliança, 2 / 11 / 2007

31.10.07

O rugby, correr com o Sócrates, os portáteis e a legislação

30 de Setembro - O rugby é dos poucos desportos colectivos com bola – senão o único – em que é praticamente impossível fazer ronha e “anti-jogo”, passar tempo, jogar à defesa: a única defesa possível é conquistar a bola e atacar, atacar sempre. Não há atrasos, floreados do tipo venham cá ver se me tiram a bolinha, olhem que bem que eu jogo: quem a tem, ou corre para a frente ou a passa, porque no próprio segundo em que a agarra tem sempre uma matilha de adversários em cima dele, danadinhos para o mandar ao chão.
É um jogo de força física, e sobretudo de persistência, sacrifício, disciplina colectiva e entreajuda. Admitindo que haja uma coisa chamada carácter português, seria difícil encontrar um jogo com exigências a que ele fosse tão avesso. É talvez por isso que tem tão pouca expressão entre nós.
2 de Outubro - Sócrates voltou a dar uma corridinha antes de se encontrar com um dirigente mundial. O facto de o PM português correr não é nem louvável nem reprovável, o facto de só o fazer em público quando vai ao estrangeiro ( por cá nunca o vimos correr quando sai de casa para São Bento nem quando visita Cinfães do Douro ), faz-nos suspeitar que a corrida é uma espécie de seguro de interesse jornalístico. Se mais nada houver, há sempre a história da corrida.

Ou é isso ou é apenas uma obsessão provinciana. Assim como havia um doido que gostava de beijar figuras públicas, o Primeiro-Ministro português é capaz de gostar de poder contar que correu ao pé delas.
Fazíamos uma vaquinha e comprávamos uma passadeira para o PM por no gabinete. Sempre saia mais barato que lhe andar a pagar as viagens.


3 de Outubro - “Sete ministros e 13 secretários de Estado distribuíram cerca de dois mil computadores portáteis a professores e alunos em estabelecimentos de ensino de todo o país”

O governo deu os números oficiais da mais "emblemática medida do choque tecnológico". Vinte ministros e secretários de estado distribuíram dois mil computadores. Dá 200 computadores na mala de cada carro do estado. As mesmas fontes ainda gabam as 70 mil inscrições para o projecto. É fazer as contas: se distribuíram dois mil, quer dizer que há 68 mil portugueses que foram enganados.

4 de Outubro - A ideia de não permitir mais lojas chinesas na Baixa é bastante infeliz por dois motivos: primeiro: porque, salvo em casos excepcionais e transitórios, em que esteja em causa o interesse da comunidade como um todo, o Estado (central e local) não deve intervir no comércio, senão na estrita medida necessária para garantir o cumprimento de normas gerais e abstractas - isto é, aplicáveis a todos, sejam chineses, portugueses, neozelandeses ou outros que tal; segundo: porque, ainda que uma medida deste tipo fosse objectivamente legítima (o que não parece ser o caso), ela sempre seria errada do ponto de vista político, pois estaria a proteger não o bem comum (a população), mas quem não justifica qualquer tipo de protecção. O dito “comércio tradicional” da Baixa é vergonhoso. Livremente vergonhoso. Abre quando quer e lhe apetece; não oferece um mínimo de qualidade; e só sobrevive à custa de um mercado muito pouco existente e pobre (como é o nosso) e de uma lei de rendas que tem sido ruinosa para a cidade.

Questão diferente é a possibilidade de, por acordo, se criar uma zona onde possa concentrar-se um número significativo de lojas e restaurantes chineses. Em várias cidades civilizadas do mundo ocidental há anos que isso acontece, e ninguém parece queixar-se do facto. Mas esta é uma questão que já não tem nada a ver com a Baixa. O “comércio tradicional” da Baixa, com mais, menos ou nenhumas lojas chinesas, enquanto não for alterada a situação das rendas e renovada a população residente e transeunte, continuará a ser miserável.

7 de Outubro - António Barreto revela-nos hoje uma preciosidade de um Ministério que alega ser da educação, assinada por um secretário de estado, que no entender de Maria Filomena Mónica alega ser "Dótor".

"[...]A existência de constrangimentos na operacionalização do regime de permeabilidade estabelecido pelo Despacho n.º 14387/2004 (2.ª Série), de 20 de Julho, bem como os ajustamentos de natureza curricular efectuados nos cursos científico-humanísticos criados ao abrigo do Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de Março, implicaram a necessidade de se proceder ao reajuste do processo de reorientação do percurso escolar do aluno no âmbito dos cursos criados ao abrigo do mencionado Decreto-Lei n.° 74/2004, de 26 de Março. Desta forma, o presente diploma regulamenta o processo de reorientação do percurso formativo dos alunos entre os cursos científico-humanísticos, tecnológicos, artísticos especializados no domínio das artes visuais e dos audiovisuais, incluindo os do ensino recorrente, profissionais e ainda os cursos de educação e formação, quer os cursos conferentes de uma certificação de nível secundário de educação, quer os que actualmente constituem uma via de acesso aos primeiros, criados ao abrigo do Decreto-Lei n.° 74/2004, de 26 de Março, rectificado pela Declaração de Rectificação n.° 44/2004, de 25 de Maio, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.°24/2006, de 6 de Fevereiro, rectificado pela Declaração de Rectificação n.º 23/2006, de 7 de Abril, e pelo Decreto-Lei n.° 272/2007, de 26 de Julho, e regulamentados, respectivamente, pelas Portarias n.° 550-D/2004, de 22 de Maio, alterada pela Portaria n.° 259/2006, de 14 de Março, n.° 550-A /2004, de 21 de Maio, com as alterações introduzidas pela Portaria n.° 260/2006, de 14 de Março, n.° 550-B/2004, de 21 de Maio, com as alterações introduzidas pela Portaria n.° 780/2006, de 9 de Agosto, n.° 550-E/2004, de 21 de Maio, com as alterações introduzidas pela Portaria n.° 781/2006, de 9 deAgosto, n.° 550-C/2004, de 21 de Maio, com as alterações introduzidas pela Portaria n.° 797/2006, de 10 deAgosto, e pelo Despacho Conjunto n.° 453/2004, de 27 de Julho, rectificado pela Rectificação n.°1673/2004, de 7 de Setembro. Assim, nos termos da alínea c) do artigo 4.° e do artigo 9º do Decreto-Lei n.° 74/2004, de 26 de Março, rectificado pela Declaração de Rectificação n.°44/2004, de 25 de Maio, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.° 24/2006, de 6 de Fevereiro, rectificado pela Declaração de Rectificação n.°23/2006, de 7 de Abril, e pelo Decreto-Lei n.° 272/2007, de 26 de Julho, determino:[...]"

Depois de ler em voz alta, como Barreto solicita, verifiquei que o meu grau de iliteracia (na definição da ilustre Benavente) é muito elevado. Por isso chego à conclusão que Maria Filomena Mónica está enganada. Valter Lemos é um verdadeiro "Dótor" pois, para ter elaborado a peça legislativa que parcialmente acima reproduzi, muitos livros de leis deve ele ter carregado.


Nova Aliança, 18 / 10 / 2007

9.10.07

A nova Chinatown, o quadro desaparecido e a ambulância de tipo A-1

18 de Setembro - A acreditar na mitologia de alguns, a América é um vasto campo de sombras, assolado pelo “neoliberalismo”, onde se arrastam, gemebundas e inanes, multidões em sofrimento, esquálidas e cobertas de moscas e crostas. Neste tormentoso mundo de horror e morte, a besta negra maldita é o sistema de saúde americano, dado como o pior do universo, e não faltam especialistas que tal juram pelo seu coiro, começando pelo senhor Michael Moore, e acabando nos alegres “jornalistas” que se citam uns aos outros, em círculo fechado, como fontes credíveis.

19 de Setembro - Quem é que António Costa quer enganar? Vem dizer que «não devemos misturar as ideias pessoais de Maria José Nogueira Pinto sobre essa matéria com um projecto relativamente ao qual ela esteve ligada e que poderá vir a estar ligada no futuro».
Perdão, mas as coisas não se podem separar só porque tal seria o desejo do presidente da câmara. Evidentemente que as ideias pessoais de MJNP são relevantes. Tanto o são que a própria MJNP entende que sejam uma prioridade no seu novo cargo: «Outra prioridade imediata, diz, “é travar o declínio (da Baixa-Chiado)”. A antiga vereadora dá como exemplo “travar a proliferação das lojas chinesas, porque se continuam naquele território, nunca mais vai ser possível deitar mão ao pequeno comércio”. Nogueira Pinto considera que o comércio “é central” para a Baixa, mas sem as lojas chinesas, que “estão a dar cabo do comércio da cidade”.».

Ora, temos então uma de duas situações: ou António Costa desconhecia as ideias de MJNP e então não se entenderá porque a convidou, pois apenas restaria a incompetência política ou favor pessoal. Ou sabendo o que ela pensava e com isso a convidando, apenas agora aparentemente se afastará dessas ideias, pela reacção que as mesmas provocaram. O que será um sério desvio à verticalidade política, com resultado agravado pela manutenção do convite.
20 de Setembro - O Centro Cultural de Belém anunciou hoje ter encontrado no seu acervo um quadro de Júlio Pomar, intitulado “Camões”, dado como desaparecido há quatro anos.

Num comunicado enviado às redacções, o gabinete de imprensa do CCB adianta que a pintura de 1989 foi encontrada durante “a reorganização dos espaços das reservas” do centro, tendo já sido comunicado o facto ao pintor e à Polícia Judiciária, que abrira um inquérito ao desaparecimento. O quadro, um acrílico sobre tela de grandes dimensões (1,95mx1,30m), foi dado como desaparecido em Setembro de 2003, quando a Presidência da República solicitou ao Ministério da Cultura a sua cedência, a fim de ser integrado numa exposição de Arte Portuguesa que iria realizar-se em Istambul, adianta a nota.Um inquérito interno ao caso, ordenado pelo Ministério da Cultura, terminou meses depois sem que a obra tivesse sido localizada, conseguindo-se apenas apurar que fora vista pela última vez em público em Junho de 1994, numa exposição em Paris, tendo sido entregue ao CCB três meses depois.

Nos dois anos seguintes, surge listada em documentos internos, mas após 1996 não há mais informações sobre a sua localização no acervo. Referindo-se às conclusões do inquérito, em Janeiro de 2004, o semanário “Expresso” noticiava que a então directora do centro de exposições, Margarida Veiga, sublinhava “não era possível assegurar a total inviolabilidade das reservas” do CCB. Apesar do desaparecimento, nem o CCB nem o Ministério da Cultura apresentaram queixa às autoridades, mas a Polícia Judiciária acabaria por incluir o quadro na lista de obras de arte furtadas de colecções públicas – uma informação que é ainda visível no seu site. O acrílico foi adquirido a Júlio Pomar, por dez mil contos (50 mil euros), quando Vasco Graça Moura dirigia a Comissão dos Descobrimentos, tendo ficado registado como propriedade do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), ficando na posse do CCB.

22 de Setembro - O presidente dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez apontou ontem o centro de saúde local e uma empresa privada de ambulâncias como "os maiores responsáveis" no caso que culminou com a morte de um doente.
Para o presidente dos Voluntários de Arcos de Valdevez, Luís Sá, a BT "apenas fez o seu papel", já que "viu uma ambulância do tipo A-1, que não pode fazer urgências, com as luzes de emergência ligadas e alegadamente a cometer algumas infracções ao Código da Estrada e mandou-a parar, para ver o que se estava a passar".
Se este homem não fosse presidente dos bombeiros e se os agentes em causa não fossem da Brigada de Trânsito da GNR, alguém, ao ler esta notícia, poderia ser levado a pensar que um homem morreu porque alguns guardas estavam a fazer um frete para garantir aos Bombeiros o monopólio de transporte de doentes. Mas logo percebemos que não.

O que está em causa é apenas a observância escrupulosa dos preceitos estabelecidos numa sociedade civilizada. Fez a BT muito bem em obrigar o transporte ilegal a uma paragem de meia hora. Se o doente tinha pressa, que esperasse.

E, como cidadão cumpridor, aqui aviso desde já que se um dia alguém tiver que chamar uma ambulância para mim, exijo uma ambulância que não seja do tipo A1. Até posso falecer à espera, mas numa A1 nunca. Se o senhor presidente dos bombeiros de Valdevez diz que não servem, eu acredito.

Nova Aliança, 4 / Outubro / 2007

30.9.07

Dalai Lama, Chinatown e Maddie

9 de Setembro - Leio no "Público" de hoje que o ministro Luís Amado, declarou que "oficialmente, o Dalai Lama não é recebido por responsáveis do Governo português, como é óbvio". E instado a explicar porquê, explicou-se: "pelas razões que são conhecidas".
Antecipava, por certo, o desprazer que um encontro oficial em Portugal e com algum membro do Governo que está na Presidência da UE não deixaria de causar ao regime de Beijing - tremeriam os negócios da China que a diplomacia portuguesa estará diligentemente, pacientemente, a tecer.
O ministro estava a ser consequente com o que tem sido o tipo de diplomacia em que vai especializando Portugal: nada de incomodar mandarins com conversas parvas sobre direitos humanos; importa é adulá-los e acenar-lhes até com o levantamento do embargo de armas decretado pela UE à conta desse episódio "pré-histórico" do massacre de Tianamen.
Mas como Luís Amado deve ter apurado o paradigma de "nunca correr o risco de desagradar a ricos e poderosos" que vem exercitando, seja a propósito do Iraque, de Guantánamo, da Rússia ou de África, e sendo o Dalai Lama figura cada dia mais bem recebida em Washington (onde acaba de receber a Medalha de Ouro do Congresso), é de esperar que o ministro se empenhe numa saída tão equilibrada, como equilibrista: proporcionando encontros "não oficiais” com altos dignatários portugueses com o Dalai Lama - que até oferece essa conveniente cobertura de ser "líder religioso".
E não consta que do PM belga ao austríaco, do norueguês ao australiano, algum tenha sido comido por Pequim ao pequeno-almoço; pelo contrário, qualquer dos seus países tem (porque soube construir) muito mais visíveis e rentáveis relações económicas com a China do que Portugal... e sem a “desculpa” de Macau…
O esforço não exige nada de especial a oministro: basta esgravatar no saco da velha "esperteza saloia".

15 de Setembro - O Expresso noticia que Maria José Nogueira Pinto, de novo à frente do projecto de reabilitação da Baixa-Chiado, agora pela mão do PS, quer acabar com as lojas chinesas na Baixa de Lisboa. Esta «ideia» pouco fica a dever à «ideia» das amêijoas e das corvinas de Sá Fernandes. Para além de poder ser interpretada como xenófoba (os partidários de Sá Fernandes já escreveram: «a Câmara ter uma “comissária” para a Baixa-Chiado, que já pela segunda vez dá provas da mais bafienta xenófobia é, no mínimo, desprestigiante para uma cidade que se quer moderna, cosmopolita e desenvolvida»), a «ideia» só é concretizável, a curto prazo, violando as mais elementares regras de mercado e violando a Constituição. Ou seja, impedindo (ilegalizando) a compra, o arrendamento ou o trespasse na Baixa a um determinado tipo de comerciantes, em função da nacionalidade (chineses) ou do objecto do comércio (produtos chineses). É óbvio que se trata de uma tonteria. A Baixa lisboeta está degradada, a todos os níveis, e é apenas um ponto de passagem. A restauração definha em qualidade e até a Loja das Meias sucumbiu por falta de clientes, por exemplo. As boas marcas e o comércio de qualidade não querem a Baixa e, por isso, a compra, o arrendamento e os trespasses são baixos em relação a outras zonas da cidade. Só a requalificação daquele território, em função dos desejos, dos hábitos e das necessidades das pessoas (e não em função de «projectos» saídos da cabeça de «iluminados»), que dê nova vida à Baixa, irá permitir a valorização dos espaços físicos, da procura e do comércio, e então, haverá uma selecção da oferta e da qualidade. Um dos males do nosso «planeamento» passa, em primeiro lugar, pela noção de que nunca se executará; em segundo lugar, pela (ir)responsabilidade dos «responsáveis» em função dos resultados. Assim, podemos brincar à vontade às cidades, ao planeamento, etc. O último a sair que apague a luz.

16 de Setembro - Quando eu pensava que seria impossível descer mais baixo do que os "debates" da SIC, eis que a RTP nos oferece um Prós e Contras sobre o caso McCann. Um Prós e Contras, como o nome indica, requer alguém que esteja por qualquer coisa e alguém que esteja contra qualquer coisa. Ora, pergunto eu, os "especialistas" na matéria (que hoje são mais ou menos dez milhões de portugueses) vão estar por e contra o quê?
Haverá um representante dos asssassinos e raptores de criancinhas? E outro das próprias criancinhas? E os cães, senhores, os cães? E o turismo do ALLGARVE, please don`t forget. Deve ser a isto que chamam serviço público.
Pensando melhor, a minha pergunta até é um pouco estúpida. Todos sabemos que os especialistas e os dez milhões vão estar por ou contra, não de quê, mas de quem. E todos sabemos por quem é que ninguém vai estar.
Em vez de debate, podiam chamar-lhe abate. Também é serviço público.

Nova Aliança, 20 / Setembro / 2007